1 de fevereiro de 2013

Desabafo

O relato não é meu.
É de uma amiga minha.
É da tormenta. Que atormenta todos nós.

Então. Tem um doidinho na rua... Eu sei que ele mora por aqui, mas não sei onde. Ele fica o dia inteeeeeeeeeeeiro na rua, deve ter mais de 40 anos. E sempre vem aqui pedir água.
Quando eu passo na rua, sempre quer conversar. Conta história, pede pra namorar comigo... Enfim. Geralmente ele tem alguma história sem pé nem cabeça e bem triste pra contar. Um dia ele chegou fazendo barulho de choro e pedindo ajuda pelo amor de Deus. Até me assustei.

__ Moça, pode um negócio desse? Me ajuda aqui, pelo amor de Deus!
__ O que você precisa?
__ A mulher aqui, a mulher aqui moça!, tá fazendo macumba pros outros!

Aí eu olhei e disse:

__ Deixa ela, não se preocupa, essas coisas não funcionam.

Ele parou de fazer o barulho de choro e começou a perguntar se eu tinha namorado... Picareeeeeeeeta. Ele nunca chora, sempre faz o barulho de choro pra chamar atenção...

Agora há pouco fui ao banco, apressada. Ele me puxou:

__ Você pode me dar um conselho?
__ Não sou muito boa nisso não...
__ Você acha que eu devo empinar papagaio?
__ Claro! É legal, não é?!
__ Mas não é melhor estudar?
__ Estudar também é ótimo.
__ Mas eu já estudei, fiz o colegial, agora tô fazendo medicina. Quero ser médico, já tô acabando, mas (barulho de choro) sabe... às vezes eu quero morrer.
__ Morrer pra quê? Não... Ainda tem que viver muito. As coisas vão melhorar.

Daí não me lembro do diálogo todo, mas lembro que o consolei e ele mudou de assunto de novo parando de "chorar" imediatamente e sorrindo.
Na volta ele veio de novo:

 __ Ai ai, eu acho que morri e ninguém percebeu. Eu queria morrer...

28 de janeiro de 2013

A importância da etiqueta


Lara perguntou para a avó, Silvana: “Vó, quantos anos você tem?”. Silvana brincou e disse “Já estou tão velha que nem me lembro mais”. Lara, então, resolveu dar uma dica: “Vó, olha na etiqueta da sua camiseta. Na minha está escrito de 5 a 6 anos”. 

História dos leitores da revista Pais & Filhos, jan/2013

22 de janeiro de 2013

Da série - Rascunhos

[DIA-NÃO-DIA. TEM DIA QUE... NÃO. NÉ?]


20 de janeiro de 2013

Crônicas de shopping – Tomo II


Nojo. 
A instituição nojo e suas raízes morais. 
É involuntário todavia o revirar das entranhas, intestinos enlaçando pâncreas, o estômago contraindo pra continuar cabendo onde está. 
Qual culpa tem a pessoa de seu nojo? Está condenada por não poder crer no Cristo, por não achar sabedoria na natureza, por ver atrocidade ou criança dormindo e ficar na mesma? 
Mas nem era este o seu caso. Apenas o nojo da criatura que esparramava-se adiante. Eram somente três as mesas do lado de fora do café. Ela ocupava a primeira, pulava uma e ele estava na terceira. 
Quis sentir pena, mas não conseguiu. Respirou fundo, averiguou em si. Ele era só nojo sim. 
Ela parou um pouquinho, ajeitou a saia longa em sua vastidão, arrumou a blusa e lançou o cabelo comprido irregular para as costas. Sentou-se. De dentro da sacola de papel várias coisas saíram. Primeiro pão. Depois margarina, apresuntado, qualquer tipo de queijo, tempero de miojo, catchup, um prato de plástico, um rolo de papel higiênico e, por fim, uma coca de dois litros. 
Um por um os ingredientes montaram seu lanche indistinguível. O outro, indignado, achou desaforo sair e insistiu ali em seu lugar, hipnotizado por semelhante apetite. 
Terminada a refeição, sobrou migalhas, embalagens vazias e papel-de-limpar-boca. Virou a garrafa para um gole ou dois, três. Uns dez. E olhou insatisfeita a própria bagunça. 
Guardou o prato de volta na sacola. Em seguida o catchup. Juntou o lixo nas mãos grandes e meticulosamente transferiu o material desprezado para a mesa ao lado, a do meio, que parava vazia delimitando os espaços. 
Contente, voltou para sua mesa. Virou a coca na garganta mais algumas vezes. Olhou ao redor. Deu sono. Cochilou sentada. 
O distinto senhor, liberto ao término do ritual, aprumou-se. Finalmente deixou o local.

17 de janeiro de 2013

Da série – Diálogos arrebatados


__ O que é arte, Camila? 
__ O significado que transcende a matéria. 
__ Como assim? 
__ É quando a palavra consegue dizer alguma coisa que não é palavra. Quando o desenho ou a foto mostra o que não está na imagem. Quando a música revela o que não é som. Isso é arte. 
__ E qual a sua relação com o transcendente? 
__ A mesma que com o mundano. 
__ Por que? 
__ Porque é no vulgar que se escondem as coisas sagradas. 
__ E você as encontra? 
__ Às vezes sim. Muitas vezes não. 
__ O artista é um apaixonado? 
__ O artista é um perturbado. É possível fazer arte com paixão, mas é preciso sobretudo fazer arte com tédio. Quero dizer, é claro que o artista se apaixona pelas pessoas. Paixão no sentido de atração, encantamento, mas também no sentido de padecer, sofrer com elas, sofrer por elas. E se alegrar também. Todo grande prazer se parece muito com uma dor. É quase insuportável. O artista é um sofredor público. Ele não padece para ser visto, mas, já que está padecendo, ele se deixa ser visitado nesse flagrante. As pessoas passam, olham essa exposição, às vezes se reconhecem, às vezes não, e vão embora com duas dores: a delas e do artista. Mas ter consigo a dor do artista não é aumentar a dor, não. Acontece aí uma outra coisa. Essa dor compartilhada é comunhão. É sair da solidão. É descanso, é beleza. Enfim, é outra coisa.

14 de janeiro de 2013

O amor e seus castigos


Ele devia ter lá seus 60 anos quando sua mãe o pariu pela segunda vez. “Leva um casaco, meu filho.” Foi assim. Da primeira vez não conta. Não foi parto natural. Ele que se resolveu nascer quando fez 30 anos na barriga dela. Um homem nu e feito deixando o útero da mãe para dizer em seguida: “Aqui é frio. Lá dentro era mais quentinho.” 

Não sou crítica de teatro nem nada, mas a peça "Amor de Mãe – Parte 13" tem no mínimo três grandes trunfos. O primeiro se trata de atirar na nossa cara o quanto impura e imprópria é a forma como amamos, quanto egoísmo pode ser incorporado nos gestos aparentemente tão justificáveis de proteção: a mentira, o mito, o exagero, o claustro, a punição. Muita falta de amor cabe no argumento do amor. 

O segundo grande trunfo é a obviedade que não vemos: o amor, queridos, não basta. E é um gesto de amor reconhecê-lo e separar-se. Na história fictícia entre uma mãe que não quer parir o filho no mundo mau e o filho que cresce a despeito do rigor dela, fica nítido o mal estar do lugar estreito. Mas a mensagem extrapola a relação maternal. Quando o desgaste se impõe, é hora de partir. 

O terceiro é o reconhecimento do outro, da liberdade do outro, do outro enquanto outro mesmo, sabe?, aquele que não sou eu, que não pode estar infinitamente submetido às minhas vontades – por mais nobres que sejam, e nunca são tão nobres assim. Eu não posso dar liberdade ao outro, porque isso não me pertence. É preciso reconhecer a liberdade do outro e amá-lo no seu lugar. Isso é respeito. Isso é aceitação. 

No caso dessa mãe, levou muitos anos, muitos mitos, muitas mentiras, muito esforço, muita invasão, muita violência até que a verdade se mostrasse imperiosa. Quando disse ao filho para levar um casaco e aceitou sua partida, ela finalmente o pariu. 

Serviço 

Amor de Mãe - Parte 13

de 10/01 a 09/02
quintas e sextas às 21:00
Até R$ 10

SESC CONSOLAÇÃO 

http://www.sescsp.org.br/consolacao

Rua Doutor Vila Nova, 245

Vila Buarque - Centro

São Paulo/ SP
(11) 3234-3000

11 de janeiro de 2013

Registros – do que nos assalta


__ Mas se eu morresse hoje, eu poderia dizer que vivi a vida. Eu passei por muita coisa. 
__ É? Tipo o quê? Sair da casa da menina de madrugada pela janela com o pai dela querendo te pegar?
__ É… tipo isso… Sabe, ir pra balada com o pessoal e a gente se abraçava e chorava porque a vida é linda. 
__ E hoje em dia? O que te faz pensar que a vida é linda? 
__ … 

(longa pausa) 

__ Eu não sei. Acho que já passei da idade de achar que a vida é linda.

9 de janeiro de 2013

Da série - Rascunhos

[BASEADO EM GATOS REAIS]

























8 de janeiro de 2013

Crônicas de shopping – Tomo I


O primeiro passo depois da escada rolante é um pequeno passo para um homem, mas um passo ainda menor para a humanidade. 

E tanto faz. Não é contrariando seus devaneios ou se levando muito a sério que um homem decide – enfim, decide – entrar por aquela porta iluminada uma vez mais. A versão comercial da Porta da Esperança (ou Porta dos Desesperados?). Uma piadinha interna de mal gôsto que ninguém notou. Riu consigo mesmo a caminho do terceiro piso. 

Andava sempre às voltas de um relógio de praça (sem a praça). Uma referência para poder acertar o seu. Menos rigoroso do que um Kant, não sentia a necessidade de ser pontual dia após dia. Mas podia ser que precisasse, daí a importância de se regular a máquina do pulso. Menos ainda adepto da vida sadia (que vida de velhice!), desprezava ar livre e seguia reto até a joalheria. 

A qualquer momento do horário comercial, passava, parava, um aceno pras mocinhas, encarava os ponteiros da parede por alguns segundos, acertava os seus e seguia a vida no mesmo ritmo, levando em conta a eternidade. Um dia surpreendeu. Entrou. As vendedoras se entreolharam. 

__ Boa tarde – num tom baixo, cortês, muito educado. Todas chocadas. A mais nova, espírito presente, acudiu: 
__ Boa tarde. 
__ A senhorita se importaria de me dar um cafezinho? – e direcionou o olhar para outra máquina, mais ao fundo, expressa, sem números. A gerente discretamente autorizou. 

Após tomar seu pedido, quietinho, de pé mesmo, agradeceu e explicou sua vontade incontida. Foi-se embora para voltar no dia seguinte. Conferiu o relógio de parede, acertou seu pulso e partiu no mesmíssimo ritual. 

Um mês depois, acolhido já com menos espanto, voltou a pedir café e foi atendido. 

Dias depois, daí sim, confiante, deu seu grande passo: 

__ Bom dia. 
__ Bom dia. 
__ Eu poderia usar seu telefone um instantinho para fazer uma ligação?

4 de janeiro de 2013

Reunião Semanal dos Neuróticos Anônimos


__ Oi meu nome é Oswaldo e eu...

Coro: 

__ Ooooi, Oswaldo. 

Oswaldo: 

__ ...e eu sou um neurótico em recuperação mas na verdade vocês não precisam me chamar de Oswaldo por favor. É... sou... eu sou Hitler. Eu fui Hitler. Eu penso que eu sou uma pessoa eu sou isso. Eu sou mau ainda. Nessa vida eu estou tentando fazer alguma coisa para aprender a não ser mau mas eu ainda não aprendi ainda. Eu ainda estou... é... como se diz... eu estou... aqui... e eu... penso em matar as pessoas. E eu penso em me matar mas antes matar muitas pessoas. Eu penso em matar muitas pessoas. 

Pausa. 
Coro: 

__ Obrigado, Oswaldo. 

__ Boa noite. Eu sou a Graciela. 

Coro: 

__ Ooooi, Graciela. 

Graciela: 

__ Eu... (tosse) eu me separei há... 20 anos... mas eu nunca me recuperei desse meu... bem... nós fomos namorados. Nunca nos casamos. (riso) Digo, porque ele não quis. Eu quis. Começamos a namorar eu tinha... hum... 15. Quando eu tinha 20, nos separamos. Ele me traiu. (riso) Ele me traiu. (pausa) Mas daí... daí não tem mais como, né? Ele me traiu, então... (choro) É isso. Ele é casado hoje em dia, tem filhos. No penúltimo aniversário eu paguei meia dúzia de prostitutas para baterem na casa dele à meia-noite. A esposa que atendeu. Eu ri do outro lado da rua. (riso) (pausa) (choro) Eu achei graça. (choro) Mas não teve graça. No último aniversário eu mandei uma seleção de músicas do Chico e Tom por um trio dos Trovadores Urbanos. (pausa) Obrigada. 

Coro: 

__ Obrigado, Graciela. 

__ Oi. 

Silêncio. 

__ Meu nome é Ana. 

Coro: 

__ Ooooi, Ana. 

__ Oi. Eu... olha... eu acho que não tenho tantos problemas assim, mas eu estou um pouco depressiva. Não é nada grave, é sério. De verdade. Vocês não precisam se preocupar. É só que eu acho a cidade muito feia. E... eu... eu gostaria de implantar a coleta seletiva em todos os prédios... Mas os prédios também são muito feios... E as pessoas são muito antipáticas. Eu pedi demissão do meu último emprego porque a mulher gastava muita água. Quando falei que a torneira estava aberta desnecessariamente ela me ignorou. Eu fui embora. Estou procurando outras coisas, mas... Eu estou bem. De verdade. Às vezes eu choro quando acordo e quando vou dormir. E no intervalo entre uma coisa e outra. Mas não penso em matar ninguém não. Eu... também não tive um namoro assim muito sério eu... Não gosto do Alceu Valença. Minha mãe gosta. Ela fica cantando La Belle De Jour e isso é um problema entre nós às vezes... Mas está tudo bem. Obrigada. 

Coro: 

__ Obrigado, Ana.

2 de janeiro de 2013

Ano novo, enquete nova!


Caros amigos, 

Após uma tão bem sucedida pesquisa, da qual participaram, ao longo de uns três anos, umas três dezenas de pessoas, tenho o prazer de anunciar a nova pesquisa deste blog. 

É muito importante para nós que você colabore com sua opinião e mais importante ainda ressaltar que não há qualquer espécie de brinde, surpresinha ou sorteio para quem decide colaborar. A escolha é, portanto, inteiramente de vossa consciência. 

Visite a coluna da direita e contribua com seu voto. 
Ou não. 

Atenciosamente, 
A equipe de relacionamento. 

31 de dezembro de 2012

Um marido, entre outras coisas


Na mesa do restaurante, duas amigas brindam com suco de laranja: 

__ Feliz ano novo, vida nova, carro novo, marido novo, tudo novo!, carro zero, marido novo... vida nova! 

*repetições facúndias constam do discurso original

26 de dezembro de 2012

Da série - Rascunhos

[O APANHADOR DE CONCHAS]





















É assim que todo o mal tem origem: na displicência e falta de discernimento entre o que pode ser bom, belo e o que não presta.

24 de dezembro de 2012

Noel


Talvez teria até sido melhor pegar uma criança emprestada por ali mesmo, pra disfarçar, mas não se deu ao trabalho. Entrou na fila e esperou sua vez chegar. E chegou: 

__ Oi, Papai Noel. 
__ Oi! Você quer tirar uma foto? 
__ Não. Quero conversar igual todo mundo. 
__ Mas tem crianças na fila, meu bem. Você poderia, por favor, aguardar aqui ao lado que na hora do meu intervalo eu... 
__ Não, não posso. É importante. Tem que ser agora. 
__ Bom... então pode falar. 
__ É que eu não gostei da sua localização. Acho que está muito escondido aqui no fim do corredor. 
 __ Ah, é que este é um bairro judeu e não existe este personagem na cultura deles. Então me escondem aqui. 
__ E você acha isso justo? 
__ Olha, eu... 
__ Eu acho que é discriminação! 
__ Sim, mas... 
__ A mensagem de um Deus de amor é essencialmente a mesma. Não deveríamos brigar por isso. 
__ É que... 
__ As guerras religiosas só ocorrem por desobediência ao mais importante mandamento: aquele lá que fala sobre o próximo! 
__ Entendo... 
__ E acho que a sua sujeição a esta regra excludente não nos ajuda enquanto humanidade. 

Ele ajeitou o cinto na circunferência fofa, alisou a barba pacientemente e sorriu, deixando as faces rosadas ligeiramente destacadas na carinha simpática: 

 __ Bem... Eu compreendo. Também acho este mundo mau. Quando ofereço doces às vezes as crianças não pegam porque os pais não as deixam aceitar ofertas de estranhos. São tempos difíceis. Eu sou Papai Noel há 13 anos, mas só do dia 1º ao dia 24. Depois sou uma pessoa normal... 
__ Foi o que eu pensei!

21 de dezembro de 2012

Registros – do que nos toca


“Esses dias me aconteceu uma coisa que até pensei em mandar pra você. É digna do seu blog. 

Eu tava lá na Praça 14 Bis com um amigo meu e veio um cara, devia ser morador de rua, se oferecendo para engraxar meu sapato. Daí eu expliquei: 

__ Mas querido, eu tô de tênis. Não dá. 

E ele disse: 

__ Não, dá sim! Vem cá! Coloca o pé aqui. – e abriu a caixinha, colocou meu pé em cima e sei lá o que é que ele ia fazer. Acho que ia escovar, limpar, inventar uma moda lá, sei lá. Mas eu tirei o pé e falei ‘não... vem cá... vamos conversar...’. Abri a carteira e disse ‘olha, me desculpa, eu só tenho três reais, pode ser?’. O sujeito aceitou e começou a falar e talz. 

Eu, para cortar um pouco o assunto, disse ‘então tá bom, queridão’ e dei um abraço no cara para me despedir e encerrar a conversa. Ele se deu por satisfeito e respondeu: 

__ Tá bom. Obrigado pelo abraço. – acenou e foi embora. 

Ele não agradeceu pelo dinheiro. Ele agradeceu pelo abraço.”

16 de dezembro de 2012

Evite a ruína















14 de dezembro de 2012

Compras


_ Mãe, o que você acha desse vestido? 
_ É legal! Vai lá experimentar. 

... 

_ Mãe! Vem ver! Quê cê achou? 
_ Não gostei. 
_ Não gostou? 
_ Não. 
_ Por quê? 
_ Tá parecendo uma fralda embrulhada. 
_ Uma fralda embrulhada? 
_ É! Uma fralda embrulhada! Sabe quando o nenê vai andando e a fralda tá meio larga, fica meio troncha? Então! 
_ Ah... 
_ Por quê? Você achou bonito? 
_ Bom, eu tinha achado, né? Até você dizer isso. 


 A franqueza é uma benção contundente.

11 de dezembro de 2012

Rasteirinha


A campainha tocou e ele foi atender. Era ela, um pouco mais cedo do que o combinado, antes do anoitecer. Parecia bem humorada, disposta, com as faces rosadas do dia de sol lá fora. Sentou-se no sofá muito à vontade e largou a mochila num canto. Ele notou a bagagem com um certo incômodo, mas procurou se concentrar no que ela dizia. Só para perceber em seguida que não tinha a menor importância. Ela já estava no sofá. Poderia ser ali mesmo. Olhando-a falar em seus trejeitos e inclinações de tronco, imaginava por onde começar. O decote parecia uma feliz opção, acessível às mãos ou à boca ou às três ao mesmo tempo. Talvez o cabelo. O cabelo era um jeito mais sutil de iniciar. Passaria a imagem de ser, quem sabe, educado, tímido. As mulheres gostam disso. As mulheres gostam mesmo disso? Bem, poderia ser a cintura. Se estivessem de pé e ele a segurasse no ângulo certo, ela tombaria para o sofá de volta e ele cairia naturalmente em cima dela. Poderia ainda ser algo mais pueril. Beijar-lhe as bochechas quentes e deslizar para as orelhas. Seria um caminho fácil até o pescoço e em seguida ela lançaria a coxa direita sobre as pernas dele. Ele tocaria seus pés e... 


Ele olhou para os pés e subitamente se interessou pelo que ela dizia. Ouviu com atenção irrevogável por uns quatro ou cinco longos minutos sem, contudo, obter pista do que desejava saber. Correndo o risco de explicitar uma injustificável ausência durante a meia hora anterior e correndo também o grande risco da indelicadeza por fazê-la repetir, perguntou objetivamente: 


__ ...Mas, onde você esteve hoje, antes de vir pra cá? 

__ Ah! Eu já disse! Vim resolver algumas coisas no centro pela manhã, encontrei uma amiga, ficamos andando até às... 

Ela não precisava dizer mais nada. Não importa o que estava dizendo. Não precisava. Que tipo de mulher sai de casa sabendo que vai caminhar e escolhe uma dessas sandálias baixinhas? Como ele poderia querer esta mulher tendo diante de si a visão de seu pé preto? E essa mochila, então? O que significava essa mochila? Dormir com ela sim, mas acordar ao lado dela nem pensar! Rompeu-se o encanto. Não queria mais. Querer o quê? Não havia nada ali para querer! Nada desejável, nada encantador, nada. 


Levantou-se sorrateiramente enquanto ela ainda dizia qualquer coisa sobre família. A dela? Não. Algo sobre cangurus. Foi até a cozinha e, enquanto esperava a água do filtro encher o copo, colocou o celular para despertar em dois minutos. Voltou à sala, sorriu, bebeu sua água e aguardou. O telefone tocou: 


__ Opa! Só um minutinho, querida. Preciso atender. Alô? Oi, cara! Sim, pode falar! Eu? Putz, é mesmo! Eu tinha me esquecido... Mas e se a gente deixasse isso pra amanhã? Hum? Sei... Ah... poxa vida... Sério? Não, então tudo bem! Tá bom. Tá. Tá. Então tô indo praí! Abração, cara! Tchau! 


E explicou pra ela, em outras palavras, claro, que estaria com outra mulher aquela noite. E, se ela quisesse saber quem, era só telefonar dentro de duas horas. Ele certamente já teria um nome.


9 de dezembro de 2012

Da série - Rascunhos


[TÉDIO É UMA COISA ASSIM QUE DÁ NA GENTE... QUE SENTE COMO SE NUNCA MAIS FOSSE DAR MAIS NADA...]



7 de dezembro de 2012

O "não" que vale


_ Papai! Eu quero um apontador... uma borracha... 
_ Pra quê? Pra perder? 
_ Não! Vou cuidar! 
_ Quero só ver.
_ E lápis de cor? Pode lápis de cor também? 
_ Não. 
_ Não? 
_ Não. Tá chegando o fim do ano. No ano que vem eu compro. 
_ Ah... por favor? 
_ Não. 
_ Tá. 

“Tá”? Como assim “tá”? 
A menina não vai se atirar no chão, pedir pelo amor de Deus, orar em nome de Santo Expedito, recitar o hino da consolação, sair correndo pelada gritando, tacar a cabeça na parede, morder o próprio braço, simular desmaio, nada? Nadica? 

_ Papai, você me ajuda a escolher o apontador? 
_ Claro! Tchô ver... Ah... todos são bonitos... Tem esse de estrela, olha que bonito! 
_ É... eu gostei... 
_ E o vermelho? O que você achou do vermelho? 
_ Eu gostei! 
_ Então pode ser. 
_ Posso pegar? 
_ Pode. 
_ Moça, o vermelho. 
_ ...por favor... 
_ Por favor, moça! 

E estava encerrado o assunto.
Sem mágoas.

4 de dezembro de 2012

Desforra


NINFA: Respirei aliviada. Por mim, Sócrates poderia terminar ali mesmo seu discurso e me daria por satisfeita, como quem participa de portentosa refeição. Assim era. E quantos, óh convivas de tantos reinos oriundos, quantos são esses terríveis homens sobre a terra, que pisam flores como fosse grama, que esmagam amor entre os dedos como material descartável às margens da grande arena. Os dramas que eu testemunhara eram somente por isso. Não creem esses homens pobres de espírito no que lhes anima a eles mesmos e lhes fala ao coração. Eros chega num repente e por falta de fé se despede e se desfaz sem que o mortal sequer dê à luz um único prodígio dele inspirado. Abafam suas boas artes no silêncio, na vergonha, na violência, no orgulho, na dúvida. Quantos homens assim esta terra ampararia?


29 de novembro de 2012

Notas da liberdade


O sono é acomodação do sujeito a si mesmo. Quando o sujeito se encontra ele repousa em si, adormece, embriaga-se. O estado de vigília é o desencontro de si. O despertar, no entanto, é traumático, porque a descoberta do outro o é. Mas, se o conhecimento é condição para a superação do trauma, então, para Lévinas, a superação nunca acontece. O outro nunca será objeto de conhecimento, de tal forma que estar com o outro será sempre um trauma. No entanto, Lévinas nos pergunta: se víssemos a humanidade no próximo, seríamos capazes de atentar contra ele?

Não é a partir do ser geral que ele vem ao meu encontro. Tudo o que dele me vem a partir do ser em geral se oferece por certo à minha compreensão e posse. Compreendo-o a partir de sua história, do seu meio, de seus hábitos. O que nele escapa à minha compreensão é ele, o ente. Não posso negá‐lo parcialmente, na violência, apreendendo-o a partir do ser em geral e possuindo-o. Outrem é o único ente cuja negação não pode anunciar-se senão como total: um homicídio. Outrem é o único ser que posso querer matar.
Eu posso querer. E, no entanto, este poder é totalmente o contrário do poder. O triunfo deste poder é sua derrota como poder. No preciso momento em que meu poder de matar se realiza, o outro se me escapou. Posso, é claro, ao matar, atingir um objetivo, posso matar, como faço uma caçada ou como derrubo árvores ou abato animais, mas neste caso apreendi o outro na abertura do ser em geral, como elemento do mundo em que me encontro, vislumbrei‐o no horizonte. Não olhei no rosto, não encontrei seu rosto. A tentação da negação total, medindo o infinito desta tentativa e sua impossibilidade, é a presença do rosto. Estar em relação com outrem face a face – é não poder matar. É também a situação do discurso.

LÉVINAS

26 de novembro de 2012

Registros – do que a gente aprende


“...E eu estava conversando esses dias com o meu melhor amigo, que é alguém de quem eu até pensava que... poxa... ele foi um cara que fez escolhas erradas e fracassou, né? Mas daí, conversando com ele, eu levei um tapa na cara. Não é nada disso. 

O cara mora num cortiço lá. Um só quarto com uma cama de casal, um guarda-roupa, um fogão e uma geladeira. Só. Não cabe mais nada. E é um lugar onde você anda com as perninhas apertadinhas assim, sabe?, porque senão não dá pra andar. E pensa: o sujeito com 22 anos, 22 anos, dormia na mesma cama o pai, a mãe e ele. 


Bom, ele conheceu aí uma menina numa balada. Daí dormiu com ela, ela engravidou, enfim. Teve o bebê. Então passou a dormir na mesma cama de casal o pai, a mãe, ele, a mulher e a criança. Eles se casaram. 


Esses dias sentamos para conversar e eu fui contar minhas peripécias de solteiro, já que ele casou e não me acompanha mais. Em determinado momento eu falei pra ele: “Mas cê não acha que cê perdeu muito por ter se casado tão cedo?” E ele me respondeu: “Pode ser. Mas ganhei muito também.” 


Eu olhei pra ele e senti a sinceridade. Quer dizer, o cara tem outros valores, cultua outras coisas... Foi uma lição de vida pra mim.”


22 de novembro de 2012

Da série - Rascunhos

[SEMPRE TEM QUEM NÃO COLABORA]



19 de novembro de 2012

Love and Rubbish - Why Poverty?


“Love is when you find one another and you love each other so much that you can’t be apart, even for a minute.
Then you gradually start a family, not immediately, but gradually. And you live together to the end of your life, if you love each other.”



16 de novembro de 2012

Breve vacilo de Julieta


_ E se me deixares, Romeu, se me deixares? Se, pior, caso-me contigo e nosso grande amor segue a rota das paixões vulgares? E se dou a ti, Romeu, o sangue de um primo, a honra de antepassados, família, futuro, vida, a cintilância de meus melhores dias, o fulgor minha alegria e te enfastias?
Romeu consideraria.
Após longa pausa, advertido do risco e como a querer proteger sua amada, avisa de nobreza nata a mais pura franqueza: a fraqueza.
_ ...Não sei.
_ Aceito!

13 de novembro de 2012

José Idôneo


11 de novembro de 2012

Coisa de esperar


_ Vou arrumar um cachorro.
_ Sério?! Bonito? Grandão?
_ Não... um vira-latinha mesmo... É que tô com muita vontade de lidar com gente. Mas é tão difícil... Acho que com um cachorrinho vai ser melhor...

9 de novembro de 2012

O caro sai barato


Com o trajeto automático de cabeça podia usar aquele tempão pra pensar várias coisas. Pensou churrasquinho. Saiu de casa às sete para chegar às nove, bateu o portão da frente e foi descendo a rua. Andou 20 minutos, pegou a perua pro terminal e depois o ônibus intermunicipal. Na estação Armênia do metrô parou na banquinha habitual e pediu o combo: palito, a carne espetada na madeira, com direito à banhar na farofa e o suco de laranja. Comeu no atraso e foi pagar normal, que nem toda vez:

_ Tó.
_ O churrasco aumentou um real aqui, visse não? – e apontou o rabisco no preço. O outro gelou.
_ Ah, mas você não me avisou!
_ Como não avisei? Você não perguntou!
_ Eu não perguntei porque é sempre o mesmo preço!
_ Bom, pois agora não é o mesmo preço e tá faltando um real.

Valendo-se da boa altura de nascença, o cliente explicou pedagogicamente, mas já sem toda aquela diplomacia, que não pagaria nem mais um centavo pela injustiça.

_ Ah, não vai pagar? E quer dar de macho pra cima de mim? Pois venha, moléstia, bubônica, filho de uma rapariga – a faca já acompanhando o desenrolar da oposição.

Cliente de um lado, churrasqueiro do outro, a platéia abriu pra dar mais palco. Marcão saiu na carreira e o credor atrás de passador na mão. Sei não como foi de cera que escorregou na fuga, foi-se embora pro matinho da margem e não conseguiu conter a queda pra dentro do Tietê. Barriga cheia, ficou boiando no meio de tudo lá até ajuda vir buscar. Custou caro o lanche, mas um real não dava não. Porque não tinha. Senão ia faltar pra chegar no trabalho aquele dia.

6 de novembro de 2012

Da série - Rascunhos

[RETRATO DA NOSSA CAMA GRANDE]



3 de setembro de 2012

Confidência


_ Padre, confesso que pequei. Menti por hábito, abusei da confiança alheia, padre, pequei por injúria, luxúria, gula e ingratidão. No final de cada dia não agüentei a pressão. Bebi, padre, excedi. Depois, presunçoso, entreguei à lassidão minha existência. Dos dias, soberba. O feitiço dos que têm algum poder. Era meia dúzia de gente que me presta ouvidos, padre, mas falei a eles tudo quanto demais. Não tive dúvidas e lancei rancores aos pés de pais e mães. Seus filhos, padre, disse de todos "índios, belos índios preguiçosos sois!" e sem remorsos dormi. Foi sobre dissabores, estes sim, meus colchões. Preconceitos que nem sei contar deixei que dissessem por mim, padre, guiaram-me as vaidades. Recusei amigos, abrigos, gatos molhados, feridos e capelas paradas bem no meio dos descaminhos. Não fui bom padre, padre. Qual a minha penitência?

_ Três terços à Virgem, filho, e vir aqui no meu lugar que agora é minha vez.

22 de agosto de 2012

Milagre


_ Não foi de nada, criança, serve de coisa alguma.
_ E quando foi de descobrir isso, vó?
_ Ah, isso faz tempo.
_ Muito?
_ É. Muito descoberto...
_ Tempo, vó! Faz é tempo?
_ Ah, sim! E espaço também, menino.
_ Como é que foi?
_ Bobage.
_ Mas como?
_ Bobage minha.
_ Tava calor... Tava frio... Foi o vô, foi?
_ Pra ele.
_ Pra ele o quê, vó?
_ O milagre. Eu disse que foi pra ele.
_ Pois não foi?
_ Sei não.
_ Por que cê disse então?
_ Porque eu queria que sesse.
_ Por quê?
_ Tava bonito.
_ Por quê?
_ Porque o sol, menino. O sol termina de nascer tem hora.
_ E depois?
_ Daí é dia.
_ E antes?
_ É noite.
_ E bem naquela horinha, era o quê?
_ Milagre.
_ O quê é milagre, vó?
_ A coisa improvável que Deus quis.
_ Quê foi que Deus quis que cê deu pro vô como se sesse dele sem saber se era?
_ O sol, menino. Dei sol pra ele.
_ Mesmo??? E como foi isso? Pegou na mão, foi?
_ Não. Peguei na parede.
_ Pegou na parede e como foi?
_ Deixei lá o sol nascendo. A janela tava fechada e as frestinha desenhando um tipo de mosaico na parede, com os elos assim, tudo infileradinho, como anéis de luz assim, mexendo devagar. O sol nascendo e os elos iam tudo indireitando, unindo, sabe? Falei pra ele que era milagre.
_ E era?
_ Era.
_ Como cê sabe, vó?
_ Ah, se nota.
_ O sol nasce todos os dias e eu nunca notei milagre disso.
_ Mas aquele sol era milagre. Tem sol que não é não.
_ E como cê sabia que aquele era?
_ Aquele tinha seu vô ali pra olhar. Quando eu disse "olha!" ele já tava atrasado, mas ficou na cama comigo pra ver o sol na parede porque eu disse que era milagre. Então ficou sendo.
_ Eu vou dar um milagre pra alguém um dia também.
_ Ou não, menino.
_ Por que não, vó?
_ Já não falei que milagre não tem serventia?
_ Por que cê deu um pro vô, então?
_ Porque eu tinha um.


20 de agosto de 2012

Criança Esperança


Um flash digno de nota:

_ Minha mãe é japonesa... e... meu pai... é japoneso... Então... eu... sou japonesa... mas só que eu sou pequena.