21 de maio de 2012

Das mãos de Moira


O que escreveu Hilda Hilst não pode ter sido escrito por gente, vida, humano, coisa que morre. Foi um Deus que em conflito com outro viu varridos seus privilégios e ficou sem escolha: usar a natureza pequena daquele que fede para transportar seu grito, seu gozo. Hilda deixou então de apodrecer. Mudou a rota que seguimos todos nós em procissão. Ela se salvou da barca, não sei se em firme propósito. Não foi preciso lhe dedicar glória. Não é necessária prece à Hilda. A poetisa ganhou de si o céu quando serviu sua axila de pêlos e de carne à vaidade do soberbo divo, cambaleante de amor e asco e entendimento, afogado no pranto de si e pena, que cólera contamina e sua escolhida se viu sofrer.

Deus que pisa terra se deixa mostrar e respira há de fazer retorno sendo outro. A que tinha cabelos, no entanto, pagou o preço alto da luminescência: a dor da lucidez como de ossos em expansão até a velhice. Depois subiu. Está sentada à direita do pai, todo-poderoso, de onde não há de vir julgar os vivos e os mortos (e nós, os maus escritores).

**

...Foi quando encontrei subitamente
Tudo aquilo queria dizer-te
Meu senhor, con-sorte inexistente:


                      V

O Nunca Mais não é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes
De perpetuar a Duração.
O Nunca Mais é só meia-verdade:
Como se visses a ave entre a folhagem
E ao mesmo tempo não.
(E antevisses
Contentamento e morte na paisagem).

O Nunca Mais é de planície e fendas.
É de abismos e arroios.
É de perpetuidade no que pensas efêmero
E breve e pequenino
No que sentes eterno.

Nem é corvo ou poema o Nunca Mais.

H.H.


7 comentários:

Anônimo disse...

No comments to such beatiful words, because every word else, would sound fool and wrong, so we need different languages to look smarter and wise, or, at least, just not so foolish as we are. (by a man on the fly with foots on the road)

Anônimo disse...

Não há de ser inexistente aquele que teus sonhos fecunda.
Se outrem, com sorte, talvez o mesmo, também fecundaste, e lá fizeste teu ninho, certamente seu imaginário em reciproca lhe pertence.
Pois que sois, ambos, essência da imaterialidade que povoa travesseiros, não se permitam que o despertar lhes furtem o sorriso.

Madson Hudson disse...

Poxa, vim seco para comentar. Seco.

Mas, não dá pra comentar com um Anônimo tão culto e bilíngue.

Anônimo disse...

Just Google Tradutor ... don't worry...rsrs

Camila Caringe disse...

Querido, querido, Madson...

Você há de concordar comigo que esse comentário anônimo deveria era tomar o lugar da minha postagem.

Nada poderia ter sido mais próprio ou acolhedor do que esse Anônimo pode em si recolher, refletir e sabiamente doar.

Tomei um susto.
Deve ter ocorrido o mesmo com você.

Mas não se abale.
Mostre seu tumblr pra ele!

Joey Marrie disse...

Aaaaahhh, então a menina do post acima, a que "nunca mais foi vista" pode muito bem ser essa ave entre as folhagens. Ela está por aí, diferente de si própria por não ter facilmente um par fora de si!

Anônimo disse...

só pra dizer que te amo... muito