Eu poderia jurar, mas não preciso. Sei que não preciso sequer dizer que não tive intenção para qualquer um que visse meu choro copioso demais para aqueles quatro doze meses. Parecia que eu chorava a vida toda e choraria ainda pra sempre em nome do mal que não me infligiram, mas que eu me infligi a mim quando feri meu pequeno amado.
De pai e mãe a gente mais precisa do que ama no começo. Do amor por eles a gente entende depois, quando não precisa tanto e mesmo assim continua querendo. Mas daquele meu amor primeiro eu nem queria nem precisava. Eu não exigia, apenas doava. Ele vinha porque queria e eu gostava. Era arredio e dócil a um só tempo. Com ele e por ele esbocei os primeiros traços de aceitação.
Kiko, chamava meu gato, cuja alma Deus havia pintado de céu. Quando Kiko estava desperto seus espelhos iluminavam de azul o mundo da terra e eu era mais feliz. De manhã, era o primeiro a acordar. Espertamente, pulava no sofá, depois nas costas do sofá, depois em cima do guarda-roupa. De lá, lançava seu corpinho magrelo em queda livre até a cama dos meus pais. Pisoteava os dois e ganhava, delicado e cheio de saudade, a minha caminha.
Os arranhões que me deixava nos braços eram tantos que eu pensava que tinha nascido com eles. Já faziam parte de mim os arranhões e eu brincava de descobrir letras neles.
Um dia o Kiko estava no meu colo enquanto eu procurava algo pra vestir. De repente, um grito de gato fez eco fundo dentro de mim. Ele gritava e eu gritava junto, sem saber o que estava acontecendo. Ambos gritando e minha mãe chega, libertando as unhas do gato, enroscadas entre as gavetas.
Ao entender o que eu havia feito, chorei mais do que o gato poderia chorar numa vida inteira aquela dor. Abracei-lhe e pedi desculpas, mas eu mesma não me desculpava. Minha mãe me sentou no sofá e trouxe água, pra me acalmar. A água mal encontrava espaço pra escorrer güelinha abaixo, minha garganta apertada que estava.
O gatinho, em lugar de fugir de mim, fez pior e me castigou: aninhou-se no meu colo e dormiu tranqüilamente.
Eu? mais arrasada ainda, chorava ao vê-lo plácido e quente, enroladinho na minha barriga. Queria ávida um perdão já concedido por ele, mas não auto-perdoado. E se ele tivesse morrido, meu Deus????
Chorei os males que não houve, até cessar.
E, antes que perguntem aqueles que me lêem, “sim, eu me lembro”...
19 de agosto de 2010
16 de agosto de 2010
Mudei.
Mudança é legal. Transtorno, caos, cansaço, sujeira, barulho, bagunça, pó e tranqueira, tirando a parte ruim.
No meu caso, a parte legal se chama Jane, a síndica. Um pouco velha, cabelo um pouco curto, um pouco loiro, a cara um pouco brava.
_ É você que vai mudar pro 28?
_ Sim.
_ Precisa esperar o porteiro chegar pra subir com as coisas.
Olhei pra vassoura, única coisa nas mãos. Não olhei pra dona Jane e respondi “já sei, obrigada”. Peguei o elevador sob o olhar incrédulo dela. No dia seguinte, trocar a fechadura. Dona Jane gentilmente me ameaçou três vezes pelo interfone, mandando o barulho cessar. Era só uma fechadura, no dia seguinte da minha mudança. Todo o processo levou 20 minutos.
_ Vocês insistiram e vão ver só! Isso não vai ficar assim!
Aoun... Ela não é um amor?
Fiquei aguardando o “e seja bem-vinda!” em seguida, mas não rolou.
Alguém se habilita a ser o Tarzan da adorável?
Os interessados, não se preocupem. Ela vem com regulamento interno.
No meu caso, a parte legal se chama Jane, a síndica. Um pouco velha, cabelo um pouco curto, um pouco loiro, a cara um pouco brava.
_ É você que vai mudar pro 28?
_ Sim.
_ Precisa esperar o porteiro chegar pra subir com as coisas.
Olhei pra vassoura, única coisa nas mãos. Não olhei pra dona Jane e respondi “já sei, obrigada”. Peguei o elevador sob o olhar incrédulo dela. No dia seguinte, trocar a fechadura. Dona Jane gentilmente me ameaçou três vezes pelo interfone, mandando o barulho cessar. Era só uma fechadura, no dia seguinte da minha mudança. Todo o processo levou 20 minutos.
_ Vocês insistiram e vão ver só! Isso não vai ficar assim!
Aoun... Ela não é um amor?
Fiquei aguardando o “e seja bem-vinda!” em seguida, mas não rolou.
Alguém se habilita a ser o Tarzan da adorável?
Os interessados, não se preocupem. Ela vem com regulamento interno.
12 de agosto de 2010
Lírico
Eu acho louvável essa tentativa de ser mais criativo no cotidiano, de fazer de uma desocorrência um discurso pávido. Ouvi dizer que foi assim quando da morte de Sir Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), cujo velório teve show de variedades e contou até com um presidente. Na redação daquela Folha pesou um climão atípico prum domingo. Não que o clima fosse normalmente muito animado para quem passava a tarde ensolarada privado da macarronada e da luz natural. Mas o 29 de abril foi mesmo um dilema.
“O querido Octavio Frias de Oliveira morreu neste...” – não, morreu não. Pode soar ofensivo.
“Nosso querido Octavio Frias de Oliveira faleceu...” – putz... faleceu? Fica hipócrita, não fica?
E seguiam as discussões sobre como anunciar a morte do chefe dos chefes. Para quem tinha que preencher oito folhas standard em poucas horas, empacar na primeira linha não era prenúncio de um dia feliz. Um domingo, ainda por cima.
Obviamente expressões chulas e vulgares eram incogitáveis. “Bateu as botas”, “pendurou as chuteiras”, “apertou a mão de Deus esta manhã” estavam absolutamente banidas, até porque, pairavam dúvidas sobre a mão de quem ele estaria apertando. E ainda mais essa! Dependendo de onde Dr. Frias estivesse, a vingança poderia chegar mais rápido! E ninguém ia querer ser despedido por um defunto, até porque não tem nem graça, né? Iria ser via fantasma? Via sonho? Via destino infeliz até que a demissão fosse inevitável? Melhor não arriscar.
Mas eu, no lugar deles, seria mais criativa:
“O senhor Octávio Frias de Oliveira (1912-2007) teve uma síncope da qual não retornou na manhã deste domingo...”
“O querido chefe de nosso grupo de conteúdos informativos se ausentou definitivamente deste planeta, deixando sua contribuição eterna aos cidadãos...”
“O cavaleiro da verdade e defensor dos direitos da comunicação neste País foi considerado pelos médicos 100% extinto na manhã deste 29 de abril...”
“Octavio Frias, lamentavelmente, se retirou da vida.”
Não precisa perder muito tempo com isso, vai! Ainda tem a foto!
_ Não... essa não... Aqui ele parece tão abatido...
_ Essa!
_ Não... essa não... Essa foto é velha, não tem nem resolução pra impressão...
_ E essa?
_ Olha essas olheiras! O que a família vai achar disso???
_ Tá...
“O querido Octavio Frias de Oliveira morreu neste...” – não, morreu não. Pode soar ofensivo.
“Nosso querido Octavio Frias de Oliveira faleceu...” – putz... faleceu? Fica hipócrita, não fica?
E seguiam as discussões sobre como anunciar a morte do chefe dos chefes. Para quem tinha que preencher oito folhas standard em poucas horas, empacar na primeira linha não era prenúncio de um dia feliz. Um domingo, ainda por cima.
Obviamente expressões chulas e vulgares eram incogitáveis. “Bateu as botas”, “pendurou as chuteiras”, “apertou a mão de Deus esta manhã” estavam absolutamente banidas, até porque, pairavam dúvidas sobre a mão de quem ele estaria apertando. E ainda mais essa! Dependendo de onde Dr. Frias estivesse, a vingança poderia chegar mais rápido! E ninguém ia querer ser despedido por um defunto, até porque não tem nem graça, né? Iria ser via fantasma? Via sonho? Via destino infeliz até que a demissão fosse inevitável? Melhor não arriscar.
Mas eu, no lugar deles, seria mais criativa:
“O senhor Octávio Frias de Oliveira (1912-2007) teve uma síncope da qual não retornou na manhã deste domingo...”
“O querido chefe de nosso grupo de conteúdos informativos se ausentou definitivamente deste planeta, deixando sua contribuição eterna aos cidadãos...”
“O cavaleiro da verdade e defensor dos direitos da comunicação neste País foi considerado pelos médicos 100% extinto na manhã deste 29 de abril...”
“Octavio Frias, lamentavelmente, se retirou da vida.”
Não precisa perder muito tempo com isso, vai! Ainda tem a foto!
_ Não... essa não... Aqui ele parece tão abatido...
_ Essa!
_ Não... essa não... Essa foto é velha, não tem nem resolução pra impressão...
_ E essa?
_ Olha essas olheiras! O que a família vai achar disso???
_ Tá...
10 de agosto de 2010
Do inominável
Eu digitei algo do tipo “estralar os dedos”. Daí, acrescentei “ortopedista”, depois “médico”, e o ponto de interrogação. Vários sites que versavam sobre os supostos ou reais benefícios e malefícios de se estralar os dedos foram listados. Num deles, um fórum.
Fui lendo, correndo a barra lateral, até que me deparo com a opinião de um sujeito, cuja foto do perfil não era uma foto de seu perfil. Era um vídeo curto.
Olhei por detrás de minhas lentes moralistas e primeiro fiquei abismada, depois com nojo e, em pouco tempo, nauseada. O vídeo era de crianças. Todas vestidas (calma leitor!), mas dançando. Não sei dizer o que estavam dançando, a música não se ouvia. Mas estavam em uns seis casaisinhos. As meninas, de saia, encostadas na parede, de costas para os meninos. Os meninos de frente pra elas. Eles faziam gestos que imitavam um coito e sorriam para a câmera.
Mas leitor, você ainda não me entendeu. A dança era realmente muito expressiva e o gestual era complexo e preciso. Fiquei olhando pr’aquilo aterrada e enojada, tentando compreender a situação. As crianças estavam super bem vestidinhas e pareciam olhar para a câmera num modo de responder a algum chamamento. O ponto de filmagem estava mais alto e pegava as crianças de cima, o que me faz supor que o responsável era um adulto.
[Camila sai da sala]
Fui lendo, correndo a barra lateral, até que me deparo com a opinião de um sujeito, cuja foto do perfil não era uma foto de seu perfil. Era um vídeo curto.
Olhei por detrás de minhas lentes moralistas e primeiro fiquei abismada, depois com nojo e, em pouco tempo, nauseada. O vídeo era de crianças. Todas vestidas (calma leitor!), mas dançando. Não sei dizer o que estavam dançando, a música não se ouvia. Mas estavam em uns seis casaisinhos. As meninas, de saia, encostadas na parede, de costas para os meninos. Os meninos de frente pra elas. Eles faziam gestos que imitavam um coito e sorriam para a câmera.
Mas leitor, você ainda não me entendeu. A dança era realmente muito expressiva e o gestual era complexo e preciso. Fiquei olhando pr’aquilo aterrada e enojada, tentando compreender a situação. As crianças estavam super bem vestidinhas e pareciam olhar para a câmera num modo de responder a algum chamamento. O ponto de filmagem estava mais alto e pegava as crianças de cima, o que me faz supor que o responsável era um adulto.
[Camila sai da sala]
2 de agosto de 2010
Anósnão
A gente não decide.
A gente vai decidindo...
A gente não escolhe.
A gente vai escolhendo...
A gente não toma uma atitude. A gente percebe que ela é que nos tomou! e nós?
...Nós não tínhamos escolha, não decidimos nada.
A vida involuntária que vive em nós é que acontece. Um humano é um fantoche do algo maior que lhe sobrevém e sobrevive a ele, que fica depois dele. Nós éramos isso quando a manhã com pena nos encontrava ali jazidos: subalternos da paixão que não faltava pra ser amor. Ela tinha que acontecer, a manhã tinha que se acontecer a si, que acordar a noite, que cumprir sua missão tenra e morna de ser manhã de agosto.
A vontade não é bem o que move o que há, mas a não-vontade, o essencial que nos falta, o que nos falta, o que não é, a falta que faz é que nos suga pra dentro da roda e nos coloca em movimento. A noite podia ser eterna, um instante podia ser estanque, mas o estanque é ilusão que não serve nem mesmo pra ser ilusório. É ilusório o amor que é presente porque se ausenta.
“O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão.” (LISPECTOR, 1964)
30 de julho de 2010
Explique-se-for-capaz
Economicamente falando, Jennifer Lopez estará no júri do próximo American Idol.

29 de julho de 2010
Do devaneio à
Meu plano de fundo é um pingüim. Nadando, ainda por cima.
Não sei bem. Acho que há algo de poético num pingüim nadando, com as asinhas abertas, espirrando a água azul por todo lado. Ele nada em direção a mim e a impressão que tenho é que um dia ele vai chegar. Num dia, um belo dia azul, eu vou olhar pra tela esperando vê-lo e ele não estará lá, mas mergulhando fundo no meu peito. E será tarde pra impedi-lo, já que desde já ele nada obstinadamente para isso.
Ou então, de repente, se perde que nem flecha de cupido em Shakespeare. Atravessa tudo naquela Noite de Verão, menos o peito que deve. Nesse caso ou num assim, meu pingüim que há tanto nadou pra mim deixaria a tela derramando água nas teclas queridas para me encontrar, ou melhor, não me encontrar, na privada, na copa ou no filtro, enchendo minha garrafinha. Ele nadaria com força e com o mesmo fôlego de amor toparia na cabeça da colega de trás, recém pedida em casamento e de mudança para outro país. Meu pinguinzinho ficaria sozinho, tadinho, sozinho de mim e perdido. E eu sem ele na tela nadando, perdida da esperança de que um dia ele chegue, finalmente.
A vida é feita dessa esperança, afinal. A esperança tola de que num amanhã do amanhã teremos algo mais que hoje. É vã a esperança é vã. Mas é assim que nós somos.
Por via das dúvidas, limitei minhas levantadas da cadeira. E, quando saio, deixo o e-mail aberto bem em cima do pingüim. Tanto melhor que se perca na caixa de entrada do que num país tropical...
...Ou que se enrosque no cabelo de alguém de partida.
Não sei bem. Acho que há algo de poético num pingüim nadando, com as asinhas abertas, espirrando a água azul por todo lado. Ele nada em direção a mim e a impressão que tenho é que um dia ele vai chegar. Num dia, um belo dia azul, eu vou olhar pra tela esperando vê-lo e ele não estará lá, mas mergulhando fundo no meu peito. E será tarde pra impedi-lo, já que desde já ele nada obstinadamente para isso.
Ou então, de repente, se perde que nem flecha de cupido em Shakespeare. Atravessa tudo naquela Noite de Verão, menos o peito que deve. Nesse caso ou num assim, meu pingüim que há tanto nadou pra mim deixaria a tela derramando água nas teclas queridas para me encontrar, ou melhor, não me encontrar, na privada, na copa ou no filtro, enchendo minha garrafinha. Ele nadaria com força e com o mesmo fôlego de amor toparia na cabeça da colega de trás, recém pedida em casamento e de mudança para outro país. Meu pinguinzinho ficaria sozinho, tadinho, sozinho de mim e perdido. E eu sem ele na tela nadando, perdida da esperança de que um dia ele chegue, finalmente.
A vida é feita dessa esperança, afinal. A esperança tola de que num amanhã do amanhã teremos algo mais que hoje. É vã a esperança é vã. Mas é assim que nós somos.
Por via das dúvidas, limitei minhas levantadas da cadeira. E, quando saio, deixo o e-mail aberto bem em cima do pingüim. Tanto melhor que se perca na caixa de entrada do que num país tropical...
...Ou que se enrosque no cabelo de alguém de partida.
26 de julho de 2010
She

Uma lucidez inédita traduzida em poesia. E insistir em ser sóbrio num mundo ébrio é auto-fadar-se ao luxo da solidão e do desespero.
As almas raras se condenam ao martírio quando assentem ao nascimento. Um altruísmo irrecompensável ela cometeu por nós. Uma loucura.
Foi catártica, profética, epifânica, visionária. Foi a benção que nos amaldiçoou a todos. A verdade sagrada que não queríamos ter. A ignorância por fim desvelada e mal compreendida. A perdição. Bendita.
23 de julho de 2010
Érica? Não. Camila.
O problema de se dar a aprender com alguém é que esse alguém pode saber ainda menos que você. Daí, acreditando no correto relativo, você aprende errado.
Um choro curto coube naquela constatação de...
...de doença.
E a constatação coube num Ginger Lemonade. O GL coube num jazz a três. Eu era o quarto elemento, mais o drink, mais a lágrima. Éramos um sexteto de quinta. Feira. Quase meio da semana, quase fim. Quase acompanhada demais. E o sol ia alto no Japão, suponho.
Fiquei ali, com medo de fechar os olhos e também de abrir.
Ao som daquele jazz eu tinha medo de tudo. De ir, de não ir, de ficar, de partir, de desistir, de sonhar. E de mim. Eu tinha medo de ser jazz e, principalmente, tinha medo de mim.
Um choro curto coube naquela constatação de...
...de doença.
E a constatação coube num Ginger Lemonade. O GL coube num jazz a três. Eu era o quarto elemento, mais o drink, mais a lágrima. Éramos um sexteto de quinta. Feira. Quase meio da semana, quase fim. Quase acompanhada demais. E o sol ia alto no Japão, suponho.
Fiquei ali, com medo de fechar os olhos e também de abrir.
Ao som daquele jazz eu tinha medo de tudo. De ir, de não ir, de ficar, de partir, de desistir, de sonhar. E de mim. Eu tinha medo de ser jazz e, principalmente, tinha medo de mim.
21 de julho de 2010
My code
Gazeta de Piracicaba
Correio Popular – Campinas
Jornal de Jundiaí
Gazeta de Limeira
Gazeta de Bebedouro
Oeste Notícias
O Diário – Barretos
O Imparcial – Araraquara
O Imparcial
O Imparcial? Quem diabos acreditaria num jornal chamado “O Imparcial”? É difícil até de abrir o jornal. De abrir!
...E num movimento anacrônico, nesses saltos possíveis somente para uma mente que procura desesperadamente um escape do vício tedioso de dias largos demais pra caber em cima de uma mesa branca, lembrei de um tempo onde as tardes eram minhas. Nunca tive um tempo em que os dias fossem meus, mas de vez em quando tinha uma manhã, ou uma tarde, ou uma noite. Hoje tenho, quando muito tenho, os finais de semana. Mas num tempo em que tarde era sinônimo de tarde mesmo, eu abri uma coisa que não era pra abrir. Entre O Diário de Barretos e O Imparcial, abri de novo aquele Odiário.
_ Olha! O que é isso? Odiário...
_ Diário? Me dá que é meu!
_ Não dou!
_ Me dá!
_ Não vou dar!
_ Tava na minha gaveta! É meu! Me dá!
É difícil lembrar de uma ex. De um ex-chefe, ex-namorado, ex-irmão, ex-amigo. Ex-amigo é quase tão absurdo quanto um jornal se chamar “O Imparcial”. Mas eu me lembrei nesta tarde sinônimo de tela.
_ Me dá meu diário! – ela gritou comigo imediatamente antes de saltar pra cima do meu corpinho frágil e magrelo de quarta série.
_ Não vou dar antes de olhar! – respondi com bravura. E lá se foram muitos minutos, talvez uma hora ou um pouco mais. A briga pel’O Diário começou no quarto. Rolamos as escadas atracadas e fomos parar no meio sala, suadas e esbaforidas.
_ Daí, vai.
_ ...Não...
_ Eu não vou soltar.
_ Eu também não...
Até que combinamos de ver juntas, ao mesmo tempo, juntas, juntíssimas, sem nem um segundo de diferença. Eu abri a mão que mostrava um caderninho que cabia na minha palma, com um sapinho na capa brochura, onde se lia “Odiário”.
_ Ah! Isso daí não é um diário, não! É um caderninho que eu ganhei de brinde no Boticário. Chama Odiário porque nele a gente pode escrever coisas que a gente odeia.
_ Hummm
Será que o Diário de Barretos é um diário fiel do que acontece na cidade inteira? Ou será que tá mais pra Odiário? Será que as pessoas que trabalham n’O Imparcial são irrevogavelmente proibidas de demonstrações públicas de afeto, iguais àquelas que trabalham na Câmara Municipal de São Paulo? Será que lá também tem um Dress Code? And Ethical Code? Não, não. Este último aposto que não. Ou então todo mundo lá ignora, igual eu ignoro o Dress Code às sextas-feiras.
Correio Popular – Campinas
Jornal de Jundiaí
Gazeta de Limeira
Gazeta de Bebedouro
Oeste Notícias
O Diário – Barretos
O Imparcial – Araraquara
O Imparcial
O Imparcial? Quem diabos acreditaria num jornal chamado “O Imparcial”? É difícil até de abrir o jornal. De abrir!
...E num movimento anacrônico, nesses saltos possíveis somente para uma mente que procura desesperadamente um escape do vício tedioso de dias largos demais pra caber em cima de uma mesa branca, lembrei de um tempo onde as tardes eram minhas. Nunca tive um tempo em que os dias fossem meus, mas de vez em quando tinha uma manhã, ou uma tarde, ou uma noite. Hoje tenho, quando muito tenho, os finais de semana. Mas num tempo em que tarde era sinônimo de tarde mesmo, eu abri uma coisa que não era pra abrir. Entre O Diário de Barretos e O Imparcial, abri de novo aquele Odiário.
_ Olha! O que é isso? Odiário...
_ Diário? Me dá que é meu!
_ Não dou!
_ Me dá!
_ Não vou dar!
_ Tava na minha gaveta! É meu! Me dá!
É difícil lembrar de uma ex. De um ex-chefe, ex-namorado, ex-irmão, ex-amigo. Ex-amigo é quase tão absurdo quanto um jornal se chamar “O Imparcial”. Mas eu me lembrei nesta tarde sinônimo de tela.
_ Me dá meu diário! – ela gritou comigo imediatamente antes de saltar pra cima do meu corpinho frágil e magrelo de quarta série.
_ Não vou dar antes de olhar! – respondi com bravura. E lá se foram muitos minutos, talvez uma hora ou um pouco mais. A briga pel’O Diário começou no quarto. Rolamos as escadas atracadas e fomos parar no meio sala, suadas e esbaforidas.
_ Daí, vai.
_ ...Não...
_ Eu não vou soltar.
_ Eu também não...
Até que combinamos de ver juntas, ao mesmo tempo, juntas, juntíssimas, sem nem um segundo de diferença. Eu abri a mão que mostrava um caderninho que cabia na minha palma, com um sapinho na capa brochura, onde se lia “Odiário”.
_ Ah! Isso daí não é um diário, não! É um caderninho que eu ganhei de brinde no Boticário. Chama Odiário porque nele a gente pode escrever coisas que a gente odeia.
_ Hummm
Será que o Diário de Barretos é um diário fiel do que acontece na cidade inteira? Ou será que tá mais pra Odiário? Será que as pessoas que trabalham n’O Imparcial são irrevogavelmente proibidas de demonstrações públicas de afeto, iguais àquelas que trabalham na Câmara Municipal de São Paulo? Será que lá também tem um Dress Code? And Ethical Code? Não, não. Este último aposto que não. Ou então todo mundo lá ignora, igual eu ignoro o Dress Code às sextas-feiras.
16 de julho de 2010
Auto-cruel
As planilhas são fáceis. A gente vai lendo e classificando as notícias. Lendo e classificando, lendo e classificando. Ouvindo uma musiquinha enquanto isso...
...Lá lá lá... Lendo e classificando... Abre planilha, fecha planilha, abre planilha, fecha...
...De repente, lá pela linha 283... “já pensou se dá zica e eu perco tudo?”
Fui invadida por um som inacreditável, vindo das entranhas de um ser pré-histórico. Um grito gutural, depois um choro compulsivo. Eu, lânguida, lançando a cabeça pesada sobre a mesa, com os braços num auto-abraço, em posição fetal.
Alguém perguntou, claro, sempre tem alguém que não saca logo de cara, “mas o quê foi?”. E eu, num fio de voz valente como rouco, respondi que bati na tomada.
Todos correram em meu auxílio, a chefe do setor chamou imediatamente a chefe de recursos humanos para perguntar se meu seguro de vida está em ordem. Minha parceira próxima anunciou um “...calma...” em completo desalento.
Sorri. Depois ri. Depois chorei de tanto rir. Depois só ri e só sorri de novo.
Extraí uma alegria tão crível do meu próprio desespero imaginário que minha risada fez barulho. Alguém me olhou e eu disfarcei, frustrando a gargalhada.
Daí salvei. Claro. Salvei.
Estou salva.
...Lá lá lá... Lendo e classificando... Abre planilha, fecha planilha, abre planilha, fecha...
...De repente, lá pela linha 283... “já pensou se dá zica e eu perco tudo?”
Fui invadida por um som inacreditável, vindo das entranhas de um ser pré-histórico. Um grito gutural, depois um choro compulsivo. Eu, lânguida, lançando a cabeça pesada sobre a mesa, com os braços num auto-abraço, em posição fetal.
Alguém perguntou, claro, sempre tem alguém que não saca logo de cara, “mas o quê foi?”. E eu, num fio de voz valente como rouco, respondi que bati na tomada.
Todos correram em meu auxílio, a chefe do setor chamou imediatamente a chefe de recursos humanos para perguntar se meu seguro de vida está em ordem. Minha parceira próxima anunciou um “...calma...” em completo desalento.
Sorri. Depois ri. Depois chorei de tanto rir. Depois só ri e só sorri de novo.
Extraí uma alegria tão crível do meu próprio desespero imaginário que minha risada fez barulho. Alguém me olhou e eu disfarcei, frustrando a gargalhada.
Daí salvei. Claro. Salvei.
Estou salva.
15 de julho de 2010
Telegráfico
Mudança trabalho chegada tchau. Sonho estudo vi amanhece banco processo gripe. Breve barulho casa mudança mais é menos. Banheiro cabeça bagunça jagunço tevê. Raro leveza sozinha verdade quebrou. Aquele não ter pôster do Marley pornô. Escola irmã.
Expresso.
Não sei se volto.
Att.
Bônus
http://amandaproetti.blogspot.com/
Expresso.
Não sei se volto.
Att.
Bônus
http://amandaproetti.blogspot.com/
8 de julho de 2010
Suspeito
Numa semi-conversa entre um minuto e outro, logo após uma inserção sobre os males da TPM, uma amiga ousou lamentar, tendo a impressão de que o melhor da vida a gente perde.
A gente perde? Só porque ela trabalha 10 horas por dia? Só porque ela estuda entre fazer as refeições e dormir (um pouco). Só porque ela não ganha o suficiente para ter qualidade de vida? Só porque talvez não seja só impressão?
Ah! Lamentar é para os fracos! Temos que ser criativos! É por isso que eu escrevo no meu blog no horário do expediente!
Humpf!
A gente perde? Só porque ela trabalha 10 horas por dia? Só porque ela estuda entre fazer as refeições e dormir (um pouco). Só porque ela não ganha o suficiente para ter qualidade de vida? Só porque talvez não seja só impressão?
Ah! Lamentar é para os fracos! Temos que ser criativos! É por isso que eu escrevo no meu blog no horário do expediente!
Humpf!
7 de julho de 2010
A oura met ade
Livro
Li v ro
Liro
Ela sempre procurava o meio de tudo. Dividia o mesmo quadro no meio mil vezes e depois brincava de reencaixar os pedaços de jeitos diferentes no pensamento.
Quadro
Qua dro – humm... com essa não sobra letra!
Dro qua
Dra quo
Quo Dra
E fazia o mesmo com a estante de livros. Ficava olhando bem, prateleira por prateleira, procurando o meio de cada uma. Mas isso era traiçoeiro, porque se estava deitada de um jeito, tal livro lhe parecia o meio. Se deitava de outro lado, outro livro parecia estar mais exatamente na metadinha. Daí se irritava!
Metadinha
Meta d inha – a letra do meio sai fora...
Metainha
Meta pequenininha?
E fazia o mesmo com as palavras.
Metamorfose
Metam o rfose
E tentava pronunciar o impronunciável:
Metamrfose
Meta fose
Fase ta mofe
R
O
E por aí ela ia embora. Com tudo procurando o meio. Era até uma questão de equilíbrio achar o meio das coisas. Era como encontrar em tudo o meio-termo e todo mundo sabe que o bom senso não mora nos radicais, com o perdão dos números.
Amor
Am or
Omar
O mar – não sobra letra, mas ficou legal!
Praticamente inventou pra si um novo idioma!
O AM or mo Ra no mr?
Ela se entendia assim. Mas procurar o meio pra depois descobrir o que tem nele às vezes era um tormento. Passou muito tempo pra descobrir, por exemplo, o que tinha no meio dela mesma. E, ainda por cima, tinha o dilema:
_ Bem no meio das duas metades é o umbigo. Mas tem também o meio das pernas, o meio entre os braços, o meio das palmas das mãos, o meio da cabeça. O meio da cabeça!!!! Esse meio vai ser o mais difícil.
Então, primeiro pensou muito em qual meio era o mais importante. O meio da sola, o meio de um fio de cabelo castanho... o meio de uma mão só era fácil: o dedo do meio!
Pensou, pensou e aí decidiu que o meio mais importante era o meio do peito, que era a parte mais bacana, porque tinha lá dentro a música só dela: Tum, Tum, tm...
...Mas ficou triste ao perceber que bem no meio da metade de cima na parte de dentro dela nem ela era. Tinha ali um ele que não era dela, nem ela, nem exatamente ele. Mut, mut, mt...
Li v ro
Liro
Ela sempre procurava o meio de tudo. Dividia o mesmo quadro no meio mil vezes e depois brincava de reencaixar os pedaços de jeitos diferentes no pensamento.
Quadro
Qua dro – humm... com essa não sobra letra!
Dro qua
Dra quo
Quo Dra
E fazia o mesmo com a estante de livros. Ficava olhando bem, prateleira por prateleira, procurando o meio de cada uma. Mas isso era traiçoeiro, porque se estava deitada de um jeito, tal livro lhe parecia o meio. Se deitava de outro lado, outro livro parecia estar mais exatamente na metadinha. Daí se irritava!
Metadinha
Meta d inha – a letra do meio sai fora...
Metainha
Meta pequenininha?
E fazia o mesmo com as palavras.
Metamorfose
Metam o rfose
E tentava pronunciar o impronunciável:
Metamrfose
Meta fose
Fase ta mofe
R
O
E por aí ela ia embora. Com tudo procurando o meio. Era até uma questão de equilíbrio achar o meio das coisas. Era como encontrar em tudo o meio-termo e todo mundo sabe que o bom senso não mora nos radicais, com o perdão dos números.
Amor
Am or
Omar
O mar – não sobra letra, mas ficou legal!
Praticamente inventou pra si um novo idioma!
O AM or mo Ra no mr?
Ela se entendia assim. Mas procurar o meio pra depois descobrir o que tem nele às vezes era um tormento. Passou muito tempo pra descobrir, por exemplo, o que tinha no meio dela mesma. E, ainda por cima, tinha o dilema:
_ Bem no meio das duas metades é o umbigo. Mas tem também o meio das pernas, o meio entre os braços, o meio das palmas das mãos, o meio da cabeça. O meio da cabeça!!!! Esse meio vai ser o mais difícil.
Então, primeiro pensou muito em qual meio era o mais importante. O meio da sola, o meio de um fio de cabelo castanho... o meio de uma mão só era fácil: o dedo do meio!
Pensou, pensou e aí decidiu que o meio mais importante era o meio do peito, que era a parte mais bacana, porque tinha lá dentro a música só dela: Tum, Tum, tm...
...Mas ficou triste ao perceber que bem no meio da metade de cima na parte de dentro dela nem ela era. Tinha ali um ele que não era dela, nem ela, nem exatamente ele. Mut, mut, mt...
4 de julho de 2010
Da série: Óh céus, óh vida
Eu faminta (de fome mesmo, nada poético) saí de casa em busca do mercadinho. O mercadinho não estava aberto. Era domingo, mas era cedo. Não tão cedo para não estar aberto, nem tão pouco cedo para já ter fechado. Tudo bem. Na minha cidade mercados não abrem aos domingos. Fui até a padaria, que não aceita cartão de nenhuma espécie, e aproveitei pra perguntar pra balconista onde havia um restaurante.
_ Restaurante? Aqui não tem restaurante, não. – disse como quem filosófa, perscrutando sua memória em busca da lembrança do que era um restaurante.
_ Ah... não tem restaurante? Que legal...
_ Não. Perto não. Mas se você estiver de carro pode ir até perto do metrô, que tem um lugar que faz costeleta no bafo.
_ Humm...
Eu não estava de carro.
_ Uma costeleta no bafo ótima e, se eu não me engano, uma marmitéx é uns sete reais.
Que ótimo!!!! Uma costeleta no bafo bem referenciada!!!!
...Só que peixe com costela não rola. Prefiro os que não tem caixa torácica.
_ Humm... Bem, obrigada!
E saí perambulante, fatigada dessa vida de interior em cidade grande. É como ter o pior dos dois mundos. Num só.
_ Restaurante? Aqui não tem restaurante, não. – disse como quem filosófa, perscrutando sua memória em busca da lembrança do que era um restaurante.
_ Ah... não tem restaurante? Que legal...
_ Não. Perto não. Mas se você estiver de carro pode ir até perto do metrô, que tem um lugar que faz costeleta no bafo.
_ Humm...
Eu não estava de carro.
_ Uma costeleta no bafo ótima e, se eu não me engano, uma marmitéx é uns sete reais.
Que ótimo!!!! Uma costeleta no bafo bem referenciada!!!!
...Só que peixe com costela não rola. Prefiro os que não tem caixa torácica.
_ Humm... Bem, obrigada!
E saí perambulante, fatigada dessa vida de interior em cidade grande. É como ter o pior dos dois mundos. Num só.
2 de julho de 2010
Senhor, tende piedade…
Dois filhos.
Nós tínhamos dois filhos pra ter.
Dois filhos, quatro netos, oito bisnetos, 16 trisanetos, 32 tataranetos.
E eu, matriarca dos sonhos só meus, os abortei a todos. Várias gerações se perderam naquele caminho entre a sua casa e o ponto de ônibus.
Nós tínhamos dois filhos pra ter.
Dois filhos, quatro netos, oito bisnetos, 16 trisanetos, 32 tataranetos.
E eu, matriarca dos sonhos só meus, os abortei a todos. Várias gerações se perderam naquele caminho entre a sua casa e o ponto de ônibus.
28 de junho de 2010
Damião…
...Damião…
...Damião.
De repente nunca me pareceu tão bonito aquele nome, assim como qualquer outro. Nunca um nome foi tão bonito assim. Damião.
Damião é nome de coisa forte, de gente que dura, rija, sobrevivente, audaz. Nome de desbravador tinha aquele Damião e todos os outros. Damião podia ser nome de rei. Rei Damião II. Pra quê tantos Pedros, Luíses, Augustos, se Damião era tão... hum... Invicto? Nenhum Damião havia jamais avançado por entre as minhas pernas, por exemplo. E, por exemplo, nenhum Damião jamais se sentou a mesa para comer comigo. Nenhum Damião que eu conheça foi galã de novela das oito. Nenhum Damião fez sucesso como um Michael. Conheço muitos Michaels de sucesso, mas não muitos Damiãos. Não conheço um Damião que tenha pintado uma capela, sistina que não fosse, nem carecia. Que tenha pintado uma telinha e alguém o tenha admirado por isso. Tá, vai, que tenha feito um silk numa camiseta. Damião conheço não.
Damião é nome de quem usa chapéu. Parece, não parece? Soa. Damião passando assim, num finzim de tarde com um cigarro de palha na boca. E das portas das casas lhe acenariam. “Tarde, Damião.” “Tarde” ele responderia todo vaidoso de lhe lembrarem o nome.
Damião podia ser herói. O corajoso Damião que salva a princesa Creolina no último mal do último segundo ruim de uma história que qualquer contasse. Damião se poria num jeito ousado e irrepreensível entre a princesa em prantos e uma gazela metade chimpanzé que ria da desgraça de uma família irreal. Surreal. Damião se lançaria na frente das chamas, na frente das balas perdidas ou miradas, na frente das espadas, dos canhões e, no grito, no suspiro já desesperançado, eis que Damião surgiria e salvaria a pátria, o amor, a vida, o próprio Deus.
Sim. Damião é um bom nome até pra Deus. Por que acreditar num Deus quando se pode acreditar num Damião? Eu nunca vi um Deus, mas já vi um Damião. Não jantei, dormi ou trepei com um Damião, mas aí é que tá. Assim Damião conserva essa aura de mistério, esse ser intocado, aquele mesmo invicto. Damião se jantou eu não vi, mas já deve ter feito milagre. Aquele pelo menos já deve ter feito. O meu muso, inspirador de minhas intrépidas reverberações internas, de meus questionamentos, trator de meu juízo, íman de meus olhos, aquele Damião ao qual me refiro, coloco minha mão no fogo se já não foi santo.
Ele passou assim por mim, num final de tarde em que ninguém o cumprimentou. Ele passou, não lembro se com chapéu ou sem, mas decerto teria ficado mais bonito com. Já era noitinha cedo, porque era outono invernando. Damião passou bem diante de meus olhos e eu, que sabia que se punha ali um legítimo Damião, nada disse. Olhei só. Fiquei olhando e olhando, até não olhar mais. E, antes que ele sumisse no horizonte da esquina depois do ponto de ônibus daquela ruazinha poluída de tudo, pude ler nos sacos brancos de estopa, grandes os sacos, do tamanho dele próprio, que levava com força, com determinação, pude ler: Damião.
...Damião.
De repente nunca me pareceu tão bonito aquele nome, assim como qualquer outro. Nunca um nome foi tão bonito assim. Damião.
Damião é nome de coisa forte, de gente que dura, rija, sobrevivente, audaz. Nome de desbravador tinha aquele Damião e todos os outros. Damião podia ser nome de rei. Rei Damião II. Pra quê tantos Pedros, Luíses, Augustos, se Damião era tão... hum... Invicto? Nenhum Damião havia jamais avançado por entre as minhas pernas, por exemplo. E, por exemplo, nenhum Damião jamais se sentou a mesa para comer comigo. Nenhum Damião que eu conheça foi galã de novela das oito. Nenhum Damião fez sucesso como um Michael. Conheço muitos Michaels de sucesso, mas não muitos Damiãos. Não conheço um Damião que tenha pintado uma capela, sistina que não fosse, nem carecia. Que tenha pintado uma telinha e alguém o tenha admirado por isso. Tá, vai, que tenha feito um silk numa camiseta. Damião conheço não.
Damião é nome de quem usa chapéu. Parece, não parece? Soa. Damião passando assim, num finzim de tarde com um cigarro de palha na boca. E das portas das casas lhe acenariam. “Tarde, Damião.” “Tarde” ele responderia todo vaidoso de lhe lembrarem o nome.
Damião podia ser herói. O corajoso Damião que salva a princesa Creolina no último mal do último segundo ruim de uma história que qualquer contasse. Damião se poria num jeito ousado e irrepreensível entre a princesa em prantos e uma gazela metade chimpanzé que ria da desgraça de uma família irreal. Surreal. Damião se lançaria na frente das chamas, na frente das balas perdidas ou miradas, na frente das espadas, dos canhões e, no grito, no suspiro já desesperançado, eis que Damião surgiria e salvaria a pátria, o amor, a vida, o próprio Deus.
Sim. Damião é um bom nome até pra Deus. Por que acreditar num Deus quando se pode acreditar num Damião? Eu nunca vi um Deus, mas já vi um Damião. Não jantei, dormi ou trepei com um Damião, mas aí é que tá. Assim Damião conserva essa aura de mistério, esse ser intocado, aquele mesmo invicto. Damião se jantou eu não vi, mas já deve ter feito milagre. Aquele pelo menos já deve ter feito. O meu muso, inspirador de minhas intrépidas reverberações internas, de meus questionamentos, trator de meu juízo, íman de meus olhos, aquele Damião ao qual me refiro, coloco minha mão no fogo se já não foi santo.
Ele passou assim por mim, num final de tarde em que ninguém o cumprimentou. Ele passou, não lembro se com chapéu ou sem, mas decerto teria ficado mais bonito com. Já era noitinha cedo, porque era outono invernando. Damião passou bem diante de meus olhos e eu, que sabia que se punha ali um legítimo Damião, nada disse. Olhei só. Fiquei olhando e olhando, até não olhar mais. E, antes que ele sumisse no horizonte da esquina depois do ponto de ônibus daquela ruazinha poluída de tudo, pude ler nos sacos brancos de estopa, grandes os sacos, do tamanho dele próprio, que levava com força, com determinação, pude ler: Damião.
26 de junho de 2010
tensão pós-moderna
Basicamente um estado de ira. Completa fúria devastando o seu coraçãozinho com desejos insanos e, por sorte dos outros, impossíveis. Cenas lindas de espancamento, agressão, morte por tortura, esquartejamento e sufocamento passam pela sua mente incessantemente, como se tivessem vida própria e só esperassem a grande chance de se materializar. Um rancor de tudo e nada, uma mágoa de qualquer coisa desconhecida, um tufão nascendo no peito e varrendo um rosto sorridente com um “bom dia por quê???!!!” entre dentes. É a impossibilidade completa de sutileza, o próprio fel, um desgosto. Um chamariz da desgraça alheia, uma desventura, uma tragédia musical de berros, de foras, de chutes, de pontapés não-iniciais. A languidez, a raiva, a revolta não-intercalada com o senso do bom.
O mal.
Encarnado.
TPM.
O mal.
Encarnado.
TPM.
22 de junho de 2010
É preciso ser triste
Conheço muitas pessoas que são intratáveis quando estão felizes. Ficam tão embebidas no próprio júbilo que não enxergam bem a mais nada. Nem a si próprias, aliás. Ao contrário, não conheço ninguém que triste não seja sensível, solidário e manso. O oposto é natural da ira, da frustração e da autocomiseração, não da tristeza. A tristeza é talvez o sentimento humano mais útil, porque força à reflexão, quando não paralisa, é claro. Os mais nobres seres humanos de que tenho notícia eram tristes. E engraçados. Porque o triste não implica no austero, necessariamente. Talvez eventualmente, mas não sempre. O triste é cru e a crueza é bem do humor. Do humor comedido, não do pastelão, evidentemente. Além disso, o triste é mais livre que o feliz, porque o feliz tem algo precioso a perder. O triste não. Este está em busca e mais preparado para não se escandalizar com tal nudez. A nudez que ceifa a sanidade na qualidade do cru e da patética cegueira que pensamos cozinhar.
Porco-poeta que me sei, na cegueira, no charco
À espera da Tua Fome, permita-me a pergunta,
Senhor de porcos e homens:
Ouviste acaso, ou te foi familiar
Um verbo que nos baixios daqui muito se ouve
O verbo amar?
Por que na cegueira, no charco
Na trama dos vocábulos
Na decantada lâmina enterrada
Na minha axila de pêlos e de carne
Na esteira de palha que me envolve a alma
Do verbo apenas entrevi o contorno breve:
É coisa de morrer e de matar, mas tem som de sorriso
Sangra, estilhaça, devora, e por isso
De entender-lhe o cerne não me foi dada a hora.
É verbo?
Ou sobrenome de um Deus prenhe de humor
Na péripla aventura da conquista?
HILST, Hilda. “Amavisse”, in Do Desejo.
Porco-poeta que me sei, na cegueira, no charco
À espera da Tua Fome, permita-me a pergunta,
Senhor de porcos e homens:
Ouviste acaso, ou te foi familiar
Um verbo que nos baixios daqui muito se ouve
O verbo amar?
Por que na cegueira, no charco
Na trama dos vocábulos
Na decantada lâmina enterrada
Na minha axila de pêlos e de carne
Na esteira de palha que me envolve a alma
Do verbo apenas entrevi o contorno breve:
É coisa de morrer e de matar, mas tem som de sorriso
Sangra, estilhaça, devora, e por isso
De entender-lhe o cerne não me foi dada a hora.
É verbo?
Ou sobrenome de um Deus prenhe de humor
Na péripla aventura da conquista?
HILST, Hilda. “Amavisse”, in Do Desejo.
21 de junho de 2010
Da obviedade
_ Nossa… a gente dorme no ônibus mas não descansa, né?
_ É. Nem poderia! Sabe por que isso acontece?
_ Não. Por quê?
_ Porque nossa alma não deixa o corpo quando a gente dorme em movimento. Já pensou? Sua alma deixa seu corpo descansar aqui em São Carlos. Daí, quando volta, você não tá mais aqui, já tá em Araraquara. Como ela ia fazer pra te achar lá? Não ia dar certo!
20 de junho de 2010
Esto no es la pérdida.
Pérdida se da en los campos llenos de amapolas, en los desiertos distantes y tarde en la noche cuando no hay ninguna buena razón para que el teléfono suene.
Esto es sólo nostalgia.
Esto no es importante.
Importante es postrarse de rodillas e inhalar por unos segundos mientras el corazón palpita con fuerza.
Esto es sólo una distracción.
http://bipoidentidad.com/
Esto es sólo nostalgia.
Esto no es importante.
Importante es postrarse de rodillas e inhalar por unos segundos mientras el corazón palpita con fuerza.
Esto es sólo una distracción.
http://bipoidentidad.com/
18 de junho de 2010
Da série: Reflexões profundas em aforismos
surpreendente: um macaco dar bom dia
sutil: subir no balcão gritando Hayo Silver!!!! para o atendente que disse que não vai estar podendo fazer o que você vai estar pedindo
intempestivo: continuar gritando Hayo Silver!!!! após a polícia chegar
delicado: pedir desculpas após dar parabéns à uma mulher que não está grávida
malandro: devolver um dinheiro que estava devendo faz tempo e, no ato da devolução, pedir um dinheiro emprestado
inusitado: ser assaltado dentro de uma delegacia
solitário: usar o bidê
amoroso: lembrar de fechar a porta do banheiro antes e depois de usar o bidê
polido: tirar o chiclé da boca e guardá-lo em baixo da mesa, longe das vistas dos outros, pra mascar mais tarde
amargo: morrer sufocado com a própria bile
desprendido: colocar fotos de nu no Orkut
ingênuo: ficar olhando toda hora seu álbum no Orkut pra ver se tem comentários, quando se sabe que os melhores comentários não são registrados nominalmente
recomendado: antes um pinico do que os lençóis
sutil: subir no balcão gritando Hayo Silver!!!! para o atendente que disse que não vai estar podendo fazer o que você vai estar pedindo
intempestivo: continuar gritando Hayo Silver!!!! após a polícia chegar
delicado: pedir desculpas após dar parabéns à uma mulher que não está grávida
malandro: devolver um dinheiro que estava devendo faz tempo e, no ato da devolução, pedir um dinheiro emprestado
inusitado: ser assaltado dentro de uma delegacia
solitário: usar o bidê
amoroso: lembrar de fechar a porta do banheiro antes e depois de usar o bidê
polido: tirar o chiclé da boca e guardá-lo em baixo da mesa, longe das vistas dos outros, pra mascar mais tarde
amargo: morrer sufocado com a própria bile
desprendido: colocar fotos de nu no Orkut
ingênuo: ficar olhando toda hora seu álbum no Orkut pra ver se tem comentários, quando se sabe que os melhores comentários não são registrados nominalmente
recomendado: antes um pinico do que os lençóis
16 de junho de 2010
Acontece(u)
Ela acordou uma hora depois de dormir com uma vontade louca de cuspir. Louca era ela, mas também a vontade e tudo o que a varria por dentro, que a hipnotizava e prendia diante da constatação bestial de que precisava cuspir. Era simples. Uma cusparadinha e ninguém notaria. Quer dizer... Não. Não era bem assim. Não era exatamente uma cusparadinha. Mas ela tinha que cuspir e pronto. O tamanho certamente não faria diferença alguma diante do fato de cuspir. Cuspir não era comum naquela região do tempo e até os seus 11 anos completos jamais ouvira falar de alguém que o tinha feito. Ela, então, nem pensar. Aliás, mal compreendia como é que seu cérebro pôde conceber tal absurdo como a idéia de botar fora da boca algo de seu interior. Era contrário à natureza e tangenciava o macabro que algo se colocasse não para dentro, como alimento, mas para fora, também como alimento. Algo que alimentava porque era o caminho da maravilhosa sensação da satisfação. A satisfação que só conhecia quem cedia. Aos desejos que ela não compreendia, mas porque os deveria antes de executá-los, já que aquele alguém parecia não fazê-lo? E, ao fim daquele segundo demorado onde várias gerações pareceram contemplá-la, suspensos e absortos naquela ousadia querendo caber num ser desprezível, chocou a todos quando cuspiu bem na cara de seu pai. Vestiu as roupas tremendo e mal pôde fazê-lo completamente antes que ele se recuperasse de tamanha humilhação e viesse tê-la. Ela sabia que todas as divindades a amaldiçoariam depois daquela soberba desobediência, mas levantou a cabeça, escorreu seu braço pálido por entre as mãos robustas de seu senhor, passou pela covardia que chamava mãe e com destreza ainda maior despediu-se da vida, como uma traidora de pés no chão. Foi ter com Deus na neve e na solidão, até que a privação a sublimara, num surto de bondade e compreensão. Anonimamente. Graças. Anonimamente.
15 de junho de 2010
Da série: Diálogos poéticos grupo F
_ Eu não acho que o céu deveria se chamar céu.
_ Ah, não? E você acha que deveria se chamar como?
_ Deveria se chamar artério.
_ Artério? E por quê?
_ Porque é uma mistura de ar com etéreo. E tem também essa questão de lembrar artéria, como se pulsasse, como se estivesse vivo.
_ Ah, sim. Tô vendo pulsando.
_ Não. Não é isso. É que ele muda.
_ Hum.
_ Mas eu não entendo porque chamam de firmamento. Eu gosto, mas não entendo.
_ Ah... é porque é firme.
_ É por isso mesmo? Tem certeza?
_ É sim. Porque fica firme lá em cima. Não cai nunca.
_ Ah... Mas eu nunca toquei pra ver se é firme mesmo. Nunca coloquei a mão pra ter certeza que não cai.
_ Não cai, não. Firmamento é uma boa palavra pro céu.
_ Sim, eu também acho! É bonito, embora eu não entenda. Mas tem muita coisa que eu acho bonita e não entendo. Você, por exemplo.
_ Hum. É bom saber que a gente sente o mesmo em relação um ao outro.
10 de junho de 2010
H.H.: é jogo sujo o que ela faz com a gente
Eu li aqueles versos de Hilda como quem lê uma prece. Depois, com a mesma reverência, desloquei meus olhos pro azul alto e, na maneira de constatar a vida do que existia, os baixei de volta ao nível dos mortais. Singela pobreza de vistas em paisagens tão ricas...
8 de junho de 2010
7 de junho de 2010
4 de junho de 2010
É porque tá na hora
_ Camila?
_ Oi.
_ Você já tá solteira?
_ Rs... Por quê?
_ Ah... sei lá. Acho que eu deveria ficar.
_ Hum... Por quê?
_ Ah... Tô triste e meu namorado nem liga, sabe? Eu só quero colo, quero me sentir melhor. Mas ele nem se toca. Eu tenho que estar sempre sorrindo pra ele!
_ Sei... Sei exatamente como é isso. Cê acredita que eu já namorei um menino que ficava bravo comigo quando eu ficava triste? Que beleza, né?
_ Não dá pra entender. Tô tão sozinha...
_ Oi.
_ Você já tá solteira?
_ Rs... Por quê?
_ Ah... sei lá. Acho que eu deveria ficar.
_ Hum... Por quê?
_ Ah... Tô triste e meu namorado nem liga, sabe? Eu só quero colo, quero me sentir melhor. Mas ele nem se toca. Eu tenho que estar sempre sorrindo pra ele!
_ Sei... Sei exatamente como é isso. Cê acredita que eu já namorei um menino que ficava bravo comigo quando eu ficava triste? Que beleza, né?
_ Não dá pra entender. Tô tão sozinha...
1 de junho de 2010
Enquete
O que você faz quando o seu entrevistado dá em cima de você?
1) Retribuo, claro! Quem sabe não rola uma informação exclusiva?!
2) Se for gatinho eu vô. Se não, num vô.
3) Nunca, jamais, em tempo algum! Sou séria! Assuntos pessoais, só depois da entrevista!
4) Nem ligo. Homens são todos iguais.
5) Guardo o contato para futuras “confirmações e checagens de informação”...
6) NDA
E se esse entrevistado exalar a Romeu y Julieta, o cubano?
1) Retribuo, claro! Quem sabe não rola uma informação exclusiva?!
2) Se for gatinho eu vô. Se não, num vô.
3) Nunca, jamais, em tempo algum! Sou séria! Assuntos pessoais, só depois de ele escovar os dentes!
4) Nem ligo. Homens cheiram todos iguais.
5) Guardo o contato para futuras “confirmações e checagens de informação” sobre o regime...
6) NDA
1) Retribuo, claro! Quem sabe não rola uma informação exclusiva?!
2) Se for gatinho eu vô. Se não, num vô.
3) Nunca, jamais, em tempo algum! Sou séria! Assuntos pessoais, só depois da entrevista!
4) Nem ligo. Homens são todos iguais.
5) Guardo o contato para futuras “confirmações e checagens de informação”...
6) NDA
E se esse entrevistado exalar a Romeu y Julieta, o cubano?
1) Retribuo, claro! Quem sabe não rola uma informação exclusiva?!
2) Se for gatinho eu vô. Se não, num vô.
3) Nunca, jamais, em tempo algum! Sou séria! Assuntos pessoais, só depois de ele escovar os dentes!
4) Nem ligo. Homens cheiram todos iguais.
5) Guardo o contato para futuras “confirmações e checagens de informação” sobre o regime...
6) NDA
31 de maio de 2010
Explique
Não entendo muito bem como é isso de superar um amor. Semana passada vi a ex-namorada de uma amiga minha. No shopping. Com outra garota. Então espera: você salva o outro do colapso, vocês trocam juras de amor eterno, você tatua isso na sua pele e, numa ausência que não é morte, o outro te supera.
Sim. É claro que já superei amores que não deram certo e meus amores também me superaram. Mas e daí? Não entendo! Numa dessas alguém morre de tristeza (amor mata, viu?!) e hão de dizer “ah... que exagero...”
Exagero???
Como diz o Luz-ciano, “o único exagero é a palavra exagero. Olha! Um X e um G numa palavra só!”
Sim. É claro que já superei amores que não deram certo e meus amores também me superaram. Mas e daí? Não entendo! Numa dessas alguém morre de tristeza (amor mata, viu?!) e hão de dizer “ah... que exagero...”
Exagero???
Como diz o Luz-ciano, “o único exagero é a palavra exagero. Olha! Um X e um G numa palavra só!”
27 de maio de 2010
Cometi uma arte em estado de deus

O estado de deus não é o mesmo que o estado de graça. O estado de graça é o estar sublimado, em paz, e Deus não é só sublime, elevado, imaterial. Ele tem peso e densidade se quiser. Ele incide na matéria e resolve o impasse da tendência quântica. Ele cria.
Estar em estado de deus é assim. Uma forma brilhante e criativa, sublime, mas também perturbada. É enxergar novas conexões onde antes só existiam velhas. É amar e, por isso mesmo, abandonar, seguir, progredir, evoluir, metaforizar o que lógico não se entende. É um estado de comunhão com o desígnio, mas também de conflito. Um conflito íntimo e indeclarável com o divino que habita em tudo, até em você. É paciência e aflição.
Eu sou agnóstica. Mas não importa se você acredita em Deus ou não. Na certa há de reconhecer esse estado.
25 de maio de 2010
Tent ativa
Fiquei contemplando minha vizinha naquele começo de tarde de sábado. Ela lá, do outro lado da rua, toda serelepe, lavando a calçada com a mangueira. E andava de um lado, andava do outro, molhava os pezinhos, tirava o musguinho verde do cantinho da rua e dá-lhe água potável pra empurrar o lixinho que uma vassoura poderia.
No começo eu fiquei com muita raiva, mas em pouco tempo comecei a entrar em desespero e me descabelar. De onde eu estava ouvia nítida a voz áspera dela falando com outras pessoas da casa:
_ Vai pro inferno! Ah! Cala a boca! Cala a boca! Sai daqui! Pro inferno!
...E lavava as angústias em água corrente. Vagarosamente. Primeiro a calçada, depois o carro, daí a calçada na frente do outro portão, pezinhos, musguinho, um papelzinho ali, pezinhos outra vez e eu enfartando.
Daí resolvi que ela ia receber uma carta da Sabesp e da Prefeitura avisando que existe lei sobre isso, que é desperdício, que dá multa de até R$ 1.488,00, blá blá blá, com dicas de economia de água e tudo mais, até com grifos nas partes sobre mangueiras, carros e calçadas, pra ela nem precisar fazer muito esforço mental pra sacar.
Resolvi que ela ia receber essa carta e ela recebeu. Na madrugada desta terça-feira, à 1h37 da manhã.
Não me perguntem como eu sei disso.
No começo eu fiquei com muita raiva, mas em pouco tempo comecei a entrar em desespero e me descabelar. De onde eu estava ouvia nítida a voz áspera dela falando com outras pessoas da casa:
_ Vai pro inferno! Ah! Cala a boca! Cala a boca! Sai daqui! Pro inferno!
...E lavava as angústias em água corrente. Vagarosamente. Primeiro a calçada, depois o carro, daí a calçada na frente do outro portão, pezinhos, musguinho, um papelzinho ali, pezinhos outra vez e eu enfartando.
Daí resolvi que ela ia receber uma carta da Sabesp e da Prefeitura avisando que existe lei sobre isso, que é desperdício, que dá multa de até R$ 1.488,00, blá blá blá, com dicas de economia de água e tudo mais, até com grifos nas partes sobre mangueiras, carros e calçadas, pra ela nem precisar fazer muito esforço mental pra sacar.
Resolvi que ela ia receber essa carta e ela recebeu. Na madrugada desta terça-feira, à 1h37 da manhã.
Não me perguntem como eu sei disso.
24 de maio de 2010
Perdeu?
Música bonita assim parece que pega
a alma e torce. Exprime alguma coisa inominável que a gente nem sabia que tinha dentro. É indizível por culpa dessa sina humana de ser limitado e expandido pelo mesmo.
A(h) linguagem...
...Ao menos temos várias!
http://www.bridgestonemusic.com.br/
21 de maio de 2010
Basta amar para saber o que fazer
O chefe da minha mãe se atrasou esses dias e justificou.
Foi assim:
“Eu tava pronto, saindo de casa, quando meu filho levantou no berço e disse:
_ Brincá papai!
_ Filho, papai não pode. Papai tá indo trabalhar.
_ Papai... Brincá!
_ Filho, olha aqui o papai como tá vestido. Eu não posso brincar agora, tenho que ir trabalhar. Tem gente me esperando lá no trabalho. Agora não posso.
_ Snif... Papai... Snif... Brincá, papai... snif...
Ah... não tive dúvidas. Joguei a pasta de lado e peguei meu filho no colo.
_ Cê quer brincar do quê, filho? De carrinho? Então vâmo brincá de carrinho!
E fiquei brincando com ele uns quinze minutos. Depois ele quis jogar bola e eu fui jogar bola com ele. Depois liguei a tevê e coloquei num desenho que ele gostava. Daí disse:
_ Filho, agora o papai vai trabalhar, tá bom?
_ Tá!
Por isso me atrasei uma hora!”
(((suspiro)))
Pra mim parece que o mundo inteiro foi salvo e eu respirei aliviada pelo menino que, felizmente, tem um pai guiado pelo amor.
https://mail.google.com/mail/?ui=2&ik=7c4d25b4b2&view=audio&msgs=128bc77b93ca6a9b&attid=0.1&zw
Foi assim:
“Eu tava pronto, saindo de casa, quando meu filho levantou no berço e disse:
_ Brincá papai!
_ Filho, papai não pode. Papai tá indo trabalhar.
_ Papai... Brincá!
_ Filho, olha aqui o papai como tá vestido. Eu não posso brincar agora, tenho que ir trabalhar. Tem gente me esperando lá no trabalho. Agora não posso.
_ Snif... Papai... Snif... Brincá, papai... snif...
Ah... não tive dúvidas. Joguei a pasta de lado e peguei meu filho no colo.
_ Cê quer brincar do quê, filho? De carrinho? Então vâmo brincá de carrinho!
E fiquei brincando com ele uns quinze minutos. Depois ele quis jogar bola e eu fui jogar bola com ele. Depois liguei a tevê e coloquei num desenho que ele gostava. Daí disse:
_ Filho, agora o papai vai trabalhar, tá bom?
_ Tá!
Por isso me atrasei uma hora!”
(((suspiro)))
Pra mim parece que o mundo inteiro foi salvo e eu respirei aliviada pelo menino que, felizmente, tem um pai guiado pelo amor.
https://mail.google.com/mail/?ui=2&ik=7c4d25b4b2&view=audio&msgs=128bc77b93ca6a9b&attid=0.1&zw
20 de maio de 2010
Mundo Kato
19 de maio de 2010
Porque eu gosto de semiótica
Acho que todos os professores de semiótica na história da humanidade no mundo já responderam à gloriosa pergunta: “Pra quê serve semiótica, afinal?”
Mas há os mais inquisidores, socialmente preocupados com as injustificáveis 40 mil mortes diárias de crianças do terceiro mundo subnutridas ou com doenças evitáveis: “Com tanta gente morrendo de fome, pra quê estudar semiótica? Ao quê ou a quem a semiótica salva? Por que ela é importante?”
De fato. Indubitavelmente a fome física é mais premente, mais urgente do que outros tipos de fome. Sem o alimento para o corpo físico não há vida que possa durar. Mas o alimento não é a única urgência de uma vida. A sede também o é, o sexo, a higiene, o sono, o sonho. Claro. Mas eu não conheço vida que o valha estática em seu processo de perceber e, por isso, progredir. A fome de conhecimento e a pobreza de espírito também são humanas. E uma vez supridas aquelas, o ser há de querer avançar. E quem pode dizer qual fome é mais importante? É mesmo uma questão de grandeza?
Eu posso entender que cada um de nós conhece os anseios da vida. E, graças ao desígnio, temos tendências diferentes, inclinações que nos levam a caminhos distintos. A diversidade não é acaso, é a única forma de perpetuar a evolução. Não há caminho único possível. É por isso que tem gente lutando pelas questões da raça, da orientação sexual, da deficiência, da educação, da política, da cidadania, da mulher, das minorias, das sociedades, das rendas. E por que não da semiótica?
E por que sim?
Bem, a semiótica é a investigação lógica do processo de apreensão do mundo pela consciência de forma cognoscível, por meio da percepção que se converte no fluxo de signos, logo, linguagem. Uma vez compreendida a progressão que se dá na sua cabecinha, desencadeia-se um (embora haja outros) modo de auto-conhecimento. Auto-conhecendo-se você também passa a entender melhor o outro, o mundo e a necessidade do outro e do mundo pra você e em você.
É tão bonito isso...
Pensa só: desde Aristóteles temos a teoria do ato e potência, que nos diz, entre outras coisas, que você não pode se definir senão por meio de atos, que são a essência de sua própria existência.
_ Quem é você?
_ A Camila.
_ Não. Este é seu nome. Quem é você?
_ Eu sou uma jornalista.
_ Não. Esta é sua ocupação. Quem é você?
_ Eu sou a filha da Eliane e do Ivan. Sou a irmã da Thais.
_ Esta é sua localização no contexto familiar. Mas e quem é você?
Eu não posso responder quem sou eu. Eu sou um todo que habita uma consciência, ou sou a própria consciência? Uma só? Sou uma alma que anima um corpo ou sou um corpo que viabiliza a expressão de uma alma? Sou uma vida finita ou uma existência infinita e perpétua?
Ninguém pode dizer com certeza o que é. Mas se você encostar em mim, posso dizer, com toda a certeza, onde termina eu e começa você.
E por quê? Por que eu sinto. E, como diz Pessoa, “tudo o que em mim sente está pensando”.
A semiótica é um meio de pensar o próprio pensamento. E o que é um pensamento senão um pensamento sobre outro pensamento? Todas as palavras aqui escritas estão ecoando na cabeça de você que está lendo e sua consciência está num esforço de significar isso tudo. Como? Por meio de signos, ou seja, de mais pensamento. Ler é pensar, interpretar as palavras é o pensamento do primeiro pensar e certamente a primeira interpretação desencadeia idéias e conexões com, adivinha!, outros pensamentos.
É lindo isso, não é? Tenho até um amigo que, um dia eu explicando, resolveu tatuar uma coisa sobre isso.
Lúcia Santaella falando sobre a primeiridade no sistema de categorias dos elementos que compõem o pensamento na lógica de Peirce é poesia!
“Levantemos, por exemplo, algumas instâncias de qualidades de sentir ao imaginarmos um estado mental caracterizado por uma simples qualidade positiva: o sabor do vinho, a qualidade de sentir amor, perfume de rosas, uma dor de cabeça infinita que não nos permite pensar nada, sentir nada, a não ser a qualidade da dor. Um instante eterno, sem partes, indiscernível de prazer intenso ou a sutil qualidade de sentir quando vamos gentilmente acordando, dóceis, ao som de uma música.”
É claro que existem muitos caminhos a serem percorridos para se chegar à lucidez, à realidade que é compartilhada e independente de nossas opiniões a respeito dela. A semiótica é um caminho e faz sentido pra mim. Se todas as pessoas lutassem pelo quê faz sentido pra elas, mais coisas fariam sentido pra ainda mais gente, porque a lucidez é contagiosa. Já dizia Hilda (Hilst):
Creiam-me. A semiótica me faz entender a vida.
“O sentimento ou qualidade de impressão é um quase-signo porque já funciona como o primeiro, vago e impreciso predicado das coisas que a nós se apresentam.” [Santaella, 1983]
Isso me lembra uma conversa de um amor sobre nós, incluindo-se a si mesmo na terceira pessoa, quando lhe pedi uma estória e veio uma história:
_ Sabe quando você vê uma pessoa que você não conhece bem, mas ama? E sabe quando você ama uma pessoa que você conhece muito bem? Então... Eles estavam num estado intermediário e se amavam tanto quanto podiam diante disso. Era um pré-amor, mas já era tão bonito quanto o amor. Foi assim quando eles se conheceram.
...O que, por sua vez, me lembra o mito de Campbell, o habitus de Bourdieu, a comunhão de Bordenave, a complexidade de Morin...
“[...] Mentes diferentes podem partir dos pontos de vista mais antagônicos que o progresso da investigação os levará, por uma força a eles estranha, a uma e mesma conclusão. [...]Será que não existem realmente estas coisas apenas porque não há qualquer esperança de alguma vez estarem ao nosso alcance? [...] A isto minha resposta é que, embora em nenhum possível estágio do saber possa haver um número suficientemente grande para exprimir a relação entre a quantidade do que permanece desconhecido e a quantidade do que sabemos, não é, no entanto, filosófico supor que, relativamente a uma dada questão, (com um significado claro) a investigação não possa chegar a uma solução, desde que levada suficientemente longe.”
Eis porque ele nos deixou 80 mil manuscritos e 12 mil páginas publicadas. Entre os artigos acessíveis na internet, este, cujo trecho citei acima. “Como Tornar as Nossas Idéias Claras”, por Charles Sanders Peirce, para os brasileiros que não se incomodam com o português de Portugal na tradução.
Mas há os mais inquisidores, socialmente preocupados com as injustificáveis 40 mil mortes diárias de crianças do terceiro mundo subnutridas ou com doenças evitáveis: “Com tanta gente morrendo de fome, pra quê estudar semiótica? Ao quê ou a quem a semiótica salva? Por que ela é importante?”
De fato. Indubitavelmente a fome física é mais premente, mais urgente do que outros tipos de fome. Sem o alimento para o corpo físico não há vida que possa durar. Mas o alimento não é a única urgência de uma vida. A sede também o é, o sexo, a higiene, o sono, o sonho. Claro. Mas eu não conheço vida que o valha estática em seu processo de perceber e, por isso, progredir. A fome de conhecimento e a pobreza de espírito também são humanas. E uma vez supridas aquelas, o ser há de querer avançar. E quem pode dizer qual fome é mais importante? É mesmo uma questão de grandeza?
Eu posso entender que cada um de nós conhece os anseios da vida. E, graças ao desígnio, temos tendências diferentes, inclinações que nos levam a caminhos distintos. A diversidade não é acaso, é a única forma de perpetuar a evolução. Não há caminho único possível. É por isso que tem gente lutando pelas questões da raça, da orientação sexual, da deficiência, da educação, da política, da cidadania, da mulher, das minorias, das sociedades, das rendas. E por que não da semiótica?
E por que sim?
Bem, a semiótica é a investigação lógica do processo de apreensão do mundo pela consciência de forma cognoscível, por meio da percepção que se converte no fluxo de signos, logo, linguagem. Uma vez compreendida a progressão que se dá na sua cabecinha, desencadeia-se um (embora haja outros) modo de auto-conhecimento. Auto-conhecendo-se você também passa a entender melhor o outro, o mundo e a necessidade do outro e do mundo pra você e em você.
É tão bonito isso...
Pensa só: desde Aristóteles temos a teoria do ato e potência, que nos diz, entre outras coisas, que você não pode se definir senão por meio de atos, que são a essência de sua própria existência.
_ Quem é você?
_ A Camila.
_ Não. Este é seu nome. Quem é você?
_ Eu sou uma jornalista.
_ Não. Esta é sua ocupação. Quem é você?
_ Eu sou a filha da Eliane e do Ivan. Sou a irmã da Thais.
_ Esta é sua localização no contexto familiar. Mas e quem é você?
Eu não posso responder quem sou eu. Eu sou um todo que habita uma consciência, ou sou a própria consciência? Uma só? Sou uma alma que anima um corpo ou sou um corpo que viabiliza a expressão de uma alma? Sou uma vida finita ou uma existência infinita e perpétua?
Ninguém pode dizer com certeza o que é. Mas se você encostar em mim, posso dizer, com toda a certeza, onde termina eu e começa você.
E por quê? Por que eu sinto. E, como diz Pessoa, “tudo o que em mim sente está pensando”.
A semiótica é um meio de pensar o próprio pensamento. E o que é um pensamento senão um pensamento sobre outro pensamento? Todas as palavras aqui escritas estão ecoando na cabeça de você que está lendo e sua consciência está num esforço de significar isso tudo. Como? Por meio de signos, ou seja, de mais pensamento. Ler é pensar, interpretar as palavras é o pensamento do primeiro pensar e certamente a primeira interpretação desencadeia idéias e conexões com, adivinha!, outros pensamentos.
É lindo isso, não é? Tenho até um amigo que, um dia eu explicando, resolveu tatuar uma coisa sobre isso.
Lúcia Santaella falando sobre a primeiridade no sistema de categorias dos elementos que compõem o pensamento na lógica de Peirce é poesia!
“Levantemos, por exemplo, algumas instâncias de qualidades de sentir ao imaginarmos um estado mental caracterizado por uma simples qualidade positiva: o sabor do vinho, a qualidade de sentir amor, perfume de rosas, uma dor de cabeça infinita que não nos permite pensar nada, sentir nada, a não ser a qualidade da dor. Um instante eterno, sem partes, indiscernível de prazer intenso ou a sutil qualidade de sentir quando vamos gentilmente acordando, dóceis, ao som de uma música.”
É claro que existem muitos caminhos a serem percorridos para se chegar à lucidez, à realidade que é compartilhada e independente de nossas opiniões a respeito dela. A semiótica é um caminho e faz sentido pra mim. Se todas as pessoas lutassem pelo quê faz sentido pra elas, mais coisas fariam sentido pra ainda mais gente, porque a lucidez é contagiosa. Já dizia Hilda (Hilst):
“Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.”
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.”
Creiam-me. A semiótica me faz entender a vida.
“O sentimento ou qualidade de impressão é um quase-signo porque já funciona como o primeiro, vago e impreciso predicado das coisas que a nós se apresentam.” [Santaella, 1983]
Isso me lembra uma conversa de um amor sobre nós, incluindo-se a si mesmo na terceira pessoa, quando lhe pedi uma estória e veio uma história:
_ Sabe quando você vê uma pessoa que você não conhece bem, mas ama? E sabe quando você ama uma pessoa que você conhece muito bem? Então... Eles estavam num estado intermediário e se amavam tanto quanto podiam diante disso. Era um pré-amor, mas já era tão bonito quanto o amor. Foi assim quando eles se conheceram.
...O que, por sua vez, me lembra o mito de Campbell, o habitus de Bourdieu, a comunhão de Bordenave, a complexidade de Morin...
“[...] Mentes diferentes podem partir dos pontos de vista mais antagônicos que o progresso da investigação os levará, por uma força a eles estranha, a uma e mesma conclusão. [...]Será que não existem realmente estas coisas apenas porque não há qualquer esperança de alguma vez estarem ao nosso alcance? [...] A isto minha resposta é que, embora em nenhum possível estágio do saber possa haver um número suficientemente grande para exprimir a relação entre a quantidade do que permanece desconhecido e a quantidade do que sabemos, não é, no entanto, filosófico supor que, relativamente a uma dada questão, (com um significado claro) a investigação não possa chegar a uma solução, desde que levada suficientemente longe.”
Eis porque ele nos deixou 80 mil manuscritos e 12 mil páginas publicadas. Entre os artigos acessíveis na internet, este, cujo trecho citei acima. “Como Tornar as Nossas Idéias Claras”, por Charles Sanders Peirce, para os brasileiros que não se incomodam com o português de Portugal na tradução.
14 de maio de 2010
Gente, eles não são ótimos?
O rádio me contou esta manhã um maravilhoso conto de uma mulher assaltada dentro de uma delegacia. Poderia ser dos Grimm, se não fosse tão idiota. Ela jogou a bolsa para trás do balcão dos policiais. O bandido saltou, na maior, pegou a bolsa e saiu. Dois policiais assistiram impassíveis e justificaram:
_ Pensamos que era briga de marido e mulher.
Ah tá! Daí tudo bem o marido pegar a bolsa da mulher e sair correndo, seja lá pelo motivo que for.
Uhum. Tendi.
Isso me lembra uma conversa de ontem, no ônibus:
_ Cobrador, preciso descer no ponto do shopping.
_ Falta dois pontos ainda.
_ Ok.
Um ponto depois...
_ É neste agora ou no próximo?
_ Hum?
_ O ponto. Do shopping.
_ Ah... falta 3 ainda...
“Pra você ver como nossa sociedade é, né? O cara deveria estar internado, não deveria estar solto, trabalhando. Mas daí não tem como, né? Colocam um problemático aí, pra atender o público...”
Isso não é nada, gente!
Problema tem nosso presidente. Lembro que ri muito quando ele quis dizer que também cairia no “tatame” mas disse que cairia no “tapume” (???), na época das Olimpíadas. Mas aí é uma piadinha inocente. Não chega aos pés dessa aqui:
Indagada se considerava legítima a comparação de sua biografia com a de Mandela, a pré-candidata do PT respondeu de pronto: “Se você for olhar o tempo de prisão, não. Ele ficou 27 anos e eu fiquei 3 anos e meio. Mas o sentido não é esse”. Dilma disse que a campanha petista quis destacar “o que se faz” diante das ditaduras.
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,dilma-comparacao-com-mandela-foi-decidida-por-lula,551848,0.htm
Isso porque ele não ia fazer campanha, lembram?
Dá-lhe multa.
Deus, tende piedade de nós.
_ Pensamos que era briga de marido e mulher.
Ah tá! Daí tudo bem o marido pegar a bolsa da mulher e sair correndo, seja lá pelo motivo que for.
Uhum. Tendi.
Isso me lembra uma conversa de ontem, no ônibus:
_ Cobrador, preciso descer no ponto do shopping.
_ Falta dois pontos ainda.
_ Ok.
Um ponto depois...
_ É neste agora ou no próximo?
_ Hum?
_ O ponto. Do shopping.
_ Ah... falta 3 ainda...
“Pra você ver como nossa sociedade é, né? O cara deveria estar internado, não deveria estar solto, trabalhando. Mas daí não tem como, né? Colocam um problemático aí, pra atender o público...”
Isso não é nada, gente!
Problema tem nosso presidente. Lembro que ri muito quando ele quis dizer que também cairia no “tatame” mas disse que cairia no “tapume” (???), na época das Olimpíadas. Mas aí é uma piadinha inocente. Não chega aos pés dessa aqui: Indagada se considerava legítima a comparação de sua biografia com a de Mandela, a pré-candidata do PT respondeu de pronto: “Se você for olhar o tempo de prisão, não. Ele ficou 27 anos e eu fiquei 3 anos e meio. Mas o sentido não é esse”. Dilma disse que a campanha petista quis destacar “o que se faz” diante das ditaduras.
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,dilma-comparacao-com-mandela-foi-decidida-por-lula,551848,0.htm
Isso porque ele não ia fazer campanha, lembram?
Dá-lhe multa.
Deus, tende piedade de nós.
12 de maio de 2010
Um neném
Há um ano atrás eu dei uma entrevista a um programa que está fazendo um ano.
Palmas ao aniversariante, por favor.
[APLAUSE]
A saber: ZumbiNews
http://magnando.blogspot.com/
Muitos anos de vida.
Palmas ao aniversariante, por favor.
[APLAUSE]
A saber: ZumbiNews
http://magnando.blogspot.com/
Muitos anos de vida.
10 de maio de 2010
Nu
Eu até pensei em dizer que achava a nudez humana admirável, mas naquele contexto ia soar repreensível. Falar uma coisa dessa assim, sentada no sofá da vó na noite de sábado, assistindo o concurso de Miss Brasil, bem na hora do desfile de biquínis, não ia soar compreensível nem pra mim. É claro que eu cogitava intimamente um (por que não?) concurso de Mister Brasil que, àquela altura, seria especialmente interessante. Mas a tia, dotada da intimidade com a própria mãe que Deus lhe deu, foi mais longe:
_ Acho o ser humano vestido tão bonito, tão mais interessante! Não sei por que o povo tem essa agonia pra tirar tanto. O corpo humano é tão feio pelado! O corpo da mulher ainda vá lá, que tem curvas, mas dos homens é horrível! Nossa! Um homem pelado?! Jesus me abane! É terrível! Nem tudo que é gostoso é bonito, né?!
Só deu tempo de suspirar, porque argumentação não cabia. Evocar Michelangelo só não seria pecado se eu não tivesse rido. Mas eu ri. Lembrei do Calvin correndo peladinho até o pote de biscoitos na cozinha, bancando o homem invisível.
É. “Bananas podem serr belas, mas também finas, trristes e amarrelas”*. Então deixa pra lá.
*Hilst, 03/93
_ Acho o ser humano vestido tão bonito, tão mais interessante! Não sei por que o povo tem essa agonia pra tirar tanto. O corpo humano é tão feio pelado! O corpo da mulher ainda vá lá, que tem curvas, mas dos homens é horrível! Nossa! Um homem pelado?! Jesus me abane! É terrível! Nem tudo que é gostoso é bonito, né?!
Só deu tempo de suspirar, porque argumentação não cabia. Evocar Michelangelo só não seria pecado se eu não tivesse rido. Mas eu ri. Lembrei do Calvin correndo peladinho até o pote de biscoitos na cozinha, bancando o homem invisível.
É. “Bananas podem serr belas, mas também finas, trristes e amarrelas”*. Então deixa pra lá.
*Hilst, 03/93
6 de maio de 2010
Cotidiano épico em drops
Eu tenho uma calça xadrez com 4 botões e um zíper, além de ter a necessidade de um cinto.
_ Puxa... Se for caso de vida ou morte eu morro.
_ Nossa! O que é que você guarda aí de tão precioso, hein?
_ Não sei... Acho que quem desenhou essa calça supervalorizou a coisa feminina.
_______
A caminho do serviço, em pleno Vale do Anhangabaú, uma bolha de ar gigante. Dentro, uma mulher de maiô e sorriso, acenando. Ao lado dela, um rapaz com água de côco e sunga, um outro com uma bola colorida e sunga e um coqueiro de folhas verdes vivas entre os três. Eu sorri e alguém prestou atenção em mim, mesmo eu estando de calça jeans e camiseta.
_______
_ Bem, em tempo, embora não sem atraso, desejo ao aniversariante prosperidade, vida longa, boa saúde e metade das coisas boas que a astrologia diz sobre o seu signo. Mas só metade, porque gente virtuosa demais nem parece gente.
_ Esse povo da comunicação escreve bonito que só, hein?!!! Foi dos cumprimentos mais legais desse ano!!
_______
Perto da catraca do metrô elas diziam enfáticas e incrédulas. Cada qual ouvindo somente a si própria:
_ Ah, eu procurei o Marcos!
_ Ah, eu até chorei!
_ Falei: não acredito que ela é assim!
_ Eu não acreditava no que você tinha feito!
_ Daí eu contei pra ele, contei pra Gisele...
_ Conte pro Marcos, daí falei com a Gisele...
_ Eu fiquei que, olha!
_ Olha, eu fiquei...
_ Até chorei!
_______
Eu estava tentando ler, mas sentei na frente de um sujeito ouvindo seu celular no último volume. Era Rihanna e ele dançava num jeitinho pequeno e sensual, fazendo biquinho, no seu lugar mesmo. De repente, a música trocou:
“…And my heart will go on…
Near, far, wherever you are...”
_ Ah! Ah! Essa é a minha música!
_ Sua música?
_ É. Eu ouvi ela na minha primeira vez. Quando foi minha primeira vez eu estava ouvindo ela.
_ Ah é?
_ É.
Bateu os olhos em mim e eu olhei pra janela, querendo não ter testemunhado a confissão. Mas ele logo se esqueceu. Atendeu a ligação de alguém que se chamava Travesti. Depois se distraiu com o pó, o lápis e o rímel da colega de assento.
_ Ai, louca, arrasou!
________
10 minutos. Eu só tinha 10 minutos entre entrar no banco, pagar as contas e sair. Subi as escadas esbaforida. Cheguei, peguei a senha e sentei. Na cadeira ao lado, uma senha abandonada me olhava. 406. Olhei pro painel, que apontava a última senha chamada: 405. A minha era 410. Pensei direitinho, até que o painel tocou. 406. Peguei a senha ao lado e fui ao caixa. Olhei o horário de expedição da senha. 20 minutos antes. Alguém, providencialmente, a pegou especialmente pra mim. Tempo total para a manobra: 3 minutos.
________
Mó legal. Você acorda de manhã e vai escovar os dentes. Normal. Que nem todo mundo. Daí vai, pega a escova de dentes e a pasta. Passa na escova e se prepara pra colocar na boca. Sente um cheiro estranho e vira o tubinho para descobrir que é de Hipoglos. E então você lava o negócio e a meleca só espalha. Espalha na sua mão e na sua escova de dentes. Fica tudo deslizando, que nem sabão. E era sua única escova de dentes na casa de quem você está visitando.
________
Ver o Corinthians vencer do Flamengo e mesmo assim ser desclassificado de um campeonato no ano de seu centenário: não tem preço.
_ Puxa... Se for caso de vida ou morte eu morro.
_ Nossa! O que é que você guarda aí de tão precioso, hein?
_ Não sei... Acho que quem desenhou essa calça supervalorizou a coisa feminina.
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A caminho do serviço, em pleno Vale do Anhangabaú, uma bolha de ar gigante. Dentro, uma mulher de maiô e sorriso, acenando. Ao lado dela, um rapaz com água de côco e sunga, um outro com uma bola colorida e sunga e um coqueiro de folhas verdes vivas entre os três. Eu sorri e alguém prestou atenção em mim, mesmo eu estando de calça jeans e camiseta.
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_ Bem, em tempo, embora não sem atraso, desejo ao aniversariante prosperidade, vida longa, boa saúde e metade das coisas boas que a astrologia diz sobre o seu signo. Mas só metade, porque gente virtuosa demais nem parece gente.
_ Esse povo da comunicação escreve bonito que só, hein?!!! Foi dos cumprimentos mais legais desse ano!!
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Perto da catraca do metrô elas diziam enfáticas e incrédulas. Cada qual ouvindo somente a si própria:
_ Ah, eu procurei o Marcos!
_ Ah, eu até chorei!
_ Falei: não acredito que ela é assim!
_ Eu não acreditava no que você tinha feito!
_ Daí eu contei pra ele, contei pra Gisele...
_ Conte pro Marcos, daí falei com a Gisele...
_ Eu fiquei que, olha!
_ Olha, eu fiquei...
_ Até chorei!
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Eu estava tentando ler, mas sentei na frente de um sujeito ouvindo seu celular no último volume. Era Rihanna e ele dançava num jeitinho pequeno e sensual, fazendo biquinho, no seu lugar mesmo. De repente, a música trocou:
“…And my heart will go on…
Near, far, wherever you are...”
_ Ah! Ah! Essa é a minha música!
_ Sua música?
_ É. Eu ouvi ela na minha primeira vez. Quando foi minha primeira vez eu estava ouvindo ela.
_ Ah é?
_ É.
Bateu os olhos em mim e eu olhei pra janela, querendo não ter testemunhado a confissão. Mas ele logo se esqueceu. Atendeu a ligação de alguém que se chamava Travesti. Depois se distraiu com o pó, o lápis e o rímel da colega de assento.
_ Ai, louca, arrasou!
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10 minutos. Eu só tinha 10 minutos entre entrar no banco, pagar as contas e sair. Subi as escadas esbaforida. Cheguei, peguei a senha e sentei. Na cadeira ao lado, uma senha abandonada me olhava. 406. Olhei pro painel, que apontava a última senha chamada: 405. A minha era 410. Pensei direitinho, até que o painel tocou. 406. Peguei a senha ao lado e fui ao caixa. Olhei o horário de expedição da senha. 20 minutos antes. Alguém, providencialmente, a pegou especialmente pra mim. Tempo total para a manobra: 3 minutos.
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Mó legal. Você acorda de manhã e vai escovar os dentes. Normal. Que nem todo mundo. Daí vai, pega a escova de dentes e a pasta. Passa na escova e se prepara pra colocar na boca. Sente um cheiro estranho e vira o tubinho para descobrir que é de Hipoglos. E então você lava o negócio e a meleca só espalha. Espalha na sua mão e na sua escova de dentes. Fica tudo deslizando, que nem sabão. E era sua única escova de dentes na casa de quem você está visitando.
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Ver o Corinthians vencer do Flamengo e mesmo assim ser desclassificado de um campeonato no ano de seu centenário: não tem preço.
4 de maio de 2010
A poética do ininteligível
Eu só sei que não sou zaralha! Ou zaralho? Bem, se a origem é obscura, o que dizer da definição de gênero? Quer dizer... Tem dias que eu até que gosto de ficar zumbizando pela casa que nem mendiga, mas é raro. De forma geral eu não sou zaralha/o. Nem vampira, que eu saiba. E também não preciso de um teste pra descobrir, porque acho que se eu não fosse humana eu saberia. Ou... não necessariamente. Acho que os patos não sabem que são patos, mas certamente não se acham humanos. Embora eu não tenha certeza, porque nunca fui um pato. Não que eu me lembre, ao menos. Mas tenho uma amiga cuja cachorra pensa que é gente e chora quando não consegue pegar a ração com as mãos. Quero dizer, com as patas. Mas no caso de um vampiro, acho que o hábito alimentar é indisfarçável, não é? Não sei... De qualquer maneira, caso eu estivesse precisando educar o cão que eu não tenho ou colocá-lo numa creche, certamente eu não procuraria a palavra “zaralho” para encontrar uma solução.
Será que alguém sim?

Será que alguém sim?

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29 de abril de 2010
Photos by Donna
28 de abril de 2010
Homo Humanus
Ela a tinha visto na rua e não podia abandoná-la uma vez mais. A pequena estava chorando, frágil e indefesa. Já tinha sido abandonada por sua mãe biológica e de novo e de novo por todos aqueles que passaram e optaram por deixá-la onde estava, ou porque não a viram.
Ela não tinha um bom momento nem um bom lugar nem muito menos um bom dinheiro pra adotar assim aquela menininha que precisaria de tudo e mais. Então a pegou, porque outra coisa não poderia ter sido feita, a menos que seu caminho não tivesse sido pela beira da calçada daquela tarde quente. Chegou à casa chorando sob a constatação de tanta maldade no coração humano. Deu-lhe banho, alimentou e aqueceu. Sorriu, riu, abraçou, apertou, balançou, cuidou, deu remédio.
Em pouco tempo, começou a espelhar sua mãe ao olhar que estava sendo mãe também. E não gostou do que viu. Sentiu que a pequena poderia odiá-la por ouvir tantos nãos ou por ter hora certa de dormir. Entrou em depressão, se culpou, culpou sua própria mãe, seu próprio Deus, depois o acaso e nada mais. Reviu toda a sua vida. Passou dias chorando, com os olhos pendurados no teto, sem enxergar um palmo diante de si, em choque pela dor que era pensar “ela vai crescer e vai me odiar!”. Mas trancada não pôde pra sempre. Num dia seus olhos tiveram que largar aquele bege desbotando e pousar no amparador de suas vontades, os azulejos corajosos até o asfalto, até o mercadinho. Chão e passos se apoiando.
_ Um quilo de ração, por favor.
Ela não tinha um bom momento nem um bom lugar nem muito menos um bom dinheiro pra adotar assim aquela menininha que precisaria de tudo e mais. Então a pegou, porque outra coisa não poderia ter sido feita, a menos que seu caminho não tivesse sido pela beira da calçada daquela tarde quente. Chegou à casa chorando sob a constatação de tanta maldade no coração humano. Deu-lhe banho, alimentou e aqueceu. Sorriu, riu, abraçou, apertou, balançou, cuidou, deu remédio.
Em pouco tempo, começou a espelhar sua mãe ao olhar que estava sendo mãe também. E não gostou do que viu. Sentiu que a pequena poderia odiá-la por ouvir tantos nãos ou por ter hora certa de dormir. Entrou em depressão, se culpou, culpou sua própria mãe, seu próprio Deus, depois o acaso e nada mais. Reviu toda a sua vida. Passou dias chorando, com os olhos pendurados no teto, sem enxergar um palmo diante de si, em choque pela dor que era pensar “ela vai crescer e vai me odiar!”. Mas trancada não pôde pra sempre. Num dia seus olhos tiveram que largar aquele bege desbotando e pousar no amparador de suas vontades, os azulejos corajosos até o asfalto, até o mercadinho. Chão e passos se apoiando.
_ Um quilo de ração, por favor.
27 de abril de 2010
À La Beat
Eu ia subindo um penhasco até chegar naquelas ruas de dobras fáceis e numa esquina o velho índio forte disse onde que eu podia encontrar e eu fui lá pra ver como estavam as coisas que eu tinha deixado quando vi pela última vez o velho que me indicava o caminho da menina de cabelo longo que dançava ingênua até cair tonta onde estava na calçada suas cores no sol da manhã e meu corpo doía mas não tinha problema qualquer lugar era sublime naquela calçada enquanto alguém dizia e nós íamos comer mas ela vomitava e não era da morfina talvez picada morena seus olhos carnes - era linda.
26 de abril de 2010
A bordagem
Ser homem não deve ser fácil e eu posso entender isso. Mas será que é tão difícil assim???
Bem, pelo sim e pelo não, vou dar umas dicas:
- Homens: nunca, jamais, em tempo algum, tire uma menina de sua roda de amigos arrastando-a pelo braço. Mesmo que o assunto seja da maior importância. A menos que vocês já estejam juntos e que sua mãe tenha morrido, não faça isso. Muito menos na primeira aproximação. Não dá nem pra ouvir o que é que vocês querem depois disso. Aliás, evitem tocar também. Mexa no seu cabelo, não no da menina, a menos que ela consinta. Essas aproximações precoces nos fazem querer sair correndo!
- Nunca faça elogios efusivos aos atributos físicos de uma mulher (que você não conhece ou conhece pouco) pra ela mesma. Não importa as bobagens que passem pela sua cabeça, muito menos o que você diz aos seus amigos. Seja generalista. “Você é bonita” basta pra começar. Jamais diga coisas como “Seu peito é bonito”. Não. Nããããoooo!!!
- Não fume. Mas, se fumar, faça isso longe de nós. Mesmo as que fumam, pode apostar, fazem um esforço danado para manterem-se cheirosas o dia inteiro nesta poluição de meu Deus. Fazemos manutenção do perfume, do desodorante e da maquiagem às vezes várias vezes por dia. Então, por favor, não bafore na nossa cara.
- Não diga o quanto você é bom, o quanto você sabe, o quanto você já fez, o quanto demais você é. Não seja afobado, confie em nossa inteligência e deixe que fazemos nosso próprio julgamento. Obrigada.
- Não fale das ex. Isso nos interessa e perguntaremos quando quisermos. Caso não perguntemos, não mencione seu passado. E, quando mencionar num belo dia em que seu passado sexual/afetivo seja nossa pauta, fale como se tudo tivesse acontecido em outra vida. Teatralize a questão e responda como se nem se lembrasse. Vale franzir a testa e fingir que é um grande esforço se lembrar de qualquer coisa antes de você conhecer a atual. Responda somente o que for perguntado e após cada sentença, adicione: “não era como você”.
- Não traia. Conheço muitas mulheres que considerariam a hipótese de um relacionamento aberto, algumas que já o tiveram, poucas que se deram bem com isso. Mas não conheço nenhuma que toleraria a traição. Não que não haja. Mas daí vai de você querer uma mulher com auto-estima ou sem.
- Não se drogue. As mulheres têm a atenção multifocada e detalhista, ou seja, você, homem, já está naturalmente em desvantagem em relação a nossa minúcia e destreza lingüística. São poucos os casos em que você conhece uma mulher numa situação em que sua prova de matemática pode ser o assunto. Então, facilite as coisas para você mesmo: não use entorpecentes, a menos que as mulheres sóbrias não façam seu tipo.
- Não use clichês. Pelo amor de nosso senhor, prefiram o silêncio. Frases como “o cachorro tem telefone?” só servem pra gente rir e apertar o passo.
- Seja homem. Não conheço mulher que goste que seu acompanhante faça as unhas. Mantê-las limpas já tá bom. Base é demais. Hidrate seu rosto só se estiver esturricado, do contrário, mantenha-se longe de cosméticos e frescurinhas. Isso é coisa nossa.
- Saia da casa dos seus pais. Nós, mulheres batalhadoras, não vemos com bons olhos os marmanjos que ficam com papi e mami além do necessário. Siga sua vida, seja independente, tenha autonomia, aprenda a cuidar de si.
- Seja um bom filho. Um homem que grita com a mãe não está no sonho de nenhuma mulher. Eu garanto.
- Cuide dos presentes que ganhar. Mesmo que seja só um bilhetinho. Guarde com todo o carinho, porque nós, mulheres, adoramos testar a importância que vocês atribuem a nós através da importância que vocês atribuem ao que damos a vocês.
E, a última, pra fechar com chave de outro: conquiste primeiro. Depois, pode fazer o que quiser. Coração de mulher costuma ser leal por um tempo mínimo de um ou dois anos. Seja esperto.
Bem, pelo sim e pelo não, vou dar umas dicas:
- Homens: nunca, jamais, em tempo algum, tire uma menina de sua roda de amigos arrastando-a pelo braço. Mesmo que o assunto seja da maior importância. A menos que vocês já estejam juntos e que sua mãe tenha morrido, não faça isso. Muito menos na primeira aproximação. Não dá nem pra ouvir o que é que vocês querem depois disso. Aliás, evitem tocar também. Mexa no seu cabelo, não no da menina, a menos que ela consinta. Essas aproximações precoces nos fazem querer sair correndo!
- Nunca faça elogios efusivos aos atributos físicos de uma mulher (que você não conhece ou conhece pouco) pra ela mesma. Não importa as bobagens que passem pela sua cabeça, muito menos o que você diz aos seus amigos. Seja generalista. “Você é bonita” basta pra começar. Jamais diga coisas como “Seu peito é bonito”. Não. Nããããoooo!!!
- Não fume. Mas, se fumar, faça isso longe de nós. Mesmo as que fumam, pode apostar, fazem um esforço danado para manterem-se cheirosas o dia inteiro nesta poluição de meu Deus. Fazemos manutenção do perfume, do desodorante e da maquiagem às vezes várias vezes por dia. Então, por favor, não bafore na nossa cara.
- Não diga o quanto você é bom, o quanto você sabe, o quanto você já fez, o quanto demais você é. Não seja afobado, confie em nossa inteligência e deixe que fazemos nosso próprio julgamento. Obrigada.
- Não fale das ex. Isso nos interessa e perguntaremos quando quisermos. Caso não perguntemos, não mencione seu passado. E, quando mencionar num belo dia em que seu passado sexual/afetivo seja nossa pauta, fale como se tudo tivesse acontecido em outra vida. Teatralize a questão e responda como se nem se lembrasse. Vale franzir a testa e fingir que é um grande esforço se lembrar de qualquer coisa antes de você conhecer a atual. Responda somente o que for perguntado e após cada sentença, adicione: “não era como você”.
- Não traia. Conheço muitas mulheres que considerariam a hipótese de um relacionamento aberto, algumas que já o tiveram, poucas que se deram bem com isso. Mas não conheço nenhuma que toleraria a traição. Não que não haja. Mas daí vai de você querer uma mulher com auto-estima ou sem.
- Não se drogue. As mulheres têm a atenção multifocada e detalhista, ou seja, você, homem, já está naturalmente em desvantagem em relação a nossa minúcia e destreza lingüística. São poucos os casos em que você conhece uma mulher numa situação em que sua prova de matemática pode ser o assunto. Então, facilite as coisas para você mesmo: não use entorpecentes, a menos que as mulheres sóbrias não façam seu tipo.
- Não use clichês. Pelo amor de nosso senhor, prefiram o silêncio. Frases como “o cachorro tem telefone?” só servem pra gente rir e apertar o passo.
- Seja homem. Não conheço mulher que goste que seu acompanhante faça as unhas. Mantê-las limpas já tá bom. Base é demais. Hidrate seu rosto só se estiver esturricado, do contrário, mantenha-se longe de cosméticos e frescurinhas. Isso é coisa nossa.
- Saia da casa dos seus pais. Nós, mulheres batalhadoras, não vemos com bons olhos os marmanjos que ficam com papi e mami além do necessário. Siga sua vida, seja independente, tenha autonomia, aprenda a cuidar de si.
- Seja um bom filho. Um homem que grita com a mãe não está no sonho de nenhuma mulher. Eu garanto.
- Cuide dos presentes que ganhar. Mesmo que seja só um bilhetinho. Guarde com todo o carinho, porque nós, mulheres, adoramos testar a importância que vocês atribuem a nós através da importância que vocês atribuem ao que damos a vocês.
E, a última, pra fechar com chave de outro: conquiste primeiro. Depois, pode fazer o que quiser. Coração de mulher costuma ser leal por um tempo mínimo de um ou dois anos. Seja esperto.
23 de abril de 2010
22 de abril de 2010
The ladies room
O banheiro feminino é um celeiro de boas novas, más novas, tecnologias novas e novas. Conselhos, regimes, consultas rápidas, compartilhamento de experiências com o cachorro, o filho, o namorado, o cabelo, a pele, a mãe e Deus. De vez em quando alguns flagras valem à pena, como alguém arrumando o cabelo enquanto fala com a outra, na casinha:
_ Ah... sei lá. Tô boba... rs
_ Boba?
_ É! Boba! Tô assim esses dias...
_ Por quê?
_ Ah... sei lá... Tô apaixonada.
_ Mas você não namora?
_ Uhum.
_ E faz tempo, não faz?
_ Faz! Então! É por ele mesmo que eu tô apaixonada.
_ Pelo mesmo?
_ É. Me apaixonei de novo. Sabe cumé? Me apaixonei outra vez pelo meu namorado.
Uhum. Eu sei como é. Mas, embora pareça, não é um quarto. É um banheiro.
Ajeitei eu o meu cabelo também e saí sem dizer:
_ Aaaahhhhh... sim! Eu sei, sim! Sei como é. Mas não fala pra ele senão ele monta, viu?
_ Ah... sei lá. Tô boba... rs
_ Boba?
_ É! Boba! Tô assim esses dias...
_ Por quê?
_ Ah... sei lá... Tô apaixonada.
_ Mas você não namora?
_ Uhum.
_ E faz tempo, não faz?
_ Faz! Então! É por ele mesmo que eu tô apaixonada.
_ Pelo mesmo?
_ É. Me apaixonei de novo. Sabe cumé? Me apaixonei outra vez pelo meu namorado.
Uhum. Eu sei como é. Mas, embora pareça, não é um quarto. É um banheiro.
Ajeitei eu o meu cabelo também e saí sem dizer:
_ Aaaahhhhh... sim! Eu sei, sim! Sei como é. Mas não fala pra ele senão ele monta, viu?
19 de abril de 2010
Como fazer cessar a resistência: render.
Eu era recém saída de um show de blues 10 vezes melhor do que aquele no Saloun de Georgetown. Depois de conhecer todos os caras da banda e todos os seus convidados, além da namorada do guitarrista e de um jornalista paulistano radicado em Brasília (vai entender!), saímos.
Ainda com o corpo dolorido de tanto dançar - o que até rendeu elogios da própria banda, que alegou nunca ter visto uma galera tão animada - fomos subindo a rua, sublimados e exaustos.
Daí parei. À visão daquela casa tão bonita, de tijolos branquinhos e um algo romântico, tive que parar. Fiquei olhando praquelas janelas compridas lá no alto e meus olhos foram descendo até pousar nos dois rapazes sentados à porta, num banco de madeira. Eles pararam de conversar e também me olharam.
_ Oi! - eu disse.
_ Oi! - eles responderam em uníssono.
_ O quê é aqui?
_ Um ateliê.
_ De moda?
_ É. E lá em cima funciona um salão de beleza.
_ Hum... Que casa bonita!
_ É. Vem aí durante a semana pra conhecer.
Ousada como estava e sou, acheguei-me à porta.
_ Hum... Um ateliê... Por isso aquele manequim... Bonito o vestido! Você é designer de moda?
_ Sou sim. Gostou do vestido?
_ Uhum!
_ Quer ver?
_ Quero!!!
_ Tá. Vem.
Entramos e o Alessandro foi me mostrando tudo. Vestidos, camisas e até uma calça-meio-saia que ele fez pra Vanessa da Mata. Olhei tudo e voltamos pro banco na porta.
_ Sabe, eu tava aqui falando com meu amigo, Del, sobre uma peça que vimos esta noite. Se chama A Alma Imoral e...
_ Ah!!! Eu já vi duas vezes!!! É demais!!!
Ficamos conversando sobre a peça, tradição, traição e transgressão, até que mais gente saiu do que fora um show de blues minutos antes. Ao ver o papo empolgado, elas passaram devagar, num jeito de tentar nos entender. Aproveitei pra dizer que ali funcionava um ateliê e em cima um salão de beleza. Levei-as pra dentro e aproveitei pra mostrar a calça-meio-saia que parece calça quando você anda e saia quando você tá parada, feita pra Vanessa da Mata. Expliquei que a especialidade era origami em tecido e elas ficaram encantadas e começaram a perguntar o preço. Chamei o Alê pra responder às dúvidas e voltei pra fora pra conversar mais com o Del.
_ ...E eu tenho uma irmã na Austrália, uma na Dinamarca, irmãos aqui em São Paulo. Mas minha família mesmo tá toda lá em Pernambuco.
_ E sua mãe não ficou triste de você vir também?
_ Não! Minha mãe é uma mulher maravilhosa. Ela sabe que filhos são pro mundo.
_ E você não sente saudades dela e dos seus irmãos?
_ Sinto.
_ E aí?
_ Saudade não é uma coisa que você desliga, que você corta. Você nunca interrompe a saudade. Você vive com ela.
_ Mas saudade dói...
_ Não! Dói pra você? Pra mim não...
_ Pra mim dói! É um sofrimento!
_ Não! Nossa... não é não! Eu não sofro. Saudade é um sentimento bom.
_ Mas é um vazio, uma falta.
_ Não... A distância não termina com o afeto e afeto não pode ser sofrimento.
_ Você não sofre por isso?
_ Não.
_ Pelo quê você sofre?
Ele parou, olhou pro horizonte curto, que ia até o outro lado da rua. Mexeu os olhos num jeito de se examinar a si mesmo, olhando pra fora, mas vendo por dentro.
_ Você não sofre por nada?
_ Olha... Eu procuro viver a vida pela perspectiva do positivo, do prazer, não do sofrimento. Eu fico triste às vezes, mas sofrer... Não... Sofrer não.
Encantada.
Minutos depois, me despedi do desconhecido-irmão e fui pra dentro da casa, dar um tchau pro Alê também.
_ Que signo cê é? - ele me perguntou. E respondemos juntos:
_ Sagitário!
_ Como você sabe?
_ Ah... Porque você é a típica sagitariana. Olha isso! A menina tá até experimentando as roupas. São três e meia da manhã e meu ateliê estava fechado. Você não só abriu, como trouxe mais gente e ainda vendeu minhas roupas! Adorei te conhecer. Foi um prazer, Camila. Obrigado.
_ Magina! Prazer foi meu em conhecê-lo. Nos veremos de novo. Beijo!
Saldo da noite: uma Bia, namorada de um Celso Salim que toca com um Sérgio Duarte (gaita), um Paulinho (batera) e um Márcio (baixista, cuja mesa estava reservada até eu me apossar indevidamente). Mais três caras gaitistas, uma vocalista maravilhosa... Um Gabriel (jornalista), um Alessandro e um Del (estilistas). Mais as roupas do Alê que eu vendi... hum...
É. Foi uma boa noite.
Ainda com o corpo dolorido de tanto dançar - o que até rendeu elogios da própria banda, que alegou nunca ter visto uma galera tão animada - fomos subindo a rua, sublimados e exaustos.
Daí parei. À visão daquela casa tão bonita, de tijolos branquinhos e um algo romântico, tive que parar. Fiquei olhando praquelas janelas compridas lá no alto e meus olhos foram descendo até pousar nos dois rapazes sentados à porta, num banco de madeira. Eles pararam de conversar e também me olharam.
_ Oi! - eu disse.
_ Oi! - eles responderam em uníssono.
_ O quê é aqui?
_ Um ateliê.
_ De moda?
_ É. E lá em cima funciona um salão de beleza.
_ Hum... Que casa bonita!
_ É. Vem aí durante a semana pra conhecer.
Ousada como estava e sou, acheguei-me à porta.
_ Hum... Um ateliê... Por isso aquele manequim... Bonito o vestido! Você é designer de moda?
_ Sou sim. Gostou do vestido?
_ Uhum!
_ Quer ver?
_ Quero!!!
_ Tá. Vem.
Entramos e o Alessandro foi me mostrando tudo. Vestidos, camisas e até uma calça-meio-saia que ele fez pra Vanessa da Mata. Olhei tudo e voltamos pro banco na porta.
_ Sabe, eu tava aqui falando com meu amigo, Del, sobre uma peça que vimos esta noite. Se chama A Alma Imoral e...
_ Ah!!! Eu já vi duas vezes!!! É demais!!!
Ficamos conversando sobre a peça, tradição, traição e transgressão, até que mais gente saiu do que fora um show de blues minutos antes. Ao ver o papo empolgado, elas passaram devagar, num jeito de tentar nos entender. Aproveitei pra dizer que ali funcionava um ateliê e em cima um salão de beleza. Levei-as pra dentro e aproveitei pra mostrar a calça-meio-saia que parece calça quando você anda e saia quando você tá parada, feita pra Vanessa da Mata. Expliquei que a especialidade era origami em tecido e elas ficaram encantadas e começaram a perguntar o preço. Chamei o Alê pra responder às dúvidas e voltei pra fora pra conversar mais com o Del.
_ ...E eu tenho uma irmã na Austrália, uma na Dinamarca, irmãos aqui em São Paulo. Mas minha família mesmo tá toda lá em Pernambuco.
_ E sua mãe não ficou triste de você vir também?
_ Não! Minha mãe é uma mulher maravilhosa. Ela sabe que filhos são pro mundo.
_ E você não sente saudades dela e dos seus irmãos?
_ Sinto.
_ E aí?
_ Saudade não é uma coisa que você desliga, que você corta. Você nunca interrompe a saudade. Você vive com ela.
_ Mas saudade dói...
_ Não! Dói pra você? Pra mim não...
_ Pra mim dói! É um sofrimento!
_ Não! Nossa... não é não! Eu não sofro. Saudade é um sentimento bom.
_ Mas é um vazio, uma falta.
_ Não... A distância não termina com o afeto e afeto não pode ser sofrimento.
_ Você não sofre por isso?
_ Não.
_ Pelo quê você sofre?
Ele parou, olhou pro horizonte curto, que ia até o outro lado da rua. Mexeu os olhos num jeito de se examinar a si mesmo, olhando pra fora, mas vendo por dentro.
_ Você não sofre por nada?
_ Olha... Eu procuro viver a vida pela perspectiva do positivo, do prazer, não do sofrimento. Eu fico triste às vezes, mas sofrer... Não... Sofrer não.
Encantada.
Minutos depois, me despedi do desconhecido-irmão e fui pra dentro da casa, dar um tchau pro Alê também.
_ Que signo cê é? - ele me perguntou. E respondemos juntos:
_ Sagitário!
_ Como você sabe?
_ Ah... Porque você é a típica sagitariana. Olha isso! A menina tá até experimentando as roupas. São três e meia da manhã e meu ateliê estava fechado. Você não só abriu, como trouxe mais gente e ainda vendeu minhas roupas! Adorei te conhecer. Foi um prazer, Camila. Obrigado.
_ Magina! Prazer foi meu em conhecê-lo. Nos veremos de novo. Beijo!
Saldo da noite: uma Bia, namorada de um Celso Salim que toca com um Sérgio Duarte (gaita), um Paulinho (batera) e um Márcio (baixista, cuja mesa estava reservada até eu me apossar indevidamente). Mais três caras gaitistas, uma vocalista maravilhosa... Um Gabriel (jornalista), um Alessandro e um Del (estilistas). Mais as roupas do Alê que eu vendi... hum...
É. Foi uma boa noite.
16 de abril de 2010
Pittoresco
Eu mesma já vi muita coisa suspeita nessa vida, como a minha irmã ganhar o prêmio de uma rifa que ela mesma vendia, por exemplo. Agora, tele-sena como moeda nacional não conhecia. Mas daí passou lá na frente de casa um alto-falante de carro:
“Pamonha, pamonha, pamonha!
Pamonha fresquinha!
Temos cural e pamonha!
Corra que já está acabando!”
Até aí já é bem suspeito que haja duas gravações: uma pra quando a pamonha estiver acabando e outra pra quando ainda tiver bastante. Ou será que o alto-falante já começa anunciando, às 6h da manhã, que a pamonha está acabando? Será que é pra causar uma espécie de pânico social e precipitação coletiva em direção à (toda) pamonha restante?
“Pamonha!
3 por apenas 2 reais!
E traga sua tele-sena!
Trocamos tele-sena por pamonha!”
Opa!
Aí é negócio, hein?
Procurei a dona da voz feminina dentro do carro, mas me deparei com um baixinho bigodudo.
Hummm...
Voz de mulher + 3 por $2 + já tá acabando às 2h da tarde + tele-sena serve + bigodudo
...Não.
...Mesmo que eu gostasse de pamonha...
Vai que é de ervilha!
“Pamonha, pamonha, pamonha!
Pamonha fresquinha!
Temos cural e pamonha!
Corra que já está acabando!”
Até aí já é bem suspeito que haja duas gravações: uma pra quando a pamonha estiver acabando e outra pra quando ainda tiver bastante. Ou será que o alto-falante já começa anunciando, às 6h da manhã, que a pamonha está acabando? Será que é pra causar uma espécie de pânico social e precipitação coletiva em direção à (toda) pamonha restante?
“Pamonha!
3 por apenas 2 reais!
E traga sua tele-sena!
Trocamos tele-sena por pamonha!”
Opa!
Aí é negócio, hein?
Procurei a dona da voz feminina dentro do carro, mas me deparei com um baixinho bigodudo.
Hummm...
Voz de mulher + 3 por $2 + já tá acabando às 2h da tarde + tele-sena serve + bigodudo
...Não.
...Mesmo que eu gostasse de pamonha...
Vai que é de ervilha!
13 de abril de 2010
Um outro dia daquele mesmo outono
Depois de sentar na beira da fonte, brincar no balanço sem ser pega pelo guardinha, olhar as crianças brigarem por um graveto, ser o personagem da obra dele na areia, tentar ler os nomes no coração de estilete na árvore e examinar de perto os cogumelos pretensamente alucinógenos que cresciam brancos feito conchas cravadas num tronco, perguntei pra ele:
_ Você se acha diferente da maioria?
_ Acho.
_ Por quê?
_ ...
_ O quê a maioria faz que você não faz? O quê a maioria tem que você não tem? O quê te faz diferente?
Ele pensou e disse, numa verdade tão sábia quanto simples e justamente por isso:
_ Eu sou diferente porque a maioria prefere ficar do outro lado do portão do parque.
Olhei pr’aquele verde, pr’aquela meia dúzia de gente e sorri diante da constatação.
_ Ótima resposta.
Algum tempo depois ele me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim, mas que era um equilíbrio frágil, como uma ponte que você não pode pular em cima.
_ Mas pode passar devagarzinho...
_ Sim. E em silêncio.
Aí, quando não dava mais pra ignorar a fome que nem a falta de apetite vencia, sentamos no MacDonald’s.
_ Viny... Olha ali... A moça tá com roupa de ginástica... Ela devia estar malhando. Mas daí sai da ginástica e vem pro MacDonald’s??? Bizarro, né?
_ Não... Cê não entendeu. Vou te explicar a lógica: algumas pessoas gostam muito de MacDonald’s. Mas daí, pra poder comer sempre que quiserem, elas fazem exercícios, pra compensar. Entendeu?
_ Ah... Eu como sempre que eu quero e não faço exercícios!
_ Bom... Nem todo mundo tem a sua sorte – disse ele me apontando.
_ Mas ela também é magra!
_ Ela é magra porque malha.
_ Hum...
_ Mas pode apostar que a coca é zero!
A gente pegou o metrô e ele me deixou na catraca, depois de enxugar minhas lágrimas nas mangas da blusa dele.
_ Obrigada...
_ Eu que agradeço.
Fiquei pensando se ele me agradeceu porque gostava muito de que alguém molhasse as mangas da blusa dele com lágrimas, mas não tive ânimo de perguntar e só acenei.
_ Você se acha diferente da maioria?
_ Acho.
_ Por quê?
_ ...
_ O quê a maioria faz que você não faz? O quê a maioria tem que você não tem? O quê te faz diferente?
Ele pensou e disse, numa verdade tão sábia quanto simples e justamente por isso:
_ Eu sou diferente porque a maioria prefere ficar do outro lado do portão do parque.
Olhei pr’aquele verde, pr’aquela meia dúzia de gente e sorri diante da constatação.
_ Ótima resposta.
Algum tempo depois ele me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim, mas que era um equilíbrio frágil, como uma ponte que você não pode pular em cima.
_ Mas pode passar devagarzinho...
_ Sim. E em silêncio.
Aí, quando não dava mais pra ignorar a fome que nem a falta de apetite vencia, sentamos no MacDonald’s.
_ Viny... Olha ali... A moça tá com roupa de ginástica... Ela devia estar malhando. Mas daí sai da ginástica e vem pro MacDonald’s??? Bizarro, né?
_ Não... Cê não entendeu. Vou te explicar a lógica: algumas pessoas gostam muito de MacDonald’s. Mas daí, pra poder comer sempre que quiserem, elas fazem exercícios, pra compensar. Entendeu?
_ Ah... Eu como sempre que eu quero e não faço exercícios!
_ Bom... Nem todo mundo tem a sua sorte – disse ele me apontando.
_ Mas ela também é magra!
_ Ela é magra porque malha.
_ Hum...
_ Mas pode apostar que a coca é zero!
A gente pegou o metrô e ele me deixou na catraca, depois de enxugar minhas lágrimas nas mangas da blusa dele.
_ Obrigada...
_ Eu que agradeço.
Fiquei pensando se ele me agradeceu porque gostava muito de que alguém molhasse as mangas da blusa dele com lágrimas, mas não tive ânimo de perguntar e só acenei.
5 de abril de 2010
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