27 de setembro de 2011

Dialogus internus in lecto mortem

Acordei velha.
Assim.
Não se preocupe comigo.
Subitamente envelheci.
Penso que acontece com muitos que conheci.
Eu, de cara lisa no espelho, de repente acorcovei.
Disseram-me que passa como veio essa estafa de vida. Só é preciso ver gente. Mas a gente é que me envelhece.
Escolhi fazer canja pro almoço, açúcar queimado e repousei. O cansaço me abateu como aviso de morte, sono pesado, irresistível.
Tive da nostalgia o apelo dos anos me questionando, primavera e verão esfriando e eu ali, bebendo as agruras mais descabidas como fosse parte do destino ou conseqüência do momento político da nação.
Fui engolindo o que não se digere e tudo aquilo eu sabia no filme que me resolvia nos dias finais. Porque aí sim a pessoa pensa na mãe, na mãe da mãe, na mãe da mãe da mãe e em todos os ex-homens.
Comigo aconteceu bonito. Vim numa trajetória retilínea de juventude e frescor de juventude e sexo de juventude. E se eu disser que não sei como foi ou de repente, minto. Repreendam-me. Eu sei que disse súbito, mas não foi e te corrijo essa mania de acreditar em tudo o que eu digo. É claro que uma pessoa conhece a própria tragédia, ainda que ignore as coisas divinas ou o carma ancestral. A verdade é que a gente se sente no declínio próspero e corriqueiro e, por isso, vai-se abandonando nos estágios intermediários até a loucura plena.
Penso eu que de todos os males que me poderiam acontecer – e penso muito em atropelamento, queda da varanda, elevador que despenca, latrocínio principalmente –, sei por que me acomete a velhice. Logo essa lesão tão sem graça e singela, que me alcançaria de qualquer maneira, alcança-me agora, cedo demais até para um ultraje.
Eu tinha pena de morrer e a fui perdendo. Daí passei do ponto. Foram várias as razões cuidadosamente entristecidas durante o contínuo da noite e do dia. Se o mundo parasse vez em quando talvez isso não me tivesse acontecido. Ou se meditasse. Recomendo a todos que meditem. Talvez isso simples me tivesse salvado, mas já é tarde. Experimentem vocês que ficam.
Eu, particularmente, não queria morrer. Mas é que sinto um cansaço tal que até me rendo. Não quero mais brigar, não quero mais ser o que não sou. Quero ser essa envelhecida de mágoas desconexas e maldadezinhas infantis.
Que não saia daqui, mas uma vez disse à vizinha – uma velha, tadinha – que era melhor que tirasse os bigodes, para não desleixar da aparência. Ela correu para dentro e por dias a vi com o buço vermelho. Insegura por não enxergar os pêlos, por via das dúvidas acho que fazia o ritual duas vezes ao dia. Mas não tinha bigodes e eu não falei que melhor seria prender aquele cabelo ralinho de gente velha. Ri durante dias, mas só por algumas semanas. Ela logo morreu e eu fiquei triste de não ter de quem rir.
Agora assim, que eu me apressei a morrer, fico cá cutucando feridas que se queriam esquecidas e vejo ainda sangrando. Essa vizinha mesma, a pobre que me acreditava... fosse ela meu pecado seria ligeiro e fácil morrer. Mas cometi desmandos que não ouso pronunciar. Seria preciso que você fosse padre.
Ou amigo.
Seria preciso um amigo íntimo, de um poder sobre mim que não há quem goze. Escolhi que não me vissem desde que finalmente aconteceu. Eu não saberia justificar minha morte precoce de velhice que só se sente, mas não se enxerga. Eu não saberia o que dizer. Além do mais, morrer é algo que se faz sozinho.
Nascer é algo que se faz sozinho. Os médicos existem para ajudar as mães, não os bebês. Os bebês nascem sozinhos e logo percebem a imensa solidão em que se meteram, por isso choram. Choram por sentir que jamais estarão ligados ao umbigo de alguém novamente. Jamais estarão tranqüilos porque há quem os cuide. Nascer é um gesto supremo de aceitação da solidão e da morte. Não tivesse nascido, não morreria e estava resolvido.
Mas fui nascer e agora também estou resoluta a aceitar o fardo da etapa última. Eu sou jovem e não precisava ir agora, bem sei.
Mas desisti.
O peso da minha alma não se descreve em uma linha de arrobas. Preciso ir que já quase não sinto mais pena e esse é o prenúncio da hora.
Vou dormir.

E assim foi, jovem e cheia de vida, aos 94 anos.

5 comentários:

Magno Nunes disse...

E foi...
Sem grecin 2000 no cabelo... Sem nda...

Arrumou os cabelos, claro. Afinal, pra chegar lá em cima tem que tá arrumada...

São Pedro é exigente!

Camila Caringe disse...

Ao Magno, meu sincero agradecimento pelo latim no contrapé.

Anônimo disse...

Sublime

Magno Nunes disse...

Salutem!

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Excelente seu conto! quer dizer, todos são, mas adorei a imagem deste.
é preciso muita delicadeza para puxar a beleza ao descrever a morte, o fim da vida. e vc o fez de maneira belíssima.

bom dia