Fiquei contemplando minha vizinha naquele começo de tarde de sábado. Ela lá, do outro lado da rua, toda serelepe, lavando a calçada com a mangueira. E andava de um lado, andava do outro, molhava os pezinhos, tirava o musguinho verde do cantinho da rua e dá-lhe água potável pra empurrar o lixinho que uma vassoura poderia.
No começo eu fiquei com muita raiva, mas em pouco tempo comecei a entrar em desespero e me descabelar. De onde eu estava ouvia nítida a voz áspera dela falando com outras pessoas da casa:
_ Vai pro inferno! Ah! Cala a boca! Cala a boca! Sai daqui! Pro inferno!
...E lavava as angústias em água corrente. Vagarosamente. Primeiro a calçada, depois o carro, daí a calçada na frente do outro portão, pezinhos, musguinho, um papelzinho ali, pezinhos outra vez e eu enfartando.
Daí resolvi que ela ia receber uma carta da Sabesp e da Prefeitura avisando que existe lei sobre isso, que é desperdício, que dá multa de até R$ 1.488,00, blá blá blá, com dicas de economia de água e tudo mais, até com grifos nas partes sobre mangueiras, carros e calçadas, pra ela nem precisar fazer muito esforço mental pra sacar.
Resolvi que ela ia receber essa carta e ela recebeu. Na madrugada desta terça-feira, à 1h37 da manhã.
Não me perguntem como eu sei disso.
25 de maio de 2010
24 de maio de 2010
Perdeu?
Música bonita assim parece que pega
a alma e torce. Exprime alguma coisa inominável que a gente nem sabia que tinha dentro. É indizível por culpa dessa sina humana de ser limitado e expandido pelo mesmo.
A(h) linguagem...
...Ao menos temos várias!
http://www.bridgestonemusic.com.br/
21 de maio de 2010
Basta amar para saber o que fazer
O chefe da minha mãe se atrasou esses dias e justificou.
Foi assim:
“Eu tava pronto, saindo de casa, quando meu filho levantou no berço e disse:
_ Brincá papai!
_ Filho, papai não pode. Papai tá indo trabalhar.
_ Papai... Brincá!
_ Filho, olha aqui o papai como tá vestido. Eu não posso brincar agora, tenho que ir trabalhar. Tem gente me esperando lá no trabalho. Agora não posso.
_ Snif... Papai... Snif... Brincá, papai... snif...
Ah... não tive dúvidas. Joguei a pasta de lado e peguei meu filho no colo.
_ Cê quer brincar do quê, filho? De carrinho? Então vâmo brincá de carrinho!
E fiquei brincando com ele uns quinze minutos. Depois ele quis jogar bola e eu fui jogar bola com ele. Depois liguei a tevê e coloquei num desenho que ele gostava. Daí disse:
_ Filho, agora o papai vai trabalhar, tá bom?
_ Tá!
Por isso me atrasei uma hora!”
(((suspiro)))
Pra mim parece que o mundo inteiro foi salvo e eu respirei aliviada pelo menino que, felizmente, tem um pai guiado pelo amor.
https://mail.google.com/mail/?ui=2&ik=7c4d25b4b2&view=audio&msgs=128bc77b93ca6a9b&attid=0.1&zw
Foi assim:
“Eu tava pronto, saindo de casa, quando meu filho levantou no berço e disse:
_ Brincá papai!
_ Filho, papai não pode. Papai tá indo trabalhar.
_ Papai... Brincá!
_ Filho, olha aqui o papai como tá vestido. Eu não posso brincar agora, tenho que ir trabalhar. Tem gente me esperando lá no trabalho. Agora não posso.
_ Snif... Papai... Snif... Brincá, papai... snif...
Ah... não tive dúvidas. Joguei a pasta de lado e peguei meu filho no colo.
_ Cê quer brincar do quê, filho? De carrinho? Então vâmo brincá de carrinho!
E fiquei brincando com ele uns quinze minutos. Depois ele quis jogar bola e eu fui jogar bola com ele. Depois liguei a tevê e coloquei num desenho que ele gostava. Daí disse:
_ Filho, agora o papai vai trabalhar, tá bom?
_ Tá!
Por isso me atrasei uma hora!”
(((suspiro)))
Pra mim parece que o mundo inteiro foi salvo e eu respirei aliviada pelo menino que, felizmente, tem um pai guiado pelo amor.
https://mail.google.com/mail/?ui=2&ik=7c4d25b4b2&view=audio&msgs=128bc77b93ca6a9b&attid=0.1&zw
20 de maio de 2010
Mundo Kato
19 de maio de 2010
Porque eu gosto de semiótica
Acho que todos os professores de semiótica na história da humanidade no mundo já responderam à gloriosa pergunta: “Pra quê serve semiótica, afinal?”
Mas há os mais inquisidores, socialmente preocupados com as injustificáveis 40 mil mortes diárias de crianças do terceiro mundo subnutridas ou com doenças evitáveis: “Com tanta gente morrendo de fome, pra quê estudar semiótica? Ao quê ou a quem a semiótica salva? Por que ela é importante?”
De fato. Indubitavelmente a fome física é mais premente, mais urgente do que outros tipos de fome. Sem o alimento para o corpo físico não há vida que possa durar. Mas o alimento não é a única urgência de uma vida. A sede também o é, o sexo, a higiene, o sono, o sonho. Claro. Mas eu não conheço vida que o valha estática em seu processo de perceber e, por isso, progredir. A fome de conhecimento e a pobreza de espírito também são humanas. E uma vez supridas aquelas, o ser há de querer avançar. E quem pode dizer qual fome é mais importante? É mesmo uma questão de grandeza?
Eu posso entender que cada um de nós conhece os anseios da vida. E, graças ao desígnio, temos tendências diferentes, inclinações que nos levam a caminhos distintos. A diversidade não é acaso, é a única forma de perpetuar a evolução. Não há caminho único possível. É por isso que tem gente lutando pelas questões da raça, da orientação sexual, da deficiência, da educação, da política, da cidadania, da mulher, das minorias, das sociedades, das rendas. E por que não da semiótica?
E por que sim?
Bem, a semiótica é a investigação lógica do processo de apreensão do mundo pela consciência de forma cognoscível, por meio da percepção que se converte no fluxo de signos, logo, linguagem. Uma vez compreendida a progressão que se dá na sua cabecinha, desencadeia-se um (embora haja outros) modo de auto-conhecimento. Auto-conhecendo-se você também passa a entender melhor o outro, o mundo e a necessidade do outro e do mundo pra você e em você.
É tão bonito isso...
Pensa só: desde Aristóteles temos a teoria do ato e potência, que nos diz, entre outras coisas, que você não pode se definir senão por meio de atos, que são a essência de sua própria existência.
_ Quem é você?
_ A Camila.
_ Não. Este é seu nome. Quem é você?
_ Eu sou uma jornalista.
_ Não. Esta é sua ocupação. Quem é você?
_ Eu sou a filha da Eliane e do Ivan. Sou a irmã da Thais.
_ Esta é sua localização no contexto familiar. Mas e quem é você?
Eu não posso responder quem sou eu. Eu sou um todo que habita uma consciência, ou sou a própria consciência? Uma só? Sou uma alma que anima um corpo ou sou um corpo que viabiliza a expressão de uma alma? Sou uma vida finita ou uma existência infinita e perpétua?
Ninguém pode dizer com certeza o que é. Mas se você encostar em mim, posso dizer, com toda a certeza, onde termina eu e começa você.
E por quê? Por que eu sinto. E, como diz Pessoa, “tudo o que em mim sente está pensando”.
A semiótica é um meio de pensar o próprio pensamento. E o que é um pensamento senão um pensamento sobre outro pensamento? Todas as palavras aqui escritas estão ecoando na cabeça de você que está lendo e sua consciência está num esforço de significar isso tudo. Como? Por meio de signos, ou seja, de mais pensamento. Ler é pensar, interpretar as palavras é o pensamento do primeiro pensar e certamente a primeira interpretação desencadeia idéias e conexões com, adivinha!, outros pensamentos.
É lindo isso, não é? Tenho até um amigo que, um dia eu explicando, resolveu tatuar uma coisa sobre isso.
Lúcia Santaella falando sobre a primeiridade no sistema de categorias dos elementos que compõem o pensamento na lógica de Peirce é poesia!
“Levantemos, por exemplo, algumas instâncias de qualidades de sentir ao imaginarmos um estado mental caracterizado por uma simples qualidade positiva: o sabor do vinho, a qualidade de sentir amor, perfume de rosas, uma dor de cabeça infinita que não nos permite pensar nada, sentir nada, a não ser a qualidade da dor. Um instante eterno, sem partes, indiscernível de prazer intenso ou a sutil qualidade de sentir quando vamos gentilmente acordando, dóceis, ao som de uma música.”
É claro que existem muitos caminhos a serem percorridos para se chegar à lucidez, à realidade que é compartilhada e independente de nossas opiniões a respeito dela. A semiótica é um caminho e faz sentido pra mim. Se todas as pessoas lutassem pelo quê faz sentido pra elas, mais coisas fariam sentido pra ainda mais gente, porque a lucidez é contagiosa. Já dizia Hilda (Hilst):
Creiam-me. A semiótica me faz entender a vida.
“O sentimento ou qualidade de impressão é um quase-signo porque já funciona como o primeiro, vago e impreciso predicado das coisas que a nós se apresentam.” [Santaella, 1983]
Isso me lembra uma conversa de um amor sobre nós, incluindo-se a si mesmo na terceira pessoa, quando lhe pedi uma estória e veio uma história:
_ Sabe quando você vê uma pessoa que você não conhece bem, mas ama? E sabe quando você ama uma pessoa que você conhece muito bem? Então... Eles estavam num estado intermediário e se amavam tanto quanto podiam diante disso. Era um pré-amor, mas já era tão bonito quanto o amor. Foi assim quando eles se conheceram.
...O que, por sua vez, me lembra o mito de Campbell, o habitus de Bourdieu, a comunhão de Bordenave, a complexidade de Morin...
“[...] Mentes diferentes podem partir dos pontos de vista mais antagônicos que o progresso da investigação os levará, por uma força a eles estranha, a uma e mesma conclusão. [...]Será que não existem realmente estas coisas apenas porque não há qualquer esperança de alguma vez estarem ao nosso alcance? [...] A isto minha resposta é que, embora em nenhum possível estágio do saber possa haver um número suficientemente grande para exprimir a relação entre a quantidade do que permanece desconhecido e a quantidade do que sabemos, não é, no entanto, filosófico supor que, relativamente a uma dada questão, (com um significado claro) a investigação não possa chegar a uma solução, desde que levada suficientemente longe.”
Eis porque ele nos deixou 80 mil manuscritos e 12 mil páginas publicadas. Entre os artigos acessíveis na internet, este, cujo trecho citei acima. “Como Tornar as Nossas Idéias Claras”, por Charles Sanders Peirce, para os brasileiros que não se incomodam com o português de Portugal na tradução.
Mas há os mais inquisidores, socialmente preocupados com as injustificáveis 40 mil mortes diárias de crianças do terceiro mundo subnutridas ou com doenças evitáveis: “Com tanta gente morrendo de fome, pra quê estudar semiótica? Ao quê ou a quem a semiótica salva? Por que ela é importante?”
De fato. Indubitavelmente a fome física é mais premente, mais urgente do que outros tipos de fome. Sem o alimento para o corpo físico não há vida que possa durar. Mas o alimento não é a única urgência de uma vida. A sede também o é, o sexo, a higiene, o sono, o sonho. Claro. Mas eu não conheço vida que o valha estática em seu processo de perceber e, por isso, progredir. A fome de conhecimento e a pobreza de espírito também são humanas. E uma vez supridas aquelas, o ser há de querer avançar. E quem pode dizer qual fome é mais importante? É mesmo uma questão de grandeza?
Eu posso entender que cada um de nós conhece os anseios da vida. E, graças ao desígnio, temos tendências diferentes, inclinações que nos levam a caminhos distintos. A diversidade não é acaso, é a única forma de perpetuar a evolução. Não há caminho único possível. É por isso que tem gente lutando pelas questões da raça, da orientação sexual, da deficiência, da educação, da política, da cidadania, da mulher, das minorias, das sociedades, das rendas. E por que não da semiótica?
E por que sim?
Bem, a semiótica é a investigação lógica do processo de apreensão do mundo pela consciência de forma cognoscível, por meio da percepção que se converte no fluxo de signos, logo, linguagem. Uma vez compreendida a progressão que se dá na sua cabecinha, desencadeia-se um (embora haja outros) modo de auto-conhecimento. Auto-conhecendo-se você também passa a entender melhor o outro, o mundo e a necessidade do outro e do mundo pra você e em você.
É tão bonito isso...
Pensa só: desde Aristóteles temos a teoria do ato e potência, que nos diz, entre outras coisas, que você não pode se definir senão por meio de atos, que são a essência de sua própria existência.
_ Quem é você?
_ A Camila.
_ Não. Este é seu nome. Quem é você?
_ Eu sou uma jornalista.
_ Não. Esta é sua ocupação. Quem é você?
_ Eu sou a filha da Eliane e do Ivan. Sou a irmã da Thais.
_ Esta é sua localização no contexto familiar. Mas e quem é você?
Eu não posso responder quem sou eu. Eu sou um todo que habita uma consciência, ou sou a própria consciência? Uma só? Sou uma alma que anima um corpo ou sou um corpo que viabiliza a expressão de uma alma? Sou uma vida finita ou uma existência infinita e perpétua?
Ninguém pode dizer com certeza o que é. Mas se você encostar em mim, posso dizer, com toda a certeza, onde termina eu e começa você.
E por quê? Por que eu sinto. E, como diz Pessoa, “tudo o que em mim sente está pensando”.
A semiótica é um meio de pensar o próprio pensamento. E o que é um pensamento senão um pensamento sobre outro pensamento? Todas as palavras aqui escritas estão ecoando na cabeça de você que está lendo e sua consciência está num esforço de significar isso tudo. Como? Por meio de signos, ou seja, de mais pensamento. Ler é pensar, interpretar as palavras é o pensamento do primeiro pensar e certamente a primeira interpretação desencadeia idéias e conexões com, adivinha!, outros pensamentos.
É lindo isso, não é? Tenho até um amigo que, um dia eu explicando, resolveu tatuar uma coisa sobre isso.
Lúcia Santaella falando sobre a primeiridade no sistema de categorias dos elementos que compõem o pensamento na lógica de Peirce é poesia!
“Levantemos, por exemplo, algumas instâncias de qualidades de sentir ao imaginarmos um estado mental caracterizado por uma simples qualidade positiva: o sabor do vinho, a qualidade de sentir amor, perfume de rosas, uma dor de cabeça infinita que não nos permite pensar nada, sentir nada, a não ser a qualidade da dor. Um instante eterno, sem partes, indiscernível de prazer intenso ou a sutil qualidade de sentir quando vamos gentilmente acordando, dóceis, ao som de uma música.”
É claro que existem muitos caminhos a serem percorridos para se chegar à lucidez, à realidade que é compartilhada e independente de nossas opiniões a respeito dela. A semiótica é um caminho e faz sentido pra mim. Se todas as pessoas lutassem pelo quê faz sentido pra elas, mais coisas fariam sentido pra ainda mais gente, porque a lucidez é contagiosa. Já dizia Hilda (Hilst):
“Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.”
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.”
Creiam-me. A semiótica me faz entender a vida.
“O sentimento ou qualidade de impressão é um quase-signo porque já funciona como o primeiro, vago e impreciso predicado das coisas que a nós se apresentam.” [Santaella, 1983]
Isso me lembra uma conversa de um amor sobre nós, incluindo-se a si mesmo na terceira pessoa, quando lhe pedi uma estória e veio uma história:
_ Sabe quando você vê uma pessoa que você não conhece bem, mas ama? E sabe quando você ama uma pessoa que você conhece muito bem? Então... Eles estavam num estado intermediário e se amavam tanto quanto podiam diante disso. Era um pré-amor, mas já era tão bonito quanto o amor. Foi assim quando eles se conheceram.
...O que, por sua vez, me lembra o mito de Campbell, o habitus de Bourdieu, a comunhão de Bordenave, a complexidade de Morin...
“[...] Mentes diferentes podem partir dos pontos de vista mais antagônicos que o progresso da investigação os levará, por uma força a eles estranha, a uma e mesma conclusão. [...]Será que não existem realmente estas coisas apenas porque não há qualquer esperança de alguma vez estarem ao nosso alcance? [...] A isto minha resposta é que, embora em nenhum possível estágio do saber possa haver um número suficientemente grande para exprimir a relação entre a quantidade do que permanece desconhecido e a quantidade do que sabemos, não é, no entanto, filosófico supor que, relativamente a uma dada questão, (com um significado claro) a investigação não possa chegar a uma solução, desde que levada suficientemente longe.”
Eis porque ele nos deixou 80 mil manuscritos e 12 mil páginas publicadas. Entre os artigos acessíveis na internet, este, cujo trecho citei acima. “Como Tornar as Nossas Idéias Claras”, por Charles Sanders Peirce, para os brasileiros que não se incomodam com o português de Portugal na tradução.
14 de maio de 2010
Gente, eles não são ótimos?
O rádio me contou esta manhã um maravilhoso conto de uma mulher assaltada dentro de uma delegacia. Poderia ser dos Grimm, se não fosse tão idiota. Ela jogou a bolsa para trás do balcão dos policiais. O bandido saltou, na maior, pegou a bolsa e saiu. Dois policiais assistiram impassíveis e justificaram:
_ Pensamos que era briga de marido e mulher.
Ah tá! Daí tudo bem o marido pegar a bolsa da mulher e sair correndo, seja lá pelo motivo que for.
Uhum. Tendi.
Isso me lembra uma conversa de ontem, no ônibus:
_ Cobrador, preciso descer no ponto do shopping.
_ Falta dois pontos ainda.
_ Ok.
Um ponto depois...
_ É neste agora ou no próximo?
_ Hum?
_ O ponto. Do shopping.
_ Ah... falta 3 ainda...
“Pra você ver como nossa sociedade é, né? O cara deveria estar internado, não deveria estar solto, trabalhando. Mas daí não tem como, né? Colocam um problemático aí, pra atender o público...”
Isso não é nada, gente!
Problema tem nosso presidente. Lembro que ri muito quando ele quis dizer que também cairia no “tatame” mas disse que cairia no “tapume” (???), na época das Olimpíadas. Mas aí é uma piadinha inocente. Não chega aos pés dessa aqui:
Indagada se considerava legítima a comparação de sua biografia com a de Mandela, a pré-candidata do PT respondeu de pronto: “Se você for olhar o tempo de prisão, não. Ele ficou 27 anos e eu fiquei 3 anos e meio. Mas o sentido não é esse”. Dilma disse que a campanha petista quis destacar “o que se faz” diante das ditaduras.
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,dilma-comparacao-com-mandela-foi-decidida-por-lula,551848,0.htm
Isso porque ele não ia fazer campanha, lembram?
Dá-lhe multa.
Deus, tende piedade de nós.
_ Pensamos que era briga de marido e mulher.
Ah tá! Daí tudo bem o marido pegar a bolsa da mulher e sair correndo, seja lá pelo motivo que for.
Uhum. Tendi.
Isso me lembra uma conversa de ontem, no ônibus:
_ Cobrador, preciso descer no ponto do shopping.
_ Falta dois pontos ainda.
_ Ok.
Um ponto depois...
_ É neste agora ou no próximo?
_ Hum?
_ O ponto. Do shopping.
_ Ah... falta 3 ainda...
“Pra você ver como nossa sociedade é, né? O cara deveria estar internado, não deveria estar solto, trabalhando. Mas daí não tem como, né? Colocam um problemático aí, pra atender o público...”
Isso não é nada, gente!
Problema tem nosso presidente. Lembro que ri muito quando ele quis dizer que também cairia no “tatame” mas disse que cairia no “tapume” (???), na época das Olimpíadas. Mas aí é uma piadinha inocente. Não chega aos pés dessa aqui: Indagada se considerava legítima a comparação de sua biografia com a de Mandela, a pré-candidata do PT respondeu de pronto: “Se você for olhar o tempo de prisão, não. Ele ficou 27 anos e eu fiquei 3 anos e meio. Mas o sentido não é esse”. Dilma disse que a campanha petista quis destacar “o que se faz” diante das ditaduras.
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,dilma-comparacao-com-mandela-foi-decidida-por-lula,551848,0.htm
Isso porque ele não ia fazer campanha, lembram?
Dá-lhe multa.
Deus, tende piedade de nós.
12 de maio de 2010
Um neném
Há um ano atrás eu dei uma entrevista a um programa que está fazendo um ano.
Palmas ao aniversariante, por favor.
[APLAUSE]
A saber: ZumbiNews
http://magnando.blogspot.com/
Muitos anos de vida.
Palmas ao aniversariante, por favor.
[APLAUSE]
A saber: ZumbiNews
http://magnando.blogspot.com/
Muitos anos de vida.
10 de maio de 2010
Nu
Eu até pensei em dizer que achava a nudez humana admirável, mas naquele contexto ia soar repreensível. Falar uma coisa dessa assim, sentada no sofá da vó na noite de sábado, assistindo o concurso de Miss Brasil, bem na hora do desfile de biquínis, não ia soar compreensível nem pra mim. É claro que eu cogitava intimamente um (por que não?) concurso de Mister Brasil que, àquela altura, seria especialmente interessante. Mas a tia, dotada da intimidade com a própria mãe que Deus lhe deu, foi mais longe:
_ Acho o ser humano vestido tão bonito, tão mais interessante! Não sei por que o povo tem essa agonia pra tirar tanto. O corpo humano é tão feio pelado! O corpo da mulher ainda vá lá, que tem curvas, mas dos homens é horrível! Nossa! Um homem pelado?! Jesus me abane! É terrível! Nem tudo que é gostoso é bonito, né?!
Só deu tempo de suspirar, porque argumentação não cabia. Evocar Michelangelo só não seria pecado se eu não tivesse rido. Mas eu ri. Lembrei do Calvin correndo peladinho até o pote de biscoitos na cozinha, bancando o homem invisível.
É. “Bananas podem serr belas, mas também finas, trristes e amarrelas”*. Então deixa pra lá.
*Hilst, 03/93
_ Acho o ser humano vestido tão bonito, tão mais interessante! Não sei por que o povo tem essa agonia pra tirar tanto. O corpo humano é tão feio pelado! O corpo da mulher ainda vá lá, que tem curvas, mas dos homens é horrível! Nossa! Um homem pelado?! Jesus me abane! É terrível! Nem tudo que é gostoso é bonito, né?!
Só deu tempo de suspirar, porque argumentação não cabia. Evocar Michelangelo só não seria pecado se eu não tivesse rido. Mas eu ri. Lembrei do Calvin correndo peladinho até o pote de biscoitos na cozinha, bancando o homem invisível.
É. “Bananas podem serr belas, mas também finas, trristes e amarrelas”*. Então deixa pra lá.
*Hilst, 03/93
6 de maio de 2010
Cotidiano épico em drops
Eu tenho uma calça xadrez com 4 botões e um zíper, além de ter a necessidade de um cinto.
_ Puxa... Se for caso de vida ou morte eu morro.
_ Nossa! O que é que você guarda aí de tão precioso, hein?
_ Não sei... Acho que quem desenhou essa calça supervalorizou a coisa feminina.
_______
A caminho do serviço, em pleno Vale do Anhangabaú, uma bolha de ar gigante. Dentro, uma mulher de maiô e sorriso, acenando. Ao lado dela, um rapaz com água de côco e sunga, um outro com uma bola colorida e sunga e um coqueiro de folhas verdes vivas entre os três. Eu sorri e alguém prestou atenção em mim, mesmo eu estando de calça jeans e camiseta.
_______
_ Bem, em tempo, embora não sem atraso, desejo ao aniversariante prosperidade, vida longa, boa saúde e metade das coisas boas que a astrologia diz sobre o seu signo. Mas só metade, porque gente virtuosa demais nem parece gente.
_ Esse povo da comunicação escreve bonito que só, hein?!!! Foi dos cumprimentos mais legais desse ano!!
_______
Perto da catraca do metrô elas diziam enfáticas e incrédulas. Cada qual ouvindo somente a si própria:
_ Ah, eu procurei o Marcos!
_ Ah, eu até chorei!
_ Falei: não acredito que ela é assim!
_ Eu não acreditava no que você tinha feito!
_ Daí eu contei pra ele, contei pra Gisele...
_ Conte pro Marcos, daí falei com a Gisele...
_ Eu fiquei que, olha!
_ Olha, eu fiquei...
_ Até chorei!
_______
Eu estava tentando ler, mas sentei na frente de um sujeito ouvindo seu celular no último volume. Era Rihanna e ele dançava num jeitinho pequeno e sensual, fazendo biquinho, no seu lugar mesmo. De repente, a música trocou:
“…And my heart will go on…
Near, far, wherever you are...”
_ Ah! Ah! Essa é a minha música!
_ Sua música?
_ É. Eu ouvi ela na minha primeira vez. Quando foi minha primeira vez eu estava ouvindo ela.
_ Ah é?
_ É.
Bateu os olhos em mim e eu olhei pra janela, querendo não ter testemunhado a confissão. Mas ele logo se esqueceu. Atendeu a ligação de alguém que se chamava Travesti. Depois se distraiu com o pó, o lápis e o rímel da colega de assento.
_ Ai, louca, arrasou!
________
10 minutos. Eu só tinha 10 minutos entre entrar no banco, pagar as contas e sair. Subi as escadas esbaforida. Cheguei, peguei a senha e sentei. Na cadeira ao lado, uma senha abandonada me olhava. 406. Olhei pro painel, que apontava a última senha chamada: 405. A minha era 410. Pensei direitinho, até que o painel tocou. 406. Peguei a senha ao lado e fui ao caixa. Olhei o horário de expedição da senha. 20 minutos antes. Alguém, providencialmente, a pegou especialmente pra mim. Tempo total para a manobra: 3 minutos.
________
Mó legal. Você acorda de manhã e vai escovar os dentes. Normal. Que nem todo mundo. Daí vai, pega a escova de dentes e a pasta. Passa na escova e se prepara pra colocar na boca. Sente um cheiro estranho e vira o tubinho para descobrir que é de Hipoglos. E então você lava o negócio e a meleca só espalha. Espalha na sua mão e na sua escova de dentes. Fica tudo deslizando, que nem sabão. E era sua única escova de dentes na casa de quem você está visitando.
________
Ver o Corinthians vencer do Flamengo e mesmo assim ser desclassificado de um campeonato no ano de seu centenário: não tem preço.
_ Puxa... Se for caso de vida ou morte eu morro.
_ Nossa! O que é que você guarda aí de tão precioso, hein?
_ Não sei... Acho que quem desenhou essa calça supervalorizou a coisa feminina.
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A caminho do serviço, em pleno Vale do Anhangabaú, uma bolha de ar gigante. Dentro, uma mulher de maiô e sorriso, acenando. Ao lado dela, um rapaz com água de côco e sunga, um outro com uma bola colorida e sunga e um coqueiro de folhas verdes vivas entre os três. Eu sorri e alguém prestou atenção em mim, mesmo eu estando de calça jeans e camiseta.
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_ Bem, em tempo, embora não sem atraso, desejo ao aniversariante prosperidade, vida longa, boa saúde e metade das coisas boas que a astrologia diz sobre o seu signo. Mas só metade, porque gente virtuosa demais nem parece gente.
_ Esse povo da comunicação escreve bonito que só, hein?!!! Foi dos cumprimentos mais legais desse ano!!
_______
Perto da catraca do metrô elas diziam enfáticas e incrédulas. Cada qual ouvindo somente a si própria:
_ Ah, eu procurei o Marcos!
_ Ah, eu até chorei!
_ Falei: não acredito que ela é assim!
_ Eu não acreditava no que você tinha feito!
_ Daí eu contei pra ele, contei pra Gisele...
_ Conte pro Marcos, daí falei com a Gisele...
_ Eu fiquei que, olha!
_ Olha, eu fiquei...
_ Até chorei!
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Eu estava tentando ler, mas sentei na frente de um sujeito ouvindo seu celular no último volume. Era Rihanna e ele dançava num jeitinho pequeno e sensual, fazendo biquinho, no seu lugar mesmo. De repente, a música trocou:
“…And my heart will go on…
Near, far, wherever you are...”
_ Ah! Ah! Essa é a minha música!
_ Sua música?
_ É. Eu ouvi ela na minha primeira vez. Quando foi minha primeira vez eu estava ouvindo ela.
_ Ah é?
_ É.
Bateu os olhos em mim e eu olhei pra janela, querendo não ter testemunhado a confissão. Mas ele logo se esqueceu. Atendeu a ligação de alguém que se chamava Travesti. Depois se distraiu com o pó, o lápis e o rímel da colega de assento.
_ Ai, louca, arrasou!
________
10 minutos. Eu só tinha 10 minutos entre entrar no banco, pagar as contas e sair. Subi as escadas esbaforida. Cheguei, peguei a senha e sentei. Na cadeira ao lado, uma senha abandonada me olhava. 406. Olhei pro painel, que apontava a última senha chamada: 405. A minha era 410. Pensei direitinho, até que o painel tocou. 406. Peguei a senha ao lado e fui ao caixa. Olhei o horário de expedição da senha. 20 minutos antes. Alguém, providencialmente, a pegou especialmente pra mim. Tempo total para a manobra: 3 minutos.
________
Mó legal. Você acorda de manhã e vai escovar os dentes. Normal. Que nem todo mundo. Daí vai, pega a escova de dentes e a pasta. Passa na escova e se prepara pra colocar na boca. Sente um cheiro estranho e vira o tubinho para descobrir que é de Hipoglos. E então você lava o negócio e a meleca só espalha. Espalha na sua mão e na sua escova de dentes. Fica tudo deslizando, que nem sabão. E era sua única escova de dentes na casa de quem você está visitando.
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Ver o Corinthians vencer do Flamengo e mesmo assim ser desclassificado de um campeonato no ano de seu centenário: não tem preço.
4 de maio de 2010
A poética do ininteligível
Eu só sei que não sou zaralha! Ou zaralho? Bem, se a origem é obscura, o que dizer da definição de gênero? Quer dizer... Tem dias que eu até que gosto de ficar zumbizando pela casa que nem mendiga, mas é raro. De forma geral eu não sou zaralha/o. Nem vampira, que eu saiba. E também não preciso de um teste pra descobrir, porque acho que se eu não fosse humana eu saberia. Ou... não necessariamente. Acho que os patos não sabem que são patos, mas certamente não se acham humanos. Embora eu não tenha certeza, porque nunca fui um pato. Não que eu me lembre, ao menos. Mas tenho uma amiga cuja cachorra pensa que é gente e chora quando não consegue pegar a ração com as mãos. Quero dizer, com as patas. Mas no caso de um vampiro, acho que o hábito alimentar é indisfarçável, não é? Não sei... De qualquer maneira, caso eu estivesse precisando educar o cão que eu não tenho ou colocá-lo numa creche, certamente eu não procuraria a palavra “zaralho” para encontrar uma solução.
Será que alguém sim?

Será que alguém sim?

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29 de abril de 2010
Photos by Donna
28 de abril de 2010
Homo Humanus
Ela a tinha visto na rua e não podia abandoná-la uma vez mais. A pequena estava chorando, frágil e indefesa. Já tinha sido abandonada por sua mãe biológica e de novo e de novo por todos aqueles que passaram e optaram por deixá-la onde estava, ou porque não a viram.
Ela não tinha um bom momento nem um bom lugar nem muito menos um bom dinheiro pra adotar assim aquela menininha que precisaria de tudo e mais. Então a pegou, porque outra coisa não poderia ter sido feita, a menos que seu caminho não tivesse sido pela beira da calçada daquela tarde quente. Chegou à casa chorando sob a constatação de tanta maldade no coração humano. Deu-lhe banho, alimentou e aqueceu. Sorriu, riu, abraçou, apertou, balançou, cuidou, deu remédio.
Em pouco tempo, começou a espelhar sua mãe ao olhar que estava sendo mãe também. E não gostou do que viu. Sentiu que a pequena poderia odiá-la por ouvir tantos nãos ou por ter hora certa de dormir. Entrou em depressão, se culpou, culpou sua própria mãe, seu próprio Deus, depois o acaso e nada mais. Reviu toda a sua vida. Passou dias chorando, com os olhos pendurados no teto, sem enxergar um palmo diante de si, em choque pela dor que era pensar “ela vai crescer e vai me odiar!”. Mas trancada não pôde pra sempre. Num dia seus olhos tiveram que largar aquele bege desbotando e pousar no amparador de suas vontades, os azulejos corajosos até o asfalto, até o mercadinho. Chão e passos se apoiando.
_ Um quilo de ração, por favor.
Ela não tinha um bom momento nem um bom lugar nem muito menos um bom dinheiro pra adotar assim aquela menininha que precisaria de tudo e mais. Então a pegou, porque outra coisa não poderia ter sido feita, a menos que seu caminho não tivesse sido pela beira da calçada daquela tarde quente. Chegou à casa chorando sob a constatação de tanta maldade no coração humano. Deu-lhe banho, alimentou e aqueceu. Sorriu, riu, abraçou, apertou, balançou, cuidou, deu remédio.
Em pouco tempo, começou a espelhar sua mãe ao olhar que estava sendo mãe também. E não gostou do que viu. Sentiu que a pequena poderia odiá-la por ouvir tantos nãos ou por ter hora certa de dormir. Entrou em depressão, se culpou, culpou sua própria mãe, seu próprio Deus, depois o acaso e nada mais. Reviu toda a sua vida. Passou dias chorando, com os olhos pendurados no teto, sem enxergar um palmo diante de si, em choque pela dor que era pensar “ela vai crescer e vai me odiar!”. Mas trancada não pôde pra sempre. Num dia seus olhos tiveram que largar aquele bege desbotando e pousar no amparador de suas vontades, os azulejos corajosos até o asfalto, até o mercadinho. Chão e passos se apoiando.
_ Um quilo de ração, por favor.
27 de abril de 2010
À La Beat
Eu ia subindo um penhasco até chegar naquelas ruas de dobras fáceis e numa esquina o velho índio forte disse onde que eu podia encontrar e eu fui lá pra ver como estavam as coisas que eu tinha deixado quando vi pela última vez o velho que me indicava o caminho da menina de cabelo longo que dançava ingênua até cair tonta onde estava na calçada suas cores no sol da manhã e meu corpo doía mas não tinha problema qualquer lugar era sublime naquela calçada enquanto alguém dizia e nós íamos comer mas ela vomitava e não era da morfina talvez picada morena seus olhos carnes - era linda.
26 de abril de 2010
A bordagem
Ser homem não deve ser fácil e eu posso entender isso. Mas será que é tão difícil assim???
Bem, pelo sim e pelo não, vou dar umas dicas:
- Homens: nunca, jamais, em tempo algum, tire uma menina de sua roda de amigos arrastando-a pelo braço. Mesmo que o assunto seja da maior importância. A menos que vocês já estejam juntos e que sua mãe tenha morrido, não faça isso. Muito menos na primeira aproximação. Não dá nem pra ouvir o que é que vocês querem depois disso. Aliás, evitem tocar também. Mexa no seu cabelo, não no da menina, a menos que ela consinta. Essas aproximações precoces nos fazem querer sair correndo!
- Nunca faça elogios efusivos aos atributos físicos de uma mulher (que você não conhece ou conhece pouco) pra ela mesma. Não importa as bobagens que passem pela sua cabeça, muito menos o que você diz aos seus amigos. Seja generalista. “Você é bonita” basta pra começar. Jamais diga coisas como “Seu peito é bonito”. Não. Nããããoooo!!!
- Não fume. Mas, se fumar, faça isso longe de nós. Mesmo as que fumam, pode apostar, fazem um esforço danado para manterem-se cheirosas o dia inteiro nesta poluição de meu Deus. Fazemos manutenção do perfume, do desodorante e da maquiagem às vezes várias vezes por dia. Então, por favor, não bafore na nossa cara.
- Não diga o quanto você é bom, o quanto você sabe, o quanto você já fez, o quanto demais você é. Não seja afobado, confie em nossa inteligência e deixe que fazemos nosso próprio julgamento. Obrigada.
- Não fale das ex. Isso nos interessa e perguntaremos quando quisermos. Caso não perguntemos, não mencione seu passado. E, quando mencionar num belo dia em que seu passado sexual/afetivo seja nossa pauta, fale como se tudo tivesse acontecido em outra vida. Teatralize a questão e responda como se nem se lembrasse. Vale franzir a testa e fingir que é um grande esforço se lembrar de qualquer coisa antes de você conhecer a atual. Responda somente o que for perguntado e após cada sentença, adicione: “não era como você”.
- Não traia. Conheço muitas mulheres que considerariam a hipótese de um relacionamento aberto, algumas que já o tiveram, poucas que se deram bem com isso. Mas não conheço nenhuma que toleraria a traição. Não que não haja. Mas daí vai de você querer uma mulher com auto-estima ou sem.
- Não se drogue. As mulheres têm a atenção multifocada e detalhista, ou seja, você, homem, já está naturalmente em desvantagem em relação a nossa minúcia e destreza lingüística. São poucos os casos em que você conhece uma mulher numa situação em que sua prova de matemática pode ser o assunto. Então, facilite as coisas para você mesmo: não use entorpecentes, a menos que as mulheres sóbrias não façam seu tipo.
- Não use clichês. Pelo amor de nosso senhor, prefiram o silêncio. Frases como “o cachorro tem telefone?” só servem pra gente rir e apertar o passo.
- Seja homem. Não conheço mulher que goste que seu acompanhante faça as unhas. Mantê-las limpas já tá bom. Base é demais. Hidrate seu rosto só se estiver esturricado, do contrário, mantenha-se longe de cosméticos e frescurinhas. Isso é coisa nossa.
- Saia da casa dos seus pais. Nós, mulheres batalhadoras, não vemos com bons olhos os marmanjos que ficam com papi e mami além do necessário. Siga sua vida, seja independente, tenha autonomia, aprenda a cuidar de si.
- Seja um bom filho. Um homem que grita com a mãe não está no sonho de nenhuma mulher. Eu garanto.
- Cuide dos presentes que ganhar. Mesmo que seja só um bilhetinho. Guarde com todo o carinho, porque nós, mulheres, adoramos testar a importância que vocês atribuem a nós através da importância que vocês atribuem ao que damos a vocês.
E, a última, pra fechar com chave de outro: conquiste primeiro. Depois, pode fazer o que quiser. Coração de mulher costuma ser leal por um tempo mínimo de um ou dois anos. Seja esperto.
Bem, pelo sim e pelo não, vou dar umas dicas:
- Homens: nunca, jamais, em tempo algum, tire uma menina de sua roda de amigos arrastando-a pelo braço. Mesmo que o assunto seja da maior importância. A menos que vocês já estejam juntos e que sua mãe tenha morrido, não faça isso. Muito menos na primeira aproximação. Não dá nem pra ouvir o que é que vocês querem depois disso. Aliás, evitem tocar também. Mexa no seu cabelo, não no da menina, a menos que ela consinta. Essas aproximações precoces nos fazem querer sair correndo!
- Nunca faça elogios efusivos aos atributos físicos de uma mulher (que você não conhece ou conhece pouco) pra ela mesma. Não importa as bobagens que passem pela sua cabeça, muito menos o que você diz aos seus amigos. Seja generalista. “Você é bonita” basta pra começar. Jamais diga coisas como “Seu peito é bonito”. Não. Nããããoooo!!!
- Não fume. Mas, se fumar, faça isso longe de nós. Mesmo as que fumam, pode apostar, fazem um esforço danado para manterem-se cheirosas o dia inteiro nesta poluição de meu Deus. Fazemos manutenção do perfume, do desodorante e da maquiagem às vezes várias vezes por dia. Então, por favor, não bafore na nossa cara.
- Não diga o quanto você é bom, o quanto você sabe, o quanto você já fez, o quanto demais você é. Não seja afobado, confie em nossa inteligência e deixe que fazemos nosso próprio julgamento. Obrigada.
- Não fale das ex. Isso nos interessa e perguntaremos quando quisermos. Caso não perguntemos, não mencione seu passado. E, quando mencionar num belo dia em que seu passado sexual/afetivo seja nossa pauta, fale como se tudo tivesse acontecido em outra vida. Teatralize a questão e responda como se nem se lembrasse. Vale franzir a testa e fingir que é um grande esforço se lembrar de qualquer coisa antes de você conhecer a atual. Responda somente o que for perguntado e após cada sentença, adicione: “não era como você”.
- Não traia. Conheço muitas mulheres que considerariam a hipótese de um relacionamento aberto, algumas que já o tiveram, poucas que se deram bem com isso. Mas não conheço nenhuma que toleraria a traição. Não que não haja. Mas daí vai de você querer uma mulher com auto-estima ou sem.
- Não se drogue. As mulheres têm a atenção multifocada e detalhista, ou seja, você, homem, já está naturalmente em desvantagem em relação a nossa minúcia e destreza lingüística. São poucos os casos em que você conhece uma mulher numa situação em que sua prova de matemática pode ser o assunto. Então, facilite as coisas para você mesmo: não use entorpecentes, a menos que as mulheres sóbrias não façam seu tipo.
- Não use clichês. Pelo amor de nosso senhor, prefiram o silêncio. Frases como “o cachorro tem telefone?” só servem pra gente rir e apertar o passo.
- Seja homem. Não conheço mulher que goste que seu acompanhante faça as unhas. Mantê-las limpas já tá bom. Base é demais. Hidrate seu rosto só se estiver esturricado, do contrário, mantenha-se longe de cosméticos e frescurinhas. Isso é coisa nossa.
- Saia da casa dos seus pais. Nós, mulheres batalhadoras, não vemos com bons olhos os marmanjos que ficam com papi e mami além do necessário. Siga sua vida, seja independente, tenha autonomia, aprenda a cuidar de si.
- Seja um bom filho. Um homem que grita com a mãe não está no sonho de nenhuma mulher. Eu garanto.
- Cuide dos presentes que ganhar. Mesmo que seja só um bilhetinho. Guarde com todo o carinho, porque nós, mulheres, adoramos testar a importância que vocês atribuem a nós através da importância que vocês atribuem ao que damos a vocês.
E, a última, pra fechar com chave de outro: conquiste primeiro. Depois, pode fazer o que quiser. Coração de mulher costuma ser leal por um tempo mínimo de um ou dois anos. Seja esperto.
23 de abril de 2010
22 de abril de 2010
The ladies room
O banheiro feminino é um celeiro de boas novas, más novas, tecnologias novas e novas. Conselhos, regimes, consultas rápidas, compartilhamento de experiências com o cachorro, o filho, o namorado, o cabelo, a pele, a mãe e Deus. De vez em quando alguns flagras valem à pena, como alguém arrumando o cabelo enquanto fala com a outra, na casinha:
_ Ah... sei lá. Tô boba... rs
_ Boba?
_ É! Boba! Tô assim esses dias...
_ Por quê?
_ Ah... sei lá... Tô apaixonada.
_ Mas você não namora?
_ Uhum.
_ E faz tempo, não faz?
_ Faz! Então! É por ele mesmo que eu tô apaixonada.
_ Pelo mesmo?
_ É. Me apaixonei de novo. Sabe cumé? Me apaixonei outra vez pelo meu namorado.
Uhum. Eu sei como é. Mas, embora pareça, não é um quarto. É um banheiro.
Ajeitei eu o meu cabelo também e saí sem dizer:
_ Aaaahhhhh... sim! Eu sei, sim! Sei como é. Mas não fala pra ele senão ele monta, viu?
_ Ah... sei lá. Tô boba... rs
_ Boba?
_ É! Boba! Tô assim esses dias...
_ Por quê?
_ Ah... sei lá... Tô apaixonada.
_ Mas você não namora?
_ Uhum.
_ E faz tempo, não faz?
_ Faz! Então! É por ele mesmo que eu tô apaixonada.
_ Pelo mesmo?
_ É. Me apaixonei de novo. Sabe cumé? Me apaixonei outra vez pelo meu namorado.
Uhum. Eu sei como é. Mas, embora pareça, não é um quarto. É um banheiro.
Ajeitei eu o meu cabelo também e saí sem dizer:
_ Aaaahhhhh... sim! Eu sei, sim! Sei como é. Mas não fala pra ele senão ele monta, viu?
19 de abril de 2010
Como fazer cessar a resistência: render.
Eu era recém saída de um show de blues 10 vezes melhor do que aquele no Saloun de Georgetown. Depois de conhecer todos os caras da banda e todos os seus convidados, além da namorada do guitarrista e de um jornalista paulistano radicado em Brasília (vai entender!), saímos.
Ainda com o corpo dolorido de tanto dançar - o que até rendeu elogios da própria banda, que alegou nunca ter visto uma galera tão animada - fomos subindo a rua, sublimados e exaustos.
Daí parei. À visão daquela casa tão bonita, de tijolos branquinhos e um algo romântico, tive que parar. Fiquei olhando praquelas janelas compridas lá no alto e meus olhos foram descendo até pousar nos dois rapazes sentados à porta, num banco de madeira. Eles pararam de conversar e também me olharam.
_ Oi! - eu disse.
_ Oi! - eles responderam em uníssono.
_ O quê é aqui?
_ Um ateliê.
_ De moda?
_ É. E lá em cima funciona um salão de beleza.
_ Hum... Que casa bonita!
_ É. Vem aí durante a semana pra conhecer.
Ousada como estava e sou, acheguei-me à porta.
_ Hum... Um ateliê... Por isso aquele manequim... Bonito o vestido! Você é designer de moda?
_ Sou sim. Gostou do vestido?
_ Uhum!
_ Quer ver?
_ Quero!!!
_ Tá. Vem.
Entramos e o Alessandro foi me mostrando tudo. Vestidos, camisas e até uma calça-meio-saia que ele fez pra Vanessa da Mata. Olhei tudo e voltamos pro banco na porta.
_ Sabe, eu tava aqui falando com meu amigo, Del, sobre uma peça que vimos esta noite. Se chama A Alma Imoral e...
_ Ah!!! Eu já vi duas vezes!!! É demais!!!
Ficamos conversando sobre a peça, tradição, traição e transgressão, até que mais gente saiu do que fora um show de blues minutos antes. Ao ver o papo empolgado, elas passaram devagar, num jeito de tentar nos entender. Aproveitei pra dizer que ali funcionava um ateliê e em cima um salão de beleza. Levei-as pra dentro e aproveitei pra mostrar a calça-meio-saia que parece calça quando você anda e saia quando você tá parada, feita pra Vanessa da Mata. Expliquei que a especialidade era origami em tecido e elas ficaram encantadas e começaram a perguntar o preço. Chamei o Alê pra responder às dúvidas e voltei pra fora pra conversar mais com o Del.
_ ...E eu tenho uma irmã na Austrália, uma na Dinamarca, irmãos aqui em São Paulo. Mas minha família mesmo tá toda lá em Pernambuco.
_ E sua mãe não ficou triste de você vir também?
_ Não! Minha mãe é uma mulher maravilhosa. Ela sabe que filhos são pro mundo.
_ E você não sente saudades dela e dos seus irmãos?
_ Sinto.
_ E aí?
_ Saudade não é uma coisa que você desliga, que você corta. Você nunca interrompe a saudade. Você vive com ela.
_ Mas saudade dói...
_ Não! Dói pra você? Pra mim não...
_ Pra mim dói! É um sofrimento!
_ Não! Nossa... não é não! Eu não sofro. Saudade é um sentimento bom.
_ Mas é um vazio, uma falta.
_ Não... A distância não termina com o afeto e afeto não pode ser sofrimento.
_ Você não sofre por isso?
_ Não.
_ Pelo quê você sofre?
Ele parou, olhou pro horizonte curto, que ia até o outro lado da rua. Mexeu os olhos num jeito de se examinar a si mesmo, olhando pra fora, mas vendo por dentro.
_ Você não sofre por nada?
_ Olha... Eu procuro viver a vida pela perspectiva do positivo, do prazer, não do sofrimento. Eu fico triste às vezes, mas sofrer... Não... Sofrer não.
Encantada.
Minutos depois, me despedi do desconhecido-irmão e fui pra dentro da casa, dar um tchau pro Alê também.
_ Que signo cê é? - ele me perguntou. E respondemos juntos:
_ Sagitário!
_ Como você sabe?
_ Ah... Porque você é a típica sagitariana. Olha isso! A menina tá até experimentando as roupas. São três e meia da manhã e meu ateliê estava fechado. Você não só abriu, como trouxe mais gente e ainda vendeu minhas roupas! Adorei te conhecer. Foi um prazer, Camila. Obrigado.
_ Magina! Prazer foi meu em conhecê-lo. Nos veremos de novo. Beijo!
Saldo da noite: uma Bia, namorada de um Celso Salim que toca com um Sérgio Duarte (gaita), um Paulinho (batera) e um Márcio (baixista, cuja mesa estava reservada até eu me apossar indevidamente). Mais três caras gaitistas, uma vocalista maravilhosa... Um Gabriel (jornalista), um Alessandro e um Del (estilistas). Mais as roupas do Alê que eu vendi... hum...
É. Foi uma boa noite.
Ainda com o corpo dolorido de tanto dançar - o que até rendeu elogios da própria banda, que alegou nunca ter visto uma galera tão animada - fomos subindo a rua, sublimados e exaustos.
Daí parei. À visão daquela casa tão bonita, de tijolos branquinhos e um algo romântico, tive que parar. Fiquei olhando praquelas janelas compridas lá no alto e meus olhos foram descendo até pousar nos dois rapazes sentados à porta, num banco de madeira. Eles pararam de conversar e também me olharam.
_ Oi! - eu disse.
_ Oi! - eles responderam em uníssono.
_ O quê é aqui?
_ Um ateliê.
_ De moda?
_ É. E lá em cima funciona um salão de beleza.
_ Hum... Que casa bonita!
_ É. Vem aí durante a semana pra conhecer.
Ousada como estava e sou, acheguei-me à porta.
_ Hum... Um ateliê... Por isso aquele manequim... Bonito o vestido! Você é designer de moda?
_ Sou sim. Gostou do vestido?
_ Uhum!
_ Quer ver?
_ Quero!!!
_ Tá. Vem.
Entramos e o Alessandro foi me mostrando tudo. Vestidos, camisas e até uma calça-meio-saia que ele fez pra Vanessa da Mata. Olhei tudo e voltamos pro banco na porta.
_ Sabe, eu tava aqui falando com meu amigo, Del, sobre uma peça que vimos esta noite. Se chama A Alma Imoral e...
_ Ah!!! Eu já vi duas vezes!!! É demais!!!
Ficamos conversando sobre a peça, tradição, traição e transgressão, até que mais gente saiu do que fora um show de blues minutos antes. Ao ver o papo empolgado, elas passaram devagar, num jeito de tentar nos entender. Aproveitei pra dizer que ali funcionava um ateliê e em cima um salão de beleza. Levei-as pra dentro e aproveitei pra mostrar a calça-meio-saia que parece calça quando você anda e saia quando você tá parada, feita pra Vanessa da Mata. Expliquei que a especialidade era origami em tecido e elas ficaram encantadas e começaram a perguntar o preço. Chamei o Alê pra responder às dúvidas e voltei pra fora pra conversar mais com o Del.
_ ...E eu tenho uma irmã na Austrália, uma na Dinamarca, irmãos aqui em São Paulo. Mas minha família mesmo tá toda lá em Pernambuco.
_ E sua mãe não ficou triste de você vir também?
_ Não! Minha mãe é uma mulher maravilhosa. Ela sabe que filhos são pro mundo.
_ E você não sente saudades dela e dos seus irmãos?
_ Sinto.
_ E aí?
_ Saudade não é uma coisa que você desliga, que você corta. Você nunca interrompe a saudade. Você vive com ela.
_ Mas saudade dói...
_ Não! Dói pra você? Pra mim não...
_ Pra mim dói! É um sofrimento!
_ Não! Nossa... não é não! Eu não sofro. Saudade é um sentimento bom.
_ Mas é um vazio, uma falta.
_ Não... A distância não termina com o afeto e afeto não pode ser sofrimento.
_ Você não sofre por isso?
_ Não.
_ Pelo quê você sofre?
Ele parou, olhou pro horizonte curto, que ia até o outro lado da rua. Mexeu os olhos num jeito de se examinar a si mesmo, olhando pra fora, mas vendo por dentro.
_ Você não sofre por nada?
_ Olha... Eu procuro viver a vida pela perspectiva do positivo, do prazer, não do sofrimento. Eu fico triste às vezes, mas sofrer... Não... Sofrer não.
Encantada.
Minutos depois, me despedi do desconhecido-irmão e fui pra dentro da casa, dar um tchau pro Alê também.
_ Que signo cê é? - ele me perguntou. E respondemos juntos:
_ Sagitário!
_ Como você sabe?
_ Ah... Porque você é a típica sagitariana. Olha isso! A menina tá até experimentando as roupas. São três e meia da manhã e meu ateliê estava fechado. Você não só abriu, como trouxe mais gente e ainda vendeu minhas roupas! Adorei te conhecer. Foi um prazer, Camila. Obrigado.
_ Magina! Prazer foi meu em conhecê-lo. Nos veremos de novo. Beijo!
Saldo da noite: uma Bia, namorada de um Celso Salim que toca com um Sérgio Duarte (gaita), um Paulinho (batera) e um Márcio (baixista, cuja mesa estava reservada até eu me apossar indevidamente). Mais três caras gaitistas, uma vocalista maravilhosa... Um Gabriel (jornalista), um Alessandro e um Del (estilistas). Mais as roupas do Alê que eu vendi... hum...
É. Foi uma boa noite.
16 de abril de 2010
Pittoresco
Eu mesma já vi muita coisa suspeita nessa vida, como a minha irmã ganhar o prêmio de uma rifa que ela mesma vendia, por exemplo. Agora, tele-sena como moeda nacional não conhecia. Mas daí passou lá na frente de casa um alto-falante de carro:
“Pamonha, pamonha, pamonha!
Pamonha fresquinha!
Temos cural e pamonha!
Corra que já está acabando!”
Até aí já é bem suspeito que haja duas gravações: uma pra quando a pamonha estiver acabando e outra pra quando ainda tiver bastante. Ou será que o alto-falante já começa anunciando, às 6h da manhã, que a pamonha está acabando? Será que é pra causar uma espécie de pânico social e precipitação coletiva em direção à (toda) pamonha restante?
“Pamonha!
3 por apenas 2 reais!
E traga sua tele-sena!
Trocamos tele-sena por pamonha!”
Opa!
Aí é negócio, hein?
Procurei a dona da voz feminina dentro do carro, mas me deparei com um baixinho bigodudo.
Hummm...
Voz de mulher + 3 por $2 + já tá acabando às 2h da tarde + tele-sena serve + bigodudo
...Não.
...Mesmo que eu gostasse de pamonha...
Vai que é de ervilha!
“Pamonha, pamonha, pamonha!
Pamonha fresquinha!
Temos cural e pamonha!
Corra que já está acabando!”
Até aí já é bem suspeito que haja duas gravações: uma pra quando a pamonha estiver acabando e outra pra quando ainda tiver bastante. Ou será que o alto-falante já começa anunciando, às 6h da manhã, que a pamonha está acabando? Será que é pra causar uma espécie de pânico social e precipitação coletiva em direção à (toda) pamonha restante?
“Pamonha!
3 por apenas 2 reais!
E traga sua tele-sena!
Trocamos tele-sena por pamonha!”
Opa!
Aí é negócio, hein?
Procurei a dona da voz feminina dentro do carro, mas me deparei com um baixinho bigodudo.
Hummm...
Voz de mulher + 3 por $2 + já tá acabando às 2h da tarde + tele-sena serve + bigodudo
...Não.
...Mesmo que eu gostasse de pamonha...
Vai que é de ervilha!
13 de abril de 2010
Um outro dia daquele mesmo outono
Depois de sentar na beira da fonte, brincar no balanço sem ser pega pelo guardinha, olhar as crianças brigarem por um graveto, ser o personagem da obra dele na areia, tentar ler os nomes no coração de estilete na árvore e examinar de perto os cogumelos pretensamente alucinógenos que cresciam brancos feito conchas cravadas num tronco, perguntei pra ele:
_ Você se acha diferente da maioria?
_ Acho.
_ Por quê?
_ ...
_ O quê a maioria faz que você não faz? O quê a maioria tem que você não tem? O quê te faz diferente?
Ele pensou e disse, numa verdade tão sábia quanto simples e justamente por isso:
_ Eu sou diferente porque a maioria prefere ficar do outro lado do portão do parque.
Olhei pr’aquele verde, pr’aquela meia dúzia de gente e sorri diante da constatação.
_ Ótima resposta.
Algum tempo depois ele me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim, mas que era um equilíbrio frágil, como uma ponte que você não pode pular em cima.
_ Mas pode passar devagarzinho...
_ Sim. E em silêncio.
Aí, quando não dava mais pra ignorar a fome que nem a falta de apetite vencia, sentamos no MacDonald’s.
_ Viny... Olha ali... A moça tá com roupa de ginástica... Ela devia estar malhando. Mas daí sai da ginástica e vem pro MacDonald’s??? Bizarro, né?
_ Não... Cê não entendeu. Vou te explicar a lógica: algumas pessoas gostam muito de MacDonald’s. Mas daí, pra poder comer sempre que quiserem, elas fazem exercícios, pra compensar. Entendeu?
_ Ah... Eu como sempre que eu quero e não faço exercícios!
_ Bom... Nem todo mundo tem a sua sorte – disse ele me apontando.
_ Mas ela também é magra!
_ Ela é magra porque malha.
_ Hum...
_ Mas pode apostar que a coca é zero!
A gente pegou o metrô e ele me deixou na catraca, depois de enxugar minhas lágrimas nas mangas da blusa dele.
_ Obrigada...
_ Eu que agradeço.
Fiquei pensando se ele me agradeceu porque gostava muito de que alguém molhasse as mangas da blusa dele com lágrimas, mas não tive ânimo de perguntar e só acenei.
_ Você se acha diferente da maioria?
_ Acho.
_ Por quê?
_ ...
_ O quê a maioria faz que você não faz? O quê a maioria tem que você não tem? O quê te faz diferente?
Ele pensou e disse, numa verdade tão sábia quanto simples e justamente por isso:
_ Eu sou diferente porque a maioria prefere ficar do outro lado do portão do parque.
Olhei pr’aquele verde, pr’aquela meia dúzia de gente e sorri diante da constatação.
_ Ótima resposta.
Algum tempo depois ele me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim, mas que era um equilíbrio frágil, como uma ponte que você não pode pular em cima.
_ Mas pode passar devagarzinho...
_ Sim. E em silêncio.
Aí, quando não dava mais pra ignorar a fome que nem a falta de apetite vencia, sentamos no MacDonald’s.
_ Viny... Olha ali... A moça tá com roupa de ginástica... Ela devia estar malhando. Mas daí sai da ginástica e vem pro MacDonald’s??? Bizarro, né?
_ Não... Cê não entendeu. Vou te explicar a lógica: algumas pessoas gostam muito de MacDonald’s. Mas daí, pra poder comer sempre que quiserem, elas fazem exercícios, pra compensar. Entendeu?
_ Ah... Eu como sempre que eu quero e não faço exercícios!
_ Bom... Nem todo mundo tem a sua sorte – disse ele me apontando.
_ Mas ela também é magra!
_ Ela é magra porque malha.
_ Hum...
_ Mas pode apostar que a coca é zero!
A gente pegou o metrô e ele me deixou na catraca, depois de enxugar minhas lágrimas nas mangas da blusa dele.
_ Obrigada...
_ Eu que agradeço.
Fiquei pensando se ele me agradeceu porque gostava muito de que alguém molhasse as mangas da blusa dele com lágrimas, mas não tive ânimo de perguntar e só acenei.
5 de abril de 2010
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