23 de fevereiro de 2011

Kick off

Quando ouvi a expressão pela primeira vez percebi logo que era possível. Era uma combinação de palavras perfeitamente possível, mas era inusitada e encerrava algo de não-matemático.
Não-matematizável, pareceu-me, muito embora estivéssemos tratando de probabilidades.
Eu saquei na hora que escapava dos números a problemática do vício.


Enquanto a professora ia falando, explicando claramente, significando símbolos, eu parei pra pensar naquele ponto exato, bem no princípio. E precisava de tempo para desenvolver meu raciocínio. Muito tempo. Anos. Precisei de um blog pra refletir melhor.

Comecei a pensar quando a professora Catarina disse que a aula era “sobre probabilidades com dados viciados”.

Fui mal naquela prova.
E penso até hoje.

7 de janeiro de 2011

Baseado em Fatos Reais

Marcel Jabbour, muito obrigada. Dedico esse filme a você. Meus queridos Flávio Cescon, Aline Escobar, Thompson Loiola, Bruna Moro e Thais Caringe, muito obrigada pela confiança e pela dedicação. Vocês são ótimos, lindos e talentosos. Parabéns.



Sobre outras [inserção] competências


_ ...a empresa, as funções, o universo e tudo mais...

_ ...é verdade. Mas é que o departamento... o administrativo... se trocasse...

_ ... o chefe... ótimo... viagem... área...

_ ... os papéis... competência... ele é ótimo. Deve transar mal pra caralho, mas é competente e...

_ ... se mudasse... o jurídico... o R.H....

3 de janeiro de 2011

Depois de um pastel enquanto vodca com guaraná

"Para mim, o importante é compreender. Para mim, escrever é uma questão de procurar essa compreensão, parte do processo de compreender..."
Hannah Arendt


Acusam-me de narrar trivialidades como fossem proezas.
Acato.
É que a linha é fina e eu me embaraço.
Não sei bem onde começa e onde termina o prodígio, pra ser sincera. Nem agora, lembrando aqueles chaveiros todos, chocalhos. Bigode grisalho.

Eu poderia perfeitamente dizer que não tem nada de mais e ignorar solenemente a tortura, que não seria se eu apenas dissesse. Preciso cuspir o que vi, que não me pareceu banal, porque coisa alguma, pessoa alguma, é banal.

Eu me assustaria comigo, se eu não fosse eu, em diversas ocasiões. Nessa por exemplo, quando com olhos sedentos de achados eu o perscrutava inteiro. Um senhorzinho, imaginem!, senhorzinho. Tenho amor por senhorzinhos. Admiro-lhes a força masculina inquebrantável diante da inevitável, singela, suposta fragilidade. Tive que olhá-lo inteiro e reparar no macacão azul de onde lhe pendiam incontáveis chaveirinhos.

E de chapéu. Chapéu confere um ar de integridade a um homem senhor. E a pele negra me era uma ofensa histórica, porque se me ocorreu “fosse branco?”, mas não disse. Claro. Não disse nada a ninguém que me viu pensar e entendeu ali uma negativa pruma conversa que eu já deixara há tempos. Nem sei dizer quantos tempos, mas eu já estava com os chaveiros, balançando também, pronta para ser vendida, pendurada e embalada naquele colo. Amostrada.

Fui me liquidificando enquanto ele passava, de mesa em mesa, oferecendo os chaveiros que lhe vestiam o peito. De onde tinha vindo? Teria andado muito? Teria comido? Há quanto tempo não dormia? Em quê mais trabalhava? Teria filhos? Alguém?

Acordava e se olhava no espelho, disso eu tinha certeza. Tinha certeza porque o bigode era solitário no rosto, não continuava até o queixo. Ele fazia assim e precisava de um espelho. Então me pus a imaginá-lo diante de si.

Que sonhos teria? O que acharia de seu reflexo, de seu eu, de seus talentos? Que talentos teria? Que amor? Que canção? Que paixão vil? Quais vícios? Quais compromissos?

Era trivial...
...mas é que nenhuma pessoa, nenhum chaveiro, é banal.

30 de dezembro de 2010

Para uma menina com uma dor

Levou o pra sempre dela até que tudo o que eu carreguei ficasse visível. Os sentimentos ela foi digerindo a prestações, como uma dívida que não se pode pagar de uma vez só. Devia para si mesma satisfações daquele vazio imenso e não dava conta de negociar com sua sanidade o tempo que levaria. A qualquer precipitação da saudade, respondia com conspirações infinitas. Filme, cereja, memória, batida, proposta, batata, vermelho, limão, insônia, velocímetro, mel, vidro, ninho, excesso e clave de sol. Eu, do meu perto distante, predizia seus passos incidindo que ela parasse, mas minhas preces não tinham crédito desde aquela vez que dividi meu lanche na terceira série. Alterava minha perspectiva do teto para pensar com mais possibilidades o que ela estaria fazendo às 11h11, 12h12, 00h00. Meus minutos eram dela sem que nenhum de nós dois soubesse. Eu não sabia bem o que fazer do meu tempo a menos, então não me despedia. Ficava ali, mesmerizado naquela aranha. Ela tecia sua teia e eu acompanhava cada movimento, mosquito, refeição. Minha vida era dela, daquela sujeira na janela, do ventilador, todo tempo que não tinha mais a dor da menina em minhas mãos. Comigo ela sofria, mas eu estava ali, fazendo doer e assistindo. Do meu quarto eu só assistia o passado na minha versão e crença, e não levava sorrisos em contrapartida.

Para a menina, a minha dor de presente, em sua compensação. Meus não-sorrisos todos, minha falta de inspiração. Vitral, calor, clarabóia. E meu desejo de que o pra sempre dela passe na frente do meu.

28 de dezembro de 2010

Na praia

Lindo. Uma graça. Fiquei olhando ele se movimentar com elegância na minha frente. Passava, pra lá e pra cá, desfilando seu modelo de sunga comum.
...Olhos e cabelos castanhos, sobrancelhas expressivas. Reparei que, de leve, ele estava flertando com a possibilidade de estar ali mais perto.

_ Oi.
_ Oi - ele respondeu surpreso.
_ Qual o seu nome?
_ Lucas.
_ Quantos anos você tem, Lucas?
_ Sete.
_ Quer brincar?
_ Quéééééro!

7 de dezembro de 2010

Indecifrável

É que tem hora que a gente não se diz e vem alguém e faz. Não sabendo do que eu falava, ele disse mais do que diria se soubesse, quando disse que "a distância impõe uma série de protocolos de distância. Ou você se acostuma ou não".

Ele falava do Feminino Inicial. Eu, do masculino. Mas dava na mesma.

...toda lembrança é uma saudade que foi vivida pela metade. Toda relação encerrada é como se os olhos ficassem doentes. Desaprendem a olhar. Os olhos de dentro são diferentes do de fora. Os de dentro transam com o timo a toda hora.

Não pode haver espaço para sonhos. Não existe onirismo quando há a possibilidade do tato. O máximo que se pode deixar alguém é na modorra do gostar. Nesse estado é possível provocar o susto. É como se naquele momento que antecede a passagem do sonho a memória precisasse sofrer um assalto. O amante precisar ser um ladrão de sonhos. É roubar o protagonismo de Freud.

Amor não tem projeto para futuro. Os romances mais premeditados pelos corpos acontecem pelo acaso das almas. Certas liberdades se disfarçam, na maioria das vezes, de solidão. Amor bom começa embaralhado para chegar ao final completo. O que importa numa relação é a incerteza do limite.

Sou um provençal no amor. Me rasgo, atassalho, me sangro e arranco o cascão sem pudor. Vejo as cicatrizes mais límpidas com o sangue cristalizado. Todas as minhas raízes ficam sempre à mostra porque elas adoram publicidade de dores.


Do Jornalista Bossa Nova.

4 de dezembro de 2010


22 de novembro de 2010

L.M.

Ele foi mais do que um professor. Ele ainda é meu professor. Um mestre, um exemplo, um sem par. Peguei a fila e, no meu livro que era dele, escreveu:

“À Camila, uma das inteligências mais dinâmicas e perspicazes que conheço, algumas dúvidas sobre a vida, o universo e tudo mais. Beijos.”

Acreditar eu não acredito. Mas tenho provas de que foi assim.

19 de novembro de 2010

Zurzida e após

Ainda submersa naquela aparição que era eu mesma pra mim, fantasmagórica e perdida, sentei, apática e sem vontade, no banco. Mal sabia eu que adicionaria àquela cena, mais tarde, uma musiquinha italiana, do tipo trilha-sonora-de-desenho-da-tv-cultura, instrumental. Naquela hora eu não sabia, então o leitor que acrescente o fundo, privilegiado que está pela insider. Pois bem, que era eu sem pretensão, procurando nos outros rostos o que faltava no meu. Uma certa malícia, força, volição. Eu olhava ao redor, esmilingüida e sem expressão, querendo qualquer coisa. Foi quando Deus entrou. As portas do vagão se abriram e ele veio andando, humilde, resignado, com as costas curvadas, cansado, emagrecido, senhorinho, de boné, com a barba por fazer e os cabelos sem melanina. Foi-se encaminhando pra dentro lento, mas não tão lento, apoiado numa bengalinha que era, em verdade, um guarda-chuva longo que lhe fazia às vezes de apoio. Veio vindo em minha direção e sentou-se à frente, bem perto, bem diante dos meus olhos. Ele trazia enrolado a si uma bolsa, dessas bolsas finas, como pastas, onde não cabe muita coisa. A bolsa pendia das costas e ele a ajeitou no colo. Ansioso, tirou de dentro um saco preto e, de dentro do saco, uma embalagem. Com seus dedos trêmulos e enrugados, começou a censurar o pacote de plástico. Mexeu daqui, dali, e foi me dando tempo de reparar na falta de substância. As duas pernas dele juntas davam uma minha, e eu sou magra (1,69/59). Ele fazia força, puxava com cuidadinho um fio e outro, rasgava mais um pedacinho e seguia livrando sua pequena preciosidade da capa inconveniente. Eu enxergava algo prateado, mas não identificava o que era. Minha estação chegou e levantei, bem a tempo de vê-lo tirando de dentro da bolsa azul-escuro um rádio de pilha. Ele estava assim, todo orgulhoso de si, conectando o fone no radinho, quando parti e deixei meu Deus à mercê de sua felicidade simples. No próximo, naquela dignidade infinita que eu protegeria com a minha própria, achei um Deus que me lembrou por que ainda valia à pena viver.

15 de novembro de 2010

O mundo é da calça jeans

“O tamanco é menor do que o pé dela” – pareceu pra mim violento e doce o fato de que uma negra dona de tal corpulência se equilibrasse em tamancos tão menores. Não eram um só número menor. Deviam ser uns dois ou três, porque parte alguma do pé se encaixava bem ali. Era violenta aquela constatação, porque eu mesma já havia cedido meus quadris à grama, por não agüentar meu próprio peso em sapatos fofos, enquanto ela, ela, continuava firmemente auto-sustentada. Eram pés fortes, descendentes de panturrilhas fortes. Mas a feição beirava de perto a serenidade, não fosse pela excitação de estar naquele show, ouvindo Cash na voz da Norah. Era extasiante, nós duas sabíamos. E por isso era doce. Porque as unhas dela estavam pintadas do mesmo vermelho que o vestido do palco. Estavam bem-feitas, enfeitando a ponta dos tamancos cuja antiga dona deveria ser menor. Eu ali, entre pés, pernas e bundas, ouvi dizer que “the Sun is shining now... it’s shinig on” us.


1 de novembro de 2010

The Economist sounds bitter about our outcome

Dois, entre os três destaques diários na home da Veja britânica, The Economist, versavam sobre as eleições brasileiras na tarde deste primeiro de novembro. E a The Economist, que não apresenta matérias assinadas e preza pela uniformidade do discurso e a clara opinião do veículo enquanto corporação, parece não ter se agradado do nosso resultado.

Nem estou aqui falando sobre o resultado em si que, diga-se de passagem, diz respeito aos brasileiros. Mas acompanhe minha livre tradução de alguns trechos do texto, que não chamo de matéria:

"[...] Ao escolher entre continuidade e experiência, os brasileiros escolheram continuidade.
No dia primeiro de janeiro a senhora Rousseff se tornará a próxima presidente do Brasil e a primeira mulher a ocupar o cargo. No fim das contas, foram os mais pobres e menos desenvolvidos do nordeste que a colocaram no posto. Ricos e bem-educados preferiram Serra, mas o Brasil tem menos destes. [...]"


Entre os comentários do público:

"Lula’s foreign-policy adventurism"? "Lula in lipstick"? Come on, The Economist. You can do better than that.

Eu gostaria de acreditar, mas não. Acho que a The Economist não pode fazer melhor que isso.

Leia o original: No surprises this time

29 de outubro de 2010

Exatas

Trabalho nove horas por dia. Mais uma de almoço, são dez. Mais uma hora pra ir, uma hora pra voltar, são doze. Dormir oito, são vinte. Duas horas para higiene pessoal e sobram duas. O que se faz em duas horas?

Não dá pra assistir um filme em duas horas. É preciso mais.
Em duas horas eu varro a casa, arrumo os sapatos num canto, rego as plantas, lavo a louça, esquento um bolinho e como um petit gateau. Daí tenho que ir dormir correndo, acordar correndo, tomar banho rápido e ir pro trabalho voando.


Embalada por pensamentos sombrios, fui ter com a promessa de um almoço maravilhoso.

_ Ahhhhhh... que sol gostoso! – falei espreguiçando.
_ É, não é? Esse sol lindo e eu trabalhando o dia inteiro.
_ Pois é! Tá vendo! Esse sol lindo e a gente debaixo daquela luz branca azeda. Horrível! Era pra gente estar chutando a água na beira do mar, Edi!
_ ...É... Chutar a água, deitar no sol, as crianças gritando, caindo de cara, comendo areia... É lindo, não é? Criança fazendo castelinho, comendo areia, os pais nem olhando... Os machos desfilando na praia, com o peito estufadinho para atrair as fêmeas... Muito legal assistir essas coisas...


...Mas legal MESMO é ter uma hora que compense as outras nove.

22 de outubro de 2010

Mater

Aquela maternidade parecia um afresco. Uma madona doando leite numa cena urbana. O peito um menino sugava, com a garra de quem se apropria da própria vida, doce, afoita e milagrosamente. Entre a cabeça do pequeno e o ombro da mãe, cabia ainda o maiorzinho, que desfalecia no sono infantil de qualquer-lugar-serve. Estava assim quando projetou suas pupilas nas minhas, negras, vívidas e cheias de vontade de ser mãe, e me acertou a alma o indistinguível contorno preto, denso, no rosto branco marcado. Era como uma chama trepidante e insistente tamborilando dignidade naquele vagão de gente. Ainda por cima, usava as pernas pras sacolas. Mas os filhos? Tinham mãe aqueles filhos dela.

16 de outubro de 2010

Gratuitas

_ O Laerte disse que eu tenho olhos de Capitu. Você acha?

_ Olha, se você tem olhos de Capitu eu não sei. O que eu posso dizer é que durante um bom tempo eu tive dúvidas sobre a sua pessoa.

_ Como assim?

_ Ah... eu achava que você era um lobo em pele de cordeiro.

_ E agora? Agora você sabe que eu sou um cordeiro em pele de cordeiro?

_ Não. Agora eu sei que você é um cordeiro em pele de lobo.

_ !!!

14 de outubro de 2010

Protestas

Aos poucos ela foi descolorindo, perdendo o viço. Mas não era nada radical. Aliás, quase não se percebia. Nem ela mesma percebia o quão amargo era aquele individualismo fundamentalista de que se servia involuntariamente. E foi num dia igual aos demais que não percebeu outra vez, mas a sua própria falta de ideologia lesionou sua honra irremediavelmente.

Os funcionários todos queriam cesta básica. Já haviam tido aquela conversa milhares de vezes na cozinha, na sala de fumar, nos banheiros e pelos cantos das baias, em voz baixa. Então ela decidiu falar, porque não era mesmo de ficar quieta.

_ Chefe, queremos um aumento.
_ Quem queremos?
_ Todos.
_ Todos quem?
_ Nós.
_ Não, eu não quero.
_ Nós, assalariados pra menos.
_ Ah.
_ Mas aceitamos uma cesta básica mensal, além do vale refeição que recebemos.
_ Ah.
_ Então estamos conversados?
_ Sim. Diga a todos que eu neguei.
Arriscado. Ela se gabava de não entrar em brigas assim como de não sair delas.
_ Acho que não vou dizer, não.
_ Não?
_ Não. Diga você.

E ele foi dizer:

_ Florisbela, logo você? Nós a recebemos com tanto carinho nesta casa. Está descontente?
_ Hã? Eu? Não. Eu não. Eu não disse nada...

E foi assim. Um por um. Foi naquela tarde que ela se matou. Sem sangue, sem choro, sem vela. Matou dentro dela aquela que sentia alguma solidariedade pelo povinho mais ou menos. Então a cesta básica a interessava mais do que a todos os outros? Pois bem. Só de raiva não quis mais ser amiga de Orkut daquele pessoal e saiu deletando, de uma tacada só, recepcionista, auxiliar geral, administrador e um ou outro assessor. O cúmulo! O cúmulo! E se trancou dentro dela pra não sair mais.

_ Bom dia, bom dia. Bom dia, chefe.

13 de outubro de 2010

Do vil

Tinha alguma coisa ali. Eu não sabia exatamente o quê, mas fato era que toda a vez que eu passava, fantasmas diziam “olá!”. Desfilavam em mim de poesias a lembranças, bolachas venezuelanas, leite na canequinha laranja, orações, palavras estranhas, outros idiomas e eu. Eu mesma passava num desfiladeiro envergonhando a do presente. Não porque havia algum feito vergonhoso, mas porque eu já não era aquela, simplesmente.

Olhar pro passado é necessário, às vezes. Não sei pra quê, mas sei que é. Reconheço. E evito. Ao mesmo tempo. Ali, no entanto, não havia como evitá-lo, porque não havia como evitar a mim mesma. É como tentar evitar que chova. Não adianta. De repente você está lá, com seu rebento, e chegam os progenitores em procissão, precisando te mostrar do que você é feito. Como se você já não soubesse, inclusive.

Eu era assim, vítima do que havia sido e nem era nada de mais. Uma vida, vivida, com erros e tudo. Nada grave, solene ou soberbo. Soberba, claro. Havia soberba entre os meus pecados, mas havia outros ainda. Indeclaráveis, indeléveis. Fajutos. Perto de tudo do mundo meus pecados eram santos. O mundo explodindo e eu reclusa naquela meia dúzia de leviandades infantis.

Mas era mais. Tinha alguma coisa ali entre aquelas pessoas. Eram ensaios de uma vida adulta o que eu via todos os dias, quando passava pelo mesmo lugar. Meus saltos fazendo barulho na calçada, as meninas me olhando, de cima a baixo. Os meninos também olhavam, só que com mais força e menos persuasão nos trejeitos. Tinham todos o frescor único daquela fase. Guardavam em si a exclusividade insustentável, os bônus e os prós de ser só de si, a falta de compromisso, o elixir não da vida eterna, mas das possibilidades infinitas. Os cabelos esvoaçantes e os sorrisos largos. Daqueles rostos poderiam sair juízes, heróis, artistas, deputados e revendedores da Avon. Eu brincava de adivinhar o que seriam porque já tinha feito isso comigo mesma umas cem milhões de vezes e errara em todas elas. Eu era meu próprio rascunho e eles também, flexíveis pedaços de gente sendo moldados pelo sol do meio-dia, na hora da saída do colegial. Estavam treinando para a vida e a vida treinando neles o que havia de ser.

Mas tinha ali alguma coisa. Eu passando por um rosto, um rosto e outro. Rascunhos. Até que descobri que o que havia entre eles era um texto.

28 de setembro de 2010

Do flerte líquido – pra quê serve?

Ele podia ter dito qualquer coisa, sei lá. Desde um clichê do tipo “oi, você vem sempre aqui?” até um trecho de Camões, um soneto de Vinícius, Shakespeare ou Xuxa na fase romântica. Se de nada servisse, teria me feito rir, pelo menos. Mas não. Do nada:

_ Vai chover hoje.
_ É...
_ Nossa, você se parece muito com uma ex-namorada minha.
_ Hum.
_ Aliás, você tem namorado? Você é muito linda e...


...Eu já estava do outro lado da rua me enfiando na primeira loja que vi na frente. Comprei um lenço xadrez lindo, diga-se de passagem. Lilás e preto.

Mas... o que será que ele queria que eu dissesse? Tipo:

_ Nossa! Jura que eu me pareço com a sua ex-namorada? Que legal! Vou adorar se você trocar nossos nomes!

Ou:

_ Eu? Me pareço com a sua ex-namorada? Ah... tadinho... Tá com saudade dela, tá? Vem cá, vem.

Haja paciência. Esse tipo de gente, mesmo que de terno numa travessa da Paulista, desperta nossos instintos mais primitivos.

...O de correr, no caso.

27 de setembro de 2010

Intermúndio

Felicidade pode ser carro, emprego, família, filhos, almoço, loteria, amor, amizade. Pode ser cabelo, unhas, peitos. Pode ser casa. Pode ser escola. Pode ser sapato.
...Ou pode ser papel picado.


A inocência da cena que não vi me lembrou aquela dos Filhos do Paraíso. Era felicidade de criança...

No meio do caos cinza de uma ave sem ninho e sem graça, entre carros passantes e poluição notável, fez-se silêncio na calçada. Duas crianças (dali mesmo) brincavam esquecidas do desimportante. Cada uma, a sua vez, rasgava um pedacinho de papel, lambia escrupulosamente o quadradinho e colava no rosto da outra. A cada pedaço branco cheio de saliva que aplicavam com sucesso, caíam na gargalhada. Àquela altura, as carinhas já estavam cobertas de papeizinhos.

...e não tinha explicação.

24 de setembro de 2010

Histórias da pós-modernidade / relatos de expediente

Minha filha tem quatro anos e eu sempre a coloco na caminha pra dormir. Tenho uma pasta no meu Ipod com várias músicas que ela gosta. Músicas infantis, Xuxa e tal, a pasta tem a fotinho dela, até, e eu coloco pra ela ouvir alguma coisa toda a noite. Ontem eu disse assim:

_ Vamos dormir, filhinha. Hoje você pode até escolher a música. Qual você vai querer?
_ Aquela, da Lady Gaga, pai!
_ Hum?
_ Aquela, assim: nã nã nã nã – e começou a cantarolar um trecho da Bad Romance.
_ Qual? Essa? - e coloquei a música pra ela.
_ Essa! Essa mesma! - ela respondeu já dançando.


Daí, me dei conta: realmente estamos num mundo globalizado.