13 de abril de 2010

Um outro dia daquele mesmo outono

Depois de sentar na beira da fonte, brincar no balanço sem ser pega pelo guardinha, olhar as crianças brigarem por um graveto, ser o personagem da obra dele na areia, tentar ler os nomes no coração de estilete na árvore e examinar de perto os cogumelos pretensamente alucinógenos que cresciam brancos feito conchas cravadas num tronco, perguntei pra ele:

_ Você se acha diferente da maioria?
_ Acho.
_ Por quê?
_ ...
_ O quê a maioria faz que você não faz? O quê a maioria tem que você não tem? O quê te faz diferente?

Ele pensou e disse, numa verdade tão sábia quanto simples e justamente por isso:

_ Eu sou diferente porque a maioria prefere ficar do outro lado do portão do parque.

Olhei pr’aquele verde, pr’aquela meia dúzia de gente e sorri diante da constatação.

_ Ótima resposta.

Algum tempo depois ele me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim, mas que era um equilíbrio frágil, como uma ponte que você não pode pular em cima.

_ Mas pode passar devagarzinho...
_ Sim. E em silêncio.

Aí, quando não dava mais pra ignorar a fome que nem a falta de apetite vencia, sentamos no MacDonald’s.

_ Viny... Olha ali... A moça tá com roupa de ginástica... Ela devia estar malhando. Mas daí sai da ginástica e vem pro MacDonald’s??? Bizarro, né?
_ Não... Cê não entendeu. Vou te explicar a lógica: algumas pessoas gostam muito de MacDonald’s. Mas daí, pra poder comer sempre que quiserem, elas fazem exercícios, pra compensar. Entendeu?
_ Ah... Eu como sempre que eu quero e não faço exercícios!
_ Bom... Nem todo mundo tem a sua sorte – disse ele me apontando.
_ Mas ela também é magra!
_ Ela é magra porque malha.
_ Hum...
_ Mas pode apostar que a coca é zero!

A gente pegou o metrô e ele me deixou na catraca, depois de enxugar minhas lágrimas nas mangas da blusa dele.

_ Obrigada...
_ Eu que agradeço.

Fiquei pensando se ele me agradeceu porque gostava muito de que alguém molhasse as mangas da blusa dele com lágrimas, mas não tive ânimo de perguntar e só acenei.

4 comentários:

Felipe Teles disse...

Provavelmente obrigado pela companhia...

Prefiro pensar em todos diferentes da maioria...

Quanto tentam ser iguais acabam errando e sendo diferentes, erros não são sempre iguais e acabam se diferenciando pelos erros na tentativa do acerto.

Logo, cada um cada um...

Carolina. disse...

Que coisa linda Camila:)
Sabe...adoro coisas sutis...acho maravilhoso!

Grande beijo!

Magno Nunes disse...

MEU DEUS!
QUE BARULHO É ESSE?

EU ACHO QUE TEM ALGUÉM BATENDO NA POOOOORTA!

AHN?

NÃO TO TE OUVINDO, JÁ VOLTO, VOU VER QUEM É O DOIDO!

...

Magno Nunes disse...

Eu sou diferente da maioria pq eu consigo me camuflar em algumas situaçãoes...

Como com as costeletas, cabelo azul e cara de mal...

Capiscou?