12 de março de 2012
21 de fevereiro de 2012
SMS entre irmãs:
_ A piada da noite. Falei pra mamãe que ia desfilar no próximo Carnaval pela escola Beira Rio. Aí ela perguntou se eu ia fundar essa escola com o F.
_ Hahahahaha! CURTI!
_ Haha... É Grande Rio, né? A outra piada foi que a mamãe tirou uma almofada [do sofá] hoje pra lavar e o papai achou que roubaram quando ele tava com a porta aberta. Aí agora ela colocou de volta e eu liguei e falei pra ele que devolveram aqui na porta. E ele acreditou! Kkkkk! E a mamãe: “ainda bem que eu não tirei as três de uma vez, se não ele teria ido dar parte no 77° DP."
_ Meu G-zus! Mas o que é isso? Bobeira de Carnaval? Rs...
_ Ai aaaai... Delírios do seu pai aí ó!
_ Hahahahaha! CURTI!
_ Haha... É Grande Rio, né? A outra piada foi que a mamãe tirou uma almofada [do sofá] hoje pra lavar e o papai achou que roubaram quando ele tava com a porta aberta. Aí agora ela colocou de volta e eu liguei e falei pra ele que devolveram aqui na porta. E ele acreditou! Kkkkk! E a mamãe: “ainda bem que eu não tirei as três de uma vez, se não ele teria ido dar parte no 77° DP."
_ Meu G-zus! Mas o que é isso? Bobeira de Carnaval? Rs...
_ Ai aaaai... Delírios do seu pai aí ó!
10 de fevereiro de 2012
2 de fevereiro de 2012
Auto-escrito
Pai e mãe, irmã, sogro, sogra, cunhada, amigo e chaveiro a caminho, todos prontos a derrubar a porta e descobri-lo dentro ou fora, vivo ou morto.
Na última campainha ele abre, os olhos de sono, e assusta do susto na cara da amiga e da namorada.
_ Oi. Hum? Que foi?
Na última campainha ele abre, os olhos de sono, e assusta do susto na cara da amiga e da namorada.
_ Oi. Hum? Que foi?
26 de janeiro de 2012
Ao confessor
É pavor que sinto no teu soluço de criança, teu hálito com frequência interrompido e me vejo nos teus olhos claros esverdeados, súbitos espelhos onde me encontro, em repulsa me acho. Nada vale o teu sofrimento; assistir teu lábio balbuciante me faz te querer mais. É certeiro o sal de toda a tua lástima engrossar meu sangue, desesperar.
Atenta, antes de ser frágil, que meu colo se alarga à mira de tuas singelas necessidades. Esparrama teu mundo ao meu lado estendido, conta-me tudo, palavra por palavra, temos o tempo e a chuva lá fora, há verão e outono ininterruptos, de toda a maneira vamos envelhecer. É cuidado que te tenho até nos dias de deslizes torpes, dos pecados há de flagrar antigos hábitos meus rabiscos, os ensaios das melhoras que anseio tomada de júbilo a cada pequeno sinal. Não contes ainda meus acertos nem te orgulhes dos meus feitos bons superada a natureza cruel de subordinações inveteradas, apalpa o escuro até no lado claro, questiona, interroga, descubramos juntos o que também não sei de mim, o que não sabes de ti, o que não está terminado em nós.
Não me imagines anjo ou te faças infalível porque tua queda me apaixona e eu não sei amar heróis. Não escondas teus olhos subitamente tão claros. É no movimento deles que me guio a te querer acompanhar tal doçura dessa dor de crescimento.
Atenta, antes de ser frágil, que meu colo se alarga à mira de tuas singelas necessidades. Esparrama teu mundo ao meu lado estendido, conta-me tudo, palavra por palavra, temos o tempo e a chuva lá fora, há verão e outono ininterruptos, de toda a maneira vamos envelhecer. É cuidado que te tenho até nos dias de deslizes torpes, dos pecados há de flagrar antigos hábitos meus rabiscos, os ensaios das melhoras que anseio tomada de júbilo a cada pequeno sinal. Não contes ainda meus acertos nem te orgulhes dos meus feitos bons superada a natureza cruel de subordinações inveteradas, apalpa o escuro até no lado claro, questiona, interroga, descubramos juntos o que também não sei de mim, o que não sabes de ti, o que não está terminado em nós.
Não me imagines anjo ou te faças infalível porque tua queda me apaixona e eu não sei amar heróis. Não escondas teus olhos subitamente tão claros. É no movimento deles que me guio a te querer acompanhar tal doçura dessa dor de crescimento.
17 de janeiro de 2012
Estilhaço
Foi com íntima verdade que ali deitei a vontade de eternizar o fim da madrugada. Eu sabia que estava dando um passo irreversível e satanizado, digno de não ser digno, talvez, algo que não fosse abençoado.
Eu insisti, sei. O argumento do perigo fez cócegas no meu desaviso dos abismos. Era o desvio que eu ansiava. Saltei daquele ponto maldito para um naufrágio que haveria de ser bom.
Havia de ser bom.
A minha aposta era nisso.
Havia de ser bom.
Ainda assim, foi incrédula que constatei que era bom.
Ora rejeitada, ora eu mesma por mim rejeitada e o papel a que me prestava, que de desvarios estava farta e só queria a sandice cafona de dias que não prenunciassem seu fim, mas fossem indefinidamente continuados.
Foi como violar um ambiente sacro, supostamente fraterno, que não está a salvo da mazela, do desperdício. E com patas sagitarianas pisei o terreno dos alarmes inaudíveis, das monstruosidades. O caminho da impaciência.
Eu fiz o caminho da impaciência como fosse Santiago. Entendo que o precipício é mais humano que a virtude e assenti ao ouvir que ele se havia deixado levar e fui eu a pecadora que com audácia resvalou pela fraqueza da vítima indefesa e se alojou naquele peito como a bala que se perde não antes, mas depois de ferir.
Eu me perdi.
Eu trapaceei no jogo inútil, rasguei os acordos tácitos como papéis sem serventia. Não tinham, afinal, uso para a nova situação que se instalava: a liberdade.
Tão perigosa.
Ácida, corrosiva a liberdade.
Sem volta.
Quando atinei para o que aquilo significava, veio junto a solidão e a loucura de muito tempo cultivada em nome daquilo mesmo que desagregava e fazia fome. Acreditei, sim. Fosse feia a derrota por dentro vista e abandonávamos logo. Mas não. De fora é que notam a miséria ali se revelando e debatendo como um auto-algoz. Nos oferecemos em sacrifício e achamos bonito isso. Era dessa feita que me vi primeiro ao solo, depois mais e mais soterrada do entulho do mundo, lembrança podre tecendo larvas àquele cadáver exposto que eu ensaiava ser.
Seria simples. “Levanta-te e anda” quando não houver mais espaço expansível. Haverá mais em outros sítios. Sempre há mais para a pequenez humana. E eu quieta, aprendendo a arte da obediência e da insensatez para não esquecer, fui cedendo mais e mais aos vermes, à corrosão do vacilo. Mas livrei-me quase a tempo, algo antes de ver em mim morrer de vez o que já dava sinais de envergadura e velhice precoce. Foi da vez, a última, em que acreditei no tal Deus que sabe dançar, para vê-lo sapatear meus neurônios de gente.
Frágil-frágil a dança dos interesses contidos, matrimônio e desunião num continuado de folhas cadentes e erupção. A terra também geme e por um instante me alivia pensar como a me dar consentimento. Eu hei de sofrer também e testemunhar o grito do parto, do caos, da ferida, do bote, do mal. Eu também posso gemer nessa fuga dos bichos estranhos da noite, mosca, sorte.
Necessito, no entanto, reaprender a conta-los. Preciso com urgência, modorra, náuseas, reaprender a falar. A atrofia da ligação entre palato e coração, verborrágico silêncio, espera o ritmo se instalar para gozar de novo a ingenuidade, ou pelo menos a serenidade diante da desilusão. Não há salvação, mas pode haver gozo no trajeto até a perdição infinita, eterna, onde seremos sal, evaporada a lágrima, e pó. Ex-desejo e imundice contaminando o chão das deidades fúnebres.
Animais não têm númenes. Foi lenda aquela de mãe que dada água na concha a criança desandava a falar. Pensou ela que deu certo porque apresentei indícios de repetição, ao que agora encontrei minha verdadeira vocação: o gênio de calar.
Mas eu preciso, como enferma da cura, descobrir de um outro pronome o encantamento.
Eu preciso aprender, sobretudo aprender, a dizer em voz alta:
Nós.
Eu insisti, sei. O argumento do perigo fez cócegas no meu desaviso dos abismos. Era o desvio que eu ansiava. Saltei daquele ponto maldito para um naufrágio que haveria de ser bom.
Havia de ser bom.
A minha aposta era nisso.
Havia de ser bom.
Ainda assim, foi incrédula que constatei que era bom.
Ora rejeitada, ora eu mesma por mim rejeitada e o papel a que me prestava, que de desvarios estava farta e só queria a sandice cafona de dias que não prenunciassem seu fim, mas fossem indefinidamente continuados.
Foi como violar um ambiente sacro, supostamente fraterno, que não está a salvo da mazela, do desperdício. E com patas sagitarianas pisei o terreno dos alarmes inaudíveis, das monstruosidades. O caminho da impaciência.
Eu fiz o caminho da impaciência como fosse Santiago. Entendo que o precipício é mais humano que a virtude e assenti ao ouvir que ele se havia deixado levar e fui eu a pecadora que com audácia resvalou pela fraqueza da vítima indefesa e se alojou naquele peito como a bala que se perde não antes, mas depois de ferir.
Eu me perdi.
Eu trapaceei no jogo inútil, rasguei os acordos tácitos como papéis sem serventia. Não tinham, afinal, uso para a nova situação que se instalava: a liberdade.
Tão perigosa.
Ácida, corrosiva a liberdade.
Sem volta.
Quando atinei para o que aquilo significava, veio junto a solidão e a loucura de muito tempo cultivada em nome daquilo mesmo que desagregava e fazia fome. Acreditei, sim. Fosse feia a derrota por dentro vista e abandonávamos logo. Mas não. De fora é que notam a miséria ali se revelando e debatendo como um auto-algoz. Nos oferecemos em sacrifício e achamos bonito isso. Era dessa feita que me vi primeiro ao solo, depois mais e mais soterrada do entulho do mundo, lembrança podre tecendo larvas àquele cadáver exposto que eu ensaiava ser.
Seria simples. “Levanta-te e anda” quando não houver mais espaço expansível. Haverá mais em outros sítios. Sempre há mais para a pequenez humana. E eu quieta, aprendendo a arte da obediência e da insensatez para não esquecer, fui cedendo mais e mais aos vermes, à corrosão do vacilo. Mas livrei-me quase a tempo, algo antes de ver em mim morrer de vez o que já dava sinais de envergadura e velhice precoce. Foi da vez, a última, em que acreditei no tal Deus que sabe dançar, para vê-lo sapatear meus neurônios de gente.
Frágil-frágil a dança dos interesses contidos, matrimônio e desunião num continuado de folhas cadentes e erupção. A terra também geme e por um instante me alivia pensar como a me dar consentimento. Eu hei de sofrer também e testemunhar o grito do parto, do caos, da ferida, do bote, do mal. Eu também posso gemer nessa fuga dos bichos estranhos da noite, mosca, sorte.
Necessito, no entanto, reaprender a conta-los. Preciso com urgência, modorra, náuseas, reaprender a falar. A atrofia da ligação entre palato e coração, verborrágico silêncio, espera o ritmo se instalar para gozar de novo a ingenuidade, ou pelo menos a serenidade diante da desilusão. Não há salvação, mas pode haver gozo no trajeto até a perdição infinita, eterna, onde seremos sal, evaporada a lágrima, e pó. Ex-desejo e imundice contaminando o chão das deidades fúnebres.
Animais não têm númenes. Foi lenda aquela de mãe que dada água na concha a criança desandava a falar. Pensou ela que deu certo porque apresentei indícios de repetição, ao que agora encontrei minha verdadeira vocação: o gênio de calar.
Mas eu preciso, como enferma da cura, descobrir de um outro pronome o encantamento.
Eu preciso aprender, sobretudo aprender, a dizer em voz alta:
Nós.
E seguir conjugando os verbos que lhe são destinados.
27 de dezembro de 2011
25 de dezembro de 2011
Relato de Natal, 46 anos
“No shopping tem aquelas cadeiras, para quem precisa, sabe? Cadeiras de dirigir, para quem machuca o pé ou não pode ficar andando. Você sabe como? Então! Daquelas. Eu estava esperando o elevador e chegou uma mulher com uma dessas cadeiras e o marido, ou namorado, não sei, junto. O elevador chegou e ela entrou primeiro com a cadeira, de frente, e foi pro fundo. Daí eu também entrei e virei pra porta. De repente, chegou o Papai Noel com a fadinha dele. Ele perguntou:
_ Desce?
A mulher, na cadeira, viu pelo espelho, virou com tudo e gritou:
_ Nossa!!! Eu vou descer de elevador com o Papai Noel!!!
Todo mundo olhou pra cara dela e riu. Ela disse:
_ Ai... acho que falei alto demais, né?
E ficou roxa.
Claro que, quando eu vi o Papai Noel, pensei exatamente a mesma coisa, mas eu não gritei, né? Eu só pensei. Mas achei engraçado, porque eu senti o mesmo que ela. Eu pensei: “Nossa! Tô do lado do Papai Noel!” Foi mesmo muito emocionante, só que eu não disse nada. É engraçado essa emoção que provoca nas pessoas. Nós duas já somos adultas e a gente ainda se encanta com o Papai Noel.”
_ Desce?
A mulher, na cadeira, viu pelo espelho, virou com tudo e gritou:
_ Nossa!!! Eu vou descer de elevador com o Papai Noel!!!
Todo mundo olhou pra cara dela e riu. Ela disse:
_ Ai... acho que falei alto demais, né?
E ficou roxa.
Claro que, quando eu vi o Papai Noel, pensei exatamente a mesma coisa, mas eu não gritei, né? Eu só pensei. Mas achei engraçado, porque eu senti o mesmo que ela. Eu pensei: “Nossa! Tô do lado do Papai Noel!” Foi mesmo muito emocionante, só que eu não disse nada. É engraçado essa emoção que provoca nas pessoas. Nós duas já somos adultas e a gente ainda se encanta com o Papai Noel.”
21 de dezembro de 2011
15 de dezembro de 2011
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Eu não me lembro de mais nada da menina. Apenas de seus cotovelos que mexiam. Não me lembro da voz, do cabelo, do rosto. Tenho a cor da sua pele somente porque os cotovelos estavam descobertos pela camiseta rosa. Todo o resto me escapa.
Quisera eu retê-la como fiz com o gosto do leite. Eu reconhecia quando minha mãe me enganava com leite em pó. Não era a mesma coisa, mesmo com chocolate. Eu não gostava, mas deixava passar. Reclamar é algo que sempre me deu muita preguiça. E havia outras coisas: o lilás da lancheira, o cinza do copinho, o céu que variava de tom, o chão de ladrilho – pedacinhos vermelhos de caminho –, banheiro, tanque de areia, baldinho. Ademais, como descrever um gosto?
Não queria que me fugisse, mas não sei dizer para além dos cotovelos da menina, quem eu olhava. Ela, debaixo da mesa, organizava peças gigantes de plástico colorido, como um grande quebra-cabeça.
Introspectiva e secretamente eu via que ela, de costas para a sala, não montava coisa alguma. Apenas dizia em ordem de cores e tamanhos o que era mais importante e, portanto, vinha primeiro na pilha. Eu não entendia, nem me importava averiguar. Deitava as garras em meus olhos aqueles cotovelos dançantes. A menina os movia com a segurança de ser dona deles.
Observar o movimento preciso, o baile de seus dois cantos, despertava-me a vontade, primeira vez em mim, de trabalhar. Eu tinha o impulso de pegar alguma coisa que precisasse de mim e fazer algo com aquilo, algo que precisava ser feito, nem que fosse de uma necessidade imaginária, satisfazê-la porque se tinha tornado a minha vontade inclusive.
Pasmada, desejei arrancar a menina daquele espaço onde ela se fechara, santa e resoluta, debaixo da mesa do refeitório. Quis só para mim a carência de ordem das peças, tocá-las, amassá-las, fazer nada para que vissem meus cotovelos queixosos de execução da tarefa que me deleitaria também.
Não sei quanto tempo passei pensando, sozinha, concentrada naquela concentração de menina. Mas a gente sente quando nos olham e virei pro lado. Minha mãe sorria para mim da porta. Não precisou estender os braços. Levantei-me e fui andando na direção dela. Minha mãe disse que tinha estado ali me olhando “um tempão”.
Não sei o que é ou quanto “um tempão”, assim como não sei contar o gosto do leite. Se há de servir a alguém, sei tampouco. Restou em meu relato a imagem dos cotovelos. Para mim, vale a pena sabê-los.
Quisera eu retê-la como fiz com o gosto do leite. Eu reconhecia quando minha mãe me enganava com leite em pó. Não era a mesma coisa, mesmo com chocolate. Eu não gostava, mas deixava passar. Reclamar é algo que sempre me deu muita preguiça. E havia outras coisas: o lilás da lancheira, o cinza do copinho, o céu que variava de tom, o chão de ladrilho – pedacinhos vermelhos de caminho –, banheiro, tanque de areia, baldinho. Ademais, como descrever um gosto?
Não queria que me fugisse, mas não sei dizer para além dos cotovelos da menina, quem eu olhava. Ela, debaixo da mesa, organizava peças gigantes de plástico colorido, como um grande quebra-cabeça.
Introspectiva e secretamente eu via que ela, de costas para a sala, não montava coisa alguma. Apenas dizia em ordem de cores e tamanhos o que era mais importante e, portanto, vinha primeiro na pilha. Eu não entendia, nem me importava averiguar. Deitava as garras em meus olhos aqueles cotovelos dançantes. A menina os movia com a segurança de ser dona deles.
Observar o movimento preciso, o baile de seus dois cantos, despertava-me a vontade, primeira vez em mim, de trabalhar. Eu tinha o impulso de pegar alguma coisa que precisasse de mim e fazer algo com aquilo, algo que precisava ser feito, nem que fosse de uma necessidade imaginária, satisfazê-la porque se tinha tornado a minha vontade inclusive.
Pasmada, desejei arrancar a menina daquele espaço onde ela se fechara, santa e resoluta, debaixo da mesa do refeitório. Quis só para mim a carência de ordem das peças, tocá-las, amassá-las, fazer nada para que vissem meus cotovelos queixosos de execução da tarefa que me deleitaria também.
Não sei quanto tempo passei pensando, sozinha, concentrada naquela concentração de menina. Mas a gente sente quando nos olham e virei pro lado. Minha mãe sorria para mim da porta. Não precisou estender os braços. Levantei-me e fui andando na direção dela. Minha mãe disse que tinha estado ali me olhando “um tempão”.
Não sei o que é ou quanto “um tempão”, assim como não sei contar o gosto do leite. Se há de servir a alguém, sei tampouco. Restou em meu relato a imagem dos cotovelos. Para mim, vale a pena sabê-los.
8 de dezembro de 2011
Infanto-lógica
Depois de muito tempo chamando a tia Carine de Cacá e o tio Celso de Cecé, a menina descobriu que a tia, na verdade, não se chamava Cacá.
_ Você se chama Carine, tia?
_ É!
_ Nossa...
_ Cê não sabia?
_ Não...
_ Cê pensou que fosse só Cacá?
_ É...
_ Ah... É Carine! E o nome do tio, Cecé? Você sabe como é na verdade?
_ Sei!
_ Sabe?
_ Sei!
_ Como é?
_ Cerine!
A lógica foi perfeita, não se pode negar.
_ Você se chama Carine, tia?
_ É!
_ Nossa...
_ Cê não sabia?
_ Não...
_ Cê pensou que fosse só Cacá?
_ É...
_ Ah... É Carine! E o nome do tio, Cecé? Você sabe como é na verdade?
_ Sei!
_ Sabe?
_ Sei!
_ Como é?
_ Cerine!
A lógica foi perfeita, não se pode negar.
30 de novembro de 2011
As meninas da relação
Aos 17, 18, há um pico. Tudo está prestes, nenhuma conclusão. As poucas certezas – vida, morte e horário pra chegar em casa – são naturalmente ignoradas por força das circunstâncias. Mas amizade é o tipo de certeza que não se ignora.
“Nossa! Nossa! Confio muito nela! Acho que quando eu tiver um marido, vou poder deixar ela dormir com ele que eu sei que nada vai acontecer”, diz Lúcia sobre sua amiga Thais, convertida em eunuco por elogio à sua alta confiabilidade.
As duas afirmam buscar uma na outra o que lhes falta. E é uma relação onde cabem poucos. Apenas duas, pra ser exata. Ninguém mais. “Duvido que alguém vai chegar agora e ser tão amiga assim. Vai nada! As amigas que se faz na adolescência é que ficam pra sempre!”- diz Lúcia, mais efusiva. Para Thais, essa é uma das grandes qualidades da amiga. “Eu acho ela muito corajosa. Ela expressa muito os sentimentos dela e é muito carinhosa. Às vezes eu queria ser mais assim.”
No histórico de brigas ainda não há registro. Para Lúcia, as qualidades da Thais é que são invejáveis. “Ela é uma pessoa com quem não tem como brigar. Não tem como ficar brava. Ela tem um jeitinho assim... que você acaba perdoando sempre. Qualquer coisa errada que ela faça, foi sempre sem querer. E ela sorri demais. Ela não tem intervalo de um minuto...” – Thais dispara a rir e Lúcia continua – “...Meio minuto. Meio minuto é muito se ela ficar séria. Ela é muito tranquila.”
Na agenda lotada das “Pints”, faculdade, cinema, trabalho e longas conversas madrugada a dentro. Para o futuro, casamento, filhos e encontro semanais para falar dos assunto sobre os quais, hoje, elas não têm tanto entendimento. “Mas com certeza a gente vai ter.” Instituir o “dia das mulheres” é essencial. Porque cada coisinha que acontece, elas compartilham e se atualizam da vida uma da outra de minuto a minuto.
“Nossa! Nossa! Confio muito nela! Acho que quando eu tiver um marido, vou poder deixar ela dormir com ele que eu sei que nada vai acontecer”, diz Lúcia sobre sua amiga Thais, convertida em eunuco por elogio à sua alta confiabilidade.
As duas afirmam buscar uma na outra o que lhes falta. E é uma relação onde cabem poucos. Apenas duas, pra ser exata. Ninguém mais. “Duvido que alguém vai chegar agora e ser tão amiga assim. Vai nada! As amigas que se faz na adolescência é que ficam pra sempre!”- diz Lúcia, mais efusiva. Para Thais, essa é uma das grandes qualidades da amiga. “Eu acho ela muito corajosa. Ela expressa muito os sentimentos dela e é muito carinhosa. Às vezes eu queria ser mais assim.”
No histórico de brigas ainda não há registro. Para Lúcia, as qualidades da Thais é que são invejáveis. “Ela é uma pessoa com quem não tem como brigar. Não tem como ficar brava. Ela tem um jeitinho assim... que você acaba perdoando sempre. Qualquer coisa errada que ela faça, foi sempre sem querer. E ela sorri demais. Ela não tem intervalo de um minuto...” – Thais dispara a rir e Lúcia continua – “...Meio minuto. Meio minuto é muito se ela ficar séria. Ela é muito tranquila.”
Na agenda lotada das “Pints”, faculdade, cinema, trabalho e longas conversas madrugada a dentro. Para o futuro, casamento, filhos e encontro semanais para falar dos assunto sobre os quais, hoje, elas não têm tanto entendimento. “Mas com certeza a gente vai ter.” Instituir o “dia das mulheres” é essencial. Porque cada coisinha que acontece, elas compartilham e se atualizam da vida uma da outra de minuto a minuto.
24 de novembro de 2011
Primitivo
Sinto vontade de te dizer o mundo e tudo aquilo que não sei, o que ainda não foi aprendido. Eu te diria do mistério das flores e a exatidão das peles, cores, matizes do espírito que revolucionou a ausência e desafiou a extinção que éramos antes de sermos o que agora somos. Contaria dos segredos sem, contudo, revelar o vazio preenchido da vida que não conhecemos. Há mais arte nos vácuos, esquinas, largos, as praças onde respiramos. Há beleza no espaço e eu insisto em falar do que te tenho. Eu quebro, querido, a harmonia. A riqueza atroz se insinua e tenho vontade de mitigá-la, mal posso conter o impulso. Você me olha e a perfeição precisa ser violada ou terminarei sua escrava. Melhor faria eu se permanecesse calada. Sei. Porque o nada é tão sagrado e criativo quanto o verbo bem sucedido. Costumeira, costumeira. Adicta na contradição dinâmica de me ver de diferentes jeitos sempre tão estagnada. Sou eu mesma meu oposto e juramento o sacrilégio. Sou confusa porque devo ver nisso muita elegância. O ponto exato do alto é quando não nos compreendem. Aí podemos ser verdadeiros com convicta tranquilidade. Não teremos de nos explicar. A dúvida é fruto de algum entendimento. Eu, no entanto, não gozo do privilégio de poder ser ambígua ou de outra forma imprecisa. O que te digo é direto e simples, está a salvo de qualquer engano. Uso palavra que não faz curva.
Eu te amo.
16 de novembro de 2011
Da responsabilidade grande de um príncipe pequeno
"E foi então que apareceu a raposa:
_ Bom dia - disse a raposa.
_ Bom dia - respondeu polidamente o principezinho que se voltou, mas não viu nada.
_ Eu estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira...
_ Quem és tu? - perguntou o principezinho. _ Tu és bem bonita.
_ Sou uma raposa - disse a raposa.
_ Vem brincar comigo - propôs o príncipe. _ Estou tão triste...
_ Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. _ Não me cativaram ainda.
_ Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
_ O que quer dizer cativar ?
_ Tu não és daqui. Quê procuras?
_ Procuro amigos. Que quer dizer cativar?
_ É uma coisa muito esquecida - disse a raposa. _ Significa criar laços...
_ Criar laços?
_ Exatamente. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.
E eu não tenho necessidade de ti.
E tu não tens necessidade de mim.
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...
Mas a raposa voltou à sua idéia:
_ Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música.
E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
_ Por favor, cativa-me! - disse ela.
_ Bem quisera - disse o príncipe. _ Mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
_ A gente só conhece bem as coisas que cativou - disse a raposa. _ Os homens não têm tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!
Os homens esqueceram a verdade - disse a raposa. _ Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
_ Bom dia - disse a raposa.
_ Bom dia - respondeu polidamente o principezinho que se voltou, mas não viu nada.
_ Eu estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira...
_ Quem és tu? - perguntou o principezinho. _ Tu és bem bonita.
_ Sou uma raposa - disse a raposa.
_ Vem brincar comigo - propôs o príncipe. _ Estou tão triste...
_ Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. _ Não me cativaram ainda.
_ Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
_ O que quer dizer cativar ?
_ Tu não és daqui. Quê procuras?
_ Procuro amigos. Que quer dizer cativar?
_ É uma coisa muito esquecida - disse a raposa. _ Significa criar laços...
_ Criar laços?
_ Exatamente. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.
E eu não tenho necessidade de ti.
E tu não tens necessidade de mim.
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...
Mas a raposa voltou à sua idéia:
_ Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música.
E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
_ Por favor, cativa-me! - disse ela.
_ Bem quisera - disse o príncipe. _ Mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
_ A gente só conhece bem as coisas que cativou - disse a raposa. _ Os homens não têm tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!
Os homens esqueceram a verdade - disse a raposa. _ Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
Antoine de Saint-Exupéry, 1943.
31 de outubro de 2011
Das capacidades
No começo, escrever era uma necessidade externa, algo como resolver o problema do tédio diante de uma tela e duas opções: paint ou bloco de notas. Aos poucos virou uma necessidade orgânica de limpeza. Eu me sentava e executava ali solitária meu ritual de purificação, acasalando comigo mesma e gerando mornas as idéias foscas, recém saídas da adolescência febril, etapa de mortificação. Foi quando nasceu em mim o vício de perder as horas. Nunca estive completamente recuperada do irresistível impulso de passá-las mesmerizada numa ranhura qualquer de parede, chão ou teto.
Não me lembro como foi ou quando, mas percebi que estancar vida favorece a vida. Talvez aí tenha tido início o devaneio em que me meti, de achar que sei mais ao abandonar a divina luta de ser gente.
Foi nesse lugar onde notei que a morte não é coisa de se evitar, porque ao temer uma etapa de ser, somos com menos qualidade.
Aprendi a integridade do momento de morrer antes de chegar lá, então penso que não será difícil e aí meu enleio paira. É quase querer, mas não pela morte, num modo grotesco de antecipá-la ou sucumbir.
Trata-se de um outro proceder que se descobre por ser menos vivo e atento, menos atingido pelo estímulo chamado mundo.
Algum motivo que não me parece razoável (não importa quanto esforço eu faça) sustenta o choque dessa revelação, que pode não passar de ilusão.
Pode ser pretensão existir e pensar que vive, querer resistir, querer se entregar.
Mas o fato que não me larga é essa crença ingênua no peito, que vez me dói de um vazio excruciante, outra vez me contenta fácil, que há outro eu em mim que se desprega quando eu durmo e sonho livre.
Alguém que também sou me reside, faz de mim esquizofrênica busca por aquela que vejo e se mantém inatingível, de canga branca até os pés. Dizem ser azul claro a cor do meu espírito falido em ser só o que se é essencialmente. Tive de vir pesada e agora me reclamo a ausência, pois desejo me mostrar que sempre estou fora de mim.
Encaixe bonito acontece quando um outro me completa despretensiosamente ou diz, sem querer, o que me ocorria enquanto eu bem silenciava.
Sou feita desses que me esbarram e me inventam muito melhor do que posso ser na verdade.
Naquela hora perdida, proposital e vítima ainda, sinto que não há nada de suicida na transgressão de se desejar mais efêmero, posto que nascemos e crescemos minguantes.
É viscosa e teima a espera do outro dia. E inútil. É um impulso de vivo que, neutralizado, faz de nós mais vivos, recorrentes em expressar o inexprimível. É essa a função da língua: nomear para capturar e passar adiante. A função da memória, no entanto, é esquecer que não podemos.
Eu sou boa em esquecer. Por isso escrevo.
Não me lembro como foi ou quando, mas percebi que estancar vida favorece a vida. Talvez aí tenha tido início o devaneio em que me meti, de achar que sei mais ao abandonar a divina luta de ser gente.
Foi nesse lugar onde notei que a morte não é coisa de se evitar, porque ao temer uma etapa de ser, somos com menos qualidade.
Aprendi a integridade do momento de morrer antes de chegar lá, então penso que não será difícil e aí meu enleio paira. É quase querer, mas não pela morte, num modo grotesco de antecipá-la ou sucumbir.
Trata-se de um outro proceder que se descobre por ser menos vivo e atento, menos atingido pelo estímulo chamado mundo.
Algum motivo que não me parece razoável (não importa quanto esforço eu faça) sustenta o choque dessa revelação, que pode não passar de ilusão.
Pode ser pretensão existir e pensar que vive, querer resistir, querer se entregar.
Mas o fato que não me larga é essa crença ingênua no peito, que vez me dói de um vazio excruciante, outra vez me contenta fácil, que há outro eu em mim que se desprega quando eu durmo e sonho livre.
Alguém que também sou me reside, faz de mim esquizofrênica busca por aquela que vejo e se mantém inatingível, de canga branca até os pés. Dizem ser azul claro a cor do meu espírito falido em ser só o que se é essencialmente. Tive de vir pesada e agora me reclamo a ausência, pois desejo me mostrar que sempre estou fora de mim.
Encaixe bonito acontece quando um outro me completa despretensiosamente ou diz, sem querer, o que me ocorria enquanto eu bem silenciava.
Sou feita desses que me esbarram e me inventam muito melhor do que posso ser na verdade.
Naquela hora perdida, proposital e vítima ainda, sinto que não há nada de suicida na transgressão de se desejar mais efêmero, posto que nascemos e crescemos minguantes.
É viscosa e teima a espera do outro dia. E inútil. É um impulso de vivo que, neutralizado, faz de nós mais vivos, recorrentes em expressar o inexprimível. É essa a função da língua: nomear para capturar e passar adiante. A função da memória, no entanto, é esquecer que não podemos.
Eu sou boa em esquecer. Por isso escrevo.
27 de outubro de 2011
Notícias
É um momento histórico te saber em casa sozinho, lavando a roupa numa sexta-feira à noite. Não porque te seja atípico ou digno de nota que não tenhas companhia ou que tuas preferências não te levaram a outra parte. Somente que sinto, sutil e não tão lenta, a humanidade se fazendo nesse trecho de relato.
Terminamos a faculdade e aceitamos fazer coisas que pedem menos do que há em nós. A necessidade brutaliza e sossegamos no salário um tempo curto.
Não é por nada, mas é que me pareceu história viva te imaginar pendurando cuecas e meias no varal. Antes de nós, cena dessa foi feita filme, poesia, série de TV, manifesto, contrabando, escravidão.
Na nossa vez, porém, sobrou que ser o anônimo cozinhando spaghetti quebrado pra caber na panela pequena. Hidrotônico de uva verde em cima da mesa do jantar e solidão, porque a mãe que te espera o filho foi escolha precipitada ou acidente.
Onde a poesia parece dissolver e se refaz em seguida: é lá que a gente se encontra. Não junto. Você se encontra com você e eu comigo mesma. É na tentativa primata de seguir sendo que podemos nos olhar, reconhecer e, quem sabe, furar o cerco dos olhares que não nos olham. Talvez façamos algo que fira a visão indolente dos que nos ignoram tão facilmente. Quem sabe que um dia seja um esforço deixar de perceber a riqueza de aparecer na janela de uma kit da rua Aurora, porque mora ali alguém que deixa suas meias de molho para não ter que esfregar muito.
Não é pouca coisa a peculiaridade que cabe nas suas escolhas mínimas e devia haver um Morumbi inteiro que nos aplaudisse quando déssemos tchauzinho também. Porque nós vemos poesia no breu, no só, no mau e nas palavras de mais sílabas. Somos resistentes e, à nossa vez, a vanguarda do novo mundo novo.
É a história vociferando em nós no detalhe da sexta à noite, eu senti.
Terminamos a faculdade e aceitamos fazer coisas que pedem menos do que há em nós. A necessidade brutaliza e sossegamos no salário um tempo curto.
Não é por nada, mas é que me pareceu história viva te imaginar pendurando cuecas e meias no varal. Antes de nós, cena dessa foi feita filme, poesia, série de TV, manifesto, contrabando, escravidão.
Na nossa vez, porém, sobrou que ser o anônimo cozinhando spaghetti quebrado pra caber na panela pequena. Hidrotônico de uva verde em cima da mesa do jantar e solidão, porque a mãe que te espera o filho foi escolha precipitada ou acidente.
Onde a poesia parece dissolver e se refaz em seguida: é lá que a gente se encontra. Não junto. Você se encontra com você e eu comigo mesma. É na tentativa primata de seguir sendo que podemos nos olhar, reconhecer e, quem sabe, furar o cerco dos olhares que não nos olham. Talvez façamos algo que fira a visão indolente dos que nos ignoram tão facilmente. Quem sabe que um dia seja um esforço deixar de perceber a riqueza de aparecer na janela de uma kit da rua Aurora, porque mora ali alguém que deixa suas meias de molho para não ter que esfregar muito.
Não é pouca coisa a peculiaridade que cabe nas suas escolhas mínimas e devia haver um Morumbi inteiro que nos aplaudisse quando déssemos tchauzinho também. Porque nós vemos poesia no breu, no só, no mau e nas palavras de mais sílabas. Somos resistentes e, à nossa vez, a vanguarda do novo mundo novo.
É a história vociferando em nós no detalhe da sexta à noite, eu senti.
13 de outubro de 2011
No Aquário
Parei diante de uma tartaruga estranha, cujas patas pareciam pedras. Por ter histórico de tartarugas na família, fiquei ali algum tempo, contemplando aquela esquisitice da natureza através do vidro. Meu amigo, de olhos verdes certeiros, aproximou-se e disse, com aquele ar solene de quem informa:
_ Ela morde.
Pensei um pouco e, inconformada com tal sapiência, que não poderia ser empírica, perguntei:
_ Como você sabe?
_ O nome dela é tartaruga-mordedora.
Olhei para a placa com as informações do animal e, antes que pudesse responder, um espectador anônimo próximo salvou a questão:
_ Faz sentido, hein? Faz sentido...
_ Ela morde.
Pensei um pouco e, inconformada com tal sapiência, que não poderia ser empírica, perguntei:
_ Como você sabe?
_ O nome dela é tartaruga-mordedora.
Olhei para a placa com as informações do animal e, antes que pudesse responder, um espectador anônimo próximo salvou a questão:
_ Faz sentido, hein? Faz sentido...
9 de outubro de 2011
Jedi, 6ª
_ Sabe Camila, há um tempo atrás eu li um livro chamado A Arte Cavalheiresca Do Arqueiro Zen. É um livro muito bom, eu gostei bastante. A história é de um filósofo alemão que vai pro Japão aprender a manejar arco e flecha. Em determinado ponto o aprendiz está muito bom em acertar os alvos e seu mestre diz a ele que não é só isso. Ele aprendeu a acertar o alvo, mas não aprendeu mais nada. A questão não é o alvo, mas aquele momento exatamente antes de disparar a flecha, aquela tensão no arco antes do disparo. Esse é o momento importante. E o livro conta isso de uma forma muito poética, muito bonita. Por que você está sorrindo?
_ Porque me deu vontade de ler esse livro.
_ Tudo bem. Eu posso trazer para você. Mas o que eu estava dizendo... é... que você é isso. Essa tensão.
_ Eu sou um “quase”?
_ Não. Você é o momento que importa, Camila.
_ Porque me deu vontade de ler esse livro.
_ Tudo bem. Eu posso trazer para você. Mas o que eu estava dizendo... é... que você é isso. Essa tensão.
_ Eu sou um “quase”?
_ Não. Você é o momento que importa, Camila.
5 de outubro de 2011
Stillness
Nessa hora de almoço, como alguém que descobre o que é sagrado, percebi que poderia passar muito tempo... anos... apenas olhando a vida, sem viver, sem interferir.
Lançada ali
rija e frágil
quanto a árvore
ao lado repousada
ambas plantadas
no cimento cinza
morríamos um pouco
ao ver passar
as gentes
lentamente...
Rezávamos silenciosas
para um Deus
que nos mostrasse -
inevitável
e de um vigor
que não se ignora -
o que se vê
quando acordamos
para o céu
que há de ser
Verdade.
Lançada ali
rija e frágil
quanto a árvore
ao lado repousada
ambas plantadas
no cimento cinza
morríamos um pouco
ao ver passar
as gentes
lentamente...
Rezávamos silenciosas
para um Deus
que nos mostrasse -
inevitável
e de um vigor
que não se ignora -
o que se vê
quando acordamos
para o céu
que há de ser
Verdade.
3 de outubro de 2011
Depurar
Após alcançar o requinte máximo da expressão – a linguagem suficiente – o refinamento seguinte é não precisá-la. A evolução do vocábulo é desaparecer com ele, entender e fazer entender a sutileza extrema dos gestos simples, não vocalizáveis. A finalidade da simbologia é a telepatia. Toda relação humana é, afinal, uma conversa de mentes.
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