3 de janeiro de 2011

Depois de um pastel enquanto vodca com guaraná

"Para mim, o importante é compreender. Para mim, escrever é uma questão de procurar essa compreensão, parte do processo de compreender..."
Hannah Arendt


Acusam-me de narrar trivialidades como fossem proezas.
Acato.
É que a linha é fina e eu me embaraço.
Não sei bem onde começa e onde termina o prodígio, pra ser sincera. Nem agora, lembrando aqueles chaveiros todos, chocalhos. Bigode grisalho.

Eu poderia perfeitamente dizer que não tem nada de mais e ignorar solenemente a tortura, que não seria se eu apenas dissesse. Preciso cuspir o que vi, que não me pareceu banal, porque coisa alguma, pessoa alguma, é banal.

Eu me assustaria comigo, se eu não fosse eu, em diversas ocasiões. Nessa por exemplo, quando com olhos sedentos de achados eu o perscrutava inteiro. Um senhorzinho, imaginem!, senhorzinho. Tenho amor por senhorzinhos. Admiro-lhes a força masculina inquebrantável diante da inevitável, singela, suposta fragilidade. Tive que olhá-lo inteiro e reparar no macacão azul de onde lhe pendiam incontáveis chaveirinhos.

E de chapéu. Chapéu confere um ar de integridade a um homem senhor. E a pele negra me era uma ofensa histórica, porque se me ocorreu “fosse branco?”, mas não disse. Claro. Não disse nada a ninguém que me viu pensar e entendeu ali uma negativa pruma conversa que eu já deixara há tempos. Nem sei dizer quantos tempos, mas eu já estava com os chaveiros, balançando também, pronta para ser vendida, pendurada e embalada naquele colo. Amostrada.

Fui me liquidificando enquanto ele passava, de mesa em mesa, oferecendo os chaveiros que lhe vestiam o peito. De onde tinha vindo? Teria andado muito? Teria comido? Há quanto tempo não dormia? Em quê mais trabalhava? Teria filhos? Alguém?

Acordava e se olhava no espelho, disso eu tinha certeza. Tinha certeza porque o bigode era solitário no rosto, não continuava até o queixo. Ele fazia assim e precisava de um espelho. Então me pus a imaginá-lo diante de si.

Que sonhos teria? O que acharia de seu reflexo, de seu eu, de seus talentos? Que talentos teria? Que amor? Que canção? Que paixão vil? Quais vícios? Quais compromissos?

Era trivial...
...mas é que nenhuma pessoa, nenhum chaveiro, é banal.

4 comentários:

Joey Marrie disse...

Como já disse antes, nenhuma pessoa é banal, assim como não podem ser banais as palavras ditas e sentidas pelo que os olhos viram. Olhos cheios de sensibilidade, que não apenas olham, mas enxergam, além do que a maioria vê como algo trivialmente banal!

Madson disse...

Curioso. Fiquei pensando agora qual chaveiro daqueles eu seria.

Talvez um cafona daqueles escrito "love". Mas certamente eu não seria um daqueles barulhentos.

Belo texto.

Magno Nunes disse...

Acho que o Madson seria um daqueles que piscam na balada, nipe The Week em dias de Gambiarra! ahahahaha

Mas vc não foi ver o que tinha a mais na história?

Me convida?

Rogerio Barbosa disse...

O que é a banalidade? Não em todos, mas em muitos casos, chamamos de banais aqueles que encontram uma forma simples de ter tudo aquilo que buscamos por caminhos complexos, por meio de livros, diplomas, títulos, empregos: o prazer, a felicidade, a paz de espírito. Tudo isso é uma questão que pode ser explicada pela semiótica.
Aqueles que chamamos de banais, quando nos olham enxergam apenas futilidades. É uma questão de ponto de vista.
Futilidade ou banalidade? Onde você vai ficar.