4 de fevereiro de 2013

Processo seletivo


__ Boa tarde, boa tarde. Meu nome é Camila e eu gostaria de pedir desculpas. Marcamos com vocês às dez, são treze horas e... Ah, bom! Nem foi tanto tempo assim! É que eu tive uma crise aqui esta manhã e... Bom, de qualquer forma é bacana que vocês estejam assim cansados de esperar, abatidos e famintos da hora do almoço, assim já percebo a tolerância de vocês, alguns traços da personalidade e a gente se conhece melhor. Legal? Ótimo! Então, vamos começar por você aí do canto. Você. Sim, isso mesmo. Conta aí um resumo da sua vida. 
__ ...Er... da... minha vida? Da vida inteira? 
__ Sim, querida. Da sua vida. Profissional, lógico. 
__ Ah...! Bem, eu... 
__ Pronto. Entendeu a pergunta agora? Vai pensando aí. Depois eu volto em você. Quem agora? Você! Da outra ponta. Por que é que você gostaria de trabalhar comigo? 
__ Eu? 
__ Sim, querido. Você mesmo. Mas gente... o que está acontecendo com esses candidatos hoje? Será que eu sou vesga? Tô olhando pra você, ué! Me responda! 
__ Ah... bem... eu... sinceramente... Acho que a nossa empresa pode contribuir enormemente para o desenvolvimento da sua carreira. 
__ Ah, é? Legal, hein? E como? 
__ Oferecemos CLT, plano de saúde e plano odontológico. 

Os outros candidatos se olham entre si e procuram deixar as costas mais eretas na cadeira.

__ Olha... não é mal, viu? Não é mal... E você? O que você poderia me oferecer? 
__ Ah, que bom que você me fez essa pergunta! Eu gostaria de dizer que, entre os benefícios, nossa empresa também oferece seguro de vida e no valor de quinze reais vale-transporte. 
__ Como? Não entendi muito bem... É... vale-transporte de quinze reais por dia? 
__ Não, não. O vale-transporte é no valor máximo de seis reais por dia, senão não compensa pra gente. Mas, no caso de, por exemplo, um acidente, vamos supor, sua família recebe quinze reais. 
__ Ah! Entendi! É... tava bom demais pra ser verdade... E você aí do canto? Já pensou na sua vida? Bom, não precisa mais. Me ocorreu aqui outra pergunta agora. Uma rapidinha. Tipo... (pausa dramática) como você se vê daqui a cinco anos? 
__ Ah... pretendo já ter realizado muitas coisas com a minha empresa e minha querida equipe. 
__ Sei. E você? Se você fosse um fóssil de um animal extinto, qual animal você seria e porquê? 
__ Um golfinho de Maui!!! Porque tratamos nossos colaboradores internos com muita sinergia e carinho! 
__ Ótimo. E você? Se você fosse um país, qual país seria e porquê? 
__ Eu seria... humm... a Austrália! Por causa dos cangurus. Gosto muito dos cangurus e da comida do Outback! 
__ Fantástico! Bom, foi ótimo conhecer vocês, muito obrigada pelo interesse em me contratar. Eu vou estar avaliando a ficha de cada um e vou estar escolhendo quem vai fazer o teste psicológico. 
__ Teste? – candidatos em coro. 
__ Sim. Um testezinho básico só pra eu saber um pouco melhor qual é o perfil de chefia que vocês apresentam, para evitar surpresas, né? Então é só aguardar que, se eu quiser, mando a minha secretaria enviar um e-mail seco e formal pros que eu já vou dispensar e um e-mail objetivo e seco pros que vão fazer o teste, tá bom? Mas se eu não quiser vocês ficam aguardando pra sempre até desencanarem dessa contratação. Às vezes eu acho divertido fazer isso. Muito obrigada, hein? Dá um beijinho aqui... tchau... tchau... prazer, viu? tchau... tchau... beijo... boa sorte, pessoal!

1 de fevereiro de 2013

Desabafo

O relato não é meu.
É de uma amiga minha.
É da tormenta. Que atormenta todos nós.

Então. Tem um doidinho na rua... Eu sei que ele mora por aqui, mas não sei onde. Ele fica o dia inteeeeeeeeeeeiro na rua, deve ter mais de 40 anos. E sempre vem aqui pedir água.
Quando eu passo na rua, sempre quer conversar. Conta história, pede pra namorar comigo... Enfim. Geralmente ele tem alguma história sem pé nem cabeça e bem triste pra contar. Um dia ele chegou fazendo barulho de choro e pedindo ajuda pelo amor de Deus. Até me assustei.

__ Moça, pode um negócio desse? Me ajuda aqui, pelo amor de Deus!
__ O que você precisa?
__ A mulher aqui, a mulher aqui moça!, tá fazendo macumba pros outros!

Aí eu olhei e disse:

__ Deixa ela, não se preocupa, essas coisas não funcionam.

Ele parou de fazer o barulho de choro e começou a perguntar se eu tinha namorado... Picareeeeeeeeta. Ele nunca chora, sempre faz o barulho de choro pra chamar atenção...

Agora há pouco fui ao banco, apressada. Ele me puxou:

__ Você pode me dar um conselho?
__ Não sou muito boa nisso não...
__ Você acha que eu devo empinar papagaio?
__ Claro! É legal, não é?!
__ Mas não é melhor estudar?
__ Estudar também é ótimo.
__ Mas eu já estudei, fiz o colegial, agora tô fazendo medicina. Quero ser médico, já tô acabando, mas (barulho de choro) sabe... às vezes eu quero morrer.
__ Morrer pra quê? Não... Ainda tem que viver muito. As coisas vão melhorar.

Daí não me lembro do diálogo todo, mas lembro que o consolei e ele mudou de assunto de novo parando de "chorar" imediatamente e sorrindo.
Na volta ele veio de novo:

 __ Ai ai, eu acho que morri e ninguém percebeu. Eu queria morrer...

28 de janeiro de 2013

A importância da etiqueta


Lara perguntou para a avó, Silvana: “Vó, quantos anos você tem?”. Silvana brincou e disse “Já estou tão velha que nem me lembro mais”. Lara, então, resolveu dar uma dica: “Vó, olha na etiqueta da sua camiseta. Na minha está escrito de 5 a 6 anos”. 

História dos leitores da revista Pais & Filhos, jan/2013

22 de janeiro de 2013

Da série - Rascunhos

[DIA-NÃO-DIA. TEM DIA QUE... NÃO. NÉ?]


20 de janeiro de 2013

Crônicas de shopping – Tomo II


Nojo. 
A instituição nojo e suas raízes morais. 
É involuntário todavia o revirar das entranhas, intestinos enlaçando pâncreas, o estômago contraindo pra continuar cabendo onde está. 
Qual culpa tem a pessoa de seu nojo? Está condenada por não poder crer no Cristo, por não achar sabedoria na natureza, por ver atrocidade ou criança dormindo e ficar na mesma? 
Mas nem era este o seu caso. Apenas o nojo da criatura que esparramava-se adiante. Eram somente três as mesas do lado de fora do café. Ela ocupava a primeira, pulava uma e ele estava na terceira. 
Quis sentir pena, mas não conseguiu. Respirou fundo, averiguou em si. Ele era só nojo sim. 
Ela parou um pouquinho, ajeitou a saia longa em sua vastidão, arrumou a blusa e lançou o cabelo comprido irregular para as costas. Sentou-se. De dentro da sacola de papel várias coisas saíram. Primeiro pão. Depois margarina, apresuntado, qualquer tipo de queijo, tempero de miojo, catchup, um prato de plástico, um rolo de papel higiênico e, por fim, uma coca de dois litros. 
Um por um os ingredientes montaram seu lanche indistinguível. O outro, indignado, achou desaforo sair e insistiu ali em seu lugar, hipnotizado por semelhante apetite. 
Terminada a refeição, sobrou migalhas, embalagens vazias e papel-de-limpar-boca. Virou a garrafa para um gole ou dois, três. Uns dez. E olhou insatisfeita a própria bagunça. 
Guardou o prato de volta na sacola. Em seguida o catchup. Juntou o lixo nas mãos grandes e meticulosamente transferiu o material desprezado para a mesa ao lado, a do meio, que parava vazia delimitando os espaços. 
Contente, voltou para sua mesa. Virou a coca na garganta mais algumas vezes. Olhou ao redor. Deu sono. Cochilou sentada. 
O distinto senhor, liberto ao término do ritual, aprumou-se. Finalmente deixou o local.

17 de janeiro de 2013

Da série – Diálogos arrebatados


__ O que é arte, Camila? 
__ O significado que transcende a matéria. 
__ Como assim? 
__ É quando a palavra consegue dizer alguma coisa que não é palavra. Quando o desenho ou a foto mostra o que não está na imagem. Quando a música revela o que não é som. Isso é arte. 
__ E qual a sua relação com o transcendente? 
__ A mesma que com o mundano. 
__ Por que? 
__ Porque é no vulgar que se escondem as coisas sagradas. 
__ E você as encontra? 
__ Às vezes sim. Muitas vezes não. 
__ O artista é um apaixonado? 
__ O artista é um perturbado. É possível fazer arte com paixão, mas é preciso sobretudo fazer arte com tédio. Quero dizer, é claro que o artista se apaixona pelas pessoas. Paixão no sentido de atração, encantamento, mas também no sentido de padecer, sofrer com elas, sofrer por elas. E se alegrar também. Todo grande prazer se parece muito com uma dor. É quase insuportável. O artista é um sofredor público. Ele não padece para ser visto, mas, já que está padecendo, ele se deixa ser visitado nesse flagrante. As pessoas passam, olham essa exposição, às vezes se reconhecem, às vezes não, e vão embora com duas dores: a delas e do artista. Mas ter consigo a dor do artista não é aumentar a dor, não. Acontece aí uma outra coisa. Essa dor compartilhada é comunhão. É sair da solidão. É descanso, é beleza. Enfim, é outra coisa.

14 de janeiro de 2013

O amor e seus castigos


Ele devia ter lá seus 60 anos quando sua mãe o pariu pela segunda vez. “Leva um casaco, meu filho.” Foi assim. Da primeira vez não conta. Não foi parto natural. Ele que se resolveu nascer quando fez 30 anos na barriga dela. Um homem nu e feito deixando o útero da mãe para dizer em seguida: “Aqui é frio. Lá dentro era mais quentinho.” 

Não sou crítica de teatro nem nada, mas a peça "Amor de Mãe – Parte 13" tem no mínimo três grandes trunfos. O primeiro se trata de atirar na nossa cara o quanto impura e imprópria é a forma como amamos, quanto egoísmo pode ser incorporado nos gestos aparentemente tão justificáveis de proteção: a mentira, o mito, o exagero, o claustro, a punição. Muita falta de amor cabe no argumento do amor. 

O segundo grande trunfo é a obviedade que não vemos: o amor, queridos, não basta. E é um gesto de amor reconhecê-lo e separar-se. Na história fictícia entre uma mãe que não quer parir o filho no mundo mau e o filho que cresce a despeito do rigor dela, fica nítido o mal estar do lugar estreito. Mas a mensagem extrapola a relação maternal. Quando o desgaste se impõe, é hora de partir. 

O terceiro é o reconhecimento do outro, da liberdade do outro, do outro enquanto outro mesmo, sabe?, aquele que não sou eu, que não pode estar infinitamente submetido às minhas vontades – por mais nobres que sejam, e nunca são tão nobres assim. Eu não posso dar liberdade ao outro, porque isso não me pertence. É preciso reconhecer a liberdade do outro e amá-lo no seu lugar. Isso é respeito. Isso é aceitação. 

No caso dessa mãe, levou muitos anos, muitos mitos, muitas mentiras, muito esforço, muita invasão, muita violência até que a verdade se mostrasse imperiosa. Quando disse ao filho para levar um casaco e aceitou sua partida, ela finalmente o pariu. 

Serviço 

Amor de Mãe - Parte 13

de 10/01 a 09/02
quintas e sextas às 21:00
Até R$ 10

SESC CONSOLAÇÃO 

http://www.sescsp.org.br/consolacao

Rua Doutor Vila Nova, 245

Vila Buarque - Centro

São Paulo/ SP
(11) 3234-3000

11 de janeiro de 2013

Registros – do que nos assalta


__ Mas se eu morresse hoje, eu poderia dizer que vivi a vida. Eu passei por muita coisa. 
__ É? Tipo o quê? Sair da casa da menina de madrugada pela janela com o pai dela querendo te pegar?
__ É… tipo isso… Sabe, ir pra balada com o pessoal e a gente se abraçava e chorava porque a vida é linda. 
__ E hoje em dia? O que te faz pensar que a vida é linda? 
__ … 

(longa pausa) 

__ Eu não sei. Acho que já passei da idade de achar que a vida é linda.

9 de janeiro de 2013

Da série - Rascunhos

[BASEADO EM GATOS REAIS]

























8 de janeiro de 2013

Crônicas de shopping – Tomo I


O primeiro passo depois da escada rolante é um pequeno passo para um homem, mas um passo ainda menor para a humanidade. 

E tanto faz. Não é contrariando seus devaneios ou se levando muito a sério que um homem decide – enfim, decide – entrar por aquela porta iluminada uma vez mais. A versão comercial da Porta da Esperança (ou Porta dos Desesperados?). Uma piadinha interna de mal gôsto que ninguém notou. Riu consigo mesmo a caminho do terceiro piso. 

Andava sempre às voltas de um relógio de praça (sem a praça). Uma referência para poder acertar o seu. Menos rigoroso do que um Kant, não sentia a necessidade de ser pontual dia após dia. Mas podia ser que precisasse, daí a importância de se regular a máquina do pulso. Menos ainda adepto da vida sadia (que vida de velhice!), desprezava ar livre e seguia reto até a joalheria. 

A qualquer momento do horário comercial, passava, parava, um aceno pras mocinhas, encarava os ponteiros da parede por alguns segundos, acertava os seus e seguia a vida no mesmo ritmo, levando em conta a eternidade. Um dia surpreendeu. Entrou. As vendedoras se entreolharam. 

__ Boa tarde – num tom baixo, cortês, muito educado. Todas chocadas. A mais nova, espírito presente, acudiu: 
__ Boa tarde. 
__ A senhorita se importaria de me dar um cafezinho? – e direcionou o olhar para outra máquina, mais ao fundo, expressa, sem números. A gerente discretamente autorizou. 

Após tomar seu pedido, quietinho, de pé mesmo, agradeceu e explicou sua vontade incontida. Foi-se embora para voltar no dia seguinte. Conferiu o relógio de parede, acertou seu pulso e partiu no mesmíssimo ritual. 

Um mês depois, acolhido já com menos espanto, voltou a pedir café e foi atendido. 

Dias depois, daí sim, confiante, deu seu grande passo: 

__ Bom dia. 
__ Bom dia. 
__ Eu poderia usar seu telefone um instantinho para fazer uma ligação?

4 de janeiro de 2013

Reunião Semanal dos Neuróticos Anônimos


__ Oi meu nome é Oswaldo e eu...

Coro: 

__ Ooooi, Oswaldo. 

Oswaldo: 

__ ...e eu sou um neurótico em recuperação mas na verdade vocês não precisam me chamar de Oswaldo por favor. É... sou... eu sou Hitler. Eu fui Hitler. Eu penso que eu sou uma pessoa eu sou isso. Eu sou mau ainda. Nessa vida eu estou tentando fazer alguma coisa para aprender a não ser mau mas eu ainda não aprendi ainda. Eu ainda estou... é... como se diz... eu estou... aqui... e eu... penso em matar as pessoas. E eu penso em me matar mas antes matar muitas pessoas. Eu penso em matar muitas pessoas. 

Pausa. 
Coro: 

__ Obrigado, Oswaldo. 

__ Boa noite. Eu sou a Graciela. 

Coro: 

__ Ooooi, Graciela. 

Graciela: 

__ Eu... (tosse) eu me separei há... 20 anos... mas eu nunca me recuperei desse meu... bem... nós fomos namorados. Nunca nos casamos. (riso) Digo, porque ele não quis. Eu quis. Começamos a namorar eu tinha... hum... 15. Quando eu tinha 20, nos separamos. Ele me traiu. (riso) Ele me traiu. (pausa) Mas daí... daí não tem mais como, né? Ele me traiu, então... (choro) É isso. Ele é casado hoje em dia, tem filhos. No penúltimo aniversário eu paguei meia dúzia de prostitutas para baterem na casa dele à meia-noite. A esposa que atendeu. Eu ri do outro lado da rua. (riso) (pausa) (choro) Eu achei graça. (choro) Mas não teve graça. No último aniversário eu mandei uma seleção de músicas do Chico e Tom por um trio dos Trovadores Urbanos. (pausa) Obrigada. 

Coro: 

__ Obrigado, Graciela. 

__ Oi. 

Silêncio. 

__ Meu nome é Ana. 

Coro: 

__ Ooooi, Ana. 

__ Oi. Eu... olha... eu acho que não tenho tantos problemas assim, mas eu estou um pouco depressiva. Não é nada grave, é sério. De verdade. Vocês não precisam se preocupar. É só que eu acho a cidade muito feia. E... eu... eu gostaria de implantar a coleta seletiva em todos os prédios... Mas os prédios também são muito feios... E as pessoas são muito antipáticas. Eu pedi demissão do meu último emprego porque a mulher gastava muita água. Quando falei que a torneira estava aberta desnecessariamente ela me ignorou. Eu fui embora. Estou procurando outras coisas, mas... Eu estou bem. De verdade. Às vezes eu choro quando acordo e quando vou dormir. E no intervalo entre uma coisa e outra. Mas não penso em matar ninguém não. Eu... também não tive um namoro assim muito sério eu... Não gosto do Alceu Valença. Minha mãe gosta. Ela fica cantando La Belle De Jour e isso é um problema entre nós às vezes... Mas está tudo bem. Obrigada. 

Coro: 

__ Obrigado, Ana.

2 de janeiro de 2013

Ano novo, enquete nova!


Caros amigos, 

Após uma tão bem sucedida pesquisa, da qual participaram, ao longo de uns três anos, umas três dezenas de pessoas, tenho o prazer de anunciar a nova pesquisa deste blog. 

É muito importante para nós que você colabore com sua opinião e mais importante ainda ressaltar que não há qualquer espécie de brinde, surpresinha ou sorteio para quem decide colaborar. A escolha é, portanto, inteiramente de vossa consciência. 

Visite a coluna da direita e contribua com seu voto. 
Ou não. 

Atenciosamente, 
A equipe de relacionamento. 

31 de dezembro de 2012

Um marido, entre outras coisas


Na mesa do restaurante, duas amigas brindam com suco de laranja: 

__ Feliz ano novo, vida nova, carro novo, marido novo, tudo novo!, carro zero, marido novo... vida nova! 

*repetições facúndias constam do discurso original

26 de dezembro de 2012

Da série - Rascunhos

[O APANHADOR DE CONCHAS]





















É assim que todo o mal tem origem: na displicência e falta de discernimento entre o que pode ser bom, belo e o que não presta.

24 de dezembro de 2012

Noel


Talvez teria até sido melhor pegar uma criança emprestada por ali mesmo, pra disfarçar, mas não se deu ao trabalho. Entrou na fila e esperou sua vez chegar. E chegou: 

__ Oi, Papai Noel. 
__ Oi! Você quer tirar uma foto? 
__ Não. Quero conversar igual todo mundo. 
__ Mas tem crianças na fila, meu bem. Você poderia, por favor, aguardar aqui ao lado que na hora do meu intervalo eu... 
__ Não, não posso. É importante. Tem que ser agora. 
__ Bom... então pode falar. 
__ É que eu não gostei da sua localização. Acho que está muito escondido aqui no fim do corredor. 
 __ Ah, é que este é um bairro judeu e não existe este personagem na cultura deles. Então me escondem aqui. 
__ E você acha isso justo? 
__ Olha, eu... 
__ Eu acho que é discriminação! 
__ Sim, mas... 
__ A mensagem de um Deus de amor é essencialmente a mesma. Não deveríamos brigar por isso. 
__ É que... 
__ As guerras religiosas só ocorrem por desobediência ao mais importante mandamento: aquele lá que fala sobre o próximo! 
__ Entendo... 
__ E acho que a sua sujeição a esta regra excludente não nos ajuda enquanto humanidade. 

Ele ajeitou o cinto na circunferência fofa, alisou a barba pacientemente e sorriu, deixando as faces rosadas ligeiramente destacadas na carinha simpática: 

 __ Bem... Eu compreendo. Também acho este mundo mau. Quando ofereço doces às vezes as crianças não pegam porque os pais não as deixam aceitar ofertas de estranhos. São tempos difíceis. Eu sou Papai Noel há 13 anos, mas só do dia 1º ao dia 24. Depois sou uma pessoa normal... 
__ Foi o que eu pensei!

21 de dezembro de 2012

Registros – do que nos toca


“Esses dias me aconteceu uma coisa que até pensei em mandar pra você. É digna do seu blog. 

Eu tava lá na Praça 14 Bis com um amigo meu e veio um cara, devia ser morador de rua, se oferecendo para engraxar meu sapato. Daí eu expliquei: 

__ Mas querido, eu tô de tênis. Não dá. 

E ele disse: 

__ Não, dá sim! Vem cá! Coloca o pé aqui. – e abriu a caixinha, colocou meu pé em cima e sei lá o que é que ele ia fazer. Acho que ia escovar, limpar, inventar uma moda lá, sei lá. Mas eu tirei o pé e falei ‘não... vem cá... vamos conversar...’. Abri a carteira e disse ‘olha, me desculpa, eu só tenho três reais, pode ser?’. O sujeito aceitou e começou a falar e talz. 

Eu, para cortar um pouco o assunto, disse ‘então tá bom, queridão’ e dei um abraço no cara para me despedir e encerrar a conversa. Ele se deu por satisfeito e respondeu: 

__ Tá bom. Obrigado pelo abraço. – acenou e foi embora. 

Ele não agradeceu pelo dinheiro. Ele agradeceu pelo abraço.”

16 de dezembro de 2012

Evite a ruína















14 de dezembro de 2012

Compras


_ Mãe, o que você acha desse vestido? 
_ É legal! Vai lá experimentar. 

... 

_ Mãe! Vem ver! Quê cê achou? 
_ Não gostei. 
_ Não gostou? 
_ Não. 
_ Por quê? 
_ Tá parecendo uma fralda embrulhada. 
_ Uma fralda embrulhada? 
_ É! Uma fralda embrulhada! Sabe quando o nenê vai andando e a fralda tá meio larga, fica meio troncha? Então! 
_ Ah... 
_ Por quê? Você achou bonito? 
_ Bom, eu tinha achado, né? Até você dizer isso. 


 A franqueza é uma benção contundente.

11 de dezembro de 2012

Rasteirinha


A campainha tocou e ele foi atender. Era ela, um pouco mais cedo do que o combinado, antes do anoitecer. Parecia bem humorada, disposta, com as faces rosadas do dia de sol lá fora. Sentou-se no sofá muito à vontade e largou a mochila num canto. Ele notou a bagagem com um certo incômodo, mas procurou se concentrar no que ela dizia. Só para perceber em seguida que não tinha a menor importância. Ela já estava no sofá. Poderia ser ali mesmo. Olhando-a falar em seus trejeitos e inclinações de tronco, imaginava por onde começar. O decote parecia uma feliz opção, acessível às mãos ou à boca ou às três ao mesmo tempo. Talvez o cabelo. O cabelo era um jeito mais sutil de iniciar. Passaria a imagem de ser, quem sabe, educado, tímido. As mulheres gostam disso. As mulheres gostam mesmo disso? Bem, poderia ser a cintura. Se estivessem de pé e ele a segurasse no ângulo certo, ela tombaria para o sofá de volta e ele cairia naturalmente em cima dela. Poderia ainda ser algo mais pueril. Beijar-lhe as bochechas quentes e deslizar para as orelhas. Seria um caminho fácil até o pescoço e em seguida ela lançaria a coxa direita sobre as pernas dele. Ele tocaria seus pés e... 


Ele olhou para os pés e subitamente se interessou pelo que ela dizia. Ouviu com atenção irrevogável por uns quatro ou cinco longos minutos sem, contudo, obter pista do que desejava saber. Correndo o risco de explicitar uma injustificável ausência durante a meia hora anterior e correndo também o grande risco da indelicadeza por fazê-la repetir, perguntou objetivamente: 


__ ...Mas, onde você esteve hoje, antes de vir pra cá? 

__ Ah! Eu já disse! Vim resolver algumas coisas no centro pela manhã, encontrei uma amiga, ficamos andando até às... 

Ela não precisava dizer mais nada. Não importa o que estava dizendo. Não precisava. Que tipo de mulher sai de casa sabendo que vai caminhar e escolhe uma dessas sandálias baixinhas? Como ele poderia querer esta mulher tendo diante de si a visão de seu pé preto? E essa mochila, então? O que significava essa mochila? Dormir com ela sim, mas acordar ao lado dela nem pensar! Rompeu-se o encanto. Não queria mais. Querer o quê? Não havia nada ali para querer! Nada desejável, nada encantador, nada. 


Levantou-se sorrateiramente enquanto ela ainda dizia qualquer coisa sobre família. A dela? Não. Algo sobre cangurus. Foi até a cozinha e, enquanto esperava a água do filtro encher o copo, colocou o celular para despertar em dois minutos. Voltou à sala, sorriu, bebeu sua água e aguardou. O telefone tocou: 


__ Opa! Só um minutinho, querida. Preciso atender. Alô? Oi, cara! Sim, pode falar! Eu? Putz, é mesmo! Eu tinha me esquecido... Mas e se a gente deixasse isso pra amanhã? Hum? Sei... Ah... poxa vida... Sério? Não, então tudo bem! Tá bom. Tá. Tá. Então tô indo praí! Abração, cara! Tchau! 


E explicou pra ela, em outras palavras, claro, que estaria com outra mulher aquela noite. E, se ela quisesse saber quem, era só telefonar dentro de duas horas. Ele certamente já teria um nome.


9 de dezembro de 2012

Da série - Rascunhos


[TÉDIO É UMA COISA ASSIM QUE DÁ NA GENTE... QUE SENTE COMO SE NUNCA MAIS FOSSE DAR MAIS NADA...]