9 de maio de 2012

Delírio pequeno-semiótico


É assim, vou tentar explicar:

Um pensamento, embora tenha um princípio e um fim, é um contínuo de fronteiras indistintas. Todo pensamento é, em si, baseado num pensamento anterior e desencadeará um pensamento posterior. Está fora do tempo e insubordinado a ele.


Ops! Rápido demais. Então vamos mais devagar.


Assim como uma fotografia congela um momento, um pensamento também o faz. É possível olhar uma fotografia que estampa um rosto inalterado depois de muitas décadas. Da mesma maneira, se pensarmos em um objeto hoje e o pensarmos daqui a vinte anos, o objeto não terá envelhecido, não terá caído em ruínas nem terá sido afetado pela passagem do tempo sentida no corpo que o pensa. [Heidegger] Assim é com qualquer idéia, um sonho, um desejo. É possível acessá-los muitos anos depois sem que estes tenham sido tocados pela ação do tempo.

E é também o que acontece com os sentimentos. [Peirce]

“...assim, se este sentimento está presente durante um lapso de tempo, ele está completamente e igualmente presente em qualquer momento daquele tempo.” [Collected Papers, 1.306]

É possível acessar um sentimento depois de muitos anos de sua constatação e perceber, com surpresa, que ainda está intacto e vigora em sua talidade (suchness). Mas e quando o sentimento sucumbe? E mais: o que houve quando ele sucumbe porque foi reiteradamente desgastado por eventos positivos, ou seja, momentos factuais, conectados à temporalidade?

“Cara Camila,


meu namorado me traiu e o amor morreu.
A traição aconteceu no tempo e meu amor foi afetado.
Acho que você está louca.
Estimo as melhoras.

Com consideração.

Sua leitora.”

Aí vai a teoria:

O sentimento, que não pode ser impensado, mas nascido do fluxo contínuo entre sensação e pensamento, teve um começo. Esse ponto inicial, no entanto, nunca será precisamente localizado, apesar de ser possível supor sua descoberta. É possível dizer, não sem esforço, em qual momento percebemos que amamos, mas não é possível dizer com precisão em qual momento o amor principiou em nós. Ele se deu em fluxo, foi se desenvolvendo. O sentimento não é pontual. Pois bem. Da mesma forma que relações de outra natureza se transformam, por exemplo, numa relação amorosa, uma relação amorosa pode, portanto, se transformar numa relação de outra natureza.

Algo que começou com um sentimento de simpatia pode se transformar em amor. Não é impossível, inclusive, que um sentimento de antipatia se transforme em amor. Não é difícil perceber que uma grande mágoa oculta, na verdade, um amor frustrado ou reprimido. A decepção só ocorre quando houve expectativa. É fácil ver como o sentimento transita no fluxo de nossas continuidades, a saber, pensamentos e sensações.


O sentimento que se deixou abater por fatos ocorridos no tempo, na verdade, foi abatido por elementos de fora do tempo desencadeados por um momento pontual, localizável. [Caringe] Então, veja: seu namorado te traiu e isso fez com que você deixasse de o amar. Perfeito. Mas não creio que isso se deu no espaço de um clicar no interruptor. A traição (fato positivo) ocorreu em data e hora específicas. Ele desencadeou uma sensação terrível, que foi pensada. O pensamento, as obsessivas lembranças dos momentos abruptamente interrompidos incorreram em sensações de frustração e dor. A dor vai aparecer do lado de fora [Ibri], afetar humor, ânimo, apetite, sono. Será visível. E, parando para se observar, você vai refletir sobre ela e procurar encontrar seus erros e soluções para o sofrimento. A reflexão trará novos sentimentos, que trará novos pensamentos, que trará novos sentimentos, que trará novos pens... Isso. Assim vai. De maneira que o sentimento, que está fora do tempo, vai sendo depurado, já que sua função estará sob forte e contínuo questionamento. O que está fora do tempo, portanto, só será afetado por outros elementos que também estarão fora do tempo. O fenômeno temporal desencadeou um processo interior não-determinável. Da mesma forma que a traição acabou com o amor, poderia não tê-lo feito. É possível ser traído e, embora a relação tenha sido irreversivelmente abalada, o amor continua lá, participando da existência dos indivíduos. Ou o contrário: ainda que nenhum fato específico tenha abalado o amor, ele esmorece e muda.


O que concluo é que é possível que um sentimento (amor, raiva, mágoa, afeição), uma vez nascido, dure todos os dias de todos os anos de nossa vida, embora esteja sujeito ao fluxo do complexo emocional. Esse resultado pode ser maravilhoso.


...Ou dramático.

16 comentários:

Amanda Proetti disse...

Cara Camila, concordo com sua leitora: você é louca! hahahaahahahahahhaahahahaha

LIno XOngas disse...

Você precisa ler Watchmen (não adianta assistir o filme pois não é tão profundo). Cool é a coletânea de quadrinhos (Comic cartoon) de Allan Moore e Dave Gibbon (década de 80). John - o homem azul - entenderia você perfeitamente.

LIno XOngas disse...

Hummmm, vejamos, muda o sentimento ou muda a nossa percepção do objeto sentido? Se eu amo uma pessoa e essa pessoa me trai (usando sua analogia das fotos), eu posso continuar amando a primeira foto e odiar a segunda (depois de traído). Assim eu amo e odeio a mesma pessoa, apenas o sentimento se dá em momentos distintos, mas ambos presentes de maneira cumulativa.

LIno XOngas disse...

O bom dessa brincadeira é que eu nunca preciso descartar informação, pois estima-se que o cérebro humano comporte cerca de 100 terabytes (há quem arrisque 1 petabyte)

Camila Caringe disse...

Lino, meu queridinho Xongas,

Primeiro de tudo: tenho que ler tudo isso daí.

Segundo de tudo: é. Amar e odiar a mesma pessoa (inconstância) é sintoma de falta de hábito (falta de solução) no vocabulário semiótico. O colapso é muito provável em qualquer mente humana não-budista. A questão é que a mudança na percepção do objeto pode mudar profundamente nosso sentimento sobre ele. Ou não. É esse "ou não" o foco de minhas preocupações. Ter um sentimento bonito atravessando a vida é maravilhoso. Ter uma mágoa atravessando a vida pode ser verdadeiramente uma desgraça.

Terceiro de tudo: essa sua última informação é muito interessante! Mas... só pra eu ter uma noção: uma vida de uns oitenta anos, por exemplo, de uma pessoa com conhecimentos medianos, digamos fórmulas matemáticas intermediárias, algumas músicas do Cartola, um hino nacional e dois idiomas bem compreendidos. Isso da quanto em bytes? (só pra saber quanto eu ainda tenho livre)

Quarto de tudo: você é uma graça. Sua presença é uma delícia. Obrigada pela generosidade.

LIno XOngas disse...

Mas ai vem outra questão, a pessoa que amamos é a mesma com o passar do tempo (e com novas experiencias)? As novas experiencias destroem as características iniciais do ser? Ou constroem um novo ser? Ou a pessoa é a mesma de sempre e apenas descobri novas característica que não conhecia inicialmente e por isso me desencantei (essa última é uma formulação de Proust). Acho que este espaço é muito pequeno para tanta reação sináptica e você abriu uma caixa de Pandora por aqui.

LIno XOngas disse...

A questão do espaço no cérebro foi apenas uma provocação, pois diferentemente de um computador, a gente não sabe quanta informação comporta "um bit" de neurônio. No computador é zero ou um, mas na reação sináptica podem ser várias (depende da intensidade da energia circulando entre dois neurônios). De uma maneira simplista, poderíamos arriscar que dois neurônios tem capacidade de conversar em inúmeras linguagens diferentes e cada nova linguagem aumenta exponencialmente a capacidade total do cérebro... você certamente tem muito espaço livre, pelo menos enquanto o Alzheimer não atacar... rsrs

Camila Caringe disse...

Você gostou mesmo do exemplo sobre o amor, não é?

Bem, eu havia pensado esse caso em termos de ruptura. Mas vamos tratar o caso sob a sua perspectiva: vamos supor que duas pessoas que se amam hoje fiquem juntas pelos próximos 30 anos. O que será desse sentimento?

A minha resposta é: tudo pode ser desse sentimento. Pode ser que ele perdure, pode ser que se transforme. Não há garantias (vide caso do taxista). Mas eu diria duas coisas fundamentais sobre isso:

1) o tempo que o amor dura é o de menos, desde que ele seja vivido às últimas consequências enquanto (e somente enquanto) o sentimento vigora.

2) é uma caixa de Pandora.

LIno XOngas disse...

Tem razão, mas eu sou estranho assim: perco o foco quando existe amor na parada.

Massao disse...

Não li os comentários ainda, apesar de curioso sobre a aquecida prosa... queria comentar sobre primeira impressões, pelo e se é que eu entendi rsrsr, ou seriam os primeiros acessos ao didentro?..

Assim que li, veio em minha mente a frase de sandman #74, naquele belo traço oriental "Ominia mutatur mehil interit" [Morpheus]Tudo muda, nada se perde.

Sabe Camila, vou confessar (acho que tenho tido essa prática), tenho refletido bastante sobre isso ultimamente, o que faz um sentimento que achei ter se perdido voltar de forma intensa? apesar do tempo e de todos os fatos ocorridos sobre ele.

Me fortalece a ideia do amor (e aqui digo como mero aprendiz, no campo das ignorâncias) estar no lado direito, ser uma coisa sentida, percebida e não definida. Logo tudo está conectado (o que torna mais interessante a ideia de ruptura), não definimos um tempo e sim um marco, para um coletivo de sensações.

Vivo definindo marcos (parte de tentar perceber os ciclos), tento brincar tbem com esse jogo sicronicidade e cada vez eles se mostram mais fortez (mas talvez isso seja outra coversa.

Acho que prefiro prosear pessoalmente...

afinal é como diz o poeta da cooperifa Carlos Silva

"Eu sou um leigo seu doutor
Na cidade civilizada
Onde a lingua do povo
È computadorizada"

e deixo meu recado

"Cara Camila,

Obrigado pelas minhocas matinais!

Com considerações
Seu leitor"

Madson Hudson disse...

Vou tentar comentar. Juro que vou.

Camila Caringe disse...

Lino: você tem razão de trazer o foco para o amor. Ele é mesmo a coisa mais importante.

Massao (que esqueceu o Vitor dessa vez): prosa pessoalmente é melhor ainda. E quem agradece sou eu.

Madson: ah... tenta, vai!

Vítor Massao disse...

hehe na verdade não esqueci, dessa vez coloquei na conta do google, ela assinou automático, percebi depois, mas já resolvido, inclusive em outro meios públicos ;)

Magno Nunes disse...

POuts...

Xi mano, ela descobriu q vc é doida! hahahaha

Corre!

Madson Hudson disse...

Vou comentar, juro que deste post eu comento.

Joey Marrie disse...

Sabe, eu acho que as pessoas abrigam muito o seu amor em coisas palpáveis, materiais, fatos. E daí que fatos palpáveis são capazes de interferir o amor, de capturá-lo e decapta-lo.
E uso agora um verso da música Vênus, Paulinho Moska:

O amor não é orgânico.
Não é meu coração que sente o amor.
É a minha alma que o saboreia.
Não é no meu sangue que ele ferve.
O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito.


É só isso! ^^