20 de março de 2013

(NÃO) Pesquise aqui


As melhores agências de emprego do universo contam com um avançado sistema de monitoramento de vagas, filtros por interesse e alertas periódicos via e-mail. Vamos ver o que temos esta manhã para Comunicação Social: 

Analista De Social Mídia, SEM, SEO Link Patrocinados 
Ãhn... Acho que nãos. Nem tenho feicibuque. 

Desgner Gráficoilustrador Editor De Vídeo 
Bom... eu até entendo o link, mas... isso não é exatamente Comunicação Social. Aliás, precisamdealguém pr escrevermelhor ess anúncioaí. 

Encarredao De Congresso BILINGUE 
Hum... O que seria isso... exatamente? “Encarredao”? 

Marceneiro 
Ops... deve ter dado um erro aqui... 

Cortineiro Estofador 
Ok. Eu estou mesmo em Comunicação...? Co-mu-ni-ca-ção-so-ci-al... É... é isso mesmo... 

Pinto De Cenários 
Como assim? Tipo... Como assim???? Um "pinto"??? Um filho de frango??? Ou...

Estágio Na Área De Comunicação 
Ah! Olha! Até tem alguma pra Comunicação... mas só que é estágio, né? Legal...

17 de março de 2013

Bem-vindo, romeiro!


__ E o senhor? Quer mandar beijo pra quem?
__ Pra meus filhos todos! Josineide, Josinaldo, Josicleide, Josivandro, Josivan, Josinadia e Josi.
__ Boa viagem de volta. Que Nossa Senhora acompanhe... E você?
__ Quero mandar um beijo pro meu marido, Julherme.


(Acho que as razões que levam cada devoto à Aparecida é algo muito pessoal, realmente. Só isso que tenho a dizer.)

13 de março de 2013

Da série - Rascunhos




























Vi essa cena por aí, no mundo, há pouco tempo. 
Se o dicionário fosse estampado, se a jovialidade tivesse um rosto, não seria a menina do comercial da Sukita. Seria esse senhor. E o som de fundo seria a voz do meu namorado imitando o Pato Donald pra falar comigo. 
Aliás, só não posto esse áudio porque não o tenho. 
E também, certamente esbarraria nas questões legais de copyright, tanto do Pato quanto do namorado.

3 de março de 2013

Da série - Rascunhos

[AMOR DE VERÃO]


27 de fevereiro de 2013

Extravios


Em qual lamentável momento perdemos o entusiasmo (do grego en + theos = em Deus)? Parece que nascemos simpatizantes da vida e num rompante simpatizamos com a direita, com a esquerda, com a moda praia, com discos voadores... menos com a vida. 

Uma amiga minha recebeu um e-mail muito bonito de uma amiga dela. A segunda, ao consolar a primeira, contou o que segue. 


O Gui já começou a ler. Esse novo universo está deixando minha irmã maluquinha. A última pergunta foi: 

__ Mamãe! Por que algumas palavras a gente escreve com S e fala com Z, por exemplo casa e paraíso??? 

Minha irmã foi direto pro Google, mas a regra era muito difícil de explicar e ela ficou com medo de apagar essa curiosidade dele, então respondeu: 

__ Filho, nossa língua é assim mesmo. Você vai conhecer algumas palavras bem diferentes entre falar e escrever. 

E ele disse, empolgado: 

__ Isso tudo é muito divertido!!!

25 de fevereiro de 2013

Zunido


Sentados no parque, ele faz menção de tirar algo do bolso.  

__ Não! Por favor! Eu não fiz nada! Guarda a abelha! Eu não gosto! Não fiz nada dessa vez! 
__ É. Tem razão. Não fez. – e guardou a abelha de volta. 
__ Eu contei tudo pra minha mãe, sabia? 
__ Contou? 
__ Contei! 
__ O que você contou? 
__ Eu mostrei a foto da abelha no meu celular e contei que você cria no seu bolso e tira sempre que quer me irritar. 
__ E sua mãe? 
__ Ela riu! 
__ E você? 
__ Eu ri também! 

Ele apertou as pálpebras e virou mais a cabeça na direção dela. Talvez para reparar melhor na forma infantil e tão convicta como ela contava um absurdo.

22 de fevereiro de 2013

Recomendação turística


O centro da cidade de São Paulo pode ser muito excitante para a população estrangeira que visitará o País nos próximos grandes eventos esportivos. Eu, particularmente, deixo aqui minhas notações pra lá de interessantes. 

Além da observação noturna in loco de pragas pestilentas muitas típicas também em Londres e Hamelin (belíssimos exemplares de periplaneta americana e rattus norvegicus muito robustos e bem dispostos), ainda é possível aproveitar para resolver a vida inteira numa única região. Mais do que isso: em um único estabelecimento. 

Experimente uma das fantásticas lan houses latino-índio-anglo-africanas. É possível consultar o nome no Serasa, apostar na loteria, carregar bilhete único e colocar crédito no celular antes ou depois de olhar seu facebook. Mas eles também servem almoço de segunda à sexta, fazem depilação de quinta à domingo e oficinas de Teatro do Oprimido às terças e quartas. Tudo isso comodamente arranjado em 3 m². Um milagre da diversidade brasileira. 

Coisa linda.

19 de fevereiro de 2013

Incumbênçãos


















8 de fevereiro de 2013

Brincando com apps


4 de fevereiro de 2013

Processo seletivo


__ Boa tarde, boa tarde. Meu nome é Camila e eu gostaria de pedir desculpas. Marcamos com vocês às dez, são treze horas e... Ah, bom! Nem foi tanto tempo assim! É que eu tive uma crise aqui esta manhã e... Bom, de qualquer forma é bacana que vocês estejam assim cansados de esperar, abatidos e famintos da hora do almoço, assim já percebo a tolerância de vocês, alguns traços da personalidade e a gente se conhece melhor. Legal? Ótimo! Então, vamos começar por você aí do canto. Você. Sim, isso mesmo. Conta aí um resumo da sua vida. 
__ ...Er... da... minha vida? Da vida inteira? 
__ Sim, querida. Da sua vida. Profissional, lógico. 
__ Ah...! Bem, eu... 
__ Pronto. Entendeu a pergunta agora? Vai pensando aí. Depois eu volto em você. Quem agora? Você! Da outra ponta. Por que é que você gostaria de trabalhar comigo? 
__ Eu? 
__ Sim, querido. Você mesmo. Mas gente... o que está acontecendo com esses candidatos hoje? Será que eu sou vesga? Tô olhando pra você, ué! Me responda! 
__ Ah... bem... eu... sinceramente... Acho que a nossa empresa pode contribuir enormemente para o desenvolvimento da sua carreira. 
__ Ah, é? Legal, hein? E como? 
__ Oferecemos CLT, plano de saúde e plano odontológico. 

Os outros candidatos se olham entre si e procuram deixar as costas mais eretas na cadeira.

__ Olha... não é mal, viu? Não é mal... E você? O que você poderia me oferecer? 
__ Ah, que bom que você me fez essa pergunta! Eu gostaria de dizer que, entre os benefícios, nossa empresa também oferece seguro de vida e no valor de quinze reais vale-transporte. 
__ Como? Não entendi muito bem... É... vale-transporte de quinze reais por dia? 
__ Não, não. O vale-transporte é no valor máximo de seis reais por dia, senão não compensa pra gente. Mas, no caso de, por exemplo, um acidente, vamos supor, sua família recebe quinze reais. 
__ Ah! Entendi! É... tava bom demais pra ser verdade... E você aí do canto? Já pensou na sua vida? Bom, não precisa mais. Me ocorreu aqui outra pergunta agora. Uma rapidinha. Tipo... (pausa dramática) como você se vê daqui a cinco anos? 
__ Ah... pretendo já ter realizado muitas coisas com a minha empresa e minha querida equipe. 
__ Sei. E você? Se você fosse um fóssil de um animal extinto, qual animal você seria e porquê? 
__ Um golfinho de Maui!!! Porque tratamos nossos colaboradores internos com muita sinergia e carinho! 
__ Ótimo. E você? Se você fosse um país, qual país seria e porquê? 
__ Eu seria... humm... a Austrália! Por causa dos cangurus. Gosto muito dos cangurus e da comida do Outback! 
__ Fantástico! Bom, foi ótimo conhecer vocês, muito obrigada pelo interesse em me contratar. Eu vou estar avaliando a ficha de cada um e vou estar escolhendo quem vai fazer o teste psicológico. 
__ Teste? – candidatos em coro. 
__ Sim. Um testezinho básico só pra eu saber um pouco melhor qual é o perfil de chefia que vocês apresentam, para evitar surpresas, né? Então é só aguardar que, se eu quiser, mando a minha secretaria enviar um e-mail seco e formal pros que eu já vou dispensar e um e-mail objetivo e seco pros que vão fazer o teste, tá bom? Mas se eu não quiser vocês ficam aguardando pra sempre até desencanarem dessa contratação. Às vezes eu acho divertido fazer isso. Muito obrigada, hein? Dá um beijinho aqui... tchau... tchau... prazer, viu? tchau... tchau... beijo... boa sorte, pessoal!

1 de fevereiro de 2013

Desabafo

O relato não é meu.
É de uma amiga minha.
É da tormenta. Que atormenta todos nós.

Então. Tem um doidinho na rua... Eu sei que ele mora por aqui, mas não sei onde. Ele fica o dia inteeeeeeeeeeeiro na rua, deve ter mais de 40 anos. E sempre vem aqui pedir água.
Quando eu passo na rua, sempre quer conversar. Conta história, pede pra namorar comigo... Enfim. Geralmente ele tem alguma história sem pé nem cabeça e bem triste pra contar. Um dia ele chegou fazendo barulho de choro e pedindo ajuda pelo amor de Deus. Até me assustei.

__ Moça, pode um negócio desse? Me ajuda aqui, pelo amor de Deus!
__ O que você precisa?
__ A mulher aqui, a mulher aqui moça!, tá fazendo macumba pros outros!

Aí eu olhei e disse:

__ Deixa ela, não se preocupa, essas coisas não funcionam.

Ele parou de fazer o barulho de choro e começou a perguntar se eu tinha namorado... Picareeeeeeeeta. Ele nunca chora, sempre faz o barulho de choro pra chamar atenção...

Agora há pouco fui ao banco, apressada. Ele me puxou:

__ Você pode me dar um conselho?
__ Não sou muito boa nisso não...
__ Você acha que eu devo empinar papagaio?
__ Claro! É legal, não é?!
__ Mas não é melhor estudar?
__ Estudar também é ótimo.
__ Mas eu já estudei, fiz o colegial, agora tô fazendo medicina. Quero ser médico, já tô acabando, mas (barulho de choro) sabe... às vezes eu quero morrer.
__ Morrer pra quê? Não... Ainda tem que viver muito. As coisas vão melhorar.

Daí não me lembro do diálogo todo, mas lembro que o consolei e ele mudou de assunto de novo parando de "chorar" imediatamente e sorrindo.
Na volta ele veio de novo:

 __ Ai ai, eu acho que morri e ninguém percebeu. Eu queria morrer...

28 de janeiro de 2013

A importância da etiqueta


Lara perguntou para a avó, Silvana: “Vó, quantos anos você tem?”. Silvana brincou e disse “Já estou tão velha que nem me lembro mais”. Lara, então, resolveu dar uma dica: “Vó, olha na etiqueta da sua camiseta. Na minha está escrito de 5 a 6 anos”. 

História dos leitores da revista Pais & Filhos, jan/2013

22 de janeiro de 2013

Da série - Rascunhos

[DIA-NÃO-DIA. TEM DIA QUE... NÃO. NÉ?]


20 de janeiro de 2013

Crônicas de shopping – Tomo II


Nojo. 
A instituição nojo e suas raízes morais. 
É involuntário todavia o revirar das entranhas, intestinos enlaçando pâncreas, o estômago contraindo pra continuar cabendo onde está. 
Qual culpa tem a pessoa de seu nojo? Está condenada por não poder crer no Cristo, por não achar sabedoria na natureza, por ver atrocidade ou criança dormindo e ficar na mesma? 
Mas nem era este o seu caso. Apenas o nojo da criatura que esparramava-se adiante. Eram somente três as mesas do lado de fora do café. Ela ocupava a primeira, pulava uma e ele estava na terceira. 
Quis sentir pena, mas não conseguiu. Respirou fundo, averiguou em si. Ele era só nojo sim. 
Ela parou um pouquinho, ajeitou a saia longa em sua vastidão, arrumou a blusa e lançou o cabelo comprido irregular para as costas. Sentou-se. De dentro da sacola de papel várias coisas saíram. Primeiro pão. Depois margarina, apresuntado, qualquer tipo de queijo, tempero de miojo, catchup, um prato de plástico, um rolo de papel higiênico e, por fim, uma coca de dois litros. 
Um por um os ingredientes montaram seu lanche indistinguível. O outro, indignado, achou desaforo sair e insistiu ali em seu lugar, hipnotizado por semelhante apetite. 
Terminada a refeição, sobrou migalhas, embalagens vazias e papel-de-limpar-boca. Virou a garrafa para um gole ou dois, três. Uns dez. E olhou insatisfeita a própria bagunça. 
Guardou o prato de volta na sacola. Em seguida o catchup. Juntou o lixo nas mãos grandes e meticulosamente transferiu o material desprezado para a mesa ao lado, a do meio, que parava vazia delimitando os espaços. 
Contente, voltou para sua mesa. Virou a coca na garganta mais algumas vezes. Olhou ao redor. Deu sono. Cochilou sentada. 
O distinto senhor, liberto ao término do ritual, aprumou-se. Finalmente deixou o local.

17 de janeiro de 2013

Da série – Diálogos arrebatados


__ O que é arte, Camila? 
__ O significado que transcende a matéria. 
__ Como assim? 
__ É quando a palavra consegue dizer alguma coisa que não é palavra. Quando o desenho ou a foto mostra o que não está na imagem. Quando a música revela o que não é som. Isso é arte. 
__ E qual a sua relação com o transcendente? 
__ A mesma que com o mundano. 
__ Por que? 
__ Porque é no vulgar que se escondem as coisas sagradas. 
__ E você as encontra? 
__ Às vezes sim. Muitas vezes não. 
__ O artista é um apaixonado? 
__ O artista é um perturbado. É possível fazer arte com paixão, mas é preciso sobretudo fazer arte com tédio. Quero dizer, é claro que o artista se apaixona pelas pessoas. Paixão no sentido de atração, encantamento, mas também no sentido de padecer, sofrer com elas, sofrer por elas. E se alegrar também. Todo grande prazer se parece muito com uma dor. É quase insuportável. O artista é um sofredor público. Ele não padece para ser visto, mas, já que está padecendo, ele se deixa ser visitado nesse flagrante. As pessoas passam, olham essa exposição, às vezes se reconhecem, às vezes não, e vão embora com duas dores: a delas e do artista. Mas ter consigo a dor do artista não é aumentar a dor, não. Acontece aí uma outra coisa. Essa dor compartilhada é comunhão. É sair da solidão. É descanso, é beleza. Enfim, é outra coisa.

14 de janeiro de 2013

O amor e seus castigos


Ele devia ter lá seus 60 anos quando sua mãe o pariu pela segunda vez. “Leva um casaco, meu filho.” Foi assim. Da primeira vez não conta. Não foi parto natural. Ele que se resolveu nascer quando fez 30 anos na barriga dela. Um homem nu e feito deixando o útero da mãe para dizer em seguida: “Aqui é frio. Lá dentro era mais quentinho.” 

Não sou crítica de teatro nem nada, mas a peça "Amor de Mãe – Parte 13" tem no mínimo três grandes trunfos. O primeiro se trata de atirar na nossa cara o quanto impura e imprópria é a forma como amamos, quanto egoísmo pode ser incorporado nos gestos aparentemente tão justificáveis de proteção: a mentira, o mito, o exagero, o claustro, a punição. Muita falta de amor cabe no argumento do amor. 

O segundo grande trunfo é a obviedade que não vemos: o amor, queridos, não basta. E é um gesto de amor reconhecê-lo e separar-se. Na história fictícia entre uma mãe que não quer parir o filho no mundo mau e o filho que cresce a despeito do rigor dela, fica nítido o mal estar do lugar estreito. Mas a mensagem extrapola a relação maternal. Quando o desgaste se impõe, é hora de partir. 

O terceiro é o reconhecimento do outro, da liberdade do outro, do outro enquanto outro mesmo, sabe?, aquele que não sou eu, que não pode estar infinitamente submetido às minhas vontades – por mais nobres que sejam, e nunca são tão nobres assim. Eu não posso dar liberdade ao outro, porque isso não me pertence. É preciso reconhecer a liberdade do outro e amá-lo no seu lugar. Isso é respeito. Isso é aceitação. 

No caso dessa mãe, levou muitos anos, muitos mitos, muitas mentiras, muito esforço, muita invasão, muita violência até que a verdade se mostrasse imperiosa. Quando disse ao filho para levar um casaco e aceitou sua partida, ela finalmente o pariu. 

Serviço 

Amor de Mãe - Parte 13

de 10/01 a 09/02
quintas e sextas às 21:00
Até R$ 10

SESC CONSOLAÇÃO 

http://www.sescsp.org.br/consolacao

Rua Doutor Vila Nova, 245

Vila Buarque - Centro

São Paulo/ SP
(11) 3234-3000

11 de janeiro de 2013

Registros – do que nos assalta


__ Mas se eu morresse hoje, eu poderia dizer que vivi a vida. Eu passei por muita coisa. 
__ É? Tipo o quê? Sair da casa da menina de madrugada pela janela com o pai dela querendo te pegar?
__ É… tipo isso… Sabe, ir pra balada com o pessoal e a gente se abraçava e chorava porque a vida é linda. 
__ E hoje em dia? O que te faz pensar que a vida é linda? 
__ … 

(longa pausa) 

__ Eu não sei. Acho que já passei da idade de achar que a vida é linda.

9 de janeiro de 2013

Da série - Rascunhos

[BASEADO EM GATOS REAIS]

























8 de janeiro de 2013

Crônicas de shopping – Tomo I


O primeiro passo depois da escada rolante é um pequeno passo para um homem, mas um passo ainda menor para a humanidade. 

E tanto faz. Não é contrariando seus devaneios ou se levando muito a sério que um homem decide – enfim, decide – entrar por aquela porta iluminada uma vez mais. A versão comercial da Porta da Esperança (ou Porta dos Desesperados?). Uma piadinha interna de mal gôsto que ninguém notou. Riu consigo mesmo a caminho do terceiro piso. 

Andava sempre às voltas de um relógio de praça (sem a praça). Uma referência para poder acertar o seu. Menos rigoroso do que um Kant, não sentia a necessidade de ser pontual dia após dia. Mas podia ser que precisasse, daí a importância de se regular a máquina do pulso. Menos ainda adepto da vida sadia (que vida de velhice!), desprezava ar livre e seguia reto até a joalheria. 

A qualquer momento do horário comercial, passava, parava, um aceno pras mocinhas, encarava os ponteiros da parede por alguns segundos, acertava os seus e seguia a vida no mesmo ritmo, levando em conta a eternidade. Um dia surpreendeu. Entrou. As vendedoras se entreolharam. 

__ Boa tarde – num tom baixo, cortês, muito educado. Todas chocadas. A mais nova, espírito presente, acudiu: 
__ Boa tarde. 
__ A senhorita se importaria de me dar um cafezinho? – e direcionou o olhar para outra máquina, mais ao fundo, expressa, sem números. A gerente discretamente autorizou. 

Após tomar seu pedido, quietinho, de pé mesmo, agradeceu e explicou sua vontade incontida. Foi-se embora para voltar no dia seguinte. Conferiu o relógio de parede, acertou seu pulso e partiu no mesmíssimo ritual. 

Um mês depois, acolhido já com menos espanto, voltou a pedir café e foi atendido. 

Dias depois, daí sim, confiante, deu seu grande passo: 

__ Bom dia. 
__ Bom dia. 
__ Eu poderia usar seu telefone um instantinho para fazer uma ligação?

4 de janeiro de 2013

Reunião Semanal dos Neuróticos Anônimos


__ Oi meu nome é Oswaldo e eu...

Coro: 

__ Ooooi, Oswaldo. 

Oswaldo: 

__ ...e eu sou um neurótico em recuperação mas na verdade vocês não precisam me chamar de Oswaldo por favor. É... sou... eu sou Hitler. Eu fui Hitler. Eu penso que eu sou uma pessoa eu sou isso. Eu sou mau ainda. Nessa vida eu estou tentando fazer alguma coisa para aprender a não ser mau mas eu ainda não aprendi ainda. Eu ainda estou... é... como se diz... eu estou... aqui... e eu... penso em matar as pessoas. E eu penso em me matar mas antes matar muitas pessoas. Eu penso em matar muitas pessoas. 

Pausa. 
Coro: 

__ Obrigado, Oswaldo. 

__ Boa noite. Eu sou a Graciela. 

Coro: 

__ Ooooi, Graciela. 

Graciela: 

__ Eu... (tosse) eu me separei há... 20 anos... mas eu nunca me recuperei desse meu... bem... nós fomos namorados. Nunca nos casamos. (riso) Digo, porque ele não quis. Eu quis. Começamos a namorar eu tinha... hum... 15. Quando eu tinha 20, nos separamos. Ele me traiu. (riso) Ele me traiu. (pausa) Mas daí... daí não tem mais como, né? Ele me traiu, então... (choro) É isso. Ele é casado hoje em dia, tem filhos. No penúltimo aniversário eu paguei meia dúzia de prostitutas para baterem na casa dele à meia-noite. A esposa que atendeu. Eu ri do outro lado da rua. (riso) (pausa) (choro) Eu achei graça. (choro) Mas não teve graça. No último aniversário eu mandei uma seleção de músicas do Chico e Tom por um trio dos Trovadores Urbanos. (pausa) Obrigada. 

Coro: 

__ Obrigado, Graciela. 

__ Oi. 

Silêncio. 

__ Meu nome é Ana. 

Coro: 

__ Ooooi, Ana. 

__ Oi. Eu... olha... eu acho que não tenho tantos problemas assim, mas eu estou um pouco depressiva. Não é nada grave, é sério. De verdade. Vocês não precisam se preocupar. É só que eu acho a cidade muito feia. E... eu... eu gostaria de implantar a coleta seletiva em todos os prédios... Mas os prédios também são muito feios... E as pessoas são muito antipáticas. Eu pedi demissão do meu último emprego porque a mulher gastava muita água. Quando falei que a torneira estava aberta desnecessariamente ela me ignorou. Eu fui embora. Estou procurando outras coisas, mas... Eu estou bem. De verdade. Às vezes eu choro quando acordo e quando vou dormir. E no intervalo entre uma coisa e outra. Mas não penso em matar ninguém não. Eu... também não tive um namoro assim muito sério eu... Não gosto do Alceu Valença. Minha mãe gosta. Ela fica cantando La Belle De Jour e isso é um problema entre nós às vezes... Mas está tudo bem. Obrigada. 

Coro: 

__ Obrigado, Ana.