4 de julho de 2012

Sobre o peixe




Eu posso explicar. Meu peixe QUIS morrer.

Como eu sei? Ora... esse é o tipo de coisa que se percebe convivendo com alguém. Uma certa melancolia, tendência suicida, a fome que não quer ser satisfeita, a dor que se alimenta.

Ele quis.

Em compensação, Vítor Massao tirou uma foto do peixe e o eternizou até mais bonito do que era na verdade.

Meu peixe era selvagem. Não se importou com meus sentimentos e morreu.

Dia desses, conversando com o poeta, refleti sobre essa conduta:

“A selvageria me parece ser alada. Terrestre quando quer, escapa pelos altos fazendo de qualquer céu a saída. Se o redor se estreitou, a tática é buraco, mergulho, vôo. Selvageria pra mim se parece com velocidade e baixa inclinação à redenção. É uma disposição infinita e violenta à lealdade consigo mesmo, ainda que contradiga compromissos, verdades, virtudes e sentimentos alheios.

Eu, por exemplo, considero-me um ser selvagem. E é uma pena que reconheçam nisso algo a temer. Não é. O selvagem não é duro, pelo contrário. É mole, afável, mas vigoroso. De um selvagem jamais se verá atitudes medianas, meramente políticas, preocupadas com a polidez. O selvagem fere, mas ninguém mais do que ele está aberto ao sofrimento. 

E não é assim, poeta, que só estando aberto ao sofrimento estamos verdadeiramente postos a amar?

O peito do selvagem se oferece como alvo todo o tempo. A dor selvageriza. Cavalgar, voar, mergulhar, livrar-se da lança sabendo que nunca completamente. Empreender o esforço perdido de se poupar, amar um pouco menos, conter-se um pouco mais.”



3 comentários:

Madson Hudson disse...

Sabe o que é mais engraçado, escritora? Ele morreu sem nome. Quase um exilado dele mesmo. Preso a identidade que ele sequer conheceu. Tadinho.

Sobre o ser selvagem, a opinião deste escriba a escritora já conhece. Não carece aqui de comentar.

Concordo com tudo no texto. Menos algo.

Retiraria a partícula apassivadora do conter.

"Amar um pouco menos. Conte um pouco mais".

Magno Nunes disse...

Tinha nome sim senhor, era Chopin. Mas nem deu tempo de se acostumar...

Quanto ao peixe, faltou um aquário e um filtro. Sem oxigênio ele morre mesmo...

Foi-se Chopin, antes peixe, futuramente petróleo!

Joey Marrie disse...

Não que tenha algo a haver, mas lembrou-me...

http://www.joeymarrie.blogspot.com.br/2011/07/um-parecer.html