14 de março de 2015
8 de março de 2015
8 de março
Foi lentamente que eu aprendi a ser mulher.
Os brincos, a cor rosa, as roupas, os modos, os trejeitos, as pernas cruzadas.
As pernas cruzadas, as pernas cruzadas. Mesmo quando estiver de calças. E calças não. Saias. E delicadeza. Comedimento. Método, moda, moral.
Foi lentamente depois a galope.
Em pouco tempo era natural. Digo, a segunda natureza.
A primeira foi ser gente. Depois foi ser uma mulher e o que se espera disso.
Pausado e pontual, no entanto, foi aprender o que é ser gente antes de ser mulher. Aprender que mulher deve ser obediente e depois desaprender.
E aprender o que é ser obediente, o que é ser acolhedora, amorosa, o que é ser histérica, radical, o que é ser desrespeitada.
Foi em câmera pausada ver o desrespeito.
A cena deu um salto quando a mulher virou mãe. “Mamãe”, eventualmente.
“Mamãe” que sabe de tudo, a quem recorre uma pequena mulher em seu aprendizado de ser mulher.
E eu querendo ensiná-la a ser antes, muito antes, apenas gente.
Ser mulher é ser pessoa, mas ter que carregar consigo uma fala gentil que lembre a quem se esquece.
Os brincos, a cor rosa, as roupas, os modos, os trejeitos, as pernas cruzadas.
As pernas cruzadas, as pernas cruzadas. Mesmo quando estiver de calças. E calças não. Saias. E delicadeza. Comedimento. Método, moda, moral.
Foi lentamente depois a galope.
Em pouco tempo era natural. Digo, a segunda natureza.
A primeira foi ser gente. Depois foi ser uma mulher e o que se espera disso.
Pausado e pontual, no entanto, foi aprender o que é ser gente antes de ser mulher. Aprender que mulher deve ser obediente e depois desaprender.
E aprender o que é ser obediente, o que é ser acolhedora, amorosa, o que é ser histérica, radical, o que é ser desrespeitada.
Foi em câmera pausada ver o desrespeito.
A cena deu um salto quando a mulher virou mãe. “Mamãe”, eventualmente.
“Mamãe” que sabe de tudo, a quem recorre uma pequena mulher em seu aprendizado de ser mulher.
E eu querendo ensiná-la a ser antes, muito antes, apenas gente.
Ser mulher é ser pessoa, mas ter que carregar consigo uma fala gentil que lembre a quem se esquece.
Neste dia internacional das mulheres, meu reconhecimento e
fraternidade a todas as pessoas que nasceram mulheres. E também àquelas que
escolheram ser depois de nascidas.
É meu desejo que vivamos com dignidade.
Sejamos felizes.
Livres.
E respeitadas.
Livres.
E respeitadas.
19 de fevereiro de 2015
Passos
O som dos passos das sandálias da minha avó no bege dos blocos da rua até o portão verde.
Eu sabia que estávamos chegando naquele lugar pelo som dos passos dela. Era um som seco de pedrinhas no ladrilho que não se demoravam no choque. Um atrito bem breve alimentando a ansiedade do próximo passo pra chegar, depois de muito tempo no ônibus e o enjôo do cheiro de combustível queimado.
Anos de tardes depois, reparei no som dos passos que primeiro eram distintamente audíveis, contáveis, mas logo se confundiram em um difuso burburinho. As vozes de cima, das cabeças, abafaram o barulho dos pés usando o asfalto. Eram vozes que gritavam palavras de ordem contra o capitalismo, contra a pobreza, contra a opressão, contra a política imperialista, contra a guerra, contra o analfabetismo, contra o racismo, contra o uso de agrotóxicos, contra os transgênicos, contra a TV Globo, contra.
Quando a tempestade das 17h começou, muitas pessoas correram para debaixo de toldos ou reentrâncias de cimento, buscando preservar minimamente seus investimentos de energia, saúde e material.
Com a câmera encharcada nas mãos, encolhi em um canto de loja, no segundo degrau, às portas de uma moradia humilde, cuja dona tentava precariamente proteger a si mesma e seus pertences dos passos que avançavam para cima do seu corpo, do seu leito, das suas roupas, do seu cobertor seco, do papelão que virava tapete de estranhos no progresso da multidão.
Contemplada em cada frase de ordem na hora da passeata, na hora da chuva não existia mais.
11 de fevereiro de 2015
Drops - A Presença
Depois de uma semana com celular é fácil se lembrar das
razões para não ter um celular.
Entre elas, o número que é novo pra mim é velho para outra pessoa.
Depois de atender umas dez ligações explicando que não, eu não sou a mulher, nem a amante, nem nada que valha do Santino, excluir SMSs diversos pro Santino e bloquear sete contatos no WhatsApp me chamando com um amistoso "e aí, véio", resolvi tomar outra atitude.
Entre elas, o número que é novo pra mim é velho para outra pessoa.
Depois de atender umas dez ligações explicando que não, eu não sou a mulher, nem a amante, nem nada que valha do Santino, excluir SMSs diversos pro Santino e bloquear sete contatos no WhatsApp me chamando com um amistoso "e aí, véio", resolvi tomar outra atitude.
__ Boa tarde santino como vc esta veio
__ Esse telefone não pertence mais ao Santino. O número foi
adquirido por outra pessoa. Por favor, confirme o novo contato da pessoa com
quem deseja falar.
__ Santino da rc gesso
__ Como? O Santino que você conhece trabalha com gesso?
__ Como vc conseguiu este numero do santino
Isto mesmo ele tem uma firma de gesso
Isto mesmo ele tem uma firma de gesso
__ Legal. Eu consegui esse número da seguinte maneira: fui a
uma loja de telefonia, comprei um aparelho e a operadora sorteou um número. Foi
assim. Há uma semana não param de me ligar perguntando do Santino. Ele deve ser
uma pessoa muito querida e aplicar um gesso como ninguém, suponho.
__ Tbm descupa eu ter ti encomadado vou ver se consigo com o
filho dele o novo numero dele tvm
Pra mim nao tenho o que falar dele ate logo e descupa tbm
Pra mim nao tenho o que falar dele ate logo e descupa tbm
__ Se conseguir o número, me avisa! Daí eu passo pras
pessoas que me ligam todos os dias perguntando dele.
__ Tbm obrigado fica com deus
__ Eu que agradeço. Deus nos abençoe.
____________________________________________________
Pegar nenê na escola e metrô no final da tarde.
Cheio, claro.
Depois de dois minutos no carrinho, ela foi se soltando perigosamente e pedindo colo.
Peguei.
Um senhor muito gentil me ofereceu seu lugar entre os preferenciais. A moça ao lado não permitiu que ele se levantasse e cedeu para mim seu próprio lugar, a fim de não desalojar o senhor.
Cheio, claro.
Depois de dois minutos no carrinho, ela foi se soltando perigosamente e pedindo colo.
Peguei.
Um senhor muito gentil me ofereceu seu lugar entre os preferenciais. A moça ao lado não permitiu que ele se levantasse e cedeu para mim seu próprio lugar, a fim de não desalojar o senhor.
Agradeci e me sentei.
A miss no meu colo, como de costume, foi fazendo a social
pela meia hora que passamos ali.
Mandava beijos e acenava, olhava de ladinho, pegava uma coisa da mão de uma pessoa e entregava de volta pra pessoa errada e seguíamos em clima de descontração enquanto o senhor rezava discretamente seu terço durante a viagem.
Mandava beijos e acenava, olhava de ladinho, pegava uma coisa da mão de uma pessoa e entregava de volta pra pessoa errada e seguíamos em clima de descontração enquanto o senhor rezava discretamente seu terço durante a viagem.
Na hora de ir embora, voltei minha atenção a ele para
agradecer mais uma vez e desejar-lhe boa noite.
__ Não, não. Eu é que agradeço. Sabe porquê? Não é todo o
dia que temos a chance de assistir a performance de um anjo em pessoa.
A pequena miss parece que o entendeu e lançou um último
beijinho sorridente do meu colo direto para o coração do senhorzinho.
10 de fevereiro de 2015
Avaliação
As alas, neste caso, são divididas em "baterias", o nome que se dá para cada setor, digamos assim. Ela pegou a infantil e chegou a hora da avaliação prática durante o atendimento no hospital da universidade. A professora chegou com a prancheta e foi anotando enquanto a aluna desenvolvia os exercícios com a pequena paciente. Durante aproximadamente uma hora, a aluna procurou se lembrar acuradamente de cada ponto da lesão, causa, diagnóstico, prognóstico, tratamento, resultado esperado, obtido, teorias. E foi explicando para a professora tudo o que fazia com clareza, pedagogicamente, profissionalmente.
A menina percebeu a tensão do momento, mas segurou sua emoção todo o tempo.
Ao final do atendimento, não agüentou:
__ Professora, como é, eu fui bem?
9 de fevereiro de 2015
8 de fevereiro de 2015
Nossas Beatrizes
Eu me demorei alguns segundos observando, tentando compreender. Ela se aproximou um pouco desenfreada. Parou subitamente à porta, do lado de fora, abaixou a cabeça e sussurrou o que pareceu ser uma oração emergencial, sufocada. Arrependeu-se, esterçou e dirigiu para o mesmo lugar de onde estava vindo. Parou de repente, aos berros: “Beatriz, pelo amor de Deus, Beatriz, me ajuda, Beatriz, não faz isso comigo!!!! Eu tô cansada, Beatriz, todo o dia é isso!!!! Pára! Pára! Pára! Você me deixa doida, doida, doida!!! Beatriz!!!!” – disse enquanto tentava parar o avanço da criança que ia pelo vão do cinto de segurança do carrinho, fazendo a pequena cabeça de cabelinhos louros pendurar pelo pescoço, nem bem saída do carrinho, nem bem de volta ao assento.
Em um golpe de esgarçado esforço físico, alojou a criança e saiu dirigindo o carrinho rua abaixo.
Eu à porta, do lado de dentro, considerei primeiro rezar com ela, já que estávamos ambas na farmácia com nossas crianças no sábado à tarde e não deveria ser porque gostamos muito de levar as nossas crianças para passear na farmácia no sábado à tarde.
Depois considerei ir ajudá-la a desenroscar o pescoço da Beatriz do cinto de segurança do carrinho, antes que a mãe afogasse a si mesma e a Beatriz em seu próprio desespero e cansaço.
Em seguida, considerei que precisava comprar um chocolate.
Por coincidência, estava lá o desespero encarnado e a Beatriz, na minha frente na fila: “Não, Beatriz, isso não é seu, é do mercado. Quer dizer, era, antes de você abrir, que agora eu vou ter que pagar, Beatriz. Agora come. Não devolve.”
Daí considerei que precisávamos muito, nós quatro, descansar.
Olhei pra minha Beatriz para constatar que, muito perspicaz, ela já dormia em seu carrinho.
4 de fevereiro de 2015
Segundo dia
Linda, rosto simétrico, pele lisa, sobrancelha desenhada. Usava um vestido longo verde e um hidjab da mesma cor e do mesmo tom. Comportava-se com graciosidade.
Enquanto eu comia meu bolo da sobremesa ela contava a história de uma marroquina encarcerada. Casada e grávida de dois meses, o marido (ela ainda se refere a ele como marido) a convidou para ir ao Brasil, onde tinha negócios. Ao desembarcarem, foram presos na alfândega. Havia drogas na bagagem. Dela. Só dela.
Ela disse à Polícia Federal que desconhecia a droga, mas o marido alegou categoricamente que era dela.
Ele foi deportado. Ela foi presa aqui.
O bebê nasceu na prisão e ficou com ela todo o tempo. Por meio de advogados especializados nas leis islâmicas e brasileiras, conseguiu alegar inocência e ser libertada.
Acossada pela tradição, não quer voltar ao país de origem. Foi enganada, mas também foi deixada pelo marido e presa por porte de drogas. É uma vergonha. Alguém que passa por isso mancha o nome da família e não deve regressar.
A religião a acolheu. Primeiro na mesquita, onde foi convocado um chá com a elite e a história foi exposta. Criaram uma rede de apoio. Ela recebe abrigo e salário na casa de uma muçulmana que a ajuda a falar português. Tem aulas do idioma e escola pro filho, que está com quase três anos. Nunca mais entrou em contato com ninguém da família nem com o marido.
Marido.
"O Brasil usa e explora a infância. Crianças são usadas para o tráfico. Nos países árabes é a mulher quem está nesse papel. Muitas são enganadas pelo marido que volta impune, pronto a se casar novamente."
Mas, em ambas as culturas, quem explora, quem engana, quem usa?
1 de fevereiro de 2015
Terezinha de palestra
Nome auspicioso. Quando dizem “ah... não sei que... tá com a Terezinha ou precisa ver com a Terezinha” você já espera alguma coisa. Em um dos prédios onde morei quando era pequena tinha uma dona Belinha que... bom... Ficava lá na janela o dia inteiro, com óculos enormes que viam tudo. Era a relações públicas do pedaço. Lembro dela falando pra minha mãe que tinha uma vizinha que a incomodava todas as noites, porque lavava louça até tarde e fazia barulho. Ela dizia estar averiguando a identidade ainda, mas já tinha pistas.
Minha mãe engoliu seco.
Eu gostava quando tocavam a campainha dela, porque tinha o som de passarinhos. Mas isso quase nunca acontecia, de alguém estar à porta desejando vê-la.
Não sei se é o caso da Terezinha. E também não sei se na vida pessoal alcovita, mas na profissional faz isso profissionalmente. Fala o tempo todo não para que a escutem, mas se escutarem também não lhe faz caso, com a arcada de cima avantajada em um sorriso meio horripilante e amarelado do café. O cabelo mais manchado que grisalho em tamanho médio, com uma tiarinha pra não cair mexas ressecadas nos olhos e impedir a melhor visão de tudo. A fisionomia lhe faz juízo: os olhos saltando das órbitas parecem querer engolir o que se põe à frente. A natureza de suas intervenções é muito diversa, mas sempre negativa. Comenta o alheio e aí cabe de tudo: vestimentas, penteados, presenças, ausências, adivinha a ideologia política subjacente nos discursos a partir do “boa tarde, pessoal, gostaria de agradecer o convite…”
É capaz de falar ininterruptamente por horas, emendando um assunto no outro fluidamente sem que o interlocutor necessariamente participe de maneira ativa do bate-papo, que segue animado até que possa ser interrompido por alguma fatalidade. Nem um “ã-hãm” é necessário. Se alguém, por acaso, cruzar com ela o olhar e deixar pista de que lhe viu, esta será, inescapavelmente, a próxima testemunha de sua vida.
30 de janeiro de 2015
28 de janeiro de 2015
Primeiro dia
Com o atraso do primeiro, escolhi aleatoriamente um taxista-segunda-opção, quem ganhou mais de uma hora até o aeroporto para reelaborar comigo o processo de separação, segundo casamento e como foi que ele perdeu completamente o contato com a filha Júlia, que hoje está com 12 anos.
Um caso de alienação parental em decorrência de uma separação unilateral. Ele queria cair fora. Ela não.
Quando ele era gerente de um banco, ela se sentia perfeitamente à vontade para, por exemplo, no aniversário, pedir o cartão de crédito dele emprestado para comprar um presente para si mesma. Foi assim que ele pagou em dez suaves parcelas uma bolsa Louis Vuitton de oito mil reais. Mas daí, depois que o Sudameris foi comprado pelo Real que foi comprado pelo Santander, a qualidade da chefia ficou em 5,0 na escala Richter: assédio moral obsceno. Na última reunião o chefe mandou ele tomar no cú. Ele levantou e disse "vai você que cê deve gostar. tô indo embora" e foi. Com os direitos trabalhistas comprou o táxi e o padrão de vida caiu. A mulher não soube compreender.
Depois que se separaram, ela chegou a invadir o prédio da nova namorada. E também bateu no carro dele enquanto ele saía da garagem da casa dos pais. Amassou a lateral do táxi para ele não ir encontrar a namorada e ainda ficar sem meios para trabalhar.
A despeito dos problemas, a nova relação se fortaleceu e ele decidiu se casar novamente. Como último recurso, a ex disse que ele nunca mais veria a filha. E ele nunca mais a viu mesmo.
Ele disse que chegou a procurar seus direitos, mas percebeu que a justiça favorece a mãe em uma separação litigiosa e, fortalecida por uma ou outra mentira, a ex-esposa tem as prioridades da guarda exclusiva e usa de alguns artifícios para inviabilizar o contato paterno.
Ele conta que tenta ligar pra menina toda a semana, mas que parece que a ex-mulher trocou os números de telefone, já que, além de ela não atender, agora respondem pessoas cuja voz ele desconhece.
É um peso que ele carrega no peito, esse desrespeito à paternidade, essa distância da filha.
18 de fevereiro de 2013 foi a última vez que ele a viu, uma segunda-feira. A data ele mesmo mencionou.
Agora planeja ter um outro filho com a atual esposa.
19 de janeiro de 2015
Intolerância laica
Encontrou entre as folhas impressas da pesquisa as
instruções do jacaré.
Sentou com o menino e primeiro separaram todas as peças
amarelas que seriam necessárias. Enquanto isso, ele foi desabafando as
experiências dos quatro anos, a escola, a babá, a irmãzinha e a calopsita da
prima, que tinha uma crista assim alta que ele fazia com gel no cabelo pra
ficar igual.
Na parte dela as peças de Lego eram maiores, porque as
crianças eram menores. Antes de começar o evento ela pesquisou muitas formas
diferentes, imprimiu e organizou em uma pasta, para consultar o repertório e
não decepcionar a infância. Uma coisa de feeling, não que fosse exigência.
O jacaré ia aparecendo na parte do gato da vó que só fazia
cocô no cestinho do crochê...
__ Você não tem respeito mesmo.
__ Oi?
__ Você não tem respeito por mim, nem pelo meu filho, nem pela
nossa religião.
__ ...
__ Se você não tem fé o problema é seu. Mas não desdenhe
assim das famílias de fé.
__ Hum?
__ Vem, filho.
__ Mas mãe... o jacaré...
__ Solta isso. Olha o que você fez, menina. Sua
desrespeitosa. Menina insolente. Vamos filho.
Minha grande torre colorida ia aparecendo na parte em que
ela me explicou o que concluiu mais tarde, conversando com a supervisora do
evento da Lego sobre a situação:
“Não farás para ti imagem de escultura representando o que quer que seja do que existe lá em cima, no céu, ou cá embaixo, na terra, ou nas
águas que estão debaixo da terra.” Deuteronômio, 5:8
9 de janeiro de 2015
Pari normal
Já na trigésima nona semana, ele vaticinou: “a bebê vai entrar em sofrimento fetal. Eu te opero na terça”. Tivesse eu aceitado, a bebê perderia 3 dias de barriga e um parto perfeitamente normal, sob os olhares de uma mamãe suada e lacrimosa e um papai de mão firme, que cortou o cordão umbilical. Teríamos perdido uma à outra, digo. Aquele momento lindo em que estávamos sujas e éramos, pela primeira vez na vida, duas pessoas distintas.
Eu chorei. Ela não. Espertinha, veio pro peito.
O médico do convênio nunca mais teve notícias de nós duas. Não voltei nem pra agradecer pelos meses de consultas meio afobadas e atrasadas. Ingrata.
Nem voltei pra dizer pra ele que, naquele dia, entrei no consultório rindo da piada ótima que fizemos enquanto descíamos a rua. E saí do consultório chorando, com medo de que minha bebê estivesse sofrendo na barriga.
Nem voltei pra dizer pra ele que, depois da última conversa, falei com mais 4 médicos e nenhum deles me disse que a diminuição do líquido amniótico era crítica. Pelo contrário: era o esperado, já que eu estava na última semana de gestação.
Também nem voltei pra dizer que a minha bebê nasceu saudável e que não me anestesiaram pra parir. Foi na raça, caras. E eu não morri. E ainda vou dizer uma coisa aqui pra vocês: sou totalmente a favor do parto normal e fiquei muito feliz de saber que o governo adotará medidas para coibir a cesariana entre pacientes de convênios médicos. Demorou, mas antes tarde do que nunca.
...Continue lendo no Blog Inverso.
5 de janeiro de 2015
3 de janeiro de 2015
Terror induzido
Nunca fui fã. Por essas e por outras fui acusada diversas vezes de ser careta.
Não vou ficar aqui listando minhas incontáveis escolhas que não poderiam ser chamadas de “conservadoras”. Vou me ater a um dado essencial em minha defesa: aos oito anos de idade fui flagrada lendo Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída. Deram sumiço na época, li inteiro com mais de 18.
Leitura muito mais nociva e que ninguém se deu conta antes de começar a avançar os sintomas da demência precoce foi Horror em Amityville, aos 12. O livro era escrito em forma de diário pelo padre que acompanhou a decadência espiritual da família assediada por entidades do mais puro e tenebroso mal. Trazia foto do casal, planta da casa, desenhos da caçula de três irmãos que dizia ter um amigo invisível que lhe aparecia em forma de porco.
...Continue lendo no Blog Inverso
30 de dezembro de 2014
2015
Nasci mulher. Calhou. Estou muito confortável.
Mas fosse homem, seria bom também.
É fácil ser um homem surpreendente entre tantos homens óbvios.
As mulheres, com freqüência bastante competitivas, tornam o elemento surpresa esperado. A perfeição é sine qua non. Depois dali é que vem o agrado, o plus. Ser mais que perfeita.
Para os homens sobra ser qualquer coisa um pouco menos óbvia. Digam pelo menos “construiria uma cabana de salgueiro às portas de sua casa e visitaria na casa a alma de minha vida”, mesmo que só hajam ipês amarelos no bairro. Digam.
É claro que há outra mulher, outra conquista logo mais. Mas sejam melhores, por honra, por amor próprio.
Agora, para as meninas, fica a minha dica pra 2015: quando fizer a sua unha você mesma, em casa, com a nenê pulando nas suas costas e tentando comer o pincelzinho rosa e, ao final, apesar de todo o esforço, seus dez dedos parecerem um rascunho de criança em vez da sagrada obra de Deus, como seria o esperado, keep calm. Pra você, que não nasceu com as unhas lixadas, sem cutículas, cujas cores não se renovam naturalmente na sequência do arco-íris, keep calm e passe uma base com brilho por cima.
O brilho refratário costuma suavizar a impressão de meleca.
27 de dezembro de 2014
Sugestão de empreendimento
Jornal Nacional
Edição do dia 26/12/2014
26/12/2014 21h35 - Atualizado em 26/12/2014 21h35
'Garçom' vende água e refrigerante em engarrafamento para o litoral de SP
Edição do dia 26/12/2014
26/12/2014 21h35 - Atualizado em 26/12/2014 21h35
'Garçom' vende água e refrigerante em engarrafamento para o litoral de SP
8 de dezembro de 2014
Miss simpatia
Minha filha tem especificamente dois talentos que pude notar desde muito cedo: personal organizer e public relations.
Explico: ela tem um dom muito natural para encontrar os locais mais apropriados – e óbvios – para guardar as coisas que usamos diariamente e precisam estar ao mesmo tempo protegidas e disponíveis. No começo eu ficava um pouco perdida, mas logo aprendi a lógica: o lugar do controle remoto da TV, por exemplo, é dentro do escorredor de macarrão. Já a mamadeira tem encaixe perfeito dentro do cesto de roupas sujas do papai.
Totalmente intuitivo, como eu estava dizendo.
O segundo grande talento é pra poucos: minha filha une torcidas, agrega multidões, reúne desavenças, aproxima desconhecidos. Ela é perfeitamente capaz de acenar para as mesmas pessoas durante os inteiros 50 minutos que se demora para percorrer a linha azul do metrô, por exemplo, da Saúde até a Parada Inglesa. Tranquilo. Ela dá tchau de um lado, depois do outro, depois volta pro primeiro lado, depois pro outro, depois pra baixo, depois pra cima, daí volta pro primeiro lado, depois pro outro e assim sucessivamente por quanto tempo durar a viagem, sem constrangimentos ou sinais de esmorecimento do humor, da disposição ou do vigor físico. Quando o tédio se insinua, ela facilmente muda o repertório: bate palmas e lança beijos ao ar charmosamente, sorri e volta a acenar, atraindo multidões para a janelinha dos desafortunados que precisaram se despedir em algum trecho no meio da viagem.
Muitas conversas surgiram a partir da simpatia dela. Uma vendedora de Mary Kay sabiamente avaliou que minha filha é muito jovem para a nova linha de sombras coloridas, mas aproveitou para oferecer seus produtos para a mãe. Uma senhora me contou dos netinhos gêmeos, uma outra contou da neta, outra do cachorro.
Em dada ocasião, uma jovem coreana veio se aproximando muito determinada na minha direção e, subitamente, grudou nas bochechas da bebê que estava no meu colo, travando uma conversa interessantíssima em seu idioma de origem. Notavelmente apenas eu não compreendia o assunto. Ambas pareciam perfeitamente entrosadas e risonhas, trocando confidências e piadinhas internas de menina. Quase pedi licença para me retirar e deixá-las mais à vontade.
21 de novembro de 2014
Nova modalidade
Atendi. Uma voz meio mastigada de homem jovem, como se estivesse com a cara presa debaixo de uma roda de caminhão, disse:
__ Você asdfa dinadsfdf pra adsfas fasdfd pais?
__ Perdão, não entendi.
__ Você aceitaria dinheiro para gravar um vídeo dos seus pais?
__ Dos meus pais?
__ Dos seus pés!
__ Dos meus pés?
__ Isso!
__ Pra quê?
__ Você sabe quem está falando?
__ Não! Quem está falando?
__ Uma pessoa que você conhece.
Desliguei. Sabe, nem foi o fato de me oferecer dinheiro para eu gravar um vídeo. Se fosse dos meus pais ou dos meus pés, tanto faz. Eu precisaria antes analisar a proposta financeira e os direitos autorais. Qual a função do vídeo? Também nem foi o fato de a ligação ser a cobrar, o que me parece particularmente suspeito. Como a pessoa vai me pagar pelo vídeo se não tem dinheiro sequer para me ligar?
E outra coisa: o telefone toca dez pras duas da manhã, sabe? A gente já atende com o coração na mão, achando que é alguma emergência na família, que o carro de alguém quebrou na estrada deserta e a pessoa pegou o telefone do posto pra ligar e está com fome e frio e perdida, etc etc. O vídeo dos meus pais ou dos meus pés pode certamente esperar o horário comercial.
Mas o que me deixou realmente magoada foi o fato de dizer que é alguém que eu conheço. Cara, se eu te conheço, seja mais tarado e menos psicopata. Manda um e-mail, uma mensagem no face, um sms ou liga durante o dia, tá certo? Pode comprar um vídeo dos meus pais, dos meus pés, das minhas mãos, sei lá. Faz a proposta que eu vou analisar. Mas não me assusta. O tema é a sua tara, fale sobre a sua tara. Não se fantasie de tarado ofegante às duas da manhã que eu não sou obrigada a travar esse tipo de conversação da maneira mais ameaçadora possível.
9 de novembro de 2014
Vulgar
Foi do que eu me lembrei depois das represálias. Aquela menina magra escolhendo uma roupa de dança do ventre também.
Não nos conhecíamos. A mãe dela sugeriu o vermelho. Ela respondeu: “argh, não, é vulgar!”. Eu olhei para a roupa vermelha que havia escolhido e fui em direção ao caixa.
Vulgar…
Ela vai dançar na frente de centenas de pessoas com uma espécie de biquíni enfeitado com lantejoulas de carnaval e acha que a cor é que vai definir se a exposição é ou não “vulgar”.
E o bolso em que uso meu celular?
__ Tira o celular do seu bolso. Está vulgar, Camila.
O que é vulgar? Um telefone dentro de um bolso ou o olhar que imagina um falo ereto se apertando deselegantemente contra a pélvis de uma mulher que leva seu telefone no bolso?
Ah... a “vulgaridade”, essa dose diária de moralidade e as mulheres que não compreenderam a falta que faz a solidariedade feminina.
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