25 de maio de 2012

Querença


Ao entrar no vagão ouvi logo a sua voz. Procurei e de propósito me instalei ali bem perto. Em seguida seu companheiro de banco se levantou e fiquei com o acesso livre. Mal conseguia conter o riso, mas não por achar muito cômico. Era simplesmente gracioso vê-lo entoar sem se poupar aqueles cânticos de louvor pro Deus. 

O senhorzinho ia pigarreando e cantando e seguindo a canção, selecionando uma e outra com o livrinho aberto nas mãos. Não sei se era um gesto de desapego – tipo, “canto mesmo, e daí?” –, um gesto de altruísmo – “vejam que canções mais lindas vocês têm que conhecer!” – ou um gesto de imensa inocência despida de mais intenções, aquele pequeno algo que faz de um ser extremamente cativante no cuidado e na certeza que nos desperta: qualquer coisa poderia quebrá-lo nesse momento de harmonia.

Nós, do vagão, trocávamos olhares cúmplices de proteção. Concordamos todos. A vida, minha gente, a vida é uma graça.

3 comentários:

Magno Nunes disse...

E para fechar com chave de ouro, ele entoou em alto e bom som:

PARA NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSSAAAAAA ALEGRIA...

E todos foram felizes para casa...

Joey Marrie disse...

Lembra das recomendações expressas que eu te falei, né?
Então!

=D

Madson Hudson disse...

Quase um Roberto Carlos da ferrovia.