Notável comunicador, Magno Nunes é também um profícuo pensador por baixo de sua máscara. Sensível improvável, ele se distingue entre os bons. “Meu personagem é um homem mau. Eu sou mau que nem o pica-pau.” Ao falar de como as pessoas escolhem suas máscaras sociais desde muito cedo acaba, sem querer, delatando-se. Seu espírito afina-se com o crème de la crème da literatura brasileira. Feminina, ainda por cima. Clarice Lispector também tem sua teoria sobre as máscaras sociais e esse, inclusive, é tema que a interessa na edificação exploratória de suas múltiplas personas representadas.
Na busca de uma imagem impositiva (dominante, no vocabulário nietzschiano) Magno parece ter tido sucesso. Eleito o mais macho entre os machos do 3B (sala de graduação), ele explica: “Não tenho mestre. Que mestre o caramba. Eu não me inspiro em ninguém.” Mas há quem se inspire nele. Eu, por exemplo. Aprendi a guiar um cachorro teimoso com ele. Delicada e mulherzinha, levei bronca: “Assim, Camila. Puxa a coleira e obriga ele a parar. Faz ele sentar. Fala firme. Se você deixar ele te leva!” Aprendi. E aprendi outras coisas também.
“O amor? Ah... o amor existe. Tá por aí, mas existe.” Nada mais platônico do que pensar Eros, o mensageiro entre mortais e imortais, redundando no que existe, por aí, por lá, em todos os lugares. Nele, inclusive. Aprendi o amor com ele, amável inconfesso, Docinho, Ursinho entre as amigas, gentil por excelência, galante, muito galante, muito muito galante (mulheres, cuidado!). Mas ele insiste: “Sou mau à minha maneira.” Sim, pode ser que sim. Ríspido, indiscreto, agressivo eventualmente. E extremamente leal aos amigos.
Sagaz, Magno atropela com seu senso de humor por vezes exasperante, tanto quanto a politicagem, refletida às últimas consequências: “Não existe política. Não temos partidos de direita e de esquerda. É tudo a mesma coisa. Assim é fácil. Eu também quero entrar na política.” Mas não é político o homem que cita com admiração: Wander Wildner. O cantor punk brega é ícone da música nacional no estilo que ele mesmo criou, reconhecido internacionalmente. “Taí, 20 anos de carreira, vivendo do jeito que ele gosta, só fazendo o que ele quer, tocando no Bar B a dez reais. Do nada acabar a banda e criar um estilo não é pra qualquer um, não. Tem que ter personalidade.”
Personalidade. Sua aposta é no alternativo, na contramão, no descaminho. Não bebe, não fuma, não usa drogas. Hábitos límpidos que denotam conservadorismo. Mas é subversivo no que se refere às atividades que assume. Aboliu cartão de ponto da vida profissional. Após algumas experiências frustrantes em empresas de comunicação subdesenvolvidas, Magno olha apenas para o que acolhe sua criatividade. Mexer com o imaginário das pessoas é, no fundo, o desejo para si próprio de expansão e liberdade. À época da gravação ele ainda não estava nas rádios. Hoje está. Seu talento justifica a recusa dos ambientes estreitos. Consultar seus arquivos é um prazer.





