21 de março de 2010

A primeira noite do novo outono

A água do Atlântico Sul que chegava até os meus tornozelos estava quente às 3h17 da madrugada que antecedia o sol de domingo. O barulho e o cheiro eram típicos de qualquer nostalgia, de qualquer paz de espírito. Ele segurava minha mão e pedia pra eu ir mais devagar, mais pra perto do mar e mais adiante.


_ O céu tá muito nublado.
_ Tá...
_ Eu queria ir dar um mergulho.
_ Vai!
_ Mas tem uns patos ali! E se eles bicarem meu saco?
_ Não vão...
_ Vão sim! Alá! Tem um cara que vai passar agora pelos patos. Se eles não forem agressivos com o cara, eu vou lá.
_ A razão serve pra isso, né? Pra brecar os instintos. Faz sentido quando você tem vontade de roubar ou bater em alguém, mas não quando você está na praia e tem vontade de entrar no mar.
_ Por quê? Você tem essas vontades constantemente?
_ Ah... vai logo! Entra lá!
_ Se os patos pegarem meu saco... você vai ver só!
_ Não vão pegar não!
_ Mas eu tô de samba canção!
_ E daí?
_ Olha! Tem um pato aqui! Mas... péra... Isso não parece pato.
_ E não é! Deve ser...
_ ...o quê...?
_ Garça! Sei lá...
_ É! É mesmo! Pode ser... Garça não bica saco. Pato é que bica. Então vou lá!
_ Vai!


Fiquei na areia olhando enquanto ele deitava no raso e sacudia os braços, como quem se afoga em 10 centímetros de profundidade. Depois que eu ri o suficiente pra ele, levantou e foi andando mais pro fundo, e mais pro fundo, e mais pro fundo. Sumiu algumas vezes e reapareceu. Eu fiquei ali, olhando um quadro vivo à luz de um amanhecer pacato e deserto, branco e ralo naquela areia fina. Ele voltou encolhidinho, com as mãos na frente do que ele queria tanto preservar dos males dos patos que eram garças, ou qualquer coisa assim. O cabelo grudado na cara, pingando e tremendo de frio.


_ Dá minha camiseta.
_ Não.
_ Daí!
_ Dá uma sacudidinha primeiro.
_ Assim? - me enxarcando.
_ Isso! Só que mais pra lá!


Vestiu-se e deitou ao meu lado.


_ Cá!
_ Hum?
_ Tá vendo aqueles pássaros ali, voando bem longe?
_ Um-hum.
_ Então... Será que se eles cagarem de lá do alto, a bosta chega aqui na gente?
_ Não sei...
_ Deve chegar, né? Mas como é que chega? Será que desintegra no ar?
_ Não... Acho que não... Eles precisariam estar um pouco mais pra fora do planeta pra atmosfera desintegrar a bosta.
_ Não... Sim... Mas... Não vai chegar um jato na nossa cara aqui, né?
_ Ah... não... Acho que não...
_ Acho que vai tipo dissolver no ar...
_ Não... Acho que só ia espalhar. Tipo, o pássaro caga lá agora. Daí a mesma bosta bate aqui na gente e lá naquele carrinho da Kibon, sabe? Acho que se espalha bastante.
_ Ah...
_ Mas a gente ia sentir!
_ Será? Acho que não!
_ Ia sim! A gente ia ver!
_ Mas seu casaco é preto!
_ Argh! Será? Não... acho que não... Acho que a gente ia ver alguma coisa caindo...
_ É... talvez...


Queria ter trazido um terêrê no cabelo, mas não deu. Um moço da feirinha disse que eles começavam a abrir às sete, quando eu perguntei às sete para o único feirante presente, depois do cara dos chapéus.


_ Mas tem uns que só abrem na hora do almoço, lá pro meio-dia...
_ Meio-dia??? De domingo???
_ É. Só abre mais cedo quem precisa vender. Quem não faz questão abre só mais tarde.


Olhei ao redor e percebi que esta deveria ser a situação da maioria.


_ Obrigada.


Tomamos café da manhã e partimos sem terêrê mesmo.

6 comentários:

Fabis Matrone disse...

Que saudades do seu texto...

Que saudades do seu abraços...

Que saudades de você...


Dá uma passadinha no meu velho blog, vai? rs


Semana que vem você não me escapa!


Te amo gatinha!

Felipe Teles disse...

Bela manhã de domingo.... Prazerosa e ..sua cara..

FlamingLips disse...

o Outono promete...

Magno Nunes disse...

Mendigar comentários é feio!
Principalmente em blogs ruins...enfim...

O esquema da bosta do passarin é o mesmo da formiga que pula do décimo andar...

Já teorizamos muito sobre isso...

A vida é cheia de coisas que ninguém irá descobrir...

Mas sei lá...
Enfim, quem sabe...

Magno Nunes disse...

Caro leitor de Camila Caringe, por favor...

Existe uma coisa chamada puxa saco...

Se você ler o blog da autora láááááááa´no início verás que comentários falando sobre a beleza da autora, da inteligência e coisa do tipo são aqueles que menos chamam a atenção...

A autora escreve as coisas e pretende, ou não, ter um feedback de acordo com o que está escrito... Ajude a reflexão...

Fazer elogios pro povo ver como vc é legal em estar passando na blogagem não agrega...

Portanto da próxima faça como Felipe Teles e compania... Comente a postagem... elogios manda por email ou SMS...

Chatão eu hein? ahahah

Marcella Andriani disse...

BRUXAAAAAAAAAAAAAAAAAA