16 de abril de 2012

Sob meus olhos incrédulos

Naquela madrugada de sábado santo chegamos à mesa do bar os dois cavalheiros, a menina e o cachorro lindo. Mas algo profundo se quebrou no intervalo entre nos sentarmos e nos levantarmos. O laço incorrompível se enroscou nas circunstâncias do debate que eu assistia. Meu nome lançado de um lado para o outro e eu sem poder sacá-lo da roda. Perdeu-se algo valioso entre dois de nós quatro. Não pude fazer mais que testemunhar.

Amizade devia ser casamento.

A propósito das rupturas

Eu sei me separar, mas não sei romper. São coisas completamente diferentes.
Não me lembro de quando usei “nunca mais” sem me arrepender.
Não dura, não pega e eu volto atrás – ainda bem.
É mais elegante simplesmente se afastar. O que vai acontecer depois ninguém sabe nem precisa saber. Porque a vida é o que se faz dela. Pode ser que as pessoas não se encontrem mais. Pode ser que sim. Pode ser que não sintam falta uma da outra. Pode ser que sim. Pode ser que uma delas tenha vontade de procurar a outra. Mas se o “nunca mais” foi posto no meio, tudo fica bem mais difícil, porque daí a reaproximação implica em que alguém quebre o pacto de “nunca mais” alguma-coisa-que-não-tem-a-menor-importância-um-tempo-depois.
Inclusive, muitas rupturas poderiam ser evitadas se o pedido prévio de afastamento fosse respeitado.

_ Olha, por favor, não quero falar com você agora, tá bom? Outra hora, outro dia, outro mês, sei lá. Agora não.
_ Como assim??? Agora não??? Então vamos romper!!!

Não precisava.
Ter que pedir reiteradamente por um afastamento leva a rupturas drásticas e desnecessárias, assim como as mazelas que vão sofrendo um processo de bioacumulação no interior do ser até serem regurgitadas sem processamento direto na cara do colega desavisado, tudinho de uma vez no fim do ano. Não há argumento ou defesa para o que se fez há anos atrás e já se esqueceu. Resultado? Ruptura.
As pessoas têm uma crença na ruptura. Elas acreditam nisso como se fosse solução de impasse ou redenção. Não é. Ao contrário, as rupturas aprofundam angústias. Dia desses conversei com um amigo que citou com pesar um rompimento de amizade. Perguntei sobre o contexto e me pareceu infantil. Ele explicou:

_ Ah... sim... Foi na quinta série.
_ Quantos anos você tem agora?
_ Trinta.
_ E o sujeito não fala com você?
_ Não. Mora no mesmo bairro, nos vemos sempre. Mas ele nem olha mais pra mim.
_ O que você acha disso?
_ Acho que eu errei, mas ele podia ter sido generoso comigo. Eu não percebi. E gosto muito dele até hoje.

Para romper é preciso gostar muito. Ruptura é coisa de quem gosta muito e não vê outra saída para o sofrimento. No desespero, castiga o outro. Mas castiga a si mesmo junto.
As pessoas podiam mesmo ser mais generosas, menos competitivas e apostar menos nos rancores das rupturas.
Eu, particularmente, não acredito em rupturas.
...Mas que elas existem, existem.

10 comentários:

Joey Marrie disse...

É, eu também não sei romper, nem pelo instante de dois dias... me dá logo uma angústia e acabo acatando a culpa da momentanea ruptura, mesmo que sequer eu saiba o motivo que levou a ela.
Não sei romper, não sei dizer não, nunca mais, não sei deixar pra lá, não sei desistir e ignorar...

Magno Nunes disse...

E as bruxas também...

No caso das rupturas elas são como sentimentos, não podemos quantificar.

Umas são maiores, outras menores. Minha fita métrica quebrou.

Mas do que estávamos falando mesmo?
Ahhh das bruxas, essas malvadas...

::massao:: disse...

Que bom que não acredita em rupturas, mesmo assim é complicado o primeiro passo do voltar... mas quando volta percebemos com mais clareza e o sen timentos sinceros pelo outr@ =)

Bjooooos no core

Rogerio Barbosa disse...

Normalmente dizemos "nunca mais" quando estamos movidos pela forte emoção e não pela razão. Não são raras as vezes em que nos arrependemos de dizer isso. Mas o fato de nos arrependermos, não quer dizer que sejamos merecedores de todo o perdão. Movidos pela emoção, pessoas matam outras. Há casos em que a Justiça não aplica pena a crimes desse tipo. Casos, por exemplo, de o marido mata a esposa, sob forte emoção. Se constatado que sofrimento dele, em virtude da ausência da mulher, é quase que insuportável, este já basta como pena. De qualquer forma, sempre pagamos um preço. Um sábio sabe que nunca se diz nunca.

Camila Caringe disse...

Ai, Rogerio Barbosa...

...Meu coração dói.

Magno Nunes disse...

Sábios de boteco, diria.

Pois os sábios de verdade são nominados.

Madson Hudson disse...

Ótimo texto. Pra ser Magno precisa ser muito Nunes. E vice-versa.

Rupturas sempre raptam alguma coisa. De um e do outro. Sempre.

Texto sensível, Caringe.

Beijos,
Madson Moraes

Anônimo disse...

"Para romper é preciso gostar muito. Ruptura é coisa de quem gosta muito e não vê outra saída para o sofrimento. No desespero, castiga o outro. Mas castiga a si mesmo junto."

Concordo plenamente! Comigo foi assim! E ainda sinto resquício de dor...

Anônimo disse...

Ainda bem que você não é como as pessoas que rompem

Camila Caringe disse...

Eu sou como as pessoas que rompem.
Igualzinha.

Só prefiro não usar formalizações que me comprometam.

Simplesmente se afastar já é algo muito eloquênte. Dizer "nunca mais" é dispensável.