Acordei velha.
Assim.
Não se preocupe comigo.
Subitamente envelheci.
Penso que acontece com muitos que conheci.
Eu, de cara lisa no espelho, de repente acorcovei.
Disseram-me que passa como veio essa estafa de vida. Só é preciso ver gente. Mas a gente é que me envelhece.
Escolhi fazer canja pro almoço, açúcar queimado e repousei. O cansaço me abateu como aviso de morte, sono pesado, irresistível.
Tive da nostalgia o apelo dos anos me questionando, primavera e verão esfriando e eu ali, bebendo as agruras mais descabidas como fosse parte do destino ou conseqüência do momento político da nação.
Fui engolindo o que não se digere e tudo aquilo eu sabia no filme que me resolvia nos dias finais. Porque aí sim a pessoa pensa na mãe, na mãe da mãe, na mãe da mãe da mãe e em todos os ex-homens.
Comigo aconteceu bonito. Vim numa trajetória retilínea de juventude e frescor de juventude e sexo de juventude. E se eu disser que não sei como foi ou de repente, minto. Repreendam-me. Eu sei que disse súbito, mas não foi e te corrijo essa mania de acreditar em tudo o que eu digo. É claro que uma pessoa conhece a própria tragédia, ainda que ignore as coisas divinas ou o carma ancestral. A verdade é que a gente se sente no declínio próspero e corriqueiro e, por isso, vai-se abandonando nos estágios intermediários até a loucura plena.
Penso eu que de todos os males que me poderiam acontecer – e penso muito em atropelamento, queda da varanda, elevador que despenca, latrocínio principalmente –, sei por que me acomete a velhice. Logo essa lesão tão sem graça e singela, que me alcançaria de qualquer maneira, alcança-me agora, cedo demais até para um ultraje.
Eu tinha pena de morrer e a fui perdendo. Daí passei do ponto. Foram várias as razões cuidadosamente entristecidas durante o contínuo da noite e do dia. Se o mundo parasse vez em quando talvez isso não me tivesse acontecido. Ou se meditasse. Recomendo a todos que meditem. Talvez isso simples me tivesse salvado, mas já é tarde. Experimentem vocês que ficam.
Eu, particularmente, não queria morrer. Mas é que sinto um cansaço tal que até me rendo. Não quero mais brigar, não quero mais ser o que não sou. Quero ser essa envelhecida de mágoas desconexas e maldadezinhas infantis.
Que não saia daqui, mas uma vez disse à vizinha – uma velha, tadinha – que era melhor que tirasse os bigodes, para não desleixar da aparência. Ela correu para dentro e por dias a vi com o buço vermelho. Insegura por não enxergar os pêlos, por via das dúvidas acho que fazia o ritual duas vezes ao dia. Mas não tinha bigodes e eu não falei que melhor seria prender aquele cabelo ralinho de gente velha. Ri durante dias, mas só por algumas semanas. Ela logo morreu e eu fiquei triste de não ter de quem rir.
Agora assim, que eu me apressei a morrer, fico cá cutucando feridas que se queriam esquecidas e vejo ainda sangrando. Essa vizinha mesma, a pobre que me acreditava... fosse ela meu pecado seria ligeiro e fácil morrer. Mas cometi desmandos que não ouso pronunciar. Seria preciso que você fosse padre.
Ou amigo.
Seria preciso um amigo íntimo, de um poder sobre mim que não há quem goze. Escolhi que não me vissem desde que finalmente aconteceu. Eu não saberia justificar minha morte precoce de velhice que só se sente, mas não se enxerga. Eu não saberia o que dizer. Além do mais, morrer é algo que se faz sozinho.
Nascer é algo que se faz sozinho. Os médicos existem para ajudar as mães, não os bebês. Os bebês nascem sozinhos e logo percebem a imensa solidão em que se meteram, por isso choram. Choram por sentir que jamais estarão ligados ao umbigo de alguém novamente. Jamais estarão tranqüilos porque há quem os cuide. Nascer é um gesto supremo de aceitação da solidão e da morte. Não tivesse nascido, não morreria e estava resolvido.
Mas fui nascer e agora também estou resoluta a aceitar o fardo da etapa última. Eu sou jovem e não precisava ir agora, bem sei.
Mas desisti.
O peso da minha alma não se descreve em uma linha de arrobas. Preciso ir que já quase não sinto mais pena e esse é o prenúncio da hora.
Vou dormir.
E assim foi, jovem e cheia de vida, aos 94 anos.
27 de setembro de 2011
21 de setembro de 2011
Do que eu também padeço
No semáforo, à luz vermelha, duas meninas seguravam bandeiras de propagandas, indicando aos motoristas a direção de um novo condomínio. Uma delas chamou, num tom de alegria:
_ Maria! Maria! Falta só dez minutos!
_ Jura??? Dez minutos? Ah, então vamos embora! – a outra respondeu já enrolando sua bandeira.
_ Não, não! A gente não pode! É que ainda falta dez pra faltar vinte!
_ Maria! Maria! Falta só dez minutos!
_ Jura??? Dez minutos? Ah, então vamos embora! – a outra respondeu já enrolando sua bandeira.
_ Não, não! A gente não pode! É que ainda falta dez pra faltar vinte!
16 de setembro de 2011
Neutral
Alguma coisa dói em mim quando a vejo. Algo que, se não é insondável, ao menos está nos meus recônditos. Não sei por qual razão ela se apaga tanto. Só a conheço na languidez e altura do pescoço. Conheço-a nos baldes e na toquinha clássica, mas me revolta o que a deve atormentar.
Penso nela e depressa me acomete uma angústia. Tenho pra mim que é reflexo de solidão. É uma presença doce, no entanto. Muito leve. É tanto que a gente é capaz de nem notar que nos faz sombra, esvaziando a lixeirinha em baixo da mesa, uma por uma, perfeccionista.
Ela é capaz de se deitar e levantar com a mesma expressão de sonseria. Se tem pena de si não sei, mas abandonou a vivacidade categoricamente. Arrasta-se, como um espectro neutro, silenciosa e precisa por entre as baias. E misteriosa, ela. Inexpressiva, meio patife, do tipo “credo em cruz” de ser assim.
Dedica-se à higienização dos sanitários de modo a ter predileção pelos produtos mais fétidos. Pensa que assim estão mais limpos, quanto mais insuportável o cheiro que ela respira com indiferença. Acho que, no fundo, ela se testa ao seu limite e se extrapola de um propósito absurdo. O firme propósito de não ser.
Penso nela e depressa me acomete uma angústia. Tenho pra mim que é reflexo de solidão. É uma presença doce, no entanto. Muito leve. É tanto que a gente é capaz de nem notar que nos faz sombra, esvaziando a lixeirinha em baixo da mesa, uma por uma, perfeccionista.
Ela é capaz de se deitar e levantar com a mesma expressão de sonseria. Se tem pena de si não sei, mas abandonou a vivacidade categoricamente. Arrasta-se, como um espectro neutro, silenciosa e precisa por entre as baias. E misteriosa, ela. Inexpressiva, meio patife, do tipo “credo em cruz” de ser assim.
Dedica-se à higienização dos sanitários de modo a ter predileção pelos produtos mais fétidos. Pensa que assim estão mais limpos, quanto mais insuportável o cheiro que ela respira com indiferença. Acho que, no fundo, ela se testa ao seu limite e se extrapola de um propósito absurdo. O firme propósito de não ser.
11 de setembro de 2011
Íntimo
Quando baixei o vestido até a metade, era tarde. O sol me acertava de viés. Você me olhou extasiado num átimo, depois dolorido. Cambaleou sutil, franziu o cenho e se apoiou na escrivaninha. Perguntei o que o afligia e respondeu-me de olhos fechados que nada. Apertou os dedos na têmpora esquerda e disse pausado, embebido da luz: “é que quero guardar essa imagem”.
1 de setembro de 2011
Ligeiro
A esperança me espanta, comove. Na ingenuidade, quietinha, ouço um grito antigo que se embrenha na beleza de tudo idealizar, ainda que nada tenha.
Beleza, essa covarde passageira, viajante oxidada se esperando derreter. É nascida pra morrer toda vida. O tempo do saculejo é uma peraltice, que alguém estique o lençol e o lance pro alto acima da cama. Se tem sol a gente vê a poeira e acha bonito. O humano intui ser intervalo da transa que começa quando o lençol sobe. Sobe, paira sem peso e desce sobre nossos olhos cerrados. Ou vidrados.
A morte é o pedaço mais bonito da vida quando acontece. A liberdade impossível das necessidades primárias. É um coito interrompido abrupto e belo, rasgando o anseio, a fobia, a vertigem.
Pressenti beleza e morte quando ouvi dizer que aquele menino queria fazer gastronomia e por isso foi trabalhar no quiosque do shopping vendendo cup cakes.
A vida é um escândalo para quem não se escandaliza.
Beleza, essa covarde passageira, viajante oxidada se esperando derreter. É nascida pra morrer toda vida. O tempo do saculejo é uma peraltice, que alguém estique o lençol e o lance pro alto acima da cama. Se tem sol a gente vê a poeira e acha bonito. O humano intui ser intervalo da transa que começa quando o lençol sobe. Sobe, paira sem peso e desce sobre nossos olhos cerrados. Ou vidrados.
A morte é o pedaço mais bonito da vida quando acontece. A liberdade impossível das necessidades primárias. É um coito interrompido abrupto e belo, rasgando o anseio, a fobia, a vertigem.
Pressenti beleza e morte quando ouvi dizer que aquele menino queria fazer gastronomia e por isso foi trabalhar no quiosque do shopping vendendo cup cakes.
A vida é um escândalo para quem não se escandaliza.
25 de agosto de 2011
Meu segredo até de mim
O tempo recupera e eu soube a graça. O que é pra ser é, mas vaticínio coletivo não sabia que pegava.
Muitos foram os avisos da aura que nos envolvia e amparava. Nós ignorávamos solenemente, orgulhosos da intransigência.
...Até que o chão nos teve em desistência. A gravidade nos uniu como força escorregadia... Parecia ilusão quando me descobria os truques que eu não tinha.
Tal qual botão que sela um feito sigiloso. As miudezas sussurravam no breu da casa vazia: “o que terá sido deles?”
17 de agosto de 2011
Lar
...Que a vida é encantada e, ademais, eu também fazia cabaninhas quando criança. E era generosa! Fazia para minha irmã e eu morarmos juntas! Alegria nossa era viver à parte (no meio da sala), pra sempre (por meia horinha, até que cansávamos), numa casa só nossa, só com as nossas coisas (tudo furtado dos cômodos oficiais). E ficávamos lá, fazendo nada até nos dar de tédio à claustrofobia e resolvermos “dar uma volta” e ser gente da família de novo.
Alguma vez era de armação precária a casinha. Eu, a mais velha, sustentava o edredom no ar com as próprias pernas. Outra vez, cismava de construir direito e rijo, com duas cadeiras, uma de cada lado, teto e paredes de cobertor amarrado e nós no meinho.
Dada minha vasta experiência, não pude deixar de notar a delicadeza e regularidade com que outra cabaninha era feita.
Uma caixa de papelão formava um triângulo com o muro e o chão. Um cobertor por cima conferia resistência e calor à morada, com um rasgo fino e preciso na lateral, para ventilar sem comprometer a privacidade. Uma vassoura gasta teimava em escapar e se deixar ver, que não entrava inteira no espaço. E eu sabia, por isso, que o morador o varria.
Eu passava naquela esquina e olhava pra cabana. A cabana se deixava olhar. A vida era, então, desencantada.
Alguma vez era de armação precária a casinha. Eu, a mais velha, sustentava o edredom no ar com as próprias pernas. Outra vez, cismava de construir direito e rijo, com duas cadeiras, uma de cada lado, teto e paredes de cobertor amarrado e nós no meinho.
Dada minha vasta experiência, não pude deixar de notar a delicadeza e regularidade com que outra cabaninha era feita.
Uma caixa de papelão formava um triângulo com o muro e o chão. Um cobertor por cima conferia resistência e calor à morada, com um rasgo fino e preciso na lateral, para ventilar sem comprometer a privacidade. Uma vassoura gasta teimava em escapar e se deixar ver, que não entrava inteira no espaço. E eu sabia, por isso, que o morador o varria.
Eu passava naquela esquina e olhava pra cabana. A cabana se deixava olhar. A vida era, então, desencantada.
15 de agosto de 2011
Três da manhã
A madrugada deveria ser sagrada. Seu pico, a hora mágica de todos os anjos. No silêncio fácil eu descubro porque mesmo foi que me ocorreram as idéias e lembranças mais estúpidas e dramáticas, como casamento, tagarelices e as péssimas propagandas do guaraná Dolly.
Na imperturbabilidade de uma cidade no escuro eu consigo escutar o celular da vizinha vibrando sobre uma superfície dura. Imagino, então, com pudor súbito, o que ela deve escutar de mim.
Declarações, nascidas íntimas e sorrateiras, viram cânticos dionisíacos para a não-platéia do condomínio, forçada a ouvir o desabafo alterado e rouco na voz feminina: “Amooor. Eu quero amooor...” – de continuação indistinguível.
“Eu também quero” – pensei sem interferir na noite. Consigo pensar em um montão de gente que quer. Mas são muitas pessoas querendo amor... e poucas dispostas a se dar ao trabalho, correr o grande risco... de amar.
3h11m
Na imperturbabilidade de uma cidade no escuro eu consigo escutar o celular da vizinha vibrando sobre uma superfície dura. Imagino, então, com pudor súbito, o que ela deve escutar de mim.
Declarações, nascidas íntimas e sorrateiras, viram cânticos dionisíacos para a não-platéia do condomínio, forçada a ouvir o desabafo alterado e rouco na voz feminina: “Amooor. Eu quero amooor...” – de continuação indistinguível.
“Eu também quero” – pensei sem interferir na noite. Consigo pensar em um montão de gente que quer. Mas são muitas pessoas querendo amor... e poucas dispostas a se dar ao trabalho, correr o grande risco... de amar.
3h11m
12 de agosto de 2011
Ganhei uma flor branca...
No café da manhã.
Escolhi aleatoriamente uma mesinha no lugar de sempre e pedi um mineiro quente no pão francês e um toddy gelado.
Eu adoro toddy.
Mas daí veio junto uma flor branca das mãos de um mensageiro tímido:
_ É do Júnior. Ele mesmo que fez. Pra você!
O caule de canudo sustentava as pétalas de guardanapo branco, entrelaçadas cuidadosamente.
Senti minhas bochechas aquecerem e voltei pro trabalho, feliz da vida, com a flor que enfeita o porta-canetas.
Além do toddy, adoro flores brancas de guardanapo e canudo no café da manhã, descobri naquele dia.
A vida pode ser linda.
Escolhi aleatoriamente uma mesinha no lugar de sempre e pedi um mineiro quente no pão francês e um toddy gelado.
Eu adoro toddy.
Mas daí veio junto uma flor branca das mãos de um mensageiro tímido:
_ É do Júnior. Ele mesmo que fez. Pra você!
O caule de canudo sustentava as pétalas de guardanapo branco, entrelaçadas cuidadosamente.
Senti minhas bochechas aquecerem e voltei pro trabalho, feliz da vida, com a flor que enfeita o porta-canetas.
Além do toddy, adoro flores brancas de guardanapo e canudo no café da manhã, descobri naquele dia.
A vida pode ser linda.
10 de agosto de 2011
Bruto
Eu não sei como tanta sujeira cabe numa pessoa. Parece que o preto se vai acumulando como que a formar um duplo do indivíduo, um outro dele mesmo que o encobre, como pêlos ou penas, talvez a lhe aquecer.
Desgrudar aquilo tudo exigiria um arranque doloroso, uma festa de despedida. Um braço forte, força párea que lhe urdisse novamente o ventre e a tez, fundida em negrume, já quase extinta. Nem feição mais, tal ponto. Debaixo de um banho se revelaria, descoberta, quiçá, que depois de um tempo até a gente se esquece da gente. Se não nos chamam pelo nome, decerto o esquecemos. Se não usamos da dignidade, não a temos.
Eu imaginava ali correntes e escutava grilhões nas passadas. Mas eram só dois pés sujos metidos em tênis velhos, silenciosos. No topo do ser sem nome, cabelo vasto e o fumo lhe fazendo contorno.
Dó, não... Era outro espécime em mim nascendo, outra manifestação quase tão ruim. A solidariedade que se tem por bicho. Um reconhecimento entre animais.
Desgrudar aquilo tudo exigiria um arranque doloroso, uma festa de despedida. Um braço forte, força párea que lhe urdisse novamente o ventre e a tez, fundida em negrume, já quase extinta. Nem feição mais, tal ponto. Debaixo de um banho se revelaria, descoberta, quiçá, que depois de um tempo até a gente se esquece da gente. Se não nos chamam pelo nome, decerto o esquecemos. Se não usamos da dignidade, não a temos.
Eu imaginava ali correntes e escutava grilhões nas passadas. Mas eram só dois pés sujos metidos em tênis velhos, silenciosos. No topo do ser sem nome, cabelo vasto e o fumo lhe fazendo contorno.
Dó, não... Era outro espécime em mim nascendo, outra manifestação quase tão ruim. A solidariedade que se tem por bicho. Um reconhecimento entre animais.
8 de agosto de 2011
Aviador
Houve um tempo em que eu queria genuinamente fazer algo relevante pela humanidade. Mas quando me deparo com essa doçura violenta que é a vida, o amor... resta-me pouco, resta-me nada a dizer.
Saint-Exupéry, autor do Pequeno Príncipe, enamorou-se certa vez, aos 43 anos, por uma menina de 23, casada, francesa.
Com tudo o que aquele amor tinha de inapropriado, lançou-se ele, com aquarelas e poesias, a conquistá-la. Em dado momento, ao ver fracassar aquele romance, escreveu à ela:
“Descubro com melancolia que meu egoísmo não é tão grande assim, pois dei ao outro o poder de me magoar. Menininha, foi com carinho que lhe dei esse poder. É com melancolia que a vejo usá-lo.” (1943)
E eu daqui, de 2011, não consigo pensar em outra forma possível de usar tamanha doçura para dizer que algo está doendo dentro.
Não me resta mais nada a dizer.
Saint-Exupéry, autor do Pequeno Príncipe, enamorou-se certa vez, aos 43 anos, por uma menina de 23, casada, francesa.
Com tudo o que aquele amor tinha de inapropriado, lançou-se ele, com aquarelas e poesias, a conquistá-la. Em dado momento, ao ver fracassar aquele romance, escreveu à ela:
“Descubro com melancolia que meu egoísmo não é tão grande assim, pois dei ao outro o poder de me magoar. Menininha, foi com carinho que lhe dei esse poder. É com melancolia que a vejo usá-lo.” (1943)
E eu daqui, de 2011, não consigo pensar em outra forma possível de usar tamanha doçura para dizer que algo está doendo dentro.
Não me resta mais nada a dizer.
5 de agosto de 2011
2 de agosto de 2011
Zelador dos ventos
Eu não via problema algum. Por mim, teríamos folhas nas calçadas inteiras. Pisaríamos num chão crocante, sobre estralitos fofos no outono. As mulheres afundariam seus saltos, experimentariam o desequilíbrio e, quem sabe assim, desinventassem os degraus ambulantes. Até lá, homens e crianças levariam vantagem ao passar por onde ainda houvesse árvore.
De qualquer forma, devem tê-lo mandado. Varria a entrada do prédio com esmero e vassoura, juntando as folhas em montinhos disciplinados. Só que, como a vida tem desses ventos, acontecia de tudo voar antes que fosse possível realizar de todo o feito. E ele recomeçava, contrariado, a peripécia de viver.
De qualquer forma, devem tê-lo mandado. Varria a entrada do prédio com esmero e vassoura, juntando as folhas em montinhos disciplinados. Só que, como a vida tem desses ventos, acontecia de tudo voar antes que fosse possível realizar de todo o feito. E ele recomeçava, contrariado, a peripécia de viver.
30 de julho de 2011
Danação
Após o prenúncio do abismo, seguiu adiante como quem pisa em si mesmo no pisar do chão. Foi-se indo vagarinho, destemido, até o suor fazendo pose na testa, pra ficar bem na ressequidão. Chegou na beira e não parou, porque já havia cogitado ser ali um milhão de jeitos, coçando o queixo e se curvando e sentando e se pondo de pé.
Um milhão de jeitos, tudo estudado na vida, como cair, ralar, quebrar. Conhecia, se conhecia e estava lá mesmo, sem sustento pros pés, vento dentro da barriga, o ar parado de fora lhe entrando e saindo, seu arbítrio estrangulando.
A terceira campainha tocou, as cortinas se abriram e ele aterrissou, corpo, alma e consistência. Um piano lhe caiu no superego e de repente tinha nascido um outro, que lhe emprestara o corpo e, com sorte, devolveria no final.
Um milhão de jeitos, tudo estudado na vida, como cair, ralar, quebrar. Conhecia, se conhecia e estava lá mesmo, sem sustento pros pés, vento dentro da barriga, o ar parado de fora lhe entrando e saindo, seu arbítrio estrangulando.
A terceira campainha tocou, as cortinas se abriram e ele aterrissou, corpo, alma e consistência. Um piano lhe caiu no superego e de repente tinha nascido um outro, que lhe emprestara o corpo e, com sorte, devolveria no final.
27 de julho de 2011
30” a 80km/h
O mundo está farto de Biancas, bem sei. E estamos fartos de muros onde se picha toda sorte de nomes, bichos, rostos, frases e criaturas indistinguíveis. Mas aquele nome sangrando o preto bem na entrada do Bloco 18 me fez cogitar se Bianca era merecedora de uma homenagem, um xingo, ou talvez fosse surda e alguém lhe quisesse chamar por escrito, anunciando a todos que Bianca estava sendo solicitada. Talvez a menina partisse o coração de alguém, talvez fosse recordista no jóquei-pô e lhe prestaram as honras por isso. Talvez tenha mudado de Bloco e simplesmente marcou seu território pra trás, como os casaizinho que, inspirados pela cafonice romântica, riscam com chave seus nomes dentro de um coraçãozinho na madeira da cama do motel. E acham lindo! Ficam ali eternizados.
Bianca foi lembrada em cima da porta do dispensário de lixo, Bloco 18, Cohab-SP. Será que foi uma indireta sobre sua qualidade de espírito?
Não havia semáforo e o carro passou bem depressa. Bianca morou nos meus pensamentos por 30 segundos. Depois, nunca mais nos vimos.
Bianca foi lembrada em cima da porta do dispensário de lixo, Bloco 18, Cohab-SP. Será que foi uma indireta sobre sua qualidade de espírito?
Não havia semáforo e o carro passou bem depressa. Bianca morou nos meus pensamentos por 30 segundos. Depois, nunca mais nos vimos.
23 de julho de 2011
Inspira
Desceram a rua correndo, com exaspero de juventude, aqueles moleques. Do alto de sua rebeldia, um deles parou diante da caixa de papelão na calçada. Olhou, vacilou um instante e deu-lhe um chutão forte que fez parar bem no meio da rua.
Um seu amigo voltou, contemplou a caixa, fez menção de recolhê-la e recuou. Não estava legal aquela noite. Não queria bancar o bom moço. Passou por cima do volume e se juntou ao bando, que seguia correndo rua abaixo.
Respirei fundo aquele ar transgressor, que cheirava a mato fresco de interior.
Paz.
Um seu amigo voltou, contemplou a caixa, fez menção de recolhê-la e recuou. Não estava legal aquela noite. Não queria bancar o bom moço. Passou por cima do volume e se juntou ao bando, que seguia correndo rua abaixo.
Respirei fundo aquele ar transgressor, que cheirava a mato fresco de interior.
Paz.
13 de julho de 2011
Malia
Sala de edição.
_ Professor…
_ Oi. Você quer me mostrar algo?
_ Sim. Meu vídeo. Acho que está pronto.
_ Tá bom. Vamos lá ver.
O professor sentou na minha mesa e começou a ver meu vídeo. De repente, uma vozinha do lado de fora da sala:
_ Papai! Papai!
_ Só um minuto, Camila. – e, indo para a pequena, pegou-a no colo: _ Vem aqui com papai, mas não coloca a mãozinha em nada, que tá suja de bolacha.
A pequena olhou pra mim e eu pra ela. Era a mesma que estava do lado de fora da casa, desfilando com seu poncho. Reconhecemo-nos rapidamente e ela passou pro meu colo:
_ Oi – eu disse, pra quebrar o gelo.
_ Oi.
_ Qual é seu nome?
_ Malia.
_ Malia?
_ Malia.
_ E essa bota linda aqui, Maria? Quem te deu? Você sabe?
_ Sabe. Foi a vovó.
_ A vovó?
_ É. Vovó.
_ E essa mão babada? Crééédu. Que mão babada! Eca!
_ Eu tava comendo bolacha.
_ E cadê a bolacha?
_ Comi. Mamãe... Cadê a mamãe?
E lá foi ela em busca da mamãe, no corredor.
_ Professor…
_ Oi. Você quer me mostrar algo?
_ Sim. Meu vídeo. Acho que está pronto.
_ Tá bom. Vamos lá ver.
O professor sentou na minha mesa e começou a ver meu vídeo. De repente, uma vozinha do lado de fora da sala:
_ Papai! Papai!
_ Só um minuto, Camila. – e, indo para a pequena, pegou-a no colo: _ Vem aqui com papai, mas não coloca a mãozinha em nada, que tá suja de bolacha.
A pequena olhou pra mim e eu pra ela. Era a mesma que estava do lado de fora da casa, desfilando com seu poncho. Reconhecemo-nos rapidamente e ela passou pro meu colo:
_ Oi – eu disse, pra quebrar o gelo.
_ Oi.
_ Qual é seu nome?
_ Malia.
_ Malia?
_ Malia.
_ E essa bota linda aqui, Maria? Quem te deu? Você sabe?
_ Sabe. Foi a vovó.
_ A vovó?
_ É. Vovó.
_ E essa mão babada? Crééédu. Que mão babada! Eca!
_ Eu tava comendo bolacha.
_ E cadê a bolacha?
_ Comi. Mamãe... Cadê a mamãe?
E lá foi ela em busca da mamãe, no corredor.
30 de junho de 2011
Disappointed
“Ah… que bonitinha!”, pensei comigo. Baixinha, fofinha, cabelo de algodão doce. Chegou ao ponto de ônibus com passos curtinhos e sentou-se ereta. Cara de velhinha limpinha, sabe? Que toma banho sozinha, que come direitinho, que obedece a filha. Tinha as unhas feitas, um coque impecável e decência. Gosto muito de velhinhas que se comportam como velhinhas. É que não havia pombos ao redor, mas tenho certeza que ela jogaria pipoca pra eles e...
_ Cccc... Ccccc... rrrrrr... rrrrrrrrrrrrrrr... ptú!
Argh!
_ Cccc... Ccccc... rrrrrr... rrrrrrrrrrrrrrr... ptú!
Argh!
27 de junho de 2011
Herdeiro
Brotado do nordeste. Mãe briga com o pai e vai embora com o filho pra casa de parentes em cidade grande. Mas ele não se sentia um clichê. Era só alguém que não queria conhecer o pai, que não tinha muito contato com a mãe, apesar de morar com ela, e que não se dava bem com o irmão – filho de um outro ainda. Foi clichê quando o pai lhe viu as fotos das mãos de parentes e achou que se pareciam muito. Foi clichê quando disseram que o pai queria muito lhe ver, já adulto. Uns diziam que era a mãe quem não queria. Outros, que o pai não fez questão. Seria típico se as duas coisas fossem verdade, mas ele não soube bem, então deixou que passasse a oportunidade. Um belo dia lhe contaram que o pai sofrera um acidente. Em seguida, que estava muito mal. Disseram ainda que teve súbita melhora. Depois, que falecera. A mãe, de perto, nem se moveu para consolá-lo do amargo da culpa por se ter negado a ver a raiz de seus traços bem feitos, moreno, leve. Chorou sozinho, sem pai por força da morte, sem mãe por força da vida. Talvez fosse clichê do Piauí mãe não abraçar filho nem quando morre o pai.
21 de junho de 2011
de Carli
No dia de alçar vôo, as beatas tudo apareceram lá. Tinha gente saída até de dentro da TV pra ver o padre ir-se embora, levantado por mil balões de gás coloridos. Tempo de fé aquele abril, quando recorde e pastoral se juntavam na motivação do religioso. Eu mesma não fui naquele dia. Nem em outro, a bem da verdade. Eu não o conhecia, mas posso imaginar seu desespero progressivo até o fim trágico, previsível. Posso entender que não havia sequer um’alma baiana para alertá-lo de que os orixás alguma coisa, os búzios diziam, as cartas falavam. Mas eu, de intuição falha e nenhuma técnica na arte da predição, era bem capaz de dizer que atravessar o País suspenso por bexigas era mais do que um ato de ousadia e confiança no Senhor. Era uma idéia suicida. Surpreende-me, no entanto, lembrar a utopia desatinada. E há algo que agrada. Talvez porque seja humano cultivar o fantasioso. Talvez porque eu tenha cá minhas confianças quiméricas. Talvez ainda... porque seja da vida flertar com a morte e, no fundo, eu entenda.
“A polícia diz que os restos mortais encontrados em Maricá, Litoral Fluminense, no início de julho são realmente do padre Adelir de Carli, desaparecido desde o dia 20 de abril (2008), quando decolou com balões de gás no Paraná. Suspenso por cerca de mil balões, Carli pretendia ficar 20 horas no ar e bater o recorde neste tipo de vôo. Além do novo índice, o padre dizia ainda que iria divulgar a Pastoral Rodoviária, de apoio a caminhoneiros. Mesmo com o céu nublado e pancadas de chuva, o religioso manteve o vôo.”

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