12 de abril de 2012

Um homem de muitas palavras

Recuperadas a partir de arquivos gravados em 27 de fevereiro de 2010, as imagens apresentadas a seguir são fruto de uma conversa, entre tantas que tivemos ao longo dos últimos privilegiados anos.

Notável comunicador, Magno Nunes é também um profícuo pensador por baixo de sua máscara. Sensível improvável, ele se distingue entre os bons. “Meu personagem é um homem mau. Eu sou mau que nem o pica-pau.” Ao falar de como as pessoas escolhem suas máscaras sociais desde muito cedo acaba, sem querer, delatando-se. Seu espírito afina-se com o crème de la crème da literatura brasileira. Feminina, ainda por cima. Clarice Lispector também tem sua teoria sobre as máscaras sociais e esse, inclusive, é tema que a interessa na edificação exploratória de suas múltiplas personas representadas.

Na busca de uma imagem impositiva (dominante, no vocabulário nietzschiano) Magno parece ter tido sucesso. Eleito o mais macho entre os machos do 3B (sala de graduação), ele explica: “Não tenho mestre. Que mestre o caramba. Eu não me inspiro em ninguém.” Mas há quem se inspire nele. Eu, por exemplo. Aprendi a guiar um cachorro teimoso com ele. Delicada e mulherzinha, levei bronca: “Assim, Camila. Puxa a coleira e obriga ele a parar. Faz ele sentar. Fala firme. Se você deixar ele te leva!” Aprendi. E aprendi outras coisas também.

“O amor? Ah... o amor existe. Tá por aí, mas existe.” Nada mais platônico do que pensar Eros, o mensageiro entre mortais e imortais, redundando no que existe, por aí, por lá, em todos os lugares. Nele, inclusive. Aprendi o amor com ele, amável inconfesso, Docinho, Ursinho entre as amigas, gentil por excelência, galante, muito galante, muito muito galante (mulheres, cuidado!). Mas ele insiste: “Sou mau à minha maneira.” Sim, pode ser que sim. Ríspido, indiscreto, agressivo eventualmente. E extremamente leal aos amigos.

Sagaz, Magno atropela com seu senso de humor por vezes exasperante, tanto quanto a politicagem, refletida às últimas consequências: “Não existe política. Não temos partidos de direita e de esquerda. É tudo a mesma coisa. Assim é fácil. Eu também quero entrar na política.” Mas não é político o homem que cita com admiração: Wander Wildner. O cantor punk brega é ícone da música nacional no estilo que ele mesmo criou, reconhecido internacionalmente. “Taí, 20 anos de carreira, vivendo do jeito que ele gosta, só fazendo o que ele quer, tocando no Bar B a dez reais. Do nada acabar a banda e criar um estilo não é pra qualquer um, não. Tem que ter personalidade.”

Personalidade. Sua aposta é no alternativo, na contramão, no descaminho. Não bebe, não fuma, não usa drogas. Hábitos límpidos que denotam conservadorismo. Mas é subversivo no que se refere às atividades que assume. Aboliu cartão de ponto da vida profissional. Após algumas experiências frustrantes em empresas de comunicação subdesenvolvidas, Magno olha apenas para o que acolhe sua criatividade. Mexer com o imaginário das pessoas é, no fundo, o desejo para si próprio de expansão e liberdade. À época da gravação ele ainda não estava nas rádios. Hoje está. Seu talento justifica a recusa dos ambientes estreitos. Consultar seus arquivos é um prazer.



10 de abril de 2012

Ressaca da procissão

Vamos supor que você vá dormir às seis. E acorde às nove com o interfone.

_ Alô?
_ Oi! Eu vim buscar Nossa Senhora.
_ Acho que você tocou no apartamento errado.

E desliga.
O interfone toca de novo.

_ Alô?
_ Oi! Eu vim buscar Nossa Senhora!
_ Você tocou no apartamento errado. Ela não está aqui.

E desliga.
O interfone toca novamente.

_ Alô?
_ Eu vim buscar Nossa Senhora!
_ Ela não está aqui!

E desliga.
O interfone toca mais uma vez:

_ ALÔ?!?!
_ Oi! É o pedreiro!
_ Ah... Entra...

E a voz ao fundo de alguma senhora:

_ Nossa, que ignorante...

8 de abril de 2012

A vingança dos sucrilhos

Sei sobre duplas sertanejas. Algumas. Particularmente aquela que canta na pizzaria perto de casa aos finais de semana. Não é boa.
E de crianças. Fiquei muito tempo no parque vendo dois meninos pequenos gritarem pras bolinhas de sabão que o pai fazia.
E sobre grama, árvores, irmã e as coisas sem nome.
E sobre os gritos. Eu desisti dos gritos ainda pequena, no final de um recreio como todos os outros. Não gritei mais, não pulei, não saí correndo. Eu sei gritar, mas não quero.
Coisas intoleráveis. Sei algo também sobre o intolerável. A intolerância, por exemplo, não é tolerável. E mais um monte de coisas. Mesmo as boas. Quando é bom em demasia também não pode ser tolerável. Nossa ranhura não suporta o muito belo. Nascemos com a fenda. A fragilidade é o pecado original, não o coito entre os padres nossos. Há uma rachadura no espírito das gentes que sucumbe na pressão das coisas belas. Eu sei também sobre coisas belas. Mas sei mais das coisas belas o feio delas. Reconheço o que é bonito porque aprendi antes a reconhecer o que é feio.
Aprender. Sei sobre aprender. Aprender é perceber algo que faz mudar a conduta. Não é orgulho não mudar de conduta. É sinal de teimosia. Sei sobre isso também. E sobre o que rompe a resistência. A água polindo a pedra de milênios. Sei sobre ter aulas, sei sobre poesia.
De sucrilhos, não sei nada.

6 de abril de 2012

Quem há de se reconhecer?

"[...] Exemplos da expressão "constrangida" são designados como ofensa, ciúme e inveja. Em cada caso, um traço marcante da conduta é o auto-engano destinado a ocultar as fontes genuínas da ação. Por exemplo, o indivíduo 'tem uma opinião muito elevada de si mesmo para tolerar a idéia de ter agido erradamente, e assim apela à ofensa para desviar a atenção de seu próprio deslize, o que consegue identificando-se com a parte prejudicada... Obtendo-se satisfação em ser a parte prejudicada, deve-se inventar erros para alimentar a autocondescendência'. A natureza autônoma da ação é, portanto, suprimida – é a outra parte, acusada da má conduta original, do delito que deu origem a tudo, apresentada como o verdadeiro ator do drama. O eu permanece, assim, totalmente do lado receptor. Sofre as ações dos outros em vez de ser um ator por direito próprio.

Uma vez abraçada, tal visão parece propelir-se e reforçar-se por si mesma. Para manter a credibilidade, o ultraje imputado à outra parte deve ser mais assustador e acima de tudo menos curável ou redimível, e os consequentes sofrimentos das vítimas devem ser declarados ainda mais abomináveis e dolorosos, de modo que a vítima autodeclarada possa prosseguir justificando medidas mais abomináveis e duras 'em justa resposta' à ofensa cometida ou 'em defesa' contra ofensas ainda por cometer. As ações "constrangidas" precisam negar constantemente sua autonomia. É por essa razão que elas constituem o obstáculo mais radical à admissão da soberania do eu e a que este atue de maneira consoante com tal admissão.

A superação das restrições auto-impostas mediante o desmascaramento e a desvalidação do auto-engano sobre o qual elas se baseiam emerge assim como condição preliminar e indispensável para dar asas à expressão soberana da vida – uma expressão que se manifesta, em primeiro lugar e acima de tudo, na confiança, na misericórdia e na compaixão."

Amor Líquido, de Zygmunt Bauman

29 de março de 2012

O mestre não fala português

Só uma apuração, uma informaçãozinha básica sobre o templo budista:

_ Alô?
_ Bom dia. Com quem eu falo?
_ Gashrelkj
_ Como?
_ Gashrelkj
_ Ah... bem... Meu nome é Camila e eu gostaria de saber se o templo tem acesso para deficientes.
_ Agolanoum.
_ Como?
_ Noagolanoum...
_ Tem alguém com quem eu possa falar?
_ DjiscuLpa.
_ Tem algum outro telefone?
_ DjiscuLpa.
_ Eu só queria saber se o templo tem acesso para deficientes.
_ AgolanaumdjiscuLpa.
_ Como?
_ AgolanoumdjiscuLpa.

Silêncio entre nós.
Música japonesa budista ao fundo.

_ Há alguém mais com quem eu poderia falar?
_ AgolanoumdjiscuLpa.
_ Tudo bem, então. Obrigada.

15 de março de 2012

É de pequeno...

Não pensava ansiedade de mundo, menina, angústia de existência nem elaborações adulteradas. Se era contaminação ou segredo de toda gente vazava.

_ É que mãe eu tava pulando corda aqui na sala e bati na TV e quebrei acho ó porque a tampa caiu assim e...

O mergulho fundo na fé até a sensação de fraqueza, entrega. A água que pode cobrir a vida de seu peso quando permitida apenas a audição longínqua, desregrada, distorcida, para emergir e voltar a se deparar com o fato duro.

Era por isso que as pessoas comiam areia, ela descobriu. Comer areia é um jeito de sair, porque ignorar alertas é um tanto libertador. Colocavam na boca um pouco dos grãos finos e mastigavam o gosto desafiador em caretas. A menina olhava de longe, sentada debaixo do grande busto de homem duro. Assistia o tanque de areia, via no chão os cacos que formavam um mosaico colorido no cimento cinza e sentia a aspereza do pequeno degrau pelos olhos. A aspereza fixa familiar no seu íntimo, pedra e rumo contorcendo, fundindo. Na sua vontade insipiente de criança desejava abraçar, acalmar, embalar a aspereza no vazio, na saudade, na solidão sem nome. E começava primeiro bem devagar a balançar as pernas. Depois mais rápido um pouco, depois mais rápido ainda. Sentia o rigor rasgar a parte de trás dos seus joelhos e a barriga das perninhas delicadas de criança, embalava o mundo consigo ao lidar com a dureza viciante como contemplar o vazio, o pequeno ponto enegrecido na parede branca, o lado mais escuro de uma nuvem clara, a estória que a mamãe contava. E porque as sabia de cor, não eram as estórias que interessavam, mas ganhar o tempo com a mãe, observar seus dentes brancos aparecerem e desaparecerem no vão dos lábios. A beleza estava ali entre os dentes da mãe, na lajota, na aspereza. Mais rápido e mais rápido e as perninhas começavam a sangrar. A menina gostava porque podia compreender aquela dor. Era dor que estava vendo, sabia de onde vinha, como parar e o poder a instigava.

Olhou o tanque de areia à procura da uma criança que estivesse tentando a refeição proibida. Queria tocar que tinha feito melhor escolha. Se encaminhou com passos lentos e seu punhado de culpa até a pia do pátio para lavar o sangue daquele pequeno acidente. O inevitável incidente de estar viva e não poder aliviar tantas dores mais.


12 de março de 2012

21 de fevereiro de 2012

SMS entre irmãs:

_ A piada da noite. Falei pra mamãe que ia desfilar no próximo Carnaval pela escola Beira Rio. Aí ela perguntou se eu ia fundar essa escola com o F.

_ Hahahahaha! CURTI!

_ Haha... É Grande Rio, né? A outra piada foi que a mamãe tirou uma almofada [do sofá] hoje pra lavar e o papai achou que roubaram quando ele tava com a porta aberta. Aí agora ela colocou de volta e eu liguei e falei pra ele que devolveram aqui na porta. E ele acreditou! Kkkkk! E a mamãe: “ainda bem que eu não tirei as três de uma vez, se não ele teria ido dar parte no 77° DP."

_ Meu G-zus! Mas o que é isso? Bobeira de Carnaval? Rs...

_ Ai aaaai... Delírios do seu pai aí ó!

10 de fevereiro de 2012

Deles

2 de fevereiro de 2012

Auto-escrito

Pai e mãe, irmã, sogro, sogra, cunhada, amigo e chaveiro a caminho, todos prontos a derrubar a porta e descobri-lo dentro ou fora, vivo ou morto.

Na última campainha ele abre, os olhos de sono, e assusta do susto na cara da amiga e da namorada.

_ Oi. Hum? Que foi?

26 de janeiro de 2012

Ao confessor

É pavor que sinto no teu soluço de criança, teu hálito com frequência interrompido e me vejo nos teus olhos claros esverdeados, súbitos espelhos onde me encontro, em repulsa me acho. Nada vale o teu sofrimento; assistir teu lábio balbuciante me faz te querer mais. É certeiro o sal de toda a tua lástima engrossar meu sangue, desesperar.

Atenta, antes de ser frágil, que meu colo se alarga à mira de tuas singelas necessidades. Esparrama teu mundo ao meu lado estendido, conta-me tudo, palavra por palavra, temos o tempo e a chuva lá fora, há verão e outono ininterruptos, de toda a maneira vamos envelhecer. É cuidado que te tenho até nos dias de deslizes torpes, dos pecados há de flagrar antigos hábitos meus rabiscos, os ensaios das melhoras que anseio tomada de júbilo a cada pequeno sinal. Não contes ainda meus acertos nem te orgulhes dos meus feitos bons superada a natureza cruel de subordinações inveteradas, apalpa o escuro até no lado claro, questiona, interroga, descubramos juntos o que também não sei de mim, o que não sabes de ti, o que não está terminado em nós.

Não me imagines anjo ou te faças infalível porque tua queda me apaixona e eu não sei amar heróis. Não escondas teus olhos subitamente tão claros. É no movimento deles que me guio a te querer acompanhar tal doçura dessa dor de crescimento.

17 de janeiro de 2012

Estilhaço

Foi com íntima verdade que ali deitei a vontade de eternizar o fim da madrugada. Eu sabia que estava dando um passo irreversível e satanizado, digno de não ser digno, talvez, algo que não fosse abençoado.
Eu insisti, sei. O argumento do perigo fez cócegas no meu desaviso dos abismos. Era o desvio que eu ansiava. Saltei daquele ponto maldito para um naufrágio que haveria de ser bom.
Havia de ser bom.
A minha aposta era nisso.
Havia de ser bom.
Ainda assim, foi incrédula que constatei que era bom.
Ora rejeitada, ora eu mesma por mim rejeitada e o papel a que me prestava, que de desvarios estava farta e só queria a sandice cafona de dias que não prenunciassem seu fim, mas fossem indefinidamente continuados.
Foi como violar um ambiente sacro, supostamente fraterno, que não está a salvo da mazela, do desperdício. E com patas sagitarianas pisei o terreno dos alarmes inaudíveis, das monstruosidades. O caminho da impaciência.
Eu fiz o caminho da impaciência como fosse Santiago. Entendo que o precipício é mais humano que a virtude e assenti ao ouvir que ele se havia deixado levar e fui eu a pecadora que com audácia resvalou pela fraqueza da vítima indefesa e se alojou naquele peito como a bala que se perde não antes, mas depois de ferir.
Eu me perdi.
Eu trapaceei no jogo inútil, rasguei os acordos tácitos como papéis sem serventia. Não tinham, afinal, uso para a nova situação que se instalava: a liberdade.
Tão perigosa.
Ácida, corrosiva a liberdade.
Sem volta.
Quando atinei para o que aquilo significava, veio junto a solidão e a loucura de muito tempo cultivada em nome daquilo mesmo que desagregava e fazia fome. Acreditei, sim. Fosse feia a derrota por dentro vista e abandonávamos logo. Mas não. De fora é que notam a miséria ali se revelando e debatendo como um auto-algoz. Nos oferecemos em sacrifício e achamos bonito isso. Era dessa feita que me vi primeiro ao solo, depois mais e mais soterrada do entulho do mundo, lembrança podre tecendo larvas àquele cadáver exposto que eu ensaiava ser.
Seria simples. “Levanta-te e anda” quando não houver mais espaço expansível. Haverá mais em outros sítios. Sempre há mais para a pequenez humana. E eu quieta, aprendendo a arte da obediência e da insensatez para não esquecer, fui cedendo mais e mais aos vermes, à corrosão do vacilo. Mas livrei-me quase a tempo, algo antes de ver em mim morrer de vez o que já dava sinais de envergadura e velhice precoce. Foi da vez, a última, em que acreditei no tal Deus que sabe dançar, para vê-lo sapatear meus neurônios de gente.
Frágil-frágil a dança dos interesses contidos, matrimônio e desunião num continuado de folhas cadentes e erupção. A terra também geme e por um instante me alivia pensar como a me dar consentimento. Eu hei de sofrer também e testemunhar o grito do parto, do caos, da ferida, do bote, do mal. Eu também posso gemer nessa fuga dos bichos estranhos da noite, mosca, sorte.
Necessito, no entanto, reaprender a conta-los. Preciso com urgência, modorra, náuseas, reaprender a falar. A atrofia da ligação entre palato e coração, verborrágico silêncio, espera o ritmo se instalar para gozar de novo a ingenuidade, ou pelo menos a serenidade diante da desilusão. Não há salvação, mas pode haver gozo no trajeto até a perdição infinita, eterna, onde seremos sal, evaporada a lágrima, e pó. Ex-desejo e imundice contaminando o chão das deidades fúnebres.
Animais não têm númenes. Foi lenda aquela de mãe que dada água na concha a criança desandava a falar. Pensou ela que deu certo porque apresentei indícios de repetição, ao que agora encontrei minha verdadeira vocação: o gênio de calar.
Mas eu preciso, como enferma da cura, descobrir de um outro pronome o encantamento.

Eu preciso aprender, sobretudo aprender, a dizer em voz alta:

Nós.

E seguir conjugando os verbos que lhe são destinados.

27 de dezembro de 2011

Res-post

"Para meu príncipe, a mensagem de amor de um principezinho"

25 de dezembro de 2011

Relato de Natal, 46 anos

“No shopping tem aquelas cadeiras, para quem precisa, sabe? Cadeiras de dirigir, para quem machuca o pé ou não pode ficar andando. Você sabe como? Então! Daquelas. Eu estava esperando o elevador e chegou uma mulher com uma dessas cadeiras e o marido, ou namorado, não sei, junto. O elevador chegou e ela entrou primeiro com a cadeira, de frente, e foi pro fundo. Daí eu também entrei e virei pra porta. De repente, chegou o Papai Noel com a fadinha dele. Ele perguntou:

_ Desce?

A mulher, na cadeira, viu pelo espelho, virou com tudo e gritou:

_ Nossa!!! Eu vou descer de elevador com o Papai Noel!!!

Todo mundo olhou pra cara dela e riu. Ela disse:

_ Ai... acho que falei alto demais, né?

E ficou roxa.
Claro que, quando eu vi o Papai Noel, pensei exatamente a mesma coisa, mas eu não gritei, né? Eu só pensei. Mas achei engraçado, porque eu senti o mesmo que ela. Eu pensei: “Nossa! Tô do lado do Papai Noel!” Foi mesmo muito emocionante, só que eu não disse nada. É engraçado essa emoção que provoca nas pessoas. Nós duas já somos adultas e a gente ainda se encanta com o Papai Noel.”


21 de dezembro de 2011

Querido diário...

...Esta manhã tivemos um tufão.

À tarde, lavamos roupa.

15 de dezembro de 2011

Anteriores

Eu não me lembro de mais nada da menina. Apenas de seus cotovelos que mexiam. Não me lembro da voz, do cabelo, do rosto. Tenho a cor da sua pele somente porque os cotovelos estavam descobertos pela camiseta rosa. Todo o resto me escapa.

Quisera eu retê-la como fiz com o gosto do leite. Eu reconhecia quando minha mãe me enganava com leite em pó. Não era a mesma coisa, mesmo com chocolate. Eu não gostava, mas deixava passar. Reclamar é algo que sempre me deu muita preguiça. E havia outras coisas: o lilás da lancheira, o cinza do copinho, o céu que variava de tom, o chão de ladrilho – pedacinhos vermelhos de caminho –, banheiro, tanque de areia, baldinho. Ademais, como descrever um gosto?

Não queria que me fugisse, mas não sei dizer para além dos cotovelos da menina, quem eu olhava. Ela, debaixo da mesa, organizava peças gigantes de plástico colorido, como um grande quebra-cabeça.

Introspectiva e secretamente eu via que ela, de costas para a sala, não montava coisa alguma. Apenas dizia em ordem de cores e tamanhos o que era mais importante e, portanto, vinha primeiro na pilha. Eu não entendia, nem me importava averiguar. Deitava as garras em meus olhos aqueles cotovelos dançantes. A menina os movia com a segurança de ser dona deles.

Observar o movimento preciso, o baile de seus dois cantos, despertava-me a vontade, primeira vez em mim, de trabalhar. Eu tinha o impulso de pegar alguma coisa que precisasse de mim e fazer algo com aquilo, algo que precisava ser feito, nem que fosse de uma necessidade imaginária, satisfazê-la porque se tinha tornado a minha vontade inclusive.

Pasmada, desejei arrancar a menina daquele espaço onde ela se fechara, santa e resoluta, debaixo da mesa do refeitório. Quis só para mim a carência de ordem das peças, tocá-las, amassá-las, fazer nada para que vissem meus cotovelos queixosos de execução da tarefa que me deleitaria também.

Não sei quanto tempo passei pensando, sozinha, concentrada naquela concentração de menina. Mas a gente sente quando nos olham e virei pro lado. Minha mãe sorria para mim da porta. Não precisou estender os braços. Levantei-me e fui andando na direção dela. Minha mãe disse que tinha estado ali me olhando “um tempão”.

Não sei o que é ou quanto “um tempão”, assim como não sei contar o gosto do leite. Se há de servir a alguém, sei tampouco. Restou em meu relato a imagem dos cotovelos. Para mim, vale a pena sabê-los.

8 de dezembro de 2011

Infanto-lógica

Depois de muito tempo chamando a tia Carine de Cacá e o tio Celso de Cecé, a menina descobriu que a tia, na verdade, não se chamava Cacá.


_ Você se chama Carine, tia?
_ É!
_ Nossa...
_ Cê não sabia?
_ Não...
_ Cê pensou que fosse só Cacá?
_ É...
_ Ah... É Carine! E o nome do tio, Cecé? Você sabe como é na verdade?
_ Sei!
_ Sabe?
_ Sei!
_ Como é?
_ Cerine!


A lógica foi perfeita, não se pode negar.

30 de novembro de 2011

As meninas da relação

Aos 17, 18, há um pico. Tudo está prestes, nenhuma conclusão. As poucas certezas – vida, morte e horário pra chegar em casa – são naturalmente ignoradas por força das circunstâncias. Mas amizade é o tipo de certeza que não se ignora.

“Nossa! Nossa! Confio muito nela! Acho que quando eu tiver um marido, vou poder deixar ela dormir com ele que eu sei que nada vai acontecer”, diz Lúcia sobre sua amiga Thais, convertida em eunuco por elogio à sua alta confiabilidade.

As duas afirmam buscar uma na outra o que lhes falta. E é uma relação onde cabem poucos. Apenas duas, pra ser exata. Ninguém mais. “Duvido que alguém vai chegar agora e ser tão amiga assim. Vai nada! As amigas que se faz na adolescência é que ficam pra sempre!”- diz Lúcia, mais efusiva. Para Thais, essa é uma das grandes qualidades da amiga. “Eu acho ela muito corajosa. Ela expressa muito os sentimentos dela e é muito carinhosa. Às vezes eu queria ser mais assim.”

No histórico de brigas ainda não há registro. Para Lúcia, as qualidades da Thais é que são invejáveis. “Ela é uma pessoa com quem não tem como brigar. Não tem como ficar brava. Ela tem um jeitinho assim... que você acaba perdoando sempre. Qualquer coisa errada que ela faça, foi sempre sem querer. E ela sorri demais. Ela não tem intervalo de um minuto...” – Thais dispara a rir e Lúcia continua – “...Meio minuto. Meio minuto é muito se ela ficar séria. Ela é muito tranquila.”

Na agenda lotada das “Pints”, faculdade, cinema, trabalho e longas conversas madrugada a dentro. Para o futuro, casamento, filhos e encontro semanais para falar dos assunto sobre os quais, hoje, elas não têm tanto entendimento. “Mas com certeza a gente vai ter.” Instituir o “dia das mulheres” é essencial. Porque cada coisinha que acontece, elas compartilham e se atualizam da vida uma da outra de minuto a minuto.


24 de novembro de 2011

Primitivo

Sinto vontade de te dizer o mundo e tudo aquilo que não sei, o que ainda não foi aprendido. Eu te diria do mistério das flores e a exatidão das peles, cores, matizes do espírito que revolucionou a ausência e desafiou a extinção que éramos antes de sermos o que agora somos. Contaria dos segredos sem, contudo, revelar o vazio preenchido da vida que não conhecemos. Há mais arte nos vácuos, esquinas, largos, as praças onde respiramos. Há beleza no espaço e eu insisto em falar do que te tenho. Eu quebro, querido, a harmonia. A riqueza atroz se insinua e tenho vontade de mitigá-la, mal posso conter o impulso. Você me olha e a perfeição precisa ser violada ou terminarei sua escrava. Melhor faria eu se permanecesse calada. Sei. Porque o nada é tão sagrado e criativo quanto o verbo bem sucedido. Costumeira, costumeira. Adicta na contradição dinâmica de me ver de diferentes jeitos sempre tão estagnada. Sou eu mesma meu oposto e juramento o sacrilégio. Sou confusa porque devo ver nisso muita elegância. O ponto exato do alto é quando não nos compreendem. Aí podemos ser verdadeiros com convicta tranquilidade. Não teremos de nos explicar. A dúvida é fruto de algum entendimento. Eu, no entanto, não gozo do privilégio de poder ser ambígua ou de outra forma imprecisa. O que te digo é direto e simples, está a salvo de qualquer engano. Uso palavra que não faz curva.


Eu te amo.

16 de novembro de 2011

Da responsabilidade grande de um príncipe pequeno

"E foi então que apareceu a raposa:

_ Bom dia - disse a raposa.
_ Bom dia - respondeu polidamente o principezinho que se voltou, mas não viu nada.
_ Eu estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira...
_ Quem és tu? - perguntou o principezinho. _ Tu és bem bonita.
_ Sou uma raposa - disse a raposa.
_ Vem brincar comigo - propôs o príncipe. _ Estou tão triste...
_ Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. _ Não me cativaram ainda.
_ Ah! Desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

_ O que quer dizer cativar ?
_ Tu não és daqui. Quê procuras?
_ Procuro amigos. Que quer dizer cativar?
_ É uma coisa muito esquecida - disse a raposa. _ Significa criar laços...
_ Criar laços?
_ Exatamente. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.
E eu não tenho necessidade de ti.
E tu não tens necessidade de mim.
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...

Mas a raposa voltou à sua idéia:

_ Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música.
E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...

A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:

_ Por favor, cativa-me! - disse ela.
_ Bem quisera - disse o príncipe. _ Mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
_ A gente só conhece bem as coisas que cativou - disse a raposa. _ Os homens não têm tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!
Os homens esqueceram a verdade - disse a raposa. _ Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."


Antoine de Saint-Exupéry, 1943.

31 de outubro de 2011

Das capacidades

No começo, escrever era uma necessidade externa, algo como resolver o problema do tédio diante de uma tela e duas opções: paint ou bloco de notas. Aos poucos virou uma necessidade orgânica de limpeza. Eu me sentava e executava ali solitária meu ritual de purificação, acasalando comigo mesma e gerando mornas as idéias foscas, recém saídas da adolescência febril, etapa de mortificação. Foi quando nasceu em mim o vício de perder as horas. Nunca estive completamente recuperada do irresistível impulso de passá-las mesmerizada numa ranhura qualquer de parede, chão ou teto.
Não me lembro como foi ou quando, mas percebi que estancar vida favorece a vida. Talvez aí tenha tido início o devaneio em que me meti, de achar que sei mais ao abandonar a divina luta de ser gente.
Foi nesse lugar onde notei que a morte não é coisa de se evitar, porque ao temer uma etapa de ser, somos com menos qualidade.
Aprendi a integridade do momento de morrer antes de chegar lá, então penso que não será difícil e aí meu enleio paira. É quase querer, mas não pela morte, num modo grotesco de antecipá-la ou sucumbir.
Trata-se de um outro proceder que se descobre por ser menos vivo e atento, menos atingido pelo estímulo chamado mundo.
Algum motivo que não me parece razoável (não importa quanto esforço eu faça) sustenta o choque dessa revelação, que pode não passar de ilusão.
Pode ser pretensão existir e pensar que vive, querer resistir, querer se entregar.
Mas o fato que não me larga é essa crença ingênua no peito, que vez me dói de um vazio excruciante, outra vez me contenta fácil, que há outro eu em mim que se desprega quando eu durmo e sonho livre.
Alguém que também sou me reside, faz de mim esquizofrênica busca por aquela que vejo e se mantém inatingível, de canga branca até os pés. Dizem ser azul claro a cor do meu espírito falido em ser só o que se é essencialmente. Tive de vir pesada e agora me reclamo a ausência, pois desejo me mostrar que sempre estou fora de mim.
Encaixe bonito acontece quando um outro me completa despretensiosamente ou diz, sem querer, o que me ocorria enquanto eu bem silenciava.
Sou feita desses que me esbarram e me inventam muito melhor do que posso ser na verdade.
Naquela hora perdida, proposital e vítima ainda, sinto que não há nada de suicida na transgressão de se desejar mais efêmero, posto que nascemos e crescemos minguantes.
É viscosa e teima a espera do outro dia. E inútil. É um impulso de vivo que, neutralizado, faz de nós mais vivos, recorrentes em expressar o inexprimível. É essa a função da língua: nomear para capturar e passar adiante. A função da memória, no entanto, é esquecer que não podemos.

Eu sou boa em esquecer. Por isso escrevo.

27 de outubro de 2011

Notícias

É um momento histórico te saber em casa sozinho, lavando a roupa numa sexta-feira à noite. Não porque te seja atípico ou digno de nota que não tenhas companhia ou que tuas preferências não te levaram a outra parte. Somente que sinto, sutil e não tão lenta, a humanidade se fazendo nesse trecho de relato.

Terminamos a faculdade e aceitamos fazer coisas que pedem menos do que há em nós. A necessidade brutaliza e sossegamos no salário um tempo curto.
Não é por nada, mas é que me pareceu história viva te imaginar pendurando cuecas e meias no varal. Antes de nós, cena dessa foi feita filme, poesia, série de TV, manifesto, contrabando, escravidão.

Na nossa vez, porém, sobrou que ser o anônimo cozinhando spaghetti quebrado pra caber na panela pequena. Hidrotônico de uva verde em cima da mesa do jantar e solidão, porque a mãe que te espera o filho foi escolha precipitada ou acidente.

Onde a poesia parece dissolver e se refaz em seguida: é lá que a gente se encontra. Não junto. Você se encontra com você e eu comigo mesma. É na tentativa primata de seguir sendo que podemos nos olhar, reconhecer e, quem sabe, furar o cerco dos olhares que não nos olham. Talvez façamos algo que fira a visão indolente dos que nos ignoram tão facilmente. Quem sabe que um dia seja um esforço deixar de perceber a riqueza de aparecer na janela de uma kit da rua Aurora, porque mora ali alguém que deixa suas meias de molho para não ter que esfregar muito.

Não é pouca coisa a peculiaridade que cabe nas suas escolhas mínimas e devia haver um Morumbi inteiro que nos aplaudisse quando déssemos tchauzinho também. Porque nós vemos poesia no breu, no só, no mau e nas palavras de mais sílabas. Somos resistentes e, à nossa vez, a vanguarda do novo mundo novo.
É a história vociferando em nós no detalhe da sexta à noite, eu senti.


13 de outubro de 2011

No Aquário

Parei diante de uma tartaruga estranha, cujas patas pareciam pedras. Por ter histórico de tartarugas na família, fiquei ali algum tempo, contemplando aquela esquisitice da natureza através do vidro. Meu amigo, de olhos verdes certeiros, aproximou-se e disse, com aquele ar solene de quem informa:

_ Ela morde.

Pensei um pouco e, inconformada com tal sapiência, que não poderia ser empírica, perguntei:

_ Como você sabe?

_ O nome dela é tartaruga-mordedora.

Olhei para a placa com as informações do animal e, antes que pudesse responder, um espectador anônimo próximo salvou a questão:

_ Faz sentido, hein? Faz sentido...


9 de outubro de 2011

Jedi, 6ª

_ Sabe Camila, há um tempo atrás eu li um livro chamado A Arte Cavalheiresca Do Arqueiro Zen. É um livro muito bom, eu gostei bastante. A história é de um filósofo alemão que vai pro Japão aprender a manejar arco e flecha. Em determinado ponto o aprendiz está muito bom em acertar os alvos e seu mestre diz a ele que não é só isso. Ele aprendeu a acertar o alvo, mas não aprendeu mais nada. A questão não é o alvo, mas aquele momento exatamente antes de disparar a flecha, aquela tensão no arco antes do disparo. Esse é o momento importante. E o livro conta isso de uma forma muito poética, muito bonita. Por que você está sorrindo?

_ Porque me deu vontade de ler esse livro.

_ Tudo bem. Eu posso trazer para você. Mas o que eu estava dizendo... é... que você é isso. Essa tensão.

_ Eu sou um “quase”?

_ Não. Você é o momento que importa, Camila.

5 de outubro de 2011

Stillness

Nessa hora de almoço, como alguém que descobre o que é sagrado, percebi que poderia passar muito tempo... anos... apenas olhando a vida, sem viver, sem interferir.

Lançada ali
rija e frágil
quanto a árvore
ao lado repousada
ambas plantadas
no cimento cinza
morríamos um pouco
ao ver passar
as gentes
lentamente...

Rezávamos silenciosas
para um Deus
que nos mostrasse -
inevitável
e de um vigor
que não se ignora -
o que se vê
quando acordamos
para o céu
que há de ser
Verdade.

3 de outubro de 2011

Depurar

Após alcançar o requinte máximo da expressão – a linguagem suficiente – o refinamento seguinte é não precisá-la. A evolução do vocábulo é desaparecer com ele, entender e fazer entender a sutileza extrema dos gestos simples, não vocalizáveis. A finalidade da simbologia é a telepatia. Toda relação humana é, afinal, uma conversa de mentes.

27 de setembro de 2011

Dialogus internus in lecto mortem

Acordei velha.
Assim.
Não se preocupe comigo.
Subitamente envelheci.
Penso que acontece com muitos que conheci.
Eu, de cara lisa no espelho, de repente acorcovei.
Disseram-me que passa como veio essa estafa de vida. Só é preciso ver gente. Mas a gente é que me envelhece.
Escolhi fazer canja pro almoço, açúcar queimado e repousei. O cansaço me abateu como aviso de morte, sono pesado, irresistível.
Tive da nostalgia o apelo dos anos me questionando, primavera e verão esfriando e eu ali, bebendo as agruras mais descabidas como fosse parte do destino ou conseqüência do momento político da nação.
Fui engolindo o que não se digere e tudo aquilo eu sabia no filme que me resolvia nos dias finais. Porque aí sim a pessoa pensa na mãe, na mãe da mãe, na mãe da mãe da mãe e em todos os ex-homens.
Comigo aconteceu bonito. Vim numa trajetória retilínea de juventude e frescor de juventude e sexo de juventude. E se eu disser que não sei como foi ou de repente, minto. Repreendam-me. Eu sei que disse súbito, mas não foi e te corrijo essa mania de acreditar em tudo o que eu digo. É claro que uma pessoa conhece a própria tragédia, ainda que ignore as coisas divinas ou o carma ancestral. A verdade é que a gente se sente no declínio próspero e corriqueiro e, por isso, vai-se abandonando nos estágios intermediários até a loucura plena.
Penso eu que de todos os males que me poderiam acontecer – e penso muito em atropelamento, queda da varanda, elevador que despenca, latrocínio principalmente –, sei por que me acomete a velhice. Logo essa lesão tão sem graça e singela, que me alcançaria de qualquer maneira, alcança-me agora, cedo demais até para um ultraje.
Eu tinha pena de morrer e a fui perdendo. Daí passei do ponto. Foram várias as razões cuidadosamente entristecidas durante o contínuo da noite e do dia. Se o mundo parasse vez em quando talvez isso não me tivesse acontecido. Ou se meditasse. Recomendo a todos que meditem. Talvez isso simples me tivesse salvado, mas já é tarde. Experimentem vocês que ficam.
Eu, particularmente, não queria morrer. Mas é que sinto um cansaço tal que até me rendo. Não quero mais brigar, não quero mais ser o que não sou. Quero ser essa envelhecida de mágoas desconexas e maldadezinhas infantis.
Que não saia daqui, mas uma vez disse à vizinha – uma velha, tadinha – que era melhor que tirasse os bigodes, para não desleixar da aparência. Ela correu para dentro e por dias a vi com o buço vermelho. Insegura por não enxergar os pêlos, por via das dúvidas acho que fazia o ritual duas vezes ao dia. Mas não tinha bigodes e eu não falei que melhor seria prender aquele cabelo ralinho de gente velha. Ri durante dias, mas só por algumas semanas. Ela logo morreu e eu fiquei triste de não ter de quem rir.
Agora assim, que eu me apressei a morrer, fico cá cutucando feridas que se queriam esquecidas e vejo ainda sangrando. Essa vizinha mesma, a pobre que me acreditava... fosse ela meu pecado seria ligeiro e fácil morrer. Mas cometi desmandos que não ouso pronunciar. Seria preciso que você fosse padre.
Ou amigo.
Seria preciso um amigo íntimo, de um poder sobre mim que não há quem goze. Escolhi que não me vissem desde que finalmente aconteceu. Eu não saberia justificar minha morte precoce de velhice que só se sente, mas não se enxerga. Eu não saberia o que dizer. Além do mais, morrer é algo que se faz sozinho.
Nascer é algo que se faz sozinho. Os médicos existem para ajudar as mães, não os bebês. Os bebês nascem sozinhos e logo percebem a imensa solidão em que se meteram, por isso choram. Choram por sentir que jamais estarão ligados ao umbigo de alguém novamente. Jamais estarão tranqüilos porque há quem os cuide. Nascer é um gesto supremo de aceitação da solidão e da morte. Não tivesse nascido, não morreria e estava resolvido.
Mas fui nascer e agora também estou resoluta a aceitar o fardo da etapa última. Eu sou jovem e não precisava ir agora, bem sei.
Mas desisti.
O peso da minha alma não se descreve em uma linha de arrobas. Preciso ir que já quase não sinto mais pena e esse é o prenúncio da hora.
Vou dormir.

E assim foi, jovem e cheia de vida, aos 94 anos.

21 de setembro de 2011

Do que eu também padeço

No semáforo, à luz vermelha, duas meninas seguravam bandeiras de propagandas, indicando aos motoristas a direção de um novo condomínio. Uma delas chamou, num tom de alegria:

_ Maria! Maria! Falta só dez minutos!
_ Jura??? Dez minutos? Ah, então vamos embora! – a outra respondeu já enrolando sua bandeira.
_ Não, não! A gente não pode! É que ainda falta dez pra faltar vinte!

16 de setembro de 2011

Neutral

Alguma coisa dói em mim quando a vejo. Algo que, se não é insondável, ao menos está nos meus recônditos. Não sei por qual razão ela se apaga tanto. Só a conheço na languidez e altura do pescoço. Conheço-a nos baldes e na toquinha clássica, mas me revolta o que a deve atormentar.

Penso nela e depressa me acomete uma angústia. Tenho pra mim que é reflexo de solidão. É uma presença doce, no entanto. Muito leve. É tanto que a gente é capaz de nem notar que nos faz sombra, esvaziando a lixeirinha em baixo da mesa, uma por uma, perfeccionista.

Ela é capaz de se deitar e levantar com a mesma expressão de sonseria. Se tem pena de si não sei, mas abandonou a vivacidade categoricamente. Arrasta-se, como um espectro neutro, silenciosa e precisa por entre as baias. E misteriosa, ela. Inexpressiva, meio patife, do tipo “credo em cruz” de ser assim.

Dedica-se à higienização dos sanitários de modo a ter predileção pelos produtos mais fétidos. Pensa que assim estão mais limpos, quanto mais insuportável o cheiro que ela respira com indiferença. Acho que, no fundo, ela se testa ao seu limite e se extrapola de um propósito absurdo. O firme propósito de não ser.

11 de setembro de 2011

Íntimo

Quando baixei o vestido até a metade, era tarde. O sol me acertava de viés. Você me olhou extasiado num átimo, depois dolorido. Cambaleou sutil, franziu o cenho e se apoiou na escrivaninha. Perguntei o que o afligia e respondeu-me de olhos fechados que nada. Apertou os dedos na têmpora esquerda e disse pausado, embebido da luz: “é que quero guardar essa imagem”.

1 de setembro de 2011

Ligeiro

A esperança me espanta, comove. Na ingenuidade, quietinha, ouço um grito antigo que se embrenha na beleza de tudo idealizar, ainda que nada tenha.

Beleza, essa covarde passageira, viajante oxidada se esperando derreter. É nascida pra morrer toda vida. O tempo do saculejo é uma peraltice, que alguém estique o lençol e o lance pro alto acima da cama. Se tem sol a gente vê a poeira e acha bonito. O humano intui ser intervalo da transa que começa quando o lençol sobe. Sobe, paira sem peso e desce sobre nossos olhos cerrados. Ou vidrados.

A morte é o pedaço mais bonito da vida quando acontece. A liberdade impossível das necessidades primárias. É um coito interrompido abrupto e belo, rasgando o anseio, a fobia, a vertigem.

Pressenti beleza e morte quando ouvi dizer que aquele menino queria fazer gastronomia e por isso foi trabalhar no quiosque do shopping vendendo cup cakes.

A vida é um escândalo para quem não se escandaliza.

25 de agosto de 2011

Meu segredo até de mim


O tempo recupera e eu soube a graça. O que é pra ser é, mas vaticínio coletivo não sabia que pegava.

Muitos foram os avisos da aura que nos envolvia e amparava. Nós ignorávamos solenemente, orgulhosos da intransigência.

...Até que o chão nos teve em desistência. A gravidade nos uniu como força escorregadia... Parecia ilusão quando me descobria os truques que eu não tinha.

Tal qual botão que sela um feito sigiloso. As miudezas sussurravam no breu da casa vazia: “o que terá sido deles?”

17 de agosto de 2011

Lar

...Que a vida é encantada e, ademais, eu também fazia cabaninhas quando criança. E era generosa! Fazia para minha irmã e eu morarmos juntas! Alegria nossa era viver à parte (no meio da sala), pra sempre (por meia horinha, até que cansávamos), numa casa só nossa, só com as nossas coisas (tudo furtado dos cômodos oficiais). E ficávamos lá, fazendo nada até nos dar de tédio à claustrofobia e resolvermos “dar uma volta” e ser gente da família de novo.

Alguma vez era de armação precária a casinha. Eu, a mais velha, sustentava o edredom no ar com as próprias pernas. Outra vez, cismava de construir direito e rijo, com duas cadeiras, uma de cada lado, teto e paredes de cobertor amarrado e nós no meinho.

Dada minha vasta experiência, não pude deixar de notar a delicadeza e regularidade com que outra cabaninha era feita.

Uma caixa de papelão formava um triângulo com o muro e o chão. Um cobertor por cima conferia resistência e calor à morada, com um rasgo fino e preciso na lateral, para ventilar sem comprometer a privacidade. Uma vassoura gasta teimava em escapar e se deixar ver, que não entrava inteira no espaço. E eu sabia, por isso, que o morador o varria.

Eu passava naquela esquina e olhava pra cabana. A cabana se deixava olhar. A vida era, então, desencantada.

15 de agosto de 2011

Três da manhã

A madrugada deveria ser sagrada. Seu pico, a hora mágica de todos os anjos. No silêncio fácil eu descubro porque mesmo foi que me ocorreram as idéias e lembranças mais estúpidas e dramáticas, como casamento, tagarelices e as péssimas propagandas do guaraná Dolly.

Na imperturbabilidade de uma cidade no escuro eu consigo escutar o celular da vizinha vibrando sobre uma superfície dura. Imagino, então, com pudor súbito, o que ela deve escutar de mim.

Declarações, nascidas íntimas e sorrateiras, viram cânticos dionisíacos para a não-platéia do condomínio, forçada a ouvir o desabafo alterado e rouco na voz feminina: “Amooor. Eu quero amooor...” – de continuação indistinguível.

“Eu também quero” – pensei sem interferir na noite. Consigo pensar em um montão de gente que quer. Mas são muitas pessoas querendo amor... e poucas dispostas a se dar ao trabalho, correr o grande risco... de amar.


3h11m

12 de agosto de 2011

Ganhei uma flor branca...

No café da manhã.

Escolhi aleatoriamente uma mesinha no lugar de sempre e pedi um mineiro quente no pão francês e um toddy gelado.

Eu adoro toddy.

Mas daí veio junto uma flor branca das mãos de um mensageiro tímido:

_ É do Júnior. Ele mesmo que fez. Pra você!

O caule de canudo sustentava as pétalas de guardanapo branco, entrelaçadas cuidadosamente.

Senti minhas bochechas aquecerem e voltei pro trabalho, feliz da vida, com a flor que enfeita o porta-canetas.

Além do toddy, adoro flores brancas de guardanapo e canudo no café da manhã, descobri naquele dia.

A vida pode ser linda.



10 de agosto de 2011

Bruto

Eu não sei como tanta sujeira cabe numa pessoa. Parece que o preto se vai acumulando como que a formar um duplo do indivíduo, um outro dele mesmo que o encobre, como pêlos ou penas, talvez a lhe aquecer.

Desgrudar aquilo tudo exigiria um arranque doloroso, uma festa de despedida. Um braço forte, força párea que lhe urdisse novamente o ventre e a tez, fundida em negrume, já quase extinta. Nem feição mais, tal ponto. Debaixo de um banho se revelaria, descoberta, quiçá, que depois de um tempo até a gente se esquece da gente. Se não nos chamam pelo nome, decerto o esquecemos. Se não usamos da dignidade, não a temos.

Eu imaginava ali correntes e escutava grilhões nas passadas. Mas eram só dois pés sujos metidos em tênis velhos, silenciosos. No topo do ser sem nome, cabelo vasto e o fumo lhe fazendo contorno.

Dó, não... Era outro espécime em mim nascendo, outra manifestação quase tão ruim. A solidariedade que se tem por bicho. Um reconhecimento entre animais.


8 de agosto de 2011

Aviador

Houve um tempo em que eu queria genuinamente fazer algo relevante pela humanidade. Mas quando me deparo com essa doçura violenta que é a vida, o amor... resta-me pouco, resta-me nada a dizer.

Saint-Exupéry, autor do Pequeno Príncipe, enamorou-se certa vez, aos 43 anos, por uma menina de 23, casada, francesa.

Com tudo o que aquele amor tinha de inapropriado, lançou-se ele, com aquarelas e poesias, a conquistá-la. Em dado momento, ao ver fracassar aquele romance, escreveu à ela:

“Descubro com melancolia que meu egoísmo não é tão grande assim, pois dei ao outro o poder de me magoar. Menininha, foi com carinho que lhe dei esse poder. É com melancolia que a vejo usá-lo.” (1943)

E eu daqui, de 2011, não consigo pensar em outra forma possível de usar tamanha doçura para dizer que algo está doendo dentro.

Não me resta mais nada a dizer.


5 de agosto de 2011

"...o que ainda não vivi"

2 de agosto de 2011

Zelador dos ventos

Eu não via problema algum. Por mim, teríamos folhas nas calçadas inteiras. Pisaríamos num chão crocante, sobre estralitos fofos no outono. As mulheres afundariam seus saltos, experimentariam o desequilíbrio e, quem sabe assim, desinventassem os degraus ambulantes. Até lá, homens e crianças levariam vantagem ao passar por onde ainda houvesse árvore.

De qualquer forma, devem tê-lo mandado. Varria a entrada do prédio com esmero e vassoura, juntando as folhas em montinhos disciplinados. Só que, como a vida tem desses ventos, acontecia de tudo voar antes que fosse possível realizar de todo o feito. E ele recomeçava, contrariado, a peripécia de viver.

30 de julho de 2011

Danação

Após o prenúncio do abismo, seguiu adiante como quem pisa em si mesmo no pisar do chão. Foi-se indo vagarinho, destemido, até o suor fazendo pose na testa, pra ficar bem na ressequidão. Chegou na beira e não parou, porque já havia cogitado ser ali um milhão de jeitos, coçando o queixo e se curvando e sentando e se pondo de pé.

Um milhão de jeitos, tudo estudado na vida, como cair, ralar, quebrar. Conhecia, se conhecia e estava lá mesmo, sem sustento pros pés, vento dentro da barriga, o ar parado de fora lhe entrando e saindo, seu arbítrio estrangulando.

A terceira campainha tocou, as cortinas se abriram e ele aterrissou, corpo, alma e consistência. Um piano lhe caiu no superego e de repente tinha nascido um outro, que lhe emprestara o corpo e, com sorte, devolveria no final.

27 de julho de 2011

30” a 80km/h

O mundo está farto de Biancas, bem sei. E estamos fartos de muros onde se picha toda sorte de nomes, bichos, rostos, frases e criaturas indistinguíveis. Mas aquele nome sangrando o preto bem na entrada do Bloco 18 me fez cogitar se Bianca era merecedora de uma homenagem, um xingo, ou talvez fosse surda e alguém lhe quisesse chamar por escrito, anunciando a todos que Bianca estava sendo solicitada. Talvez a menina partisse o coração de alguém, talvez fosse recordista no jóquei-pô e lhe prestaram as honras por isso. Talvez tenha mudado de Bloco e simplesmente marcou seu território pra trás, como os casaizinho que, inspirados pela cafonice romântica, riscam com chave seus nomes dentro de um coraçãozinho na madeira da cama do motel. E acham lindo! Ficam ali eternizados.

Bianca foi lembrada em cima da porta do dispensário de lixo, Bloco 18, Cohab-SP. Será que foi uma indireta sobre sua qualidade de espírito?

Não havia semáforo e o carro passou bem depressa. Bianca morou nos meus pensamentos por 30 segundos. Depois, nunca mais nos vimos.

23 de julho de 2011

Inspira

Desceram a rua correndo, com exaspero de juventude, aqueles moleques. Do alto de sua rebeldia, um deles parou diante da caixa de papelão na calçada. Olhou, vacilou um instante e deu-lhe um chutão forte que fez parar bem no meio da rua.

Um seu amigo voltou, contemplou a caixa, fez menção de recolhê-la e recuou. Não estava legal aquela noite. Não queria bancar o bom moço. Passou por cima do volume e se juntou ao bando, que seguia correndo rua abaixo.

Respirei fundo aquele ar transgressor, que cheirava a mato fresco de interior.

Paz.

13 de julho de 2011

Malia

Sala de edição.

_ Professor…
_ Oi. Você quer me mostrar algo?
_ Sim. Meu vídeo. Acho que está pronto.
_ Tá bom. Vamos lá ver.

O professor sentou na minha mesa e começou a ver meu vídeo. De repente, uma vozinha do lado de fora da sala:

_ Papai! Papai!
_ Só um minuto, Camila. – e, indo para a pequena, pegou-a no colo: _ Vem aqui com papai, mas não coloca a mãozinha em nada, que tá suja de bolacha.

A pequena olhou pra mim e eu pra ela. Era a mesma que estava do lado de fora da casa, desfilando com seu poncho. Reconhecemo-nos rapidamente e ela passou pro meu colo:

_ Oi – eu disse, pra quebrar o gelo.
_ Oi.
_ Qual é seu nome?
_ Malia.
_ Malia?
_ Malia.
_ E essa bota linda aqui, Maria? Quem te deu? Você sabe?
_ Sabe. Foi a vovó.
_ A vovó?
_ É. Vovó.
_ E essa mão babada? Crééédu. Que mão babada! Eca!
_ Eu tava comendo bolacha.
_ E cadê a bolacha?
_ Comi. Mamãe... Cadê a mamãe?

E lá foi ela em busca da mamãe, no corredor.

30 de junho de 2011

Disappointed

“Ah… que bonitinha!”, pensei comigo. Baixinha, fofinha, cabelo de algodão doce. Chegou ao ponto de ônibus com passos curtinhos e sentou-se ereta. Cara de velhinha limpinha, sabe? Que toma banho sozinha, que come direitinho, que obedece a filha. Tinha as unhas feitas, um coque impecável e decência. Gosto muito de velhinhas que se comportam como velhinhas. É que não havia pombos ao redor, mas tenho certeza que ela jogaria pipoca pra eles e...

_ Cccc... Ccccc... rrrrrr... rrrrrrrrrrrrrrr... ptú!

Argh!

27 de junho de 2011

Herdeiro

Brotado do nordeste. Mãe briga com o pai e vai embora com o filho pra casa de parentes em cidade grande. Mas ele não se sentia um clichê. Era só alguém que não queria conhecer o pai, que não tinha muito contato com a mãe, apesar de morar com ela, e que não se dava bem com o irmão – filho de um outro ainda. Foi clichê quando o pai lhe viu as fotos das mãos de parentes e achou que se pareciam muito. Foi clichê quando disseram que o pai queria muito lhe ver, já adulto. Uns diziam que era a mãe quem não queria. Outros, que o pai não fez questão. Seria típico se as duas coisas fossem verdade, mas ele não soube bem, então deixou que passasse a oportunidade. Um belo dia lhe contaram que o pai sofrera um acidente. Em seguida, que estava muito mal. Disseram ainda que teve súbita melhora. Depois, que falecera. A mãe, de perto, nem se moveu para consolá-lo do amargo da culpa por se ter negado a ver a raiz de seus traços bem feitos, moreno, leve. Chorou sozinho, sem pai por força da morte, sem mãe por força da vida. Talvez fosse clichê do Piauí mãe não abraçar filho nem quando morre o pai.

21 de junho de 2011

de Carli

No dia de alçar vôo, as beatas tudo apareceram lá. Tinha gente saída até de dentro da TV pra ver o padre ir-se embora, levantado por mil balões de gás coloridos. Tempo de fé aquele abril, quando recorde e pastoral se juntavam na motivação do religioso. Eu mesma não fui naquele dia. Nem em outro, a bem da verdade. Eu não o conhecia, mas posso imaginar seu desespero progressivo até o fim trágico, previsível. Posso entender que não havia sequer um’alma baiana para alertá-lo de que os orixás alguma coisa, os búzios diziam, as cartas falavam. Mas eu, de intuição falha e nenhuma técnica na arte da predição, era bem capaz de dizer que atravessar o País suspenso por bexigas era mais do que um ato de ousadia e confiança no Senhor. Era uma idéia suicida. Surpreende-me, no entanto, lembrar a utopia desatinada. E há algo que agrada. Talvez porque seja humano cultivar o fantasioso. Talvez porque eu tenha cá minhas confianças quiméricas. Talvez ainda... porque seja da vida flertar com a morte e, no fundo, eu entenda.

“A polícia diz que os restos mortais encontrados em Maricá, Litoral Fluminense, no início de julho são realmente do padre Adelir de Carli, desaparecido desde o dia 20 de abril (2008), quando decolou com balões de gás no Paraná. Suspenso por cerca de mil balões, Carli pretendia ficar 20 horas no ar e bater o recorde neste tipo de vôo. Além do novo índice, o padre dizia ainda que iria divulgar a Pastoral Rodoviária, de apoio a caminhoneiros. Mesmo com o céu nublado e pancadas de chuva, o religioso manteve o vôo.”



Turning tables

Essa vez foi como todas as outras. Piripaque, jejum, insônia, experiência de quase morte. Depois da desintoxicação, um ritual singelo. Entre os artigos de escritório da prateleira encontrei a caixa sob medida para a sua meia-dúzia-de-coisas. Asséptica, lilás, que é a cor da transmutação no mundo espiritual. Não esperei, claro, que você notasse esse cuidado, além de ter ajeitado ordenadamente seus vídeos, livros e a escova de dente no topo da pilha, como cereja do bolo ou king-kong na ponta do arranha-céu. Coloquei a escova de ladinho, pra não cair. Daí inverti com a sua foto de criança, enrosquei no fio do seu HD. Achei ali um canto e só faltava a etiqueta, com seu nome implicitando algo terrível: aqui jaz um equívoco a dois.

E nada mais se disse a respeito.

20 de junho de 2011

Extracurricular

Foi uma afirmação ingênua, de menino amarelo na sexta série. Muito Jornal Nacional na cabeça deu naquilo ali, uma espécie de patologia moral:

_ Mas, professor... e nas favelas?
_ Quê que tem nas favelas?
_ Ah... onde todo mundo é bandido!
_ Não. Não é todo mundo bandido, não, senhor.
_ Tá. Mas a maioria.
_ Não, não. Negativo. De onde o senhor tirou isso?
_ ...
_ Nas favelas, a população é de trabalhadores e trabalhadoras honradas, que ganham seu sustento honestamente. Sabe como é o nome disso, senhor Rafael? Preconceito. Isso se chama preconceito. E é lamentável.

17 de junho de 2011

Magna Míriam

Eu queria ser, tipo assim, a Miriam Leitão: especialista em economia nacional, internacional, regional, específica, ribeirinha, tradicional, indígena, ocidental e oriental. Míriam também é capaz de comentar fluentemente sobre enchentes, dengue, parto, telefonia, seborréia, crédito, casamento real, irreal, surreal e crise de meia-idade. Você pode beber da sabedoria de Míriam por TV, rádio, revista, jornal, youtube e o blog dela. Para referências, Wikipédia, Desciclopédia e Pânico na TV. Não é maravilhoso?



Na ocasião, Míriam refletia sobre omelete da atual presidente, Dilma Rousseff, no programa Mais Você, de Ana Maria Braga.


12 de junho de 2011

Valentine's



7 de junho de 2011

Quitaram-me os cachos

Era fim da década de oitenta e o banheiro, lembro-me bem, tinha o chão coberto de ladrilhos coloridos. Incontáveis quadradinhos que eu tentava contar ou encontrar um padrão, agrupamento de cores e outras fixações infantis. Eu era pequena o suficiente para cair dentro da privada se me distraísse. Acontecia. E eu chorava enquanto, curiosamente, os outros riam.

César era sempre aguardado com ansiedade, como fosse celebridade ou coisa assim. Aparecia gente em casa não sei de onde. Tia vinha visitar, trazia as primas, as amigas, as vizinhas. Todo mundo queria aproveitar a visita do César. O César. Fazia daquele banheiro um império seu, onde desfilavam, uma a uma, as damas ansiosas de seu talento. Cabelo cacheado, longo, tipo Luis Caldas, brinco numa orelha só, antecipando a moda, sua orientação sexual não vem ao caso e seu jeito de tratar as mulheres, com elogios e adivinhações de gostos que nem elas sabiam que tinham o tornavam César.

E lá se ia a tia. Entrava no banheiro uma e saía outra. O coro feminino aguardava ansioso, de vez em quando espiando da porta. Eu, do sofá, era lembrada alguma vez, quando me vinham com biscoito ou pão francês. Ou algum resmungo. Não entendia bem aquela euforia, mas também não me importava. Eu gostava de sentir a casa quente, enroscar-me nas pernas dos adultos, ouvir conversas que eu não entendia bem e grudar a cara na máquina de costura da vovó que, fechada, lembrava uma mesinha de madeira escura, discreta, onde havia sempre um elefante de bumbum pra porta, que era para atrair dinheiro, ou sorte, ou sei lá.

Uma a uma se ia e saía. Algumas demoravam mais. Saíam com alguma meleca no cabelo, à semelhança de uma tortura de cheiro ruim. E, depois de mais outra, voltava pra dentro pra terminar o começado. Minha mãe, de cabelo liso, fez permanente um dia. Ficou bonita até. Bonita. Mas mãe a gente sempre acha bonita. Veio dela a fantástica idéia de me incluir no ritual. Decidida que eu já estava grandinha o suficiente, resolveu que a próxima vez que César fosse à casa, eu passaria pelas tesouras dele. Quando a ouvi dizer isso pela primeira vez, não atinei ao que significava. E um dia o dia chegou. César veio e foi a minha vez de me sentar no banheiro, na cadeira dele, na frente do espelho, mas não de frente, e esperar quietinha. Esperei, como mandou a mamãe, em quem eu confiava até aquele dia. Ele passava de lá pra cá e eu acompanhava com os olhinhos, sem mexer a cabeça, sem chorar. Serena, calminha. Até que ele terminou.

_ Tá bom, mãe. Não gostei. Cadê meu cabelo? – reduzido da cintura ao queixo, restou-me mechas e sobras sem graça, que não faziam voltinhas nas pontas.
_ Cortou, filha! Agora tem que esperar crescer. Ficou lindo!

Tudo bem. Cortaram meu cabelo sem minha permissão. Não tem problema. Três horas de choro depois eu estava quase recuperada:

_ Mãe... cola de novo, por favor...
_ Colar como, filha? Não tem como colar!
_ Com duréx, mãe...
_ Mas não dá, filha!
_ Dá sim... duréx gruda tudo... é você quem não quer...

Não sei, mas senti que o César ficou um pouco constrangido com meu escândalo. Não foi bem um vexame, eu sempre fui uma lady. Mas o choro foi copioso, confesso. E demorado. A vingança veio a galope. Meu pai me defendeu e mandou minha mãe não cortar mais o meu cabelo sem a permissão dele, o que não foi exatamente um alívio. A façanha se repediu e só fui mandar no meu cabelo sem a influência de todas as mulheres da família lá pelos meus 11 ou 12 anos. Um horror. Um trauma.

Mas era o final da década de oitenta. Pouco tempo depois, minha irmã viria. Depois o Pense Bem, Nintendo, Barbie que fala, internet. A vida nunca mais foi a mesma. Nem meu cabelo.

5 de junho de 2011

De verdade

_ Tenho algo pra te dizer. Eu não sou a pessoa que você pensa que eu sou.

Eles foram se encantando e se envolvendo. Depois, é claro, de alguns truques. Mas poucos. Ela, professora, se fazia passar por aluna. Entrava na sala de mochila e tomava notas, só para estar perto. O mestre compactuava, bem como a coordenadora. Funcionou, mas era chegada a hora de dizer a verdade:

_ Tenho algo pra te dizer. Eu... não... não sou a pessoa que você pensa que eu sou.
_ Ah... bom... Eu também tenho algo pra te dizer. Eu também não sou exatamente quem você pensa...
_ O quê? Como assim???
_ Não. Eu conto depois. Pode dizer o que você ia contar.
_ Não!!! Conta você agora! O quê foi?
_ É que eu... era noivo... até... bem pouco tempo.
_ Pouco tempo quanto?
_ Um mês... e pouco...
_ E ela sabe que vocês não são mais noivos?
_ Ela... sabe... mas...

E a conversa enveredou por rumos desconhecidos. O primeiro segredo, inaugural, teve que ficar para outro momento. Um de menos honestidade.

1 de junho de 2011

Sem causa aparente

Esta manhã passei diante de uma “Vidênte Conselheira, que faz e desfaz todo tipo de trabalho e traz seu amor aos seus pés”, conforme o anúncio. Especulei intimamente se me iriam pedir unha, cabelo ou cueca, caso é que só te tenho a escova de dentes, laranja, antiga, no espelho do banheiro.

Pensei quanto dinheiro se iria, quanto infortúnio de antes e durante seria ventura depois. Precisaria muito provocar a natureza do espontâneo? Pareceu-me ato de pouca fé.

Abandonei a tal “vidênte”, sem que me soubesse, a outros delírios que não os meus. Feitiço maior já foi acontecido. Desmaiou-me a razão e depressa recobrei em tropel. “Foi verão”, diziam-me, “foi verão”. Mas era abril quando você chegou. E o outono nunca mais partiu.

31 de maio de 2011

1, 2, 3 e... corta!

McCafé:

_ A senhorita está esperando alguém?
_ Não. Por quê?
_ Hoje é meu dia de sorte então...
_ Por quê seria?
_ Uma moça tão bonita se sentar ao meu lado...
_ Existem muitas moças bonitas por aí.
_ Mas você é especial.
_ O quê te faz pensar que eu sou especial?
_ ...especialmente bonita.
_ Hum. Obrigada.

E foi a última vez que nos vimos.

29 de maio de 2011

Pequeno grande desafio

_ Vem!

O outro vacilou.

_ Espera! Olha bem!

Os dois vacilaram.

_ Segura forte! Não deixa cair!

O outro apertou na mãozinha.

_ Deixa eu olhar. Pronto! Vem! Rápido, rápido, rápido, corre, corre!

E o menorzinho chegou ao outro lado da rua, com os chicletes a salvo.

_ Me dá! Vamos dividir! Dividir! Esse é meu, esse é seu...

22 de maio de 2011

Criança é besta

Não canso de me lembrar de quantas vezes fui ludibriada, enganada, torturada ou feita de boba por esse mundo mau quando eu era pequena. Hoje em dia isso ainda acontece, mas por razões maiores, mais nobres, como amor, dinheiro e as tortinhas de limão da mãe do Rakal. Só que quando eu tinha nove anos, não havia tanto discernimento no meu pouco juízo e eu me vendia por pouco:

_ Mas mãããe... Ele é feito pras crianças que não podem ter bichos em casa! Não faz sujeira, não faz barulho! Deixa, vai, mãe! Nem é tão caro...

A maravilha dos anos noventa. Depois da agenda eletrônica da Cassio, que fazia caricaturas e tinha controle remoto universal, nada era mais ultra-moderno do que o bichinho virtual. Depois dele, ficar mudando os canais da TV da vovó sem ela notar nem tinha mais tanta graça.

Eu poderia postar aqui, para vosso deleite, uma foto minha vestida de freira, segurando um crucifixo do tamanho do meu próprio tronco, com cara de poucos amigos e uma genuflexão forçada pela professora-freira atrás da câmera que me desferiu o golpe do flash, maculando minha integridade para todo o sempre.

Mas não.

Basta dizer que aquela primeira comunhão foi atormentada pelo amor de mãe. A minha ainda alertou, antes de eu sair de casa:

_ D'aquí! Deixa seu bichinho virtual comigo! Eu cuido enquanto você estiver lá!
_ Não precisa, mãe! Eu cuido! Deixa!
_ Não vai ficar mexendo nisso lá, hein?!
_ Não, não...

Pois amarrei meu bichinho naquela espécie de ceroula por baixo do hábito e lá fomos nós. Bichinho, calcinha, roupinha de freira, terço e eu, no carro do papai. Durante a cerimônia... “Ai meu Deeeuuusss... E se o bichinho estiver com fome? E se estiver com sede? E se estiver com calor? E se eu tiver que dar uma injeção? E se ele morrer enquanto eu estou aqui???”

_ Tia! Preciso ir no banheiro... He...
_ Venha.

E lá ia a chatinha comigo, até o banheiro. Eu tinha só o espaço da casinha para me mover, arrancar o bichinho do meio daquela roupa toda, alimentá-lo, colocá-lo pra estudar, dar água, recolocá-lo entre as saias, dar descarga para disfarçar e sair do banheiro com cara de alívio por nada. Isso repetido umas cinco vezes durante toda a comunhão. Afinal, era só apertar o botão, mas eu não queria que ele morresse. Amor de mãe, sabe?

2 de maio de 2011

Só de dois

"Porque os dias bonitos de outono eram curtos, mas os de verão também eram, primavera e inverno não bastavam. Precisávamos de mais dias, e noites, mais vidas. Precisávamos existir mil vezes mais para contar um ao outro sobre as proezas e misérias que encontramos. Éramos, então, pequenos diante do absurdo que rondava. Não nos restou, portanto, que a metáfora. Miramos as estrelas, já que do impossível estávamos fartos. Podíamos dizer qualquer coisa entre nós. Inclusive, e principalmente, nosso mais íntimo imponderável."

22 de abril de 2011

Sobre papelão

Quem os olhasse teria visto o mesmo que veria em mim, acarinhada que fui. Um, dois, três cavalheiros e um cachorro no fim daquela tarde, calçada, cenário público pruma cena íntima. Insistir em ser delicado e generoso num ambiente grosseiro é um ato de coragem, de fé.

_ Não, mas olha, vou te ensinar: quando você lava o cabelo, o condicionador tem que vir da metade pra baixo. Se você passa em tudo a raiz fica oleosa. Condicionador é só mais pras pontas. Agora shampoo, não. O shampoo sim, você tem que passar bem na raiz, pra lavar bem. Mas tem que enxaguar. Tira tudo, daí vem o condicionador, porque daí... – dizia o primeiro para seu modelo enquanto lhe ajeitava uma bela trança nos cachos. Mas o importante não era a trança, nem a dica, nem o cachorro ali parado, nem eu ali olhando. O importante era a feição do que recebia, obediente, a trança. Lia-se nele o que se lê no humano que tem carinho no ato de seu recebimento. Lia-se cumplicidade e gratidão. A delicadeza como a mais contundente resistência.

7 de abril de 2011

Assassinato por escrito

Ela levou a mão ao coldre pela segunda vez em três meses completos. Depois de todas as tentativas anteriores, só aquelas contavam. Era o segundo segundo em que o mirava, o momento em que ele era alvo silencioso de toda fúria vociferante que o amor assinava. Ela própria era seu alvo junto dele, a bala, o gatilho e ela. Tudo uma coisa só.

...E levou a mão ao coldre, sacou sua arma e o mirou diante de si, aquele alvo silencioso à mercê de toda a culpa. Ele era o abismo, a morte que ela queria matar.

“Bang!” – o dedo se apertou no tiro certeiro que o atingiu de raspão no dedo mindinho do pé esquerdo. Ela tinha vontade de torturar para matar. Torturar.

“Bang!” – e fez vento no cabelo.

Ele se ajeitou, célebre como indefeso, bebendo dela a razão de – “Bang!” – o furo na parede.
Naquele rosto doce ela via círculos em duas cores ao redor do pequeno ponto, bem no centro de sua visão turva.

“Bang!”
“Bang!”

Ela avançava na direção de seu alvo e queria perfurar-lhe a carne, estar em suas entranhas, apagar sua memória, história e existência. Queria ser a própria bala para vê-lo dentro, testemunhá-lo o sangue e a ferida. Curá-lo.

“Bang!”

Mas era a palavra sua munição e sua intenção um sacrilégio.

“...O amor que despertas em mim é todo teu e só teu, porque de outro só poderia ser se aquele fosse tu. Ainda depois de ti será teu o que houver, será teu o que for, serei tua. Diante de ti, vestida estarei nua, eterna espera à beira do mesmo precipício: o que leva o nome teu.”

Ela levou a mão ao coldre pela segunda vez em três meses e atirou nele todas as palavras que aquele amor enfurecia e inspirava.

“Bang!” – e o extinguiu...

O matara para a morte ao se confessar e o guardara. Dentro dela ele para sempre viveria. E agora sabia.

“Bang-bang!”

22 de março de 2011

Da falta do que fazer e outras inquietações

Em algum lugar da metrópole, do silêncio de suas planilhas, o mestre economista atende seu telefone que toca:

-Alô.
-Alô, o Pires está?
-Quem?
-O Pires.
-Não, você ligou para o número errado.
-Então, vai no armário da cozinha, olha embaixo da xícara que você acha...

“Eu pensava que esse tipo de coisa não existia mais...” – diria ele mais tarde a jornalistas de plantão, num desabafo efusivamente discreto, via e-mail. “Em tempos de facebook e twitter isso ainda existe!!!”

Foto de nenê aborrecido com trotes bobos, no momento em que o pegaram com aquela da kombi verde que amadureceu. Fonte: google.

2 de março de 2011

Com suco de maçã

Eu pediria por favor e perdão no ido das horas a quem seja ofensa meu despir pudico, irrelevante.

Eu sinto por mim esse mesmo desprezo de coisa pequena, que não se vive por si só.

Sou essa coisinha, pobre, torpe e repetida, reinventando o auto-logro, eternamente debutante.

Dos ruídos de fora me interessa nada, que mais é utopia. Mas aos barulhos de dentro, ranço, apego e desejo, merecidos, imerecidos apelos.

Minhas condolências ao que há de pior em mim.
Lamento.

É que havia solidão e saudade no espaço do vento entre nós naquele abraço. Tinha cheiro de amor-recém chegado o seu perfume no final do dia, tinha uma eu impressa na sua pupila, uma certa supremacia de intenções boas guiando eu pra você.

Foi nessa hora.
Foi essa hora que eu segurei e suspendi no alto de nossas cabeças, como luz de idéia ou lamparina discreta.

Era pra ser sigilo até de nós a clareira que se fez na impossibilidade fértil. E você, viril, fecundou de vontades meu ensejo estéril, obcecado. Nasceu um rebento que não pude conformar.
Desculpe.

A quem possa ferir esse afeto tanto, meu lamento. É que meu querer não conhece amenidades. Precisava de você. Não menos.

23 de fevereiro de 2011

Kick off

Quando ouvi a expressão pela primeira vez percebi logo que era possível. Era uma combinação de palavras perfeitamente possível, mas era inusitada e encerrava algo de não-matemático.
Não-matematizável, pareceu-me, muito embora estivéssemos tratando de probabilidades.
Eu saquei na hora que escapava dos números a problemática do vício.


Enquanto a professora ia falando, explicando claramente, significando símbolos, eu parei pra pensar naquele ponto exato, bem no princípio. E precisava de tempo para desenvolver meu raciocínio. Muito tempo. Anos. Precisei de um blog pra refletir melhor.

Comecei a pensar quando a professora Catarina disse que a aula era “sobre probabilidades com dados viciados”.

Fui mal naquela prova.
E penso até hoje.

7 de janeiro de 2011

Baseado em Fatos Reais

Marcel Jabbour, muito obrigada. Dedico esse filme a você. Meus queridos Flávio Cescon, Aline Escobar, Thompson Loiola, Bruna Moro e Thais Caringe, muito obrigada pela confiança e pela dedicação. Vocês são ótimos, lindos e talentosos. Parabéns.



Sobre outras [inserção] competências


_ ...a empresa, as funções, o universo e tudo mais...

_ ...é verdade. Mas é que o departamento... o administrativo... se trocasse...

_ ... o chefe... ótimo... viagem... área...

_ ... os papéis... competência... ele é ótimo. Deve transar mal pra caralho, mas é competente e...

_ ... se mudasse... o jurídico... o R.H....

3 de janeiro de 2011

Depois de um pastel enquanto vodca com guaraná

"Para mim, o importante é compreender. Para mim, escrever é uma questão de procurar essa compreensão, parte do processo de compreender..."
Hannah Arendt


Acusam-me de narrar trivialidades como fossem proezas.
Acato.
É que a linha é fina e eu me embaraço.
Não sei bem onde começa e onde termina o prodígio, pra ser sincera. Nem agora, lembrando aqueles chaveiros todos, chocalhos. Bigode grisalho.

Eu poderia perfeitamente dizer que não tem nada de mais e ignorar solenemente a tortura, que não seria se eu apenas dissesse. Preciso cuspir o que vi, que não me pareceu banal, porque coisa alguma, pessoa alguma, é banal.

Eu me assustaria comigo, se eu não fosse eu, em diversas ocasiões. Nessa por exemplo, quando com olhos sedentos de achados eu o perscrutava inteiro. Um senhorzinho, imaginem!, senhorzinho. Tenho amor por senhorzinhos. Admiro-lhes a força masculina inquebrantável diante da inevitável, singela, suposta fragilidade. Tive que olhá-lo inteiro e reparar no macacão azul de onde lhe pendiam incontáveis chaveirinhos.

E de chapéu. Chapéu confere um ar de integridade a um homem senhor. E a pele negra me era uma ofensa histórica, porque se me ocorreu “fosse branco?”, mas não disse. Claro. Não disse nada a ninguém que me viu pensar e entendeu ali uma negativa pruma conversa que eu já deixara há tempos. Nem sei dizer quantos tempos, mas eu já estava com os chaveiros, balançando também, pronta para ser vendida, pendurada e embalada naquele colo. Amostrada.

Fui me liquidificando enquanto ele passava, de mesa em mesa, oferecendo os chaveiros que lhe vestiam o peito. De onde tinha vindo? Teria andado muito? Teria comido? Há quanto tempo não dormia? Em quê mais trabalhava? Teria filhos? Alguém?

Acordava e se olhava no espelho, disso eu tinha certeza. Tinha certeza porque o bigode era solitário no rosto, não continuava até o queixo. Ele fazia assim e precisava de um espelho. Então me pus a imaginá-lo diante de si.

Que sonhos teria? O que acharia de seu reflexo, de seu eu, de seus talentos? Que talentos teria? Que amor? Que canção? Que paixão vil? Quais vícios? Quais compromissos?

Era trivial...
...mas é que nenhuma pessoa, nenhum chaveiro, é banal.

30 de dezembro de 2010

Para uma menina com uma dor

Levou o pra sempre dela até que tudo o que eu carreguei ficasse visível. Os sentimentos ela foi digerindo a prestações, como uma dívida que não se pode pagar de uma vez só. Devia para si mesma satisfações daquele vazio imenso e não dava conta de negociar com sua sanidade o tempo que levaria. A qualquer precipitação da saudade, respondia com conspirações infinitas. Filme, cereja, memória, batida, proposta, batata, vermelho, limão, insônia, velocímetro, mel, vidro, ninho, excesso e clave de sol. Eu, do meu perto distante, predizia seus passos incidindo que ela parasse, mas minhas preces não tinham crédito desde aquela vez que dividi meu lanche na terceira série. Alterava minha perspectiva do teto para pensar com mais possibilidades o que ela estaria fazendo às 11h11, 12h12, 00h00. Meus minutos eram dela sem que nenhum de nós dois soubesse. Eu não sabia bem o que fazer do meu tempo a menos, então não me despedia. Ficava ali, mesmerizado naquela aranha. Ela tecia sua teia e eu acompanhava cada movimento, mosquito, refeição. Minha vida era dela, daquela sujeira na janela, do ventilador, todo tempo que não tinha mais a dor da menina em minhas mãos. Comigo ela sofria, mas eu estava ali, fazendo doer e assistindo. Do meu quarto eu só assistia o passado na minha versão e crença, e não levava sorrisos em contrapartida.

Para a menina, a minha dor de presente, em sua compensação. Meus não-sorrisos todos, minha falta de inspiração. Vitral, calor, clarabóia. E meu desejo de que o pra sempre dela passe na frente do meu.

28 de dezembro de 2010

Na praia

Lindo. Uma graça. Fiquei olhando ele se movimentar com elegância na minha frente. Passava, pra lá e pra cá, desfilando seu modelo de sunga comum.
...Olhos e cabelos castanhos, sobrancelhas expressivas. Reparei que, de leve, ele estava flertando com a possibilidade de estar ali mais perto.

_ Oi.
_ Oi - ele respondeu surpreso.
_ Qual o seu nome?
_ Lucas.
_ Quantos anos você tem, Lucas?
_ Sete.
_ Quer brincar?
_ Quéééééro!

7 de dezembro de 2010

Indecifrável

É que tem hora que a gente não se diz e vem alguém e faz. Não sabendo do que eu falava, ele disse mais do que diria se soubesse, quando disse que "a distância impõe uma série de protocolos de distância. Ou você se acostuma ou não".

Ele falava do Feminino Inicial. Eu, do masculino. Mas dava na mesma.

...toda lembrança é uma saudade que foi vivida pela metade. Toda relação encerrada é como se os olhos ficassem doentes. Desaprendem a olhar. Os olhos de dentro são diferentes do de fora. Os de dentro transam com o timo a toda hora.

Não pode haver espaço para sonhos. Não existe onirismo quando há a possibilidade do tato. O máximo que se pode deixar alguém é na modorra do gostar. Nesse estado é possível provocar o susto. É como se naquele momento que antecede a passagem do sonho a memória precisasse sofrer um assalto. O amante precisar ser um ladrão de sonhos. É roubar o protagonismo de Freud.

Amor não tem projeto para futuro. Os romances mais premeditados pelos corpos acontecem pelo acaso das almas. Certas liberdades se disfarçam, na maioria das vezes, de solidão. Amor bom começa embaralhado para chegar ao final completo. O que importa numa relação é a incerteza do limite.

Sou um provençal no amor. Me rasgo, atassalho, me sangro e arranco o cascão sem pudor. Vejo as cicatrizes mais límpidas com o sangue cristalizado. Todas as minhas raízes ficam sempre à mostra porque elas adoram publicidade de dores.


Do Jornalista Bossa Nova.

4 de dezembro de 2010


22 de novembro de 2010

L.M.

Ele foi mais do que um professor. Ele ainda é meu professor. Um mestre, um exemplo, um sem par. Peguei a fila e, no meu livro que era dele, escreveu:

“À Camila, uma das inteligências mais dinâmicas e perspicazes que conheço, algumas dúvidas sobre a vida, o universo e tudo mais. Beijos.”

Acreditar eu não acredito. Mas tenho provas de que foi assim.

19 de novembro de 2010

Zurzida e após

Ainda submersa naquela aparição que era eu mesma pra mim, fantasmagórica e perdida, sentei, apática e sem vontade, no banco. Mal sabia eu que adicionaria àquela cena, mais tarde, uma musiquinha italiana, do tipo trilha-sonora-de-desenho-da-tv-cultura, instrumental. Naquela hora eu não sabia, então o leitor que acrescente o fundo, privilegiado que está pela insider. Pois bem, que era eu sem pretensão, procurando nos outros rostos o que faltava no meu. Uma certa malícia, força, volição. Eu olhava ao redor, esmilingüida e sem expressão, querendo qualquer coisa. Foi quando Deus entrou. As portas do vagão se abriram e ele veio andando, humilde, resignado, com as costas curvadas, cansado, emagrecido, senhorinho, de boné, com a barba por fazer e os cabelos sem melanina. Foi-se encaminhando pra dentro lento, mas não tão lento, apoiado numa bengalinha que era, em verdade, um guarda-chuva longo que lhe fazia às vezes de apoio. Veio vindo em minha direção e sentou-se à frente, bem perto, bem diante dos meus olhos. Ele trazia enrolado a si uma bolsa, dessas bolsas finas, como pastas, onde não cabe muita coisa. A bolsa pendia das costas e ele a ajeitou no colo. Ansioso, tirou de dentro um saco preto e, de dentro do saco, uma embalagem. Com seus dedos trêmulos e enrugados, começou a censurar o pacote de plástico. Mexeu daqui, dali, e foi me dando tempo de reparar na falta de substância. As duas pernas dele juntas davam uma minha, e eu sou magra (1,69/59). Ele fazia força, puxava com cuidadinho um fio e outro, rasgava mais um pedacinho e seguia livrando sua pequena preciosidade da capa inconveniente. Eu enxergava algo prateado, mas não identificava o que era. Minha estação chegou e levantei, bem a tempo de vê-lo tirando de dentro da bolsa azul-escuro um rádio de pilha. Ele estava assim, todo orgulhoso de si, conectando o fone no radinho, quando parti e deixei meu Deus à mercê de sua felicidade simples. No próximo, naquela dignidade infinita que eu protegeria com a minha própria, achei um Deus que me lembrou por que ainda valia à pena viver.

15 de novembro de 2010

O mundo é da calça jeans

“O tamanco é menor do que o pé dela” – pareceu pra mim violento e doce o fato de que uma negra dona de tal corpulência se equilibrasse em tamancos tão menores. Não eram um só número menor. Deviam ser uns dois ou três, porque parte alguma do pé se encaixava bem ali. Era violenta aquela constatação, porque eu mesma já havia cedido meus quadris à grama, por não agüentar meu próprio peso em sapatos fofos, enquanto ela, ela, continuava firmemente auto-sustentada. Eram pés fortes, descendentes de panturrilhas fortes. Mas a feição beirava de perto a serenidade, não fosse pela excitação de estar naquele show, ouvindo Cash na voz da Norah. Era extasiante, nós duas sabíamos. E por isso era doce. Porque as unhas dela estavam pintadas do mesmo vermelho que o vestido do palco. Estavam bem-feitas, enfeitando a ponta dos tamancos cuja antiga dona deveria ser menor. Eu ali, entre pés, pernas e bundas, ouvi dizer que “the Sun is shining now... it’s shinig on” us.