21 de junho de 2012

Releituras [do Belo]


FEDRO: [...] Para eles [os amantes], tudo é pretexto de se sentirem magoados, pois acham sempre que todos só pensam em prejudicá-los. Daí lhes nasce procurarem de toda a forma impedir que seus amados se aproximem de outras pessoas, de medo que os ricos os sobrepujem com o dinheiro, e com sua inteligência façam os instruídos melhor figura do que eles, com o que se põem de sobreaviso contra quem revela alguma superioridade a seu respeito. [...] Os que alcançam o seu intento sem serem apaixonados, graças exclusivamente ao mérito próprio, jamais se mostram enciumados dos que convivem com o seu amigo; pelo contrário: odiarão, de preferência, os que te evitam, por imaginarem que o fazem por desprezo, enquanto só poderás auferir vantagens da convivência com os outros. Por tudo isso, é mais provável que de semelhante comércio nasça afeição, não inimizade. Ademais, é comum entre os amantes cobiçarem apenas o corpo dos mancebos, sem lhes conhecer o caráter e os hábitos, de forma que não se pode ter certeza de que semelhante ligação sobreviva ao desejo.

NINFA: Nessa hora fiz uma careta, mas Sócrates interrompeu meu movimento com o seu. Virou a cabeça bem na direção em que eu estava recostada, como que para me ver. Pareceu, por um instante, olhar-me direto nos olhos diante da constatação que tivemos ambos simultaneamente. Lísias é um ressentido, coitado. Certamente algum mancebo se lhe deixou e o abandono não lhe entra na cabeça por mais que o repense obsessivamente. Foi isso. Nivelar por baixo o senhor, Eros, assim, como desejo efêmero e vulgar, dado às promiscuidades das sensações, seco, estéril, cheirando a queimado, esturricado? Isso é coisa de quem teve sua febre digerida pelo tempo em solidão.

FEDRO: [...] Digo mais:

NINFA: E não cansaste ainda de proferir barbáries orgulhoso de teu Lísias, caro Fedro?

FEDRO: Para o teu próprio aperfeiçoamento, é preferível ouvires-me a atenderes ao teu apaixonado. Pois este, contra a razão, elogia o que fizeres ou falares, ou pelo receio de desagradar-te, seja porque a paixão lhe falseie o julgamento. Porque o amor se manifesta do seguinte modo: o menor contratempo, que para muita gente nem seria digno de menção, aos olhos do amante infeliz é desgraça inominável, como, por outro lado, força os amantes venturosos a gastar elogios com o que não tem valor. Donde se colhe que os amantes são mais dignos de piedade do que de inveja. Por isso, se me escutares, em primeiro lugar não só não procurarei ao teu lado apenas o prazer transitório, como cuidarei dos teus futuros interesses.

NINFA: Futuro??? Que futuro um ser assim arrefecido e apagado teria ao lado de um Lísias??? Fiquei revoltada nessa hora e acho mesmo que cheguei a dizer algo como “mata ele, Sócrates!”. Ainda bem que não me ouvem. Digo, é certo que entre apaixonados passam, pela mesma via, de um lado e de outro, elogios que não são devidos ou não são de todo sinceros ou não cabem ou simplesmente não traduzem a realidade. Mas qual palavra é capaz de traduzir o fato? Palavra é só versão. Ademais, que mal tem um elogiozinho inoportuno? Não mata, não fere conviva. Eu, pelo menos, até hoje não vi caso. Agora, essa parte aí do quanto suscetível é um apaixonado, nisso tenho de concordar. Já vi queridos rasgarem-se em pranto sofrido pelas menores minimalidades. Um olhar que não teve na hora em que julgara merecer, um tom de voz ligeiramente inábil, um deslize ínfimo qualquer. Fiquei até com dó daquele que se explicava sem cometer delito. Antes tivesse pecado para justificar o escândalo. Não tendo, a coisa se torna bastante dramática. São capazes de discutir a cerca do mesmo tema por horas, dias, já vi meses e anos em desgaste, até lindos pratos gregos voando contra a parede, contra o chão, contra o peito do parceiro acusado de ser o machucador. Isso tudo não me era novidade. Mas, sabe? Não havíamos chegado ainda àquela parte do que os motiva a submeterem-se às tais agruras. Eu, Ninfa, não tenho outra maneira de conhecer esses episódios senão por meio da observação. Meu Eros, veja, é ideia que mora no Bem e no Belo. É ordem, é cosmos. Eu, sendo Ninfa, não promovo derivações para os descaminhos...

FEDRO: [...] E agora, Sócrates, que tal achaste o discurso?

NINFA: Horrendo.

FEDRO: Não é admirável sob todos os aspectos, mas principalmente quanto às expressões?

NINFA: Não. Não é admirável. Quanto ao aspecto? Asqueroso.

SÓCRATES: É demoníaco, meu caro; fiquei fora de mim.

NINFA: Ah, eu também, viu? Fiquei fora de mim. Quase interrompi a vida de Fedro para que não continuasse esse delírio herege.



Livre criação sobre Fedro, Platão, em tradução de Carlos Alberto Nunes

7 comentários:

Anônimo disse...

Pretensiosamente belo Camila.

Magno Nunes disse...

Péra...

Magno Nunes disse...

Feeeeeedro, Feeedro...tome tento!

Senão tu morre, rapá!

Camila Caringe disse...

Caro Anônimo,

Se você se revelar talvez eu possa convencê-lo de que, além de pretensiosa, tenho muitas outras qualidades.

Anônimo disse...

(risos) Tenho certeza que tem.

Marcella Andriani disse...

Onde clico pra ler o texto inteiro, mesmo?
RS

Madson Hudson disse...

Comecei, escritora.

A trilha está sendo Nouvelle.

Bjs