29 de abril de 2014

Corriqueiro


Fiquei meio assim, pensando como foi. Se já chegou ali moribunda, se foi moribundando aos poucos ou se moribundou de repente.
Entrei no salão da livraria e fui observando em linha: um homem com um livro grande, uma mulher com um livro pequeno, pessoas olhando as estantes, uma mulher morta...
...Uma mulher morta?
A figura deslizada em uma das poltronas se estendia sombria e lânguida, muito torta e aparentemente sem vida, descorada em roupa escura, deixando escorrer seu livro eleito entre as mãos.
Ao redor, pessoas transitavam como se nada ocorresse, como se a poltrona de óbvias serventias não se houvesse convertido no jazigo pro cansaço da bem-intencionada leitora.
No dia seguinte, quando acordei, pensei em voltar à livraria para acordá-la também e levar alguns pães de queijo. Mas tive medo de que ela não despertasse.

19 de abril de 2014

Feliz Páscoa!

























Esta coelhinha vem lembrar a todos de que na Páscoa Jesus não estava mais na cruz. Isto porque "a alma flutua, mas quando não tem leite a criança chora". Feliz Páscoa. 


20 de março de 2014

Figuras


Dia de vacina é dia de alegria. 
É o mêsniversário da nenê e nessa fase a gente comemora até os cocôs. 

Tirando o tique na cabeça, que a faz balançar pro lado e piscar involuntariamente, a enfermeira do posto de saúde é sempre muito simpática e solícita, até onde a pressa deixa ser. E sempre responde bem mais do que perguntamos também: 

__ Qual vai ser hoje? 
__ Meningite e pneumonia, mãe. Hoje em dia tem tanta doença voltando. Doenças que estavam extintas. Pneumonia mesmo, por exemplo. Tem um país aí que está tendo surto de paralisia infantil. Uma coisa horrível. Hanseníase também, que é a lepra, lembra? As doenças estão voltando mesmo. Deve ser o fim dos tempos. A bíblia diz, não diz?, que as doenças voltariam no fim do mundo? Deve ser isso. Só pode ser. 

Muito atenciosa, realmente. Fosse na lanchonete Arcos Dourados eu a recomendaria pro gerente como funcionaria do mês. Ela falaria sobre o apocalipse do picles e todos seriam gratos pela indigestão.

20 de fevereiro de 2014

A ladainha segundo


CARINA: Eu estava brincando de pular elástico lá em casa. Estava a Alicia, a irmã dela mais nova, eu e minha irmã mais nova. Eu tinha nove anos. A gente se revezava para que duas esticassem o elástico e as outras duas fossem lá para o meio pular. Era um elástico branco, largo. As crianças brincavam muito disso. E foi a minha vez. Pulei, pulei, até que errei. Fui na direção da Alicia, que segurava o elástico nas pernas sentada nas costas do sofá. Pedi licença num jeito de mostrar que era a vez dela de pular e minha vez de segurar o elástico. Apontei lá pro meio de nós esperando ela se posicionar. De repente, só me lembro de vê-la arrastar a irmã para fora de casa. Depois disso ela não atendia mais minhas ligações, não vinha mais brincar, nunca estava quando eu ia chamá-la em casa e me ignorava quando nos encontrávamos acidentalmente.

ALICIA: Eu e minha irmã estávamos brincando de pular elástico com a Carina e a irmã dela na casa delas. Eu tinha onze anos e estava sentada nas costas do sofá, segurando o elástico com as pernas para a Carina pular. Foi quando ela errou. De repente, do nada, ela disse “licença” e apontou para a porta. Não acreditei que ela estava me expulsando da casa dela só porque errou no elástico! Ela achou que a culpa foi minha! Peguei minha irmã e saí correndo de lá. Depois disso, não atendi mais as ligações e sempre pedia para alguém dizer que eu não estava quando ela aparecia. Ficamos sem nos falar durante meses.

14 de fevereiro de 2014

Ficha cadastral


__ Nome? 
__ Helena Leite. 
__ Sobrenome? 
__ Leite. 
__ Profissão? 
__ Mamar. 
__ Hobby? 
__ Mamar. 
__ Como se imagina daqui a cinco anos? 
__ Mamando. 
__ Um sonho? 
__ Uma piscina de leite. 
__ Uma fragrância? 
__ Leite de colônia. 
__ Comida favorita? 
__ Leite. 
__ Essa é a bebida! 
__ Leite também. 
__ Sobremesa? 
__ Doce de leite, leite condensado e pudim de leite. 
__ Música marcante? 
__ Mama África. 
__ Se fosse um animal, qual você seria? 
__ Um mamífero! 
__ Mas você já é! 
__ Ainda bem, né? 
__ Citação da sua vida? 
__ “Eu mamo sim e estou vivendo. Tem gente que não mama e está morrendo...”

11 de fevereiro de 2014

Da série - Rascunhos


Em terra de protesto, quem tem pau na mão é rei. 



7 de fevereiro de 2014

Especulação teo-freudiana


Estava assistindo na madrugada dia desses. Chama Ponto de Luz o programa, mas a especialidade da casa é o oposto, o inverso, o avesso. 
No que eu assisti, dois apresentadores falavam sobre a Beyoncé. A matéria que introduzia o assunto e apresentava a cantora tinha a sutileza mamutiana. 
Beyoncé provavelmente, mas não com certeza, só um palpite, talvez, e a juventude precisa estar alerta, pode ser que, e ninguém sabe, é comum que seja, e o caído quando cobra é pra valer, que é possível que Beyoncé tenha feito pactos por aí. 
É claro que ninguém pode garantir. Mas a gente tá aqui, tipo, soltando ideias, pensando livre, cogitando, indagando o universo que, como pode?, ser bonita, rica, famosa e talentosa tão jovem? 
No começo, o discurso me pareceu recalque. Minha dúvida durou pouco. 
As mulheres estão acostumadas a serem suntuosamente esnobadas, ofendidas e perseguidas por homens a quem se negam. Isso, é claro, entre os 5 e os 20 anos de idade. Coisa de garotão. A não ser que você seja um religioso especialista nas trevas. Neste caso, não é porque a mulher se negue. É só porque ela está totalmente fora de alcance.

2 de fevereiro de 2014

Da série - Rascunhos












































(Veja também, [BASEADO EM GATOS REAIS] 1)


29 de janeiro de 2014

famille


Até que conheceu um francês que iria. A família toda comemorou. Digo, a casa em Paris. As férias em Angra. Pouco tempo depois, uma desgraça. Conheceu um paulistano naturalizado mineiro que estragaria. 

__ Estou grávida. 

Da primeira vez, a alegria. 

__ Vai se chamar Larra. 
__ Lara? 
__ Larra. É frrancês. 

Apesar de ter negócios lá e deixar esposa e filha muito tempo ociosas, o francês esperava que fosse passageiro. Mas... 

__ Estou grávida. 
__ Grrávida? 
__ Não. Cauê. O pai já escolheu o nome. 
__ Ah. O pai. 

...esperava, sabe? O francês esperava que fosse só uma traição, que ela voltasse. A família toda esperava. Ela, inclusive, se esperava voltar. Até que o mineiro paulistano deu o ultimato. 

__ É o fim da picada! O fim! 

Aí ela decidiu se decidir. 
Ficou com esse segundo. E de vez em quando sai de férias com os filhos para a Europa. Ou pra Angra. 
O francês iria.

21 de janeiro de 2014

H. Leite


Um ser humano entre 0 e 2 anos de idade deve ter entre 75% e 80% do corpitcho formado por água. Mas minha filha não. O mini-corpo dela é 90%. Só que de leite. Descobri isso com observação fenomenológica. Simples: se ela verte leite até pelo nariz e ainda sobra na pancinha para conseguir engordar o dobro da média diária de recém-nascidos, temos que a soma dos quadrados dos catetos é igual à raiz quadrada da hipotenusa, representado pela seguinte função logarítmica, cujo zero é o umbigo:
Logo, 10% de Helena se distribui entre muco, mucosa, órgãos, membros, músculos, ossos e boquinha linda. O resto é o sobrenome que, diria Einstein, não pode ser coincidência. 

14 de janeiro de 2014

Primeiras heranças


__ David Luiz! Eu gosto dele! 

Lembrei daquele gol salvo no jogo contra a Espanha, no final da Copa das Confederações. E dos caracóis dos cabelos dele. São marcantes. 

__ Como se escreve? 
__ Como se escreve, querido? Escreve lá pra moça! 

A gente teve uma menina. Mas, antes, pensou em nomes para uma criança menina, menino, velhinha, velhinho, golfinho, etc. O nome de um jogador não nos havia ocorrido. Só que apareceu, diante da solicitação. 

__ Bilma. 
__ Bilma? 
__ Bilma. 
__ Vilma! 
__ Bilma. – assentiu com o mesmo sorriso. 

Na hora, fiquei pensando em quantas roupas é possível fazer em nove meses. Um monte, acho. Tantas que o filho não foi recebido como um acontecimento. Ela tinha a expressão de fato corriqueiro ao pegar, dar de mamar, responder com dificuldade aos questionamentos e deixar que escolhessem um nome para o seu terceiro filho. Quando o pai chegou e foi chamado a formalizar o nascido vivo é que se deu conta. O casal se entreolhou surpreso, como quem se lembra de algo que nem cogitou. Cochicharam e se fizeram entender no pedido para que a moça dos registros, por favor, dissesse o nome de um jogador do Brasil. Ela balbuciou um “Neymar”, mas se arrependeu rápido e engoliu de volta. Daí pediu ajuda: 

__ Neymar! – falei. 
__ Não... Eu pensei nisso, mas é muito feio... Fala outro, mais bonito... 
__ David Luiz! Eu gosto dele! 

Ficou bonito. David Luiz Numseiquê Gonzalez. Eu me lembro que terminava com Gonzalez, herança da Bolívia. Da gestação, herdou a costura e o anonimato. Dos pais, ganhou dois irmãos bolivianos e os cabelos muito negros. E na recepção, o sorriso materno, frágil, ingênuo, de quem não entende uma palavra em brasileiro.

9 de dezembro de 2013

Registros – do que se descobre


"Quando eu tinha uns três ou quatro anos, lembro de estar sentado no chão com meu álbum de figurinhas. Era um álbum da Corrida Maluca, o desenho, sabe? Eu tava colando figurinhas. De repente, me irritei, não sei por quê. Acho que estava faltando figurinhas, não sei. Então, num ataque de fúria, eu comecei a destruir o álbum. Rasguei, picotei, parecia um animal. Arranquei todas as páginas com força. Daí parei. Olhei ao redor para ver se alguém estava me olhando, se eu seria castigado. E não. Ninguém estava perto. Mas eu olhei pro álbum e percebi que a maldade que eu tinha feito foi comigo mesmo. Daí eu chorei."

17 de outubro de 2013

Carinho


14 de outubro de 2013

Efeito fita


Cortou-me o coração sabê-la sempre tão sentada, o rosto triste ao pé da escada, ajeitando o laço do presente entre as mãos. 

Como muitos romances de começo, entreteve o caminho de um e outro até que deu no horizonte. Sete anos levou o prenúncio e há um a vida estatelava na parede da frente, tanto parede que nem via janela ou porta, de novo e de novo voltando praquele que não a queria. 

Em frangalhos a menina tornava e entornava de todo o coração a simpatia pelo moço sem noção, que declarava sem cerimônia ou emoção amor por uma recém-aparecida. 

Em ocasião do aniversário, sua ex-menina lhe veio com dois presentes. Uma armação de fofoca com desejos de insucesso e um pacotinho, com laço de fita na frente, que ajeitava cuidadosamente entre as mãos, tão sentada, o rosto triste ao pé da escada. 

Cortou-me o coração.

9 de outubro de 2013

Bandidos


Assaltante de joalheria é “bandido”. 
Roubou, é “bandido”. 
É presidiário, é “bandido”. 
Justiça condenou (condenou mesmo ou vai investigar?), é “bandido”. 

Corrupto não. Condenado por mensalão é “acusado”. No máximo é chamado de “condenado do caso mensalão” mesmo. Bandido é outra coisa. Bandido é o que mata ou poderia matar com as próprias mãos, diretamente, sem intermédio de burocracia. Matar por tabela desviando verba de hospital e merenda de criancinha é ooooutro tipo de “inconstitucionalidade”. É caso de... 

...Sei lá! 
Auto-alto-padrão de televisão.

20 de setembro de 2013

Dilema


Como criar uma obra de arte depois de Deus? O que há para ser feito depois da água, do sol, das articulações da mão, da pérola, da orquídea? 

Meu cabelo pegou fogo uma manhã e nele se via um arco-íris em cada fio. Pensei “meu Deus, eu não aguento tanta arte!” 

Pareceu que a obra inteira, o mundo inteiro estava acabado e eu sobrei no meio a exemplo de imperfeição. 

Não. Mas no meio não que é muita coisa. Sobrei no canto de um mundaréu, na margem do Caminho de Leite. Ou menos. Fiquei pra bicho na ponta do cabelo ensolarado, guardando fios de arco-íris.

3 de setembro de 2013

Se velório, não agite


É uma situação peculiar. Pessoas morrem todos os dias, mas não da sua família. Então, a ocasião é mesmo um caso a ser desvendado. E em grupo. Parentes chegam de todos os lugares. Muitos, inclusive, descobrem seu parentesco ali mesmo e aproveitam para rascunhar a árvore genealógica atrás do ticket do estacionamento: 

__ Olha, Evandro, esse aqui é o Nivaldo, esposo da Armênia, filha do Gerônimo e da Claudete, lembra da Claudete?, tia da Anastácia e da Carmela, a que teve o Reginaldo depois que se separou do Moacir e se casou com... 
__ ...Tá. Começa de novo que agora eu vou anotando aqui. Nivaldo... esposo-Armênia-filha-Gerônimo-Claudete-que... Ah! Não foi a Claudete do Cícero?, que traiu o tio quando... nossa!, eu me lembro... foi um escândalo... 

Lembranças. O importante é ter recordações, mesmo que só de fatos que não se conectem com rostos. 

__ Sinto muito... 
__ Oi... eu também sinto muito... 
__ ... 
__ Quem é esse mesmo que a gente cumprimentou agora? 
__ O filho do morto. 
__ Ahn... 

Mas meus personagens favoritos são os francos, os que riem deslavadamente, aproveitam a oportunidade para um encontro informal e uma roda de conversa descontraída ao lado do caixão. Comentam a novela, contam aquela do papagaio, falam do cachorro que, espertíssimo, corre pra cozinha ao apito do microondas, a vida conjugal da vizinha, algum problema de saúde que eventualmente lembre o estado do recém-falecido e outras especulações felizes sobre a grande graça de estar ali. 

Grávidas, então, viram o centro das atenções. Celebrações efusivas à nova vida contagiam o ambiente e merecem as flores das coroas e as velas pelo anjinho que virá. Alguém, mais emotivo, quebra o clima de confraternização com um choro copioso, inconveniente. 

__ Nossa, gente. Quem é esse, fazendo esse escândalo todo? 
__ O filho do morto. Já falei! 
__ Ah, é! Tinha esquecido! 

Os mais revoltosos procuram culpados. A viúva é sempre a primeira suspeita e não demora para começar a coçar a orelha esquerda. Seja como for, o mistério precisa ser esclarecido, na esperança de que o quadro seja revertido e o defunto se levante. Um pequeno e seleto grupo, mais consciencioso, se dedica a examinar os papéis, usando a tampa do caixão para separar os documentos e avaliar com acuidade: 

__ Deixa eu te mostrar o atestado de óbito. Olha aqui. “Causa mortis: infecção generalizada”. 
__ Mas foi feita autópsia? 
__ Sim, sim. Ele morreu no hospital, mas fizeram. Até demoraram para avisar. Olha. Duas da manhã. Mas só ligaram às 9h. Deve ser por isso. 
__ Mas a infecção por causa da perna, ainda? 
__ Deve ter sido quando ele tirou a prótese. 
__ E se não foi? 
__ Deve ter sido. 
__ Foi depois da queda. 
__ É. Foi depois da queda. 
__ Então foi a queda! Essa queda aí tá mal explicada... E se ele foi empurrado? 
__ É... é fácil empurrar uma pessoa de noventa anos... 
__ E a viúva é mais nova, não é? 
__ Sim! 89 só! 
__ Tá vendo? Tem mais vigor. Será que não foi ela? 

Mas pra quebrar o gelo da névoa fúnebre, nada como as crianças... 
Crianças transformam qualquer velório em festa. Correm, gritam, mostram o que aprenderam na escolinha, falam sobre suas expectativas para o Natal e, no caso de tédio, entram por uma porta e saem por outra freneticamente, animando toda a galera num pique-esconde heterogêneo, que conta inclusive com a participação de atores dos eventos paralelos. 

__ Ahn? Quem tá aqui? Meu irmão que morreu e... O quê? A criança? Ah... Acho que ela correu ali pra fora, na direção da avenida e... 

Um velório é sempre um reencontro marcante. Não precisa de nenhum extra, DJ ou lembrancinhas. Ele clean já é demasiado.