30 de novembro de 2011

As meninas da relação

Aos 17, 18, há um pico. Tudo está prestes, nenhuma conclusão. As poucas certezas – vida, morte e horário pra chegar em casa – são naturalmente ignoradas por força das circunstâncias. Mas amizade é o tipo de certeza que não se ignora.

“Nossa! Nossa! Confio muito nela! Acho que quando eu tiver um marido, vou poder deixar ela dormir com ele que eu sei que nada vai acontecer”, diz Lúcia sobre sua amiga Thais, convertida em eunuco por elogio à sua alta confiabilidade.

As duas afirmam buscar uma na outra o que lhes falta. E é uma relação onde cabem poucos. Apenas duas, pra ser exata. Ninguém mais. “Duvido que alguém vai chegar agora e ser tão amiga assim. Vai nada! As amigas que se faz na adolescência é que ficam pra sempre!”- diz Lúcia, mais efusiva. Para Thais, essa é uma das grandes qualidades da amiga. “Eu acho ela muito corajosa. Ela expressa muito os sentimentos dela e é muito carinhosa. Às vezes eu queria ser mais assim.”

No histórico de brigas ainda não há registro. Para Lúcia, as qualidades da Thais é que são invejáveis. “Ela é uma pessoa com quem não tem como brigar. Não tem como ficar brava. Ela tem um jeitinho assim... que você acaba perdoando sempre. Qualquer coisa errada que ela faça, foi sempre sem querer. E ela sorri demais. Ela não tem intervalo de um minuto...” – Thais dispara a rir e Lúcia continua – “...Meio minuto. Meio minuto é muito se ela ficar séria. Ela é muito tranquila.”

Na agenda lotada das “Pints”, faculdade, cinema, trabalho e longas conversas madrugada a dentro. Para o futuro, casamento, filhos e encontro semanais para falar dos assunto sobre os quais, hoje, elas não têm tanto entendimento. “Mas com certeza a gente vai ter.” Instituir o “dia das mulheres” é essencial. Porque cada coisinha que acontece, elas compartilham e se atualizam da vida uma da outra de minuto a minuto.


24 de novembro de 2011

Primitivo

Sinto vontade de te dizer o mundo e tudo aquilo que não sei, o que ainda não foi aprendido. Eu te diria do mistério das flores e a exatidão das peles, cores, matizes do espírito que revolucionou a ausência e desafiou a extinção que éramos antes de sermos o que agora somos. Contaria dos segredos sem, contudo, revelar o vazio preenchido da vida que não conhecemos. Há mais arte nos vácuos, esquinas, largos, as praças onde respiramos. Há beleza no espaço e eu insisto em falar do que te tenho. Eu quebro, querido, a harmonia. A riqueza atroz se insinua e tenho vontade de mitigá-la, mal posso conter o impulso. Você me olha e a perfeição precisa ser violada ou terminarei sua escrava. Melhor faria eu se permanecesse calada. Sei. Porque o nada é tão sagrado e criativo quanto o verbo bem sucedido. Costumeira, costumeira. Adicta na contradição dinâmica de me ver de diferentes jeitos sempre tão estagnada. Sou eu mesma meu oposto e juramento o sacrilégio. Sou confusa porque devo ver nisso muita elegância. O ponto exato do alto é quando não nos compreendem. Aí podemos ser verdadeiros com convicta tranquilidade. Não teremos de nos explicar. A dúvida é fruto de algum entendimento. Eu, no entanto, não gozo do privilégio de poder ser ambígua ou de outra forma imprecisa. O que te digo é direto e simples, está a salvo de qualquer engano. Uso palavra que não faz curva.


Eu te amo.

16 de novembro de 2011

Da responsabilidade grande de um príncipe pequeno

"E foi então que apareceu a raposa:

_ Bom dia - disse a raposa.
_ Bom dia - respondeu polidamente o principezinho que se voltou, mas não viu nada.
_ Eu estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira...
_ Quem és tu? - perguntou o principezinho. _ Tu és bem bonita.
_ Sou uma raposa - disse a raposa.
_ Vem brincar comigo - propôs o príncipe. _ Estou tão triste...
_ Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. _ Não me cativaram ainda.
_ Ah! Desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

_ O que quer dizer cativar ?
_ Tu não és daqui. Quê procuras?
_ Procuro amigos. Que quer dizer cativar?
_ É uma coisa muito esquecida - disse a raposa. _ Significa criar laços...
_ Criar laços?
_ Exatamente. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.
E eu não tenho necessidade de ti.
E tu não tens necessidade de mim.
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...

Mas a raposa voltou à sua idéia:

_ Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música.
E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...

A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:

_ Por favor, cativa-me! - disse ela.
_ Bem quisera - disse o príncipe. _ Mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
_ A gente só conhece bem as coisas que cativou - disse a raposa. _ Os homens não têm tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!
Os homens esqueceram a verdade - disse a raposa. _ Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."


Antoine de Saint-Exupéry, 1943.

31 de outubro de 2011

Das capacidades

No começo, escrever era uma necessidade externa, algo como resolver o problema do tédio diante de uma tela e duas opções: paint ou bloco de notas. Aos poucos virou uma necessidade orgânica de limpeza. Eu me sentava e executava ali solitária meu ritual de purificação, acasalando comigo mesma e gerando mornas as idéias foscas, recém saídas da adolescência febril, etapa de mortificação. Foi quando nasceu em mim o vício de perder as horas. Nunca estive completamente recuperada do irresistível impulso de passá-las mesmerizada numa ranhura qualquer de parede, chão ou teto.
Não me lembro como foi ou quando, mas percebi que estancar vida favorece a vida. Talvez aí tenha tido início o devaneio em que me meti, de achar que sei mais ao abandonar a divina luta de ser gente.
Foi nesse lugar onde notei que a morte não é coisa de se evitar, porque ao temer uma etapa de ser, somos com menos qualidade.
Aprendi a integridade do momento de morrer antes de chegar lá, então penso que não será difícil e aí meu enleio paira. É quase querer, mas não pela morte, num modo grotesco de antecipá-la ou sucumbir.
Trata-se de um outro proceder que se descobre por ser menos vivo e atento, menos atingido pelo estímulo chamado mundo.
Algum motivo que não me parece razoável (não importa quanto esforço eu faça) sustenta o choque dessa revelação, que pode não passar de ilusão.
Pode ser pretensão existir e pensar que vive, querer resistir, querer se entregar.
Mas o fato que não me larga é essa crença ingênua no peito, que vez me dói de um vazio excruciante, outra vez me contenta fácil, que há outro eu em mim que se desprega quando eu durmo e sonho livre.
Alguém que também sou me reside, faz de mim esquizofrênica busca por aquela que vejo e se mantém inatingível, de canga branca até os pés. Dizem ser azul claro a cor do meu espírito falido em ser só o que se é essencialmente. Tive de vir pesada e agora me reclamo a ausência, pois desejo me mostrar que sempre estou fora de mim.
Encaixe bonito acontece quando um outro me completa despretensiosamente ou diz, sem querer, o que me ocorria enquanto eu bem silenciava.
Sou feita desses que me esbarram e me inventam muito melhor do que posso ser na verdade.
Naquela hora perdida, proposital e vítima ainda, sinto que não há nada de suicida na transgressão de se desejar mais efêmero, posto que nascemos e crescemos minguantes.
É viscosa e teima a espera do outro dia. E inútil. É um impulso de vivo que, neutralizado, faz de nós mais vivos, recorrentes em expressar o inexprimível. É essa a função da língua: nomear para capturar e passar adiante. A função da memória, no entanto, é esquecer que não podemos.

Eu sou boa em esquecer. Por isso escrevo.

27 de outubro de 2011

Notícias

É um momento histórico te saber em casa sozinho, lavando a roupa numa sexta-feira à noite. Não porque te seja atípico ou digno de nota que não tenhas companhia ou que tuas preferências não te levaram a outra parte. Somente que sinto, sutil e não tão lenta, a humanidade se fazendo nesse trecho de relato.

Terminamos a faculdade e aceitamos fazer coisas que pedem menos do que há em nós. A necessidade brutaliza e sossegamos no salário um tempo curto.
Não é por nada, mas é que me pareceu história viva te imaginar pendurando cuecas e meias no varal. Antes de nós, cena dessa foi feita filme, poesia, série de TV, manifesto, contrabando, escravidão.

Na nossa vez, porém, sobrou que ser o anônimo cozinhando spaghetti quebrado pra caber na panela pequena. Hidrotônico de uva verde em cima da mesa do jantar e solidão, porque a mãe que te espera o filho foi escolha precipitada ou acidente.

Onde a poesia parece dissolver e se refaz em seguida: é lá que a gente se encontra. Não junto. Você se encontra com você e eu comigo mesma. É na tentativa primata de seguir sendo que podemos nos olhar, reconhecer e, quem sabe, furar o cerco dos olhares que não nos olham. Talvez façamos algo que fira a visão indolente dos que nos ignoram tão facilmente. Quem sabe que um dia seja um esforço deixar de perceber a riqueza de aparecer na janela de uma kit da rua Aurora, porque mora ali alguém que deixa suas meias de molho para não ter que esfregar muito.

Não é pouca coisa a peculiaridade que cabe nas suas escolhas mínimas e devia haver um Morumbi inteiro que nos aplaudisse quando déssemos tchauzinho também. Porque nós vemos poesia no breu, no só, no mau e nas palavras de mais sílabas. Somos resistentes e, à nossa vez, a vanguarda do novo mundo novo.
É a história vociferando em nós no detalhe da sexta à noite, eu senti.


13 de outubro de 2011

No Aquário

Parei diante de uma tartaruga estranha, cujas patas pareciam pedras. Por ter histórico de tartarugas na família, fiquei ali algum tempo, contemplando aquela esquisitice da natureza através do vidro. Meu amigo, de olhos verdes certeiros, aproximou-se e disse, com aquele ar solene de quem informa:

_ Ela morde.

Pensei um pouco e, inconformada com tal sapiência, que não poderia ser empírica, perguntei:

_ Como você sabe?

_ O nome dela é tartaruga-mordedora.

Olhei para a placa com as informações do animal e, antes que pudesse responder, um espectador anônimo próximo salvou a questão:

_ Faz sentido, hein? Faz sentido...


9 de outubro de 2011

Jedi, 6ª

_ Sabe Camila, há um tempo atrás eu li um livro chamado A Arte Cavalheiresca Do Arqueiro Zen. É um livro muito bom, eu gostei bastante. A história é de um filósofo alemão que vai pro Japão aprender a manejar arco e flecha. Em determinado ponto o aprendiz está muito bom em acertar os alvos e seu mestre diz a ele que não é só isso. Ele aprendeu a acertar o alvo, mas não aprendeu mais nada. A questão não é o alvo, mas aquele momento exatamente antes de disparar a flecha, aquela tensão no arco antes do disparo. Esse é o momento importante. E o livro conta isso de uma forma muito poética, muito bonita. Por que você está sorrindo?

_ Porque me deu vontade de ler esse livro.

_ Tudo bem. Eu posso trazer para você. Mas o que eu estava dizendo... é... que você é isso. Essa tensão.

_ Eu sou um “quase”?

_ Não. Você é o momento que importa, Camila.

5 de outubro de 2011

Stillness

Nessa hora de almoço, como alguém que descobre o que é sagrado, percebi que poderia passar muito tempo... anos... apenas olhando a vida, sem viver, sem interferir.

Lançada ali
rija e frágil
quanto a árvore
ao lado repousada
ambas plantadas
no cimento cinza
morríamos um pouco
ao ver passar
as gentes
lentamente...

Rezávamos silenciosas
para um Deus
que nos mostrasse -
inevitável
e de um vigor
que não se ignora -
o que se vê
quando acordamos
para o céu
que há de ser
Verdade.

3 de outubro de 2011

Depurar

Após alcançar o requinte máximo da expressão – a linguagem suficiente – o refinamento seguinte é não precisá-la. A evolução do vocábulo é desaparecer com ele, entender e fazer entender a sutileza extrema dos gestos simples, não vocalizáveis. A finalidade da simbologia é a telepatia. Toda relação humana é, afinal, uma conversa de mentes.

27 de setembro de 2011

Dialogus internus in lecto mortem

Acordei velha.
Assim.
Não se preocupe comigo.
Subitamente envelheci.
Penso que acontece com muitos que conheci.
Eu, de cara lisa no espelho, de repente acorcovei.
Disseram-me que passa como veio essa estafa de vida. Só é preciso ver gente. Mas a gente é que me envelhece.
Escolhi fazer canja pro almoço, açúcar queimado e repousei. O cansaço me abateu como aviso de morte, sono pesado, irresistível.
Tive da nostalgia o apelo dos anos me questionando, primavera e verão esfriando e eu ali, bebendo as agruras mais descabidas como fosse parte do destino ou conseqüência do momento político da nação.
Fui engolindo o que não se digere e tudo aquilo eu sabia no filme que me resolvia nos dias finais. Porque aí sim a pessoa pensa na mãe, na mãe da mãe, na mãe da mãe da mãe e em todos os ex-homens.
Comigo aconteceu bonito. Vim numa trajetória retilínea de juventude e frescor de juventude e sexo de juventude. E se eu disser que não sei como foi ou de repente, minto. Repreendam-me. Eu sei que disse súbito, mas não foi e te corrijo essa mania de acreditar em tudo o que eu digo. É claro que uma pessoa conhece a própria tragédia, ainda que ignore as coisas divinas ou o carma ancestral. A verdade é que a gente se sente no declínio próspero e corriqueiro e, por isso, vai-se abandonando nos estágios intermediários até a loucura plena.
Penso eu que de todos os males que me poderiam acontecer – e penso muito em atropelamento, queda da varanda, elevador que despenca, latrocínio principalmente –, sei por que me acomete a velhice. Logo essa lesão tão sem graça e singela, que me alcançaria de qualquer maneira, alcança-me agora, cedo demais até para um ultraje.
Eu tinha pena de morrer e a fui perdendo. Daí passei do ponto. Foram várias as razões cuidadosamente entristecidas durante o contínuo da noite e do dia. Se o mundo parasse vez em quando talvez isso não me tivesse acontecido. Ou se meditasse. Recomendo a todos que meditem. Talvez isso simples me tivesse salvado, mas já é tarde. Experimentem vocês que ficam.
Eu, particularmente, não queria morrer. Mas é que sinto um cansaço tal que até me rendo. Não quero mais brigar, não quero mais ser o que não sou. Quero ser essa envelhecida de mágoas desconexas e maldadezinhas infantis.
Que não saia daqui, mas uma vez disse à vizinha – uma velha, tadinha – que era melhor que tirasse os bigodes, para não desleixar da aparência. Ela correu para dentro e por dias a vi com o buço vermelho. Insegura por não enxergar os pêlos, por via das dúvidas acho que fazia o ritual duas vezes ao dia. Mas não tinha bigodes e eu não falei que melhor seria prender aquele cabelo ralinho de gente velha. Ri durante dias, mas só por algumas semanas. Ela logo morreu e eu fiquei triste de não ter de quem rir.
Agora assim, que eu me apressei a morrer, fico cá cutucando feridas que se queriam esquecidas e vejo ainda sangrando. Essa vizinha mesma, a pobre que me acreditava... fosse ela meu pecado seria ligeiro e fácil morrer. Mas cometi desmandos que não ouso pronunciar. Seria preciso que você fosse padre.
Ou amigo.
Seria preciso um amigo íntimo, de um poder sobre mim que não há quem goze. Escolhi que não me vissem desde que finalmente aconteceu. Eu não saberia justificar minha morte precoce de velhice que só se sente, mas não se enxerga. Eu não saberia o que dizer. Além do mais, morrer é algo que se faz sozinho.
Nascer é algo que se faz sozinho. Os médicos existem para ajudar as mães, não os bebês. Os bebês nascem sozinhos e logo percebem a imensa solidão em que se meteram, por isso choram. Choram por sentir que jamais estarão ligados ao umbigo de alguém novamente. Jamais estarão tranqüilos porque há quem os cuide. Nascer é um gesto supremo de aceitação da solidão e da morte. Não tivesse nascido, não morreria e estava resolvido.
Mas fui nascer e agora também estou resoluta a aceitar o fardo da etapa última. Eu sou jovem e não precisava ir agora, bem sei.
Mas desisti.
O peso da minha alma não se descreve em uma linha de arrobas. Preciso ir que já quase não sinto mais pena e esse é o prenúncio da hora.
Vou dormir.

E assim foi, jovem e cheia de vida, aos 94 anos.

21 de setembro de 2011

Do que eu também padeço

No semáforo, à luz vermelha, duas meninas seguravam bandeiras de propagandas, indicando aos motoristas a direção de um novo condomínio. Uma delas chamou, num tom de alegria:

_ Maria! Maria! Falta só dez minutos!
_ Jura??? Dez minutos? Ah, então vamos embora! – a outra respondeu já enrolando sua bandeira.
_ Não, não! A gente não pode! É que ainda falta dez pra faltar vinte!

16 de setembro de 2011

Neutral

Alguma coisa dói em mim quando a vejo. Algo que, se não é insondável, ao menos está nos meus recônditos. Não sei por qual razão ela se apaga tanto. Só a conheço na languidez e altura do pescoço. Conheço-a nos baldes e na toquinha clássica, mas me revolta o que a deve atormentar.

Penso nela e depressa me acomete uma angústia. Tenho pra mim que é reflexo de solidão. É uma presença doce, no entanto. Muito leve. É tanto que a gente é capaz de nem notar que nos faz sombra, esvaziando a lixeirinha em baixo da mesa, uma por uma, perfeccionista.

Ela é capaz de se deitar e levantar com a mesma expressão de sonseria. Se tem pena de si não sei, mas abandonou a vivacidade categoricamente. Arrasta-se, como um espectro neutro, silenciosa e precisa por entre as baias. E misteriosa, ela. Inexpressiva, meio patife, do tipo “credo em cruz” de ser assim.

Dedica-se à higienização dos sanitários de modo a ter predileção pelos produtos mais fétidos. Pensa que assim estão mais limpos, quanto mais insuportável o cheiro que ela respira com indiferença. Acho que, no fundo, ela se testa ao seu limite e se extrapola de um propósito absurdo. O firme propósito de não ser.

11 de setembro de 2011

Íntimo

Quando baixei o vestido até a metade, era tarde. O sol me acertava de viés. Você me olhou extasiado num átimo, depois dolorido. Cambaleou sutil, franziu o cenho e se apoiou na escrivaninha. Perguntei o que o afligia e respondeu-me de olhos fechados que nada. Apertou os dedos na têmpora esquerda e disse pausado, embebido da luz: “é que quero guardar essa imagem”.

1 de setembro de 2011

Ligeiro

A esperança me espanta, comove. Na ingenuidade, quietinha, ouço um grito antigo que se embrenha na beleza de tudo idealizar, ainda que nada tenha.

Beleza, essa covarde passageira, viajante oxidada se esperando derreter. É nascida pra morrer toda vida. O tempo do saculejo é uma peraltice, que alguém estique o lençol e o lance pro alto acima da cama. Se tem sol a gente vê a poeira e acha bonito. O humano intui ser intervalo da transa que começa quando o lençol sobe. Sobe, paira sem peso e desce sobre nossos olhos cerrados. Ou vidrados.

A morte é o pedaço mais bonito da vida quando acontece. A liberdade impossível das necessidades primárias. É um coito interrompido abrupto e belo, rasgando o anseio, a fobia, a vertigem.

Pressenti beleza e morte quando ouvi dizer que aquele menino queria fazer gastronomia e por isso foi trabalhar no quiosque do shopping vendendo cup cakes.

A vida é um escândalo para quem não se escandaliza.

25 de agosto de 2011

Meu segredo até de mim


O tempo recupera e eu soube a graça. O que é pra ser é, mas vaticínio coletivo não sabia que pegava.

Muitos foram os avisos da aura que nos envolvia e amparava. Nós ignorávamos solenemente, orgulhosos da intransigência.

...Até que o chão nos teve em desistência. A gravidade nos uniu como força escorregadia... Parecia ilusão quando me descobria os truques que eu não tinha.

Tal qual botão que sela um feito sigiloso. As miudezas sussurravam no breu da casa vazia: “o que terá sido deles?”

17 de agosto de 2011

Lar

...Que a vida é encantada e, ademais, eu também fazia cabaninhas quando criança. E era generosa! Fazia para minha irmã e eu morarmos juntas! Alegria nossa era viver à parte (no meio da sala), pra sempre (por meia horinha, até que cansávamos), numa casa só nossa, só com as nossas coisas (tudo furtado dos cômodos oficiais). E ficávamos lá, fazendo nada até nos dar de tédio à claustrofobia e resolvermos “dar uma volta” e ser gente da família de novo.

Alguma vez era de armação precária a casinha. Eu, a mais velha, sustentava o edredom no ar com as próprias pernas. Outra vez, cismava de construir direito e rijo, com duas cadeiras, uma de cada lado, teto e paredes de cobertor amarrado e nós no meinho.

Dada minha vasta experiência, não pude deixar de notar a delicadeza e regularidade com que outra cabaninha era feita.

Uma caixa de papelão formava um triângulo com o muro e o chão. Um cobertor por cima conferia resistência e calor à morada, com um rasgo fino e preciso na lateral, para ventilar sem comprometer a privacidade. Uma vassoura gasta teimava em escapar e se deixar ver, que não entrava inteira no espaço. E eu sabia, por isso, que o morador o varria.

Eu passava naquela esquina e olhava pra cabana. A cabana se deixava olhar. A vida era, então, desencantada.

15 de agosto de 2011

Três da manhã

A madrugada deveria ser sagrada. Seu pico, a hora mágica de todos os anjos. No silêncio fácil eu descubro porque mesmo foi que me ocorreram as idéias e lembranças mais estúpidas e dramáticas, como casamento, tagarelices e as péssimas propagandas do guaraná Dolly.

Na imperturbabilidade de uma cidade no escuro eu consigo escutar o celular da vizinha vibrando sobre uma superfície dura. Imagino, então, com pudor súbito, o que ela deve escutar de mim.

Declarações, nascidas íntimas e sorrateiras, viram cânticos dionisíacos para a não-platéia do condomínio, forçada a ouvir o desabafo alterado e rouco na voz feminina: “Amooor. Eu quero amooor...” – de continuação indistinguível.

“Eu também quero” – pensei sem interferir na noite. Consigo pensar em um montão de gente que quer. Mas são muitas pessoas querendo amor... e poucas dispostas a se dar ao trabalho, correr o grande risco... de amar.


3h11m

12 de agosto de 2011

Ganhei uma flor branca...

No café da manhã.

Escolhi aleatoriamente uma mesinha no lugar de sempre e pedi um mineiro quente no pão francês e um toddy gelado.

Eu adoro toddy.

Mas daí veio junto uma flor branca das mãos de um mensageiro tímido:

_ É do Júnior. Ele mesmo que fez. Pra você!

O caule de canudo sustentava as pétalas de guardanapo branco, entrelaçadas cuidadosamente.

Senti minhas bochechas aquecerem e voltei pro trabalho, feliz da vida, com a flor que enfeita o porta-canetas.

Além do toddy, adoro flores brancas de guardanapo e canudo no café da manhã, descobri naquele dia.

A vida pode ser linda.



10 de agosto de 2011

Bruto

Eu não sei como tanta sujeira cabe numa pessoa. Parece que o preto se vai acumulando como que a formar um duplo do indivíduo, um outro dele mesmo que o encobre, como pêlos ou penas, talvez a lhe aquecer.

Desgrudar aquilo tudo exigiria um arranque doloroso, uma festa de despedida. Um braço forte, força párea que lhe urdisse novamente o ventre e a tez, fundida em negrume, já quase extinta. Nem feição mais, tal ponto. Debaixo de um banho se revelaria, descoberta, quiçá, que depois de um tempo até a gente se esquece da gente. Se não nos chamam pelo nome, decerto o esquecemos. Se não usamos da dignidade, não a temos.

Eu imaginava ali correntes e escutava grilhões nas passadas. Mas eram só dois pés sujos metidos em tênis velhos, silenciosos. No topo do ser sem nome, cabelo vasto e o fumo lhe fazendo contorno.

Dó, não... Era outro espécime em mim nascendo, outra manifestação quase tão ruim. A solidariedade que se tem por bicho. Um reconhecimento entre animais.


8 de agosto de 2011

Aviador

Houve um tempo em que eu queria genuinamente fazer algo relevante pela humanidade. Mas quando me deparo com essa doçura violenta que é a vida, o amor... resta-me pouco, resta-me nada a dizer.

Saint-Exupéry, autor do Pequeno Príncipe, enamorou-se certa vez, aos 43 anos, por uma menina de 23, casada, francesa.

Com tudo o que aquele amor tinha de inapropriado, lançou-se ele, com aquarelas e poesias, a conquistá-la. Em dado momento, ao ver fracassar aquele romance, escreveu à ela:

“Descubro com melancolia que meu egoísmo não é tão grande assim, pois dei ao outro o poder de me magoar. Menininha, foi com carinho que lhe dei esse poder. É com melancolia que a vejo usá-lo.” (1943)

E eu daqui, de 2011, não consigo pensar em outra forma possível de usar tamanha doçura para dizer que algo está doendo dentro.

Não me resta mais nada a dizer.