31 de maio de 2012

Histórias do mosteiro - Parte II


“...o belo como sentido não-subjetivo...”

“...tomar a aparência por essência é um dos tipos de falsidade...”

“...quem pergunta sai da ignorância...”

“...dualidades platônicas...”

“...o belo em si provoca um estado de alma...”

“...reminiscências do divino...”

“...educar é violentar também...”


Saí da aula um pouco pisando nas nuvens, sem perceber o chão, com a cabeça cheia das belas paisagens antigas e...

...me deparo com uma barata gigante vindo na minha direção.

Argh!

O mundo é um desencanto, hein?

30 de maio de 2012

Histórias do mosteiro – Parte I


É curioso ver seus monges silenciosos transitarem entre as paredes sangrentas de tijolos expostos, elegância esgueirante e taciturna preenchendo os corredores, misturando-se aos móveis lentos.

Aproximei-me afoita e desajeitada como é o caso quase sempre, em cima da hora, correndo entrada e degraus acima. Foi quando estanquei. Meus passos pesados de gente atrasada, no entanto, não o perturbaram. Seguiu cantando e eu, subitamente aquietada pela serenidade da voz masculina, reduzi cautelosa de não desarticular a paz alheia. Entre um andar e outro, encostei discreta na esquina roubando tempo de onde não tinha e fiquei contemplando. A noite ia caindo e era como se ele a saudasse, despejando graça no ar enquanto expirava em tons gregorianos. As paredes espessas como se fosse ali tudo igreja favoreciam o espalhamento em ondas. Ele cantava pra fora da janela, mas era dentro que reverberava seu canto medieval.

Dentro de mim.


28 de maio de 2012

Do extremo mau gosto


Não conhecia o vídeo e raramente vi esse programa, mas conheço pessoas que o assistem frequentemente.

Sugiro ao canal responsável que a atriz que faz o papel de repórter seja deslocada para participações que melhor se adequariam ao seu estilo clown.

A entrevista é de todo humilhante e não pude ver até o final.
Como jornalista, sinto-me ferida na minha integridade.
Como ser humano, estou ofendida pelo tratamento que dispensaram ao menino.
Como cidadã, fui ultrajada pelo discurso social ali veiculado.

Espero, honestamente, que esse e outros programas promotores do mau gosto e da desinformação sejam afetados por medidas judiciais e que este caso sirva de exemplo.

A imprensa que estupra
ELIANE BRUM
(clique)

27 de maio de 2012

Da série: pesadelos vivos


Sonhei que andava por dentro de um grande casarão antigo, cujo chão e teto eu os reconhecia de madeira enegrecida e rangenta, apesar da escuridão do lugar.
Eu caminhava como que por becos, dando num e noutro canto. Entre os aposentos via cenas de umas eus que não eram eu, como pequenos recortes de vida subitamente iluminados por uma luz focal que se movia. Era uma eu entre pessoas, outra eu entre cigarros, mais uma em um show em que nunca estive e ainda eu numas roupas esquisitas.
Embora tenha flagrado meus duplos em comportamentos erráticos, não era isso o que me perturbava. Mas todas elas tinham outra cor de pele, cabelo, outro tônus. Era o conflito dos aspectos o que me foi nauseando.
Durante o percurso procurei lembrar de alguma grande referência de mim e fui então procurar meu antigo amigo entre os cômodos envelhecidos. O encontrei, num canto, onde não queria ser encontrado. Ficou bravo, mandou-me sair. Porque demorei, foi-se ele embora fugido e eu atrás que podia, mas senti que não devia, acompanhá-lo.
Não fui, mas caí então em profundo desespero. Chorei o choro que se pode no sonho, copioso, dolorido, querendo acordar sem saber que era possível.
Andei por trechos debaixo de terra, túneis, desertos ocos, cavernas dos meus interiores.
Parei quando encontrei a imensa biblioteca bem iluminada. Escolhi uma estante e, de um salto, coloquei-me no alto, olhando o mar de livros de cima, da grande sensação do vazio.
Uma mulher de túnica e amor materno surgiu à mesma altura à esquerda tentando me acalmar sem sucesso.
Percebi uma viga de metal entre paredes formando uma linha rente ao teto. Pude alcançá-la com as mãos. A voz da senhora não me chegava, mas eu queria escutá-la entre os soluços, queria ter alguém a quem dar razão.
Aproximei a cabeça da viga e encaixei. A mulher fazia que não e eu vacilei.
Um pouco acidental, um pouco nutrida pelo desespero, caí da estante.
O corpo baixou, a cabeça permaneceu.
Morrer não dói, mas na escuridão continuei chorando até às 14h00 do sol entrando pela fresta da janela e o telefone tocando.

25 de maio de 2012

Querença


Ao entrar no vagão ouvi logo a sua voz. Procurei e de propósito me instalei ali bem perto. Em seguida seu companheiro de banco se levantou e fiquei com o acesso livre. Mal conseguia conter o riso, mas não por achar muito cômico. Era simplesmente gracioso vê-lo entoar sem se poupar aqueles cânticos de louvor pro Deus. 

O senhorzinho ia pigarreando e cantando e seguindo a canção, selecionando uma e outra com o livrinho aberto nas mãos. Não sei se era um gesto de desapego – tipo, “canto mesmo, e daí?” –, um gesto de altruísmo – “vejam que canções mais lindas vocês têm que conhecer!” – ou um gesto de imensa inocência despida de mais intenções, aquele pequeno algo que faz de um ser extremamente cativante no cuidado e na certeza que nos desperta: qualquer coisa poderia quebrá-lo nesse momento de harmonia.

Nós, do vagão, trocávamos olhares cúmplices de proteção. Concordamos todos. A vida, minha gente, a vida é uma graça.

24 de maio de 2012

Preocupante


Uma amiga minha recebeu um e-mail uma vez que começava assim:

"Eu não tenho certeza sobre a autoria da frase, pois não li em nenhuma publicação oficial, mas acho que foi Schopenhauer quem disse que “As mulheres muito atraentes e os homens muito inteligentes estão fadados a viver no isolamento”. Se deixarmos de lado o preconceito da frase e ampliarmos seu conceito, chegaremos a uma singular constatação: a pessoa muito inteligente e ao mesmo tempo muito atraente tem um problema tenso a ser resolvido... Deus te ajude, menina."

Pronto. Foram 8 linhazinhas e ela já estava pronta para queimar no fogo eterno do mármore do inferno da solidão.
...Sozinha, ainda por cima.
Já estava amaldiçoada, mas não satisfeito, o sujeito ainda arrematou:

"'A beleza é uma tirania de curta duração.' (essa eu acho que é de Sócrates)"

Está aí. Aí o típico exemplo de como um elogio pode ser a coisa mais ofensiva a ser dita. Antes a rejeição gratuita, por desafinidades entre orixás ou querelas de vidas passadas, do que aquela desencadeada por supostas virtudes. 

A menina, essa daí, minha amiga, que recebeu o e-mail, tadinha... Nunca mais foi vista.


21 de maio de 2012

Das mãos de Moira


O que escreveu Hilda Hilst não pode ter sido escrito por gente, vida, humano, coisa que morre. Foi um Deus que em conflito com outro viu varridos seus privilégios e ficou sem escolha: usar a natureza pequena daquele que fede para transportar seu grito, seu gozo. Hilda deixou então de apodrecer. Mudou a rota que seguimos todos nós em procissão. Ela se salvou da barca, não sei se em firme propósito. Não foi preciso lhe dedicar glória. Não é necessária prece à Hilda. A poetisa ganhou de si o céu quando serviu sua axila de pêlos e de carne à vaidade do soberbo divo, cambaleante de amor e asco e entendimento, afogado no pranto de si e pena, que cólera contamina e sua escolhida se viu sofrer.

Deus que pisa terra se deixa mostrar e respira há de fazer retorno sendo outro. A que tinha cabelos, no entanto, pagou o preço alto da luminescência: a dor da lucidez como de ossos em expansão até a velhice. Depois subiu. Está sentada à direita do pai, todo-poderoso, de onde não há de vir julgar os vivos e os mortos (e nós, os maus escritores).

**

...Foi quando encontrei subitamente
Tudo aquilo queria dizer-te
Meu senhor, con-sorte inexistente:


                      V

O Nunca Mais não é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes
De perpetuar a Duração.
O Nunca Mais é só meia-verdade:
Como se visses a ave entre a folhagem
E ao mesmo tempo não.
(E antevisses
Contentamento e morte na paisagem).

O Nunca Mais é de planície e fendas.
É de abismos e arroios.
É de perpetuidade no que pensas efêmero
E breve e pequenino
No que sentes eterno.

Nem é corvo ou poema o Nunca Mais.

H.H.


16 de maio de 2012

No pulo

Eu estava apenas fazendo a minha parte, cumprindo meu papel de irmã mais velha, contando as proezas da vida de antes do nascimento dela.

_ Esse aniversário foi muito legal. Foi o melhor! Eu lembro que a mamãe comprou várias coisas legais para fazer as lembrancinhas. Daí ela chegou do trabalho com um monte de sacolas e ficou até tarde preparando as coisas para o dia seguinte. Eu não agüentei ver e acabei dormindo. No dia seguinte, quando acordei, tinha uma sacolona enorme cheia de lembrancinhas de aniversário embrulhadinhas. Quero dizer, era uma sacolona enorme pra mim, porque eu só tinha quatro anos. Mas devia ser assim, tipo uma sacola da Besni, que era da minha altura. Naquele dia os meninos mais velhos até deixaram eu ser a primeira da fila, só porque eu era a aniversariante. Todo mundo da escola adorou a festa que a mamãe fez. Meu aniversário foi comemorado o resto do ano! Foi incrível e...


_ Eles comemoraram seu aniversário o resto do ano?


_ Sim! Bom... é... Eu faço aniversário dia 18 de dezembro, né? Uma semana depois e já é o Natal, daí é férias da escola. Meu aniversário deve ter acontecido na última semana de aula. Logo, foi comemorado o resto do ano, que deve ter dado, aí, mais ou menos, uma semana, nem isso...


_ Ah...


15 de maio de 2012

Equívoco


Conheci um
Homem morto.

Aos 16 anos

Foi-se enamorar
De uma menina
E a deixou ir
Com a vida.
Arrependeu-se.
Encontrei-o aos 
50 e poucos
Casado com outra
E algumas filhas
Semanas depois 
Do mal sucedido 
Suicídio à 
Mão armada.

Já estava morto

No entanto
De longa data.

13 de maio de 2012

Nos bastidores da peça

Quatro horas e meia. Parece que quatro horas e meia é o máximo que duas pessoas podem dormir juntas, acordar juntas, dormir e acordar, dormir e acordar e não trocar palavra. Quando me ouviu falar ao telefone que “achava” que tinha chegado à cidade porque “aquilo ali” não parecia mais estrada, o garoto da poltrona 32 resolveu intervir: 

_ É sim. Cê tá na Mini. Já chegou.

[olha, ele fala] 

_ Ah, obrigada!

9 de maio de 2012

Delírio pequeno-semiótico


É assim, vou tentar explicar:

Um pensamento, embora tenha um princípio e um fim, é um contínuo de fronteiras indistintas. Todo pensamento é, em si, baseado num pensamento anterior e desencadeará um pensamento posterior. Está fora do tempo e insubordinado a ele.


Ops! Rápido demais. Então vamos mais devagar.


Assim como uma fotografia congela um momento, um pensamento também o faz. É possível olhar uma fotografia que estampa um rosto inalterado depois de muitas décadas. Da mesma maneira, se pensarmos em um objeto hoje e o pensarmos daqui a vinte anos, o objeto não terá envelhecido, não terá caído em ruínas nem terá sido afetado pela passagem do tempo sentida no corpo que o pensa. [Heidegger] Assim é com qualquer idéia, um sonho, um desejo. É possível acessá-los muitos anos depois sem que estes tenham sido tocados pela ação do tempo.

E é também o que acontece com os sentimentos. [Peirce]

“...assim, se este sentimento está presente durante um lapso de tempo, ele está completamente e igualmente presente em qualquer momento daquele tempo.” [Collected Papers, 1.306]

É possível acessar um sentimento depois de muitos anos de sua constatação e perceber, com surpresa, que ainda está intacto e vigora em sua talidade (suchness). Mas e quando o sentimento sucumbe? E mais: o que houve quando ele sucumbe porque foi reiteradamente desgastado por eventos positivos, ou seja, momentos factuais, conectados à temporalidade?

“Cara Camila,


meu namorado me traiu e o amor morreu.
A traição aconteceu no tempo e meu amor foi afetado.
Acho que você está louca.
Estimo as melhoras.

Com consideração.

Sua leitora.”

Aí vai a teoria:

O sentimento, que não pode ser impensado, mas nascido do fluxo contínuo entre sensação e pensamento, teve um começo. Esse ponto inicial, no entanto, nunca será precisamente localizado, apesar de ser possível supor sua descoberta. É possível dizer, não sem esforço, em qual momento percebemos que amamos, mas não é possível dizer com precisão em qual momento o amor principiou em nós. Ele se deu em fluxo, foi se desenvolvendo. O sentimento não é pontual. Pois bem. Da mesma forma que relações de outra natureza se transformam, por exemplo, numa relação amorosa, uma relação amorosa pode, portanto, se transformar numa relação de outra natureza.

Algo que começou com um sentimento de simpatia pode se transformar em amor. Não é impossível, inclusive, que um sentimento de antipatia se transforme em amor. Não é difícil perceber que uma grande mágoa oculta, na verdade, um amor frustrado ou reprimido. A decepção só ocorre quando houve expectativa. É fácil ver como o sentimento transita no fluxo de nossas continuidades, a saber, pensamentos e sensações.


O sentimento que se deixou abater por fatos ocorridos no tempo, na verdade, foi abatido por elementos de fora do tempo desencadeados por um momento pontual, localizável. [Caringe] Então, veja: seu namorado te traiu e isso fez com que você deixasse de o amar. Perfeito. Mas não creio que isso se deu no espaço de um clicar no interruptor. A traição (fato positivo) ocorreu em data e hora específicas. Ele desencadeou uma sensação terrível, que foi pensada. O pensamento, as obsessivas lembranças dos momentos abruptamente interrompidos incorreram em sensações de frustração e dor. A dor vai aparecer do lado de fora [Ibri], afetar humor, ânimo, apetite, sono. Será visível. E, parando para se observar, você vai refletir sobre ela e procurar encontrar seus erros e soluções para o sofrimento. A reflexão trará novos sentimentos, que trará novos pensamentos, que trará novos sentimentos, que trará novos pens... Isso. Assim vai. De maneira que o sentimento, que está fora do tempo, vai sendo depurado, já que sua função estará sob forte e contínuo questionamento. O que está fora do tempo, portanto, só será afetado por outros elementos que também estarão fora do tempo. O fenômeno temporal desencadeou um processo interior não-determinável. Da mesma forma que a traição acabou com o amor, poderia não tê-lo feito. É possível ser traído e, embora a relação tenha sido irreversivelmente abalada, o amor continua lá, participando da existência dos indivíduos. Ou o contrário: ainda que nenhum fato específico tenha abalado o amor, ele esmorece e muda.


O que concluo é que é possível que um sentimento (amor, raiva, mágoa, afeição), uma vez nascido, dure todos os dias de todos os anos de nossa vida, embora esteja sujeito ao fluxo do complexo emocional. Esse resultado pode ser maravilhoso.


...Ou dramático.

7 de maio de 2012

É possível. Só não é garantido.

Entrei no carro e elogiei o DVD.

_ Ah, você gostou?
_ Sim! Gostei muito!
_ Comprei esse DVD há sete anos. Nunca tinha visto.

Pensei “meu Deus!, sete anos???” e disse:

_ Meu Deus!, sete anos?
_ Porque eu era feirante, sabe? Trabalhava muito, não tinha tempo pra nada. Agora que estou recuperando os DVD’s. Cada noite trago um.
_ ...
_ É que eu acabei de me separar. Daí dói, né? Então fico ouvindo música pra me distrair.

Assim! Desse jeito! Jogou no meu colo indefeso a verdade em plena madrugada. Reagi como me foi possível:

_ Ah, sim... O luto da separação é mesmo muito difícil.
_ É...
_ Sua separação é recente?
_ Sim. Faz um mês.
_ Quanto tempo de casados?
_ Seis anos.
_ Vocês tinham filhos?
_ Sim. Um filho lindo de cinco anos.
_ Poxa... E a separação era mesmo necessária?
_ Então...

Quando a pessoa fala “então...”...

_ Na verdade... minha história seria cômica se não fosse trágica.

Bem, essa é a típica frase que já te prepara para o riso. É como quando dizem que vão te contar uma piada. As bochechas ficam automaticamente mais moles, flexíveis e... Espera!!! Eu ouvi a palavra “história”???

_ É mesmo?
_ É. Minha mulher conheceu um cara pela internet e diz que está apaixonada.
_ Como assim?
_ Assim! E minha família é tão bonita... Olha as fotos.

Estavam à mão. Foto dela, do casal e da criança.

_ Que linda! Como ela se chama?
_ Renata.
_ E você?
_ Ricardo. E você?
_ Camila.
_ Prazer, Camila.
_ Linda a Renata. E lindo seu filho também.
_ Pois é. E ela veio me contar que se apaixonou por um cara. Ele é da Suíça. Ela me contou faz um mês, por isso nos separamos.
_ Mas eles já se viram pessoalmente?
_ Então...

“Então” outra vez...

_ Não! Nunca se viram! E ela não fala alemão nem ele fala português. E nenhum dos dois fala inglês.

A história ia ficando pior a cada “então”.

_ Então como eles conversam?
_ Pelo google tradutor!
_ Cê tá brincando, Ricardo?!
_ Não estou brincando, Camila. Ela me contou que faz sete meses que eles estão conversando. Eu disse: “poxa, Renata... e eu trabalhando...”. Mas não tem jeito. Quer viajar pra ir lá ficar com o cara. Cê acredita? Eu vi o cara pela web cam enquanto eles conversavam um dia. Ele estava bebendo uma coca-cola de três litros direto do gargalo na frente da câmera.
_ Não acredito!
_ Nem eu!
_ Desculpe perguntar, mas quantos anos você tem, Ricardo?
_ 36.
_ E a Renata?
_ 35. Mas está agindo como uma menina de 12, né?
_ ...É... uma atitude... realmente... infantil... Nem sei o que te dizer.
_ Ela está fazendo curso de alemão agora e diz que vai pra Suíça. Já falei que meu filho não vai, não vou autorizar.
_ Tem razão. É até perigoso!
_ Pois é! Esse cara pode ser qualquer coisa! Tentei alertar a Renata!

Nessa hora olhei bem pro Ricardo. Bonito o taxista. Bonito, articulado, dedicado, trabalhador. Um homem virtuoso. Ele não merecia.

_ Sabe, Camila, eu não merecia.
_ Sei.
_ Depois de tudo a pessoa faz uma auto-análise, né?, pára pra refletir.

Uhum. No meu caso, esse tipo de reflexão pode durar meses, anos, encarnações...

_ E eu acordava de manhã, fazia o café e levava pra ela na cama. À noite eu ligava e perguntava “bem, quê cê quer comer?”, passava no mercado e levava qualquer coisa que ela me pedisse. A gente tinha tudo. Até o sexo era ótimo.

Não duvidei.

_ ...Não faltava nada...
_ Bem, ela vai se dar mal. Está na cara. Não tem como isso dar certo. Ela vai se dar conta do que fez e vai conversar com você sobre isso um dia. Você não voltaria pra ela?
_ Ah... acho que não. Sabe porquê, Camila? Emagreci 10 quilos em 25 dias. Eu preciso respeitar a liberdade dela, aceitar o que aconteceu. Mas estou profundamente desapontado. Não dá mais.
_ Entendo...

6 de maio de 2012

Virado Cultural

_ Cê vai entrar?
_ Não.
_ Tem ingresso?
_ Não.
_ Quer comprar?
_ Não.
_ Quer namorar comigo?
_ Não.

Vendendo ingresso que era pra ser gratuito, não, né? Vai ser tonto sozinho.

2 de maio de 2012

Lino Xongas

A postagem de hoje não é minha, mas do querido querido amigo Barco, que distante não está perdido, solitário não está sozinho.

O toque das almas (clique)

30 de abril de 2012

Termo

O diabo é que não se escolhe data ou maneira.
Sensação intrusa de terra beber os mares de nós vestidos,
devolvendo à alma sua natureza de ser alma.
Até estar livre do cálcio, ninguém me engana.
É lá que se entretém a liberdade.

26 de abril de 2012

Dos gêneros (despretensiosamente)

_ Pois é. E levando-se em consideração o histórico, ainda por cima...
...Acho que vou simplesmente ignorá-lo. E é obvio que ele continuará estrebuchando...
...E eu continuarei ignorando. Sabe... eu tento fazer acordos. Mas não tem jeito, né? Algumas pessoas não têm jeito. Os homens são muito malandros. Tenho aprendido isso da pior maneira.

_ =/

_ É... Pois é... Triste, né?

_ As mulheres também fazem isso...

_ Não... as mulheres têm outros apelos. São mais honestas consigo mesmas, eu acho. Homens inventam desculpas para si mesmos.

_ Olha... Num sei não... Preciso pensar mais nisso.

_ Sabe aquela coisa que ouvimos? "As mulheres têm seis vezes mais religiosidade em potencial do que o homem." É claro que é uma contemplação mediana. Mas é isso. A capacidade religatória (do humano com o divino) vem desse contato consigo mesma, eu acho. Mulheres sabem mentir para outras pessoas, mas acham mais difícil mentir para si mesmas. Elas sabem o que estão fazendo. Os homens enfiam os pés pelas mãos. As mulheres calculam, seduzem, são sutis e freqüentemente mais hábeis em chegar aonde desejam. Mulheres agem em rede, perguntam caso estejam perdidas no caminho. Homens são hierárquicos, recusam ajuda. É o que eu acho...

_ =D Elas são lindas mesmo, né? Nossa...

_ "Elas" quem? As mulheres em geral? rs

_ AS MULHERES EM GERAL.

_ Rs... Ah... não sei... Eu gosto muito de ser mulher. É o meu gênero preferido, eu acho. Mas a força masculina tem efeitos hipnóticos sobre mim. Preciso muito deles. Meu universo sem o masculino fica fofo e afunda quando eu piso. Não é seguro, é emocional em demasia. Preciso conviver com homens, com a teimosia, com a dureza, a obstinação. É uma necessidade orgânica, sabe? Engraçado isso...

_ É muito interessante como isso se processa, né? Como é físico, como é químico e metafísico... rs

23 de abril de 2012

Inveja mútuanônima

Ah... fui chegando lá na praça lá de cima onde fica a banca das fruta, que sempre fica coisa pra jogar fora deles, né?, e eu pego no cesto. Tava noite e tava frio. Eu tava bem segurando esse aqui, né?, sempre, que tem minhas coisa. É poucas coisa, mas é minhas coisinha que eu levo... Daí parei na esquina, embaixo daqueles relógio que mostra temperatura. Mexi ali no cestinho que tinha ali no... na... na frente dos banquinho ali, né?, verdinho. Mexi tudo, tal, num tinha nada não. Só tinha uns menino mais pra lá assim, né?, que eles fica conversando às veiz que eu passo vejo gente lá, ali falando, que a banquinha faz suco... faz... essas coisa, tem água de côco, tem... essas coisa, fruta. Eles faz lá. Eu olhei lá os menino, mas não falei nada não, né?, que não conheço. Só vi assim, mais assim sozinha pro lado, uma moça sentada sozinha. Sozinha a menina, de noite. Mas não parecia assim que nem eu, não. Era mais... tava mais, assim, como eu posso dizer... tava ajeitada, né?, com roupa passada, dava pra ver que ela não... Devia ter casa, né? Acho que ela tinha casa e só parou pra... não sei pra quê. Acho que pra pensar um pouco, que a pessoa tem vontade, às veiz, de pensar, né? Acho que foi isso. Mas olhei a menina e assim no frio ela tremendo mas não tava de blusa, não. E sozinha. E assim... com o olhar perdido, sabe? Olhando pro chão... a cara dela não tava nem triste! Não tava nada! Tava só olhando pro chão, pro lado, assim, pra lá. Mas não tinha jeito de... de nada! De nada, não. Só olhando só. De repente olhou pra mim! Eu pensei “nossa! quê será que ela quer, né?” porque ela ficou me olhando assim... como se quisesse alguma coisa, sabe? Mas eu não tinha nada também. Dizer que a pessoa quer celular, carteira, essas coisa eu não tenho. Não tinha nada, só o saquinho, mesmo, que é um saco preto e não tinha nada. Tinha... um cobertor, por causa que... o frio... mas só também. Nem lembro se tinha mais coisa. E a menina olhou... e eu olhei... e ela não fez nada. Nem eu. Ela olhou eu também olhei, né? Fiquei olhando. Parecia que ela queria trocar de lugar comigo e eu pensei “eu trocava, se pudesse”. Claro, né?, que a pessoa... Porque alguma coisa, algum lugar ela devia ter, porque tava com a roupa passada! A pessoa que passa a roupa já... como se diz? Tem, né? Alguma coisa... A pessoa ter ferro de passar roupa e passar a roupa... então... tem roupa, tem ferro e pode passar na casa mesmo, né? Então por isso que eu pensei que ela tinha casa. E eu não. Então até trocava de lugar com ela. Senti uma inveja, assim, sabe? Não coisa ruim que as pessoa deseja tanto não... Era uma coisa assim no coração... que eu queria ter alguma coisa também. Não que não tenha, né? Eu tenho aqui no meu saco as coisinha. Mas... um lugar assim eu não tenho, né? E se a menina tinha então já tava na vantage, pensei. E eu não sei porque, mas senti que ela pensou a mesma coisa de mim. Que eu tava na vantage. E eu não sei porque, mas senti isso assim no peito. Só que foi muito rápido. Não parei pra olhar a menina não, que as pessoa não gosta, né?, que fique olhando muito assim, não. Não faz bem ficar assim parado olhando a pessoa. Daí eu segurei minhas coisa e fui embora andando pra lá que essa rua desce aqui, né?, daí vira... e eu fui pra lá. Mas eu fiquei pensando depois que pode ter sido. Que eu não tenho nada, né, e a menina tem. Mas às veiz a pessoa não quer o que tem. Quer uma coisa que não tem ou não quer nada. Pode ser que ela queria ser eu pra não ter nada... ou pra ter outras coisa... Quer dizer... não sei, né? Tô aqui pensando... Mas... bom... isso porque ela não viu que eu tinha dentro do saco. Acho que se visse não ia mais querer ser eu não e ia pra casa colocar uma blusa a menina. Não sei... É essas coisa que a gente fica pensando, né?, que acontece assim... Não sei.

20 de abril de 2012

Espelho

Tanta vez
Aconteceu de nós
Eu antes de responder
Te ouvir dizer
Saber meu pensamento
Na tua voz

18 de abril de 2012

Inauguração

Nada como ganhar de presente um ato de imaginação lúdico-amorosa-exclusiva.
Entre encontros e desencontros os mortos parecem sempre reviver. O banner novo é uma celebração à amizade que, uma vez edificada, vigora no tempo à caça de nossas disposições.

A arte é do Vitor Massao, a quem dirijo meus sinceros agradecimentos pelos sms’s, plantão 24 horas, nobreza, atenção em plena festa de aniversário, presentes, Manoel de Barros e despertador (faltou os pompons).
Ah, sim! E, claro, pelo banner lindo que agora divide espaço entre nossos modestos escritos.

16 de abril de 2012

Sob meus olhos incrédulos

Naquela madrugada de sábado santo chegamos à mesa do bar os dois cavalheiros, a menina e o cachorro lindo. Mas algo profundo se quebrou no intervalo entre nos sentarmos e nos levantarmos. O laço incorrompível se enroscou nas circunstâncias do debate que eu assistia. Meu nome lançado de um lado para o outro e eu sem poder sacá-lo da roda. Perdeu-se algo valioso entre dois de nós quatro. Não pude fazer mais que testemunhar.

Amizade devia ser casamento.

A propósito das rupturas

Eu sei me separar, mas não sei romper. São coisas completamente diferentes.
Não me lembro de quando usei “nunca mais” sem me arrepender.
Não dura, não pega e eu volto atrás – ainda bem.
É mais elegante simplesmente se afastar. O que vai acontecer depois ninguém sabe nem precisa saber. Porque a vida é o que se faz dela. Pode ser que as pessoas não se encontrem mais. Pode ser que sim. Pode ser que não sintam falta uma da outra. Pode ser que sim. Pode ser que uma delas tenha vontade de procurar a outra. Mas se o “nunca mais” foi posto no meio, tudo fica bem mais difícil, porque daí a reaproximação implica em que alguém quebre o pacto de “nunca mais” alguma-coisa-que-não-tem-a-menor-importância-um-tempo-depois.
Inclusive, muitas rupturas poderiam ser evitadas se o pedido prévio de afastamento fosse respeitado.

_ Olha, por favor, não quero falar com você agora, tá bom? Outra hora, outro dia, outro mês, sei lá. Agora não.
_ Como assim??? Agora não??? Então vamos romper!!!

Não precisava.
Ter que pedir reiteradamente por um afastamento leva a rupturas drásticas e desnecessárias, assim como as mazelas que vão sofrendo um processo de bioacumulação no interior do ser até serem regurgitadas sem processamento direto na cara do colega desavisado, tudinho de uma vez no fim do ano. Não há argumento ou defesa para o que se fez há anos atrás e já se esqueceu. Resultado? Ruptura.
As pessoas têm uma crença na ruptura. Elas acreditam nisso como se fosse solução de impasse ou redenção. Não é. Ao contrário, as rupturas aprofundam angústias. Dia desses conversei com um amigo que citou com pesar um rompimento de amizade. Perguntei sobre o contexto e me pareceu infantil. Ele explicou:

_ Ah... sim... Foi na quinta série.
_ Quantos anos você tem agora?
_ Trinta.
_ E o sujeito não fala com você?
_ Não. Mora no mesmo bairro, nos vemos sempre. Mas ele nem olha mais pra mim.
_ O que você acha disso?
_ Acho que eu errei, mas ele podia ter sido generoso comigo. Eu não percebi. E gosto muito dele até hoje.

Para romper é preciso gostar muito. Ruptura é coisa de quem gosta muito e não vê outra saída para o sofrimento. No desespero, castiga o outro. Mas castiga a si mesmo junto.
As pessoas podiam mesmo ser mais generosas, menos competitivas e apostar menos nos rancores das rupturas.
Eu, particularmente, não acredito em rupturas.
...Mas que elas existem, existem.