19 de julho de 2012

Imorrível


Agora é tarde.
Não há retorno.

Muito agora já te conheço
cientificamente
tuas palavras de predileção
as que te custam mais caro
as que não têm preço.

Sei das tuas mãos o tamanho
em relação às minhas
o que é teu lampejo
alegria
de teus furacões a força
e a mania.

Tenho em lembrança teu
grande medo
que em segredo
até de ti me contaste
teu pequeno grande orgulho
vestido de leãozinho
tuas chantagens emocionais
contigo mesmo.

Sei teus olhos em variados graus
de iluminação e sentimento
teu exílio, tua fome
as performances da fanfarrice
teus artigos principais.

Lamentos, regressos, progressos
listados na modorra
esperando os abismos
cantando presenças
em fila indiana.
Até eu sou fantasma
nessas minhas memórias
que desbotei a ponto de lá
parecer mais viva.

Sei tudo e não é preciso
saber por onde andas.
Qualquer coisa vai
fechando em si o cerco
da sapiência
o elo indissolúvel
por resistência
do teu orgulho.
É feia a ferida
e cheira mal.
Mas cura.

O elo, no entanto,
não sei se tem jeito.
Há de responder aos
sucessivos testes
do tempo.

7 de julho de 2012

Às vezes as pessoas procuram por milagres. Às vezes os milagres procuram por pessoas.

4 de julho de 2012

Sobre o peixe




Eu posso explicar. Meu peixe QUIS morrer.

Como eu sei? Ora... esse é o tipo de coisa que se percebe convivendo com alguém. Uma certa melancolia, tendência suicida, a fome que não quer ser satisfeita, a dor que se alimenta.

Ele quis.

Em compensação, Vítor Massao tirou uma foto do peixe e o eternizou até mais bonito do que era na verdade.

Meu peixe era selvagem. Não se importou com meus sentimentos e morreu.

Dia desses, conversando com o poeta, refleti sobre essa conduta:

“A selvageria me parece ser alada. Terrestre quando quer, escapa pelos altos fazendo de qualquer céu a saída. Se o redor se estreitou, a tática é buraco, mergulho, vôo. Selvageria pra mim se parece com velocidade e baixa inclinação à redenção. É uma disposição infinita e violenta à lealdade consigo mesmo, ainda que contradiga compromissos, verdades, virtudes e sentimentos alheios.

Eu, por exemplo, considero-me um ser selvagem. E é uma pena que reconheçam nisso algo a temer. Não é. O selvagem não é duro, pelo contrário. É mole, afável, mas vigoroso. De um selvagem jamais se verá atitudes medianas, meramente políticas, preocupadas com a polidez. O selvagem fere, mas ninguém mais do que ele está aberto ao sofrimento. 

E não é assim, poeta, que só estando aberto ao sofrimento estamos verdadeiramente postos a amar?

O peito do selvagem se oferece como alvo todo o tempo. A dor selvageriza. Cavalgar, voar, mergulhar, livrar-se da lança sabendo que nunca completamente. Empreender o esforço perdido de se poupar, amar um pouco menos, conter-se um pouco mais.”



1 de julho de 2012

Passado


Tem hora que chega
Mastiga memória tem hora
Que acha ser gente até ver
Se remói é só memória

28 de junho de 2012

Registro


(((silêncio)))
(((silêncio)))

Vozes no escritório:


_ Esse já dá pra montar, porque esse não tem recomendação.
_ É. O pequenininho já pode tirar, né?
_ Mas eu já batia...
_ Essa colorida aí, do grande, precisa mandar pra ela...
_ É... vai tirando...
_ Depois tira.
_ Não, é que vai bater as meninas.
_ Ah, por isso cê quer que mande.
_ É. Não, mas acho que o capítulo dois são essas páginas aqui... 47, 48, 49, essa daqui não tem...
_ Tô tirando só dessas mesmo.
_ Então tá bom.
_ Cê quer que eu deixe na sua mesa?
_ Cê deixa na minha mesa?
_ Eu deixo na sua mesa.
_ Então tá bom.


(((silêncio)))
(((silêncio)))

O cacto indiferente colhe impressões em 360 graus. 

Barulho de ônibus e sirenes lá fora. 
Som de teclas.
Estas.

25 de junho de 2012

Declínio


Pai, mãe, irmã e anônimos, 

Sei que disse que faria e agora falo que assumo que disse que ia fazer. Mas não quero mais. A vida é assim.

Estive pensando com meus botões e me veio à cabeça um episódio terrível, quando uma carta privada a um rapazinho repercutiu em orkuts e blogs alheios sem que a autora tivesse conhecimento. Para confirmar o episódio, bastaria lançar “Camila Caringe” + “babacossauro” no Google. De maneira que resolvi não postar aqui o texto Do Belo na íntegra.

Mas não há razão para pânico. Qualquer um poderá acessá-lo sem custos. Basta manifestar intenção.

Envio por e-mail. 

21 de junho de 2012

Releituras [do Belo]


FEDRO: [...] Para eles [os amantes], tudo é pretexto de se sentirem magoados, pois acham sempre que todos só pensam em prejudicá-los. Daí lhes nasce procurarem de toda a forma impedir que seus amados se aproximem de outras pessoas, de medo que os ricos os sobrepujem com o dinheiro, e com sua inteligência façam os instruídos melhor figura do que eles, com o que se põem de sobreaviso contra quem revela alguma superioridade a seu respeito. [...] Os que alcançam o seu intento sem serem apaixonados, graças exclusivamente ao mérito próprio, jamais se mostram enciumados dos que convivem com o seu amigo; pelo contrário: odiarão, de preferência, os que te evitam, por imaginarem que o fazem por desprezo, enquanto só poderás auferir vantagens da convivência com os outros. Por tudo isso, é mais provável que de semelhante comércio nasça afeição, não inimizade. Ademais, é comum entre os amantes cobiçarem apenas o corpo dos mancebos, sem lhes conhecer o caráter e os hábitos, de forma que não se pode ter certeza de que semelhante ligação sobreviva ao desejo.

NINFA: Nessa hora fiz uma careta, mas Sócrates interrompeu meu movimento com o seu. Virou a cabeça bem na direção em que eu estava recostada, como que para me ver. Pareceu, por um instante, olhar-me direto nos olhos diante da constatação que tivemos ambos simultaneamente. Lísias é um ressentido, coitado. Certamente algum mancebo se lhe deixou e o abandono não lhe entra na cabeça por mais que o repense obsessivamente. Foi isso. Nivelar por baixo o senhor, Eros, assim, como desejo efêmero e vulgar, dado às promiscuidades das sensações, seco, estéril, cheirando a queimado, esturricado? Isso é coisa de quem teve sua febre digerida pelo tempo em solidão.

FEDRO: [...] Digo mais:

NINFA: E não cansaste ainda de proferir barbáries orgulhoso de teu Lísias, caro Fedro?

FEDRO: Para o teu próprio aperfeiçoamento, é preferível ouvires-me a atenderes ao teu apaixonado. Pois este, contra a razão, elogia o que fizeres ou falares, ou pelo receio de desagradar-te, seja porque a paixão lhe falseie o julgamento. Porque o amor se manifesta do seguinte modo: o menor contratempo, que para muita gente nem seria digno de menção, aos olhos do amante infeliz é desgraça inominável, como, por outro lado, força os amantes venturosos a gastar elogios com o que não tem valor. Donde se colhe que os amantes são mais dignos de piedade do que de inveja. Por isso, se me escutares, em primeiro lugar não só não procurarei ao teu lado apenas o prazer transitório, como cuidarei dos teus futuros interesses.

NINFA: Futuro??? Que futuro um ser assim arrefecido e apagado teria ao lado de um Lísias??? Fiquei revoltada nessa hora e acho mesmo que cheguei a dizer algo como “mata ele, Sócrates!”. Ainda bem que não me ouvem. Digo, é certo que entre apaixonados passam, pela mesma via, de um lado e de outro, elogios que não são devidos ou não são de todo sinceros ou não cabem ou simplesmente não traduzem a realidade. Mas qual palavra é capaz de traduzir o fato? Palavra é só versão. Ademais, que mal tem um elogiozinho inoportuno? Não mata, não fere conviva. Eu, pelo menos, até hoje não vi caso. Agora, essa parte aí do quanto suscetível é um apaixonado, nisso tenho de concordar. Já vi queridos rasgarem-se em pranto sofrido pelas menores minimalidades. Um olhar que não teve na hora em que julgara merecer, um tom de voz ligeiramente inábil, um deslize ínfimo qualquer. Fiquei até com dó daquele que se explicava sem cometer delito. Antes tivesse pecado para justificar o escândalo. Não tendo, a coisa se torna bastante dramática. São capazes de discutir a cerca do mesmo tema por horas, dias, já vi meses e anos em desgaste, até lindos pratos gregos voando contra a parede, contra o chão, contra o peito do parceiro acusado de ser o machucador. Isso tudo não me era novidade. Mas, sabe? Não havíamos chegado ainda àquela parte do que os motiva a submeterem-se às tais agruras. Eu, Ninfa, não tenho outra maneira de conhecer esses episódios senão por meio da observação. Meu Eros, veja, é ideia que mora no Bem e no Belo. É ordem, é cosmos. Eu, sendo Ninfa, não promovo derivações para os descaminhos...

FEDRO: [...] E agora, Sócrates, que tal achaste o discurso?

NINFA: Horrendo.

FEDRO: Não é admirável sob todos os aspectos, mas principalmente quanto às expressões?

NINFA: Não. Não é admirável. Quanto ao aspecto? Asqueroso.

SÓCRATES: É demoníaco, meu caro; fiquei fora de mim.

NINFA: Ah, eu também, viu? Fiquei fora de mim. Quase interrompi a vida de Fedro para que não continuasse esse delírio herege.



Livre criação sobre Fedro, Platão, em tradução de Carlos Alberto Nunes

19 de junho de 2012

Generosidade gera

...generosidade.

Ele me pediu um texto.
Eu, atrasada até pra isso, depois da última curva do último minuto, mandei meu trechinho simplório. Ele transformou em parceria. Coisa de amigo.



O moleco agora viaja com nós dois ali.
Óh pra ver como é verdade: clique aqui

Aproveitando o ensejo das boas novas, tchô contar uma coisa muito importante: a colega da frente entrevistou hoje o Alexandre Navarro, especialista em fim de mundo.
O sujeito é historiador, mestre em arqueologia pela USP e doutor em antropologia pela UNAM, México, com estágio em Arqueologia da Paisagem no Instituto de Estudios Gallegos Padre Sarmiento, na Espanha. Especialista na cultura maia, participou de escavações arqueológicas nos sítios de Chichén Itzá, Calakmul e Ilha Cerritos (porto de Chichén Itzá). Desenvolve pesquisa de pós-doutoramento sobre a cultura maia no Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp.
Segundo Alexandre, o calendário maia só indica para 2012 um fim de ciclo corriqueiro de 52 anos, não o fim do mundo.

Tá bom?
Isso significa que vou ter realmente que entregar meus trabalhos de fim de semestre esta semana e desistir de dormir até lá.

Sejam pacientes, que passada a tormenta eu coloco um PDF maior batuta aqui pra quem quiser ler uma nova versão do Fedro, com a presença de uma Ninfa intrometida no diálogo.

18 de junho de 2012

life is crude

15 de junho de 2012

Variável imprevista


Passaram um tempo eles dois pensando em tudo. Horário de saída, de chegada, hábitos, belezura de menina, mais bonita a casa, certeza com muito dinheiro dentro. A tensão no carro e o teu cheiro de suor.

_ É teu.
O jornal no chão, dois dados vermelhos pendendo por detrás de espelhinho junto com uma fitinha de Santo Expedito e o símbolo do feng shui. Fazia mais de ano não lavava o carro.
_ E eu não sei? Hum. Se vê!
E a espera contando tempo de mil anos.
Era pouca a chance, tinham de ser rápidos, seguros, cada um no lugar de combinação, freio, segredo, a planta na mão, plano perfeito. Não tinha como sair errado.
Do outro lado da rua a viram chegar, olho baixo, contando passo, cabelo liso escorrido, mechinha no rosto a menina tira charmosa, ganha dez da plateia que quase desiste do empreendimento. Um deles resolve rezar, pedindo a proteção de Deus e do anjo para o que vai fazer, com mocinha rica nunca tinha mexido e se não desse trabalho extra estranharia. Checou a medalhinha de uma Nossa Senhora sabe-se lá do quê no peito, colocou pra dentro, gola acertada, mão no retrovisor e a menina vindo, o pezinho róseo na sandalinha delicada, devia ser um amor a belezinha.
O outro perguntou se era mesmo, porque aquela roupa nunca tinha visto, não conhecia, era mesmo? Era. Ela mesma. Não ia ser sacrifício tratar bem tão bonita, que uma semana ou duas o caso já estaria resolvido, ela devolvida, um pouquinho do cabelo cortado pra assustar a família e talvez unha, que é perto do dedo e faz mais efeito de baque, fica aí material pra DNA.
A menina com caderno na mão e vindo, os fios claros, quase louros, a mão delicada ajeita atrás da orelha, desavisada, um passo depois outro já na direção da porta quando salta um desconhecido à sua frente e anuncia seu sequestro.
A menina pálida e sem voz não consegue avisar, não consegue dizer, só espera entrar no carro pra desmaiar. Semi-acordada semi-não, olha pra cara dos cretinos incrédulos, a carteira dela na mão, menina rica atestada inútil. Tiveram mesmo que matar a empregadinha.

13 de junho de 2012

Sedução

É promíscuo o sabor
Os cheiros das gentes
As gargantas, cantos
As vozes das bocas quentes 

11 de junho de 2012

Caros amigos,


hoje venho dizer que tanto faz.
Devido o elevado número de pessoas que levam demasiado em conta grandissíssimas irrelevâncias, sinto a necessidade de comunicar-lhes isso.

Tanto faz os livros que li, de qual qualidade e menos ainda em que quantidade. Não importa com quantos homens me relacionei, pra onde viajei, se casei ou comprei uma bicicleta. A verdade é que o caminho que fiz para chegar a ser eu é absolutamente dispensável conhecer. As curiosidades intimistas, caso satisfeitas, não merecem mudar impressões.

Basta saber o seguinte: estamos todos na direção do que não conhecemos, mas intuímos. “O importante é estar com quem se gosta” e outros clichês excessivamente disseminados. A sabedoria popular, dois litros de água por dia e a Ave-Maria – esta última só pro caso de a razão não dar conta, o que parece suceder com freqüência. Já o sentido é coisa de quem se entende, de quem se achou. O resto é sintoma de nossa humana ignorância.

Boa sorte a todos nós.

8 de junho de 2012

Hora deserta


A métrica qual importa

Doçura vaziez à porta
Esperando só dar vazão.

Quisera pintar todo dia
Paisagens claras na tua janela
Delícias, primaveras
Tudo o que te interessa
Estivesse à mão
E tudo à mão te interessasse
Assim não precisasse
Olhar pra fora
Procurar o vão.

6 de junho de 2012

Ligeiramente conhecidos


Entrou no metrô e olhou a garota: “conheço ela de algum lugar... de algum lugar... de onde eu conheço essa menina...”

Porta abria, porta fechava, a garota não saía e ele ali pensando: “trabalho? Não... faculdade também não... Será que é do bairro? Da rua? Não... amiga de um amigo também não... Balada?”

(((estalo)))

“Ah! A gente transou...”


3 de junho de 2012

(in)oportunidades


Não foi nem mais nem menos aquele dia dela que... 


_ Não foi.

...Mais ou menos. Talvez por isso a porta aberta significasse uma redenção.

_ Isso... uma espécie de misericórdia, santo Deus, a coisa divina que tinha finalmente nome!

A porta de um edifício?

_ Não, não, não! A senhora segurando a porta pra mim! Isso é preâmbulo de milagre! Senhora (senhora!) segurando a porta do prédio para uma jovem, a senhora pela senhorita!

...Um verdadeiro gesto de gentileza. Que não significava necessariamente coisa alguma além de senso de civilidade e afeição pelas coisas do mundo. As pessoas são coisas do mundo. A menina veio vindo do outro lado da rua e a senhora olhou. Por se encaminhar para a calçada próxima e embicando as pontas das botas bem pro portão – a cabeça ligeiramente caída, cansada de ver carro ser carro, avião sendo avião – pensou que não faria mal segurar o portão mais um pouquinho. Foi só isso.

_ E as sacolas? As sacolas!

Ah... tem isso também. A senhora estava com suas sacolas de supermercado.

_ E que tipo de senhora segura um portão para uma senhorita desconhecida, ainda que esteja segurando sozinha suas sacolas de mercado? Trata-se de um caso verdadeiramente raro. Não é possível que se desperdice.

Eu teria dito para não fazer isso. Eu teria. Se pudesse dizer. Pois não dizer, foi-se ela portão adentro, sorrindo satisfeita, agradecendo a atenção da senhorinha. Deu boa tarde, deu obrigada e a previsão do tempo medianamente estimada:

_ Vai chover... 

_ É... vai sim...

Não choveu, mas nenhuma das duas se lembrou desse converseio cinco minutos depois. Entre papos interessantíssimos o elevador veio e as levou. Primeiro a senhora: 8. E olhou pra mocinha.

_ O seu é...

Como quem lembrasse. Não podia, claro, lembrar do que nunca soube. A moça olhou bem até o décimo quinto e achou difícil escolher um número só sabendo que ia errar. Fosse mais de uma a chance teria a crença tola de poder tentar outra vez antes que já fosse indiscrição demais. Pensou na cobertura. Achou prepotência. Mas gostava dos altos:

_ 14, por favor. Obrigada.

E fez a velhinha feliz de novo, que adorava servir.

31 de maio de 2012

Histórias do mosteiro - Parte II


“...o belo como sentido não-subjetivo...”

“...tomar a aparência por essência é um dos tipos de falsidade...”

“...quem pergunta sai da ignorância...”

“...dualidades platônicas...”

“...o belo em si provoca um estado de alma...”

“...reminiscências do divino...”

“...educar é violentar também...”


Saí da aula um pouco pisando nas nuvens, sem perceber o chão, com a cabeça cheia das belas paisagens antigas e...

...me deparo com uma barata gigante vindo na minha direção.

Argh!

O mundo é um desencanto, hein?

30 de maio de 2012

Histórias do mosteiro – Parte I


É curioso ver seus monges silenciosos transitarem entre as paredes sangrentas de tijolos expostos, elegância esgueirante e taciturna preenchendo os corredores, misturando-se aos móveis lentos.

Aproximei-me afoita e desajeitada como é o caso quase sempre, em cima da hora, correndo entrada e degraus acima. Foi quando estanquei. Meus passos pesados de gente atrasada, no entanto, não o perturbaram. Seguiu cantando e eu, subitamente aquietada pela serenidade da voz masculina, reduzi cautelosa de não desarticular a paz alheia. Entre um andar e outro, encostei discreta na esquina roubando tempo de onde não tinha e fiquei contemplando. A noite ia caindo e era como se ele a saudasse, despejando graça no ar enquanto expirava em tons gregorianos. As paredes espessas como se fosse ali tudo igreja favoreciam o espalhamento em ondas. Ele cantava pra fora da janela, mas era dentro que reverberava seu canto medieval.

Dentro de mim.


28 de maio de 2012

Do extremo mau gosto


Não conhecia o vídeo e raramente vi esse programa, mas conheço pessoas que o assistem frequentemente.

Sugiro ao canal responsável que a atriz que faz o papel de repórter seja deslocada para participações que melhor se adequariam ao seu estilo clown.

A entrevista é de todo humilhante e não pude ver até o final.
Como jornalista, sinto-me ferida na minha integridade.
Como ser humano, estou ofendida pelo tratamento que dispensaram ao menino.
Como cidadã, fui ultrajada pelo discurso social ali veiculado.

Espero, honestamente, que esse e outros programas promotores do mau gosto e da desinformação sejam afetados por medidas judiciais e que este caso sirva de exemplo.

A imprensa que estupra
ELIANE BRUM
(clique)

27 de maio de 2012

Da série: pesadelos vivos


Sonhei que andava por dentro de um grande casarão antigo, cujo chão e teto eu os reconhecia de madeira enegrecida e rangenta, apesar da escuridão do lugar.
Eu caminhava como que por becos, dando num e noutro canto. Entre os aposentos via cenas de umas eus que não eram eu, como pequenos recortes de vida subitamente iluminados por uma luz focal que se movia. Era uma eu entre pessoas, outra eu entre cigarros, mais uma em um show em que nunca estive e ainda eu numas roupas esquisitas.
Embora tenha flagrado meus duplos em comportamentos erráticos, não era isso o que me perturbava. Mas todas elas tinham outra cor de pele, cabelo, outro tônus. Era o conflito dos aspectos o que me foi nauseando.
Durante o percurso procurei lembrar de alguma grande referência de mim e fui então procurar meu antigo amigo entre os cômodos envelhecidos. O encontrei, num canto, onde não queria ser encontrado. Ficou bravo, mandou-me sair. Porque demorei, foi-se ele embora fugido e eu atrás que podia, mas senti que não devia, acompanhá-lo.
Não fui, mas caí então em profundo desespero. Chorei o choro que se pode no sonho, copioso, dolorido, querendo acordar sem saber que era possível.
Andei por trechos debaixo de terra, túneis, desertos ocos, cavernas dos meus interiores.
Parei quando encontrei a imensa biblioteca bem iluminada. Escolhi uma estante e, de um salto, coloquei-me no alto, olhando o mar de livros de cima, da grande sensação do vazio.
Uma mulher de túnica e amor materno surgiu à mesma altura à esquerda tentando me acalmar sem sucesso.
Percebi uma viga de metal entre paredes formando uma linha rente ao teto. Pude alcançá-la com as mãos. A voz da senhora não me chegava, mas eu queria escutá-la entre os soluços, queria ter alguém a quem dar razão.
Aproximei a cabeça da viga e encaixei. A mulher fazia que não e eu vacilei.
Um pouco acidental, um pouco nutrida pelo desespero, caí da estante.
O corpo baixou, a cabeça permaneceu.
Morrer não dói, mas na escuridão continuei chorando até às 14h00 do sol entrando pela fresta da janela e o telefone tocando.

25 de maio de 2012

Querença


Ao entrar no vagão ouvi logo a sua voz. Procurei e de propósito me instalei ali bem perto. Em seguida seu companheiro de banco se levantou e fiquei com o acesso livre. Mal conseguia conter o riso, mas não por achar muito cômico. Era simplesmente gracioso vê-lo entoar sem se poupar aqueles cânticos de louvor pro Deus. 

O senhorzinho ia pigarreando e cantando e seguindo a canção, selecionando uma e outra com o livrinho aberto nas mãos. Não sei se era um gesto de desapego – tipo, “canto mesmo, e daí?” –, um gesto de altruísmo – “vejam que canções mais lindas vocês têm que conhecer!” – ou um gesto de imensa inocência despida de mais intenções, aquele pequeno algo que faz de um ser extremamente cativante no cuidado e na certeza que nos desperta: qualquer coisa poderia quebrá-lo nesse momento de harmonia.

Nós, do vagão, trocávamos olhares cúmplices de proteção. Concordamos todos. A vida, minha gente, a vida é uma graça.

24 de maio de 2012

Preocupante


Uma amiga minha recebeu um e-mail uma vez que começava assim:

"Eu não tenho certeza sobre a autoria da frase, pois não li em nenhuma publicação oficial, mas acho que foi Schopenhauer quem disse que “As mulheres muito atraentes e os homens muito inteligentes estão fadados a viver no isolamento”. Se deixarmos de lado o preconceito da frase e ampliarmos seu conceito, chegaremos a uma singular constatação: a pessoa muito inteligente e ao mesmo tempo muito atraente tem um problema tenso a ser resolvido... Deus te ajude, menina."

Pronto. Foram 8 linhazinhas e ela já estava pronta para queimar no fogo eterno do mármore do inferno da solidão.
...Sozinha, ainda por cima.
Já estava amaldiçoada, mas não satisfeito, o sujeito ainda arrematou:

"'A beleza é uma tirania de curta duração.' (essa eu acho que é de Sócrates)"

Está aí. Aí o típico exemplo de como um elogio pode ser a coisa mais ofensiva a ser dita. Antes a rejeição gratuita, por desafinidades entre orixás ou querelas de vidas passadas, do que aquela desencadeada por supostas virtudes. 

A menina, essa daí, minha amiga, que recebeu o e-mail, tadinha... Nunca mais foi vista.


21 de maio de 2012

Das mãos de Moira


O que escreveu Hilda Hilst não pode ter sido escrito por gente, vida, humano, coisa que morre. Foi um Deus que em conflito com outro viu varridos seus privilégios e ficou sem escolha: usar a natureza pequena daquele que fede para transportar seu grito, seu gozo. Hilda deixou então de apodrecer. Mudou a rota que seguimos todos nós em procissão. Ela se salvou da barca, não sei se em firme propósito. Não foi preciso lhe dedicar glória. Não é necessária prece à Hilda. A poetisa ganhou de si o céu quando serviu sua axila de pêlos e de carne à vaidade do soberbo divo, cambaleante de amor e asco e entendimento, afogado no pranto de si e pena, que cólera contamina e sua escolhida se viu sofrer.

Deus que pisa terra se deixa mostrar e respira há de fazer retorno sendo outro. A que tinha cabelos, no entanto, pagou o preço alto da luminescência: a dor da lucidez como de ossos em expansão até a velhice. Depois subiu. Está sentada à direita do pai, todo-poderoso, de onde não há de vir julgar os vivos e os mortos (e nós, os maus escritores).

**

...Foi quando encontrei subitamente
Tudo aquilo queria dizer-te
Meu senhor, con-sorte inexistente:


                      V

O Nunca Mais não é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes
De perpetuar a Duração.
O Nunca Mais é só meia-verdade:
Como se visses a ave entre a folhagem
E ao mesmo tempo não.
(E antevisses
Contentamento e morte na paisagem).

O Nunca Mais é de planície e fendas.
É de abismos e arroios.
É de perpetuidade no que pensas efêmero
E breve e pequenino
No que sentes eterno.

Nem é corvo ou poema o Nunca Mais.

H.H.


16 de maio de 2012

No pulo

Eu estava apenas fazendo a minha parte, cumprindo meu papel de irmã mais velha, contando as proezas da vida de antes do nascimento dela.

_ Esse aniversário foi muito legal. Foi o melhor! Eu lembro que a mamãe comprou várias coisas legais para fazer as lembrancinhas. Daí ela chegou do trabalho com um monte de sacolas e ficou até tarde preparando as coisas para o dia seguinte. Eu não agüentei ver e acabei dormindo. No dia seguinte, quando acordei, tinha uma sacolona enorme cheia de lembrancinhas de aniversário embrulhadinhas. Quero dizer, era uma sacolona enorme pra mim, porque eu só tinha quatro anos. Mas devia ser assim, tipo uma sacola da Besni, que era da minha altura. Naquele dia os meninos mais velhos até deixaram eu ser a primeira da fila, só porque eu era a aniversariante. Todo mundo da escola adorou a festa que a mamãe fez. Meu aniversário foi comemorado o resto do ano! Foi incrível e...


_ Eles comemoraram seu aniversário o resto do ano?


_ Sim! Bom... é... Eu faço aniversário dia 18 de dezembro, né? Uma semana depois e já é o Natal, daí é férias da escola. Meu aniversário deve ter acontecido na última semana de aula. Logo, foi comemorado o resto do ano, que deve ter dado, aí, mais ou menos, uma semana, nem isso...


_ Ah...


15 de maio de 2012

Equívoco


Conheci um
Homem morto.

Aos 16 anos

Foi-se enamorar
De uma menina
E a deixou ir
Com a vida.
Arrependeu-se.
Encontrei-o aos 
50 e poucos
Casado com outra
E algumas filhas
Semanas depois 
Do mal sucedido 
Suicídio à 
Mão armada.

Já estava morto

No entanto
De longa data.

13 de maio de 2012

Nos bastidores da peça

Quatro horas e meia. Parece que quatro horas e meia é o máximo que duas pessoas podem dormir juntas, acordar juntas, dormir e acordar, dormir e acordar e não trocar palavra. Quando me ouviu falar ao telefone que “achava” que tinha chegado à cidade porque “aquilo ali” não parecia mais estrada, o garoto da poltrona 32 resolveu intervir: 

_ É sim. Cê tá na Mini. Já chegou.

[olha, ele fala] 

_ Ah, obrigada!

9 de maio de 2012

Delírio pequeno-semiótico


É assim, vou tentar explicar:

Um pensamento, embora tenha um princípio e um fim, é um contínuo de fronteiras indistintas. Todo pensamento é, em si, baseado num pensamento anterior e desencadeará um pensamento posterior. Está fora do tempo e insubordinado a ele.


Ops! Rápido demais. Então vamos mais devagar.


Assim como uma fotografia congela um momento, um pensamento também o faz. É possível olhar uma fotografia que estampa um rosto inalterado depois de muitas décadas. Da mesma maneira, se pensarmos em um objeto hoje e o pensarmos daqui a vinte anos, o objeto não terá envelhecido, não terá caído em ruínas nem terá sido afetado pela passagem do tempo sentida no corpo que o pensa. [Heidegger] Assim é com qualquer idéia, um sonho, um desejo. É possível acessá-los muitos anos depois sem que estes tenham sido tocados pela ação do tempo.

E é também o que acontece com os sentimentos. [Peirce]

“...assim, se este sentimento está presente durante um lapso de tempo, ele está completamente e igualmente presente em qualquer momento daquele tempo.” [Collected Papers, 1.306]

É possível acessar um sentimento depois de muitos anos de sua constatação e perceber, com surpresa, que ainda está intacto e vigora em sua talidade (suchness). Mas e quando o sentimento sucumbe? E mais: o que houve quando ele sucumbe porque foi reiteradamente desgastado por eventos positivos, ou seja, momentos factuais, conectados à temporalidade?

“Cara Camila,


meu namorado me traiu e o amor morreu.
A traição aconteceu no tempo e meu amor foi afetado.
Acho que você está louca.
Estimo as melhoras.

Com consideração.

Sua leitora.”

Aí vai a teoria:

O sentimento, que não pode ser impensado, mas nascido do fluxo contínuo entre sensação e pensamento, teve um começo. Esse ponto inicial, no entanto, nunca será precisamente localizado, apesar de ser possível supor sua descoberta. É possível dizer, não sem esforço, em qual momento percebemos que amamos, mas não é possível dizer com precisão em qual momento o amor principiou em nós. Ele se deu em fluxo, foi se desenvolvendo. O sentimento não é pontual. Pois bem. Da mesma forma que relações de outra natureza se transformam, por exemplo, numa relação amorosa, uma relação amorosa pode, portanto, se transformar numa relação de outra natureza.

Algo que começou com um sentimento de simpatia pode se transformar em amor. Não é impossível, inclusive, que um sentimento de antipatia se transforme em amor. Não é difícil perceber que uma grande mágoa oculta, na verdade, um amor frustrado ou reprimido. A decepção só ocorre quando houve expectativa. É fácil ver como o sentimento transita no fluxo de nossas continuidades, a saber, pensamentos e sensações.


O sentimento que se deixou abater por fatos ocorridos no tempo, na verdade, foi abatido por elementos de fora do tempo desencadeados por um momento pontual, localizável. [Caringe] Então, veja: seu namorado te traiu e isso fez com que você deixasse de o amar. Perfeito. Mas não creio que isso se deu no espaço de um clicar no interruptor. A traição (fato positivo) ocorreu em data e hora específicas. Ele desencadeou uma sensação terrível, que foi pensada. O pensamento, as obsessivas lembranças dos momentos abruptamente interrompidos incorreram em sensações de frustração e dor. A dor vai aparecer do lado de fora [Ibri], afetar humor, ânimo, apetite, sono. Será visível. E, parando para se observar, você vai refletir sobre ela e procurar encontrar seus erros e soluções para o sofrimento. A reflexão trará novos sentimentos, que trará novos pensamentos, que trará novos sentimentos, que trará novos pens... Isso. Assim vai. De maneira que o sentimento, que está fora do tempo, vai sendo depurado, já que sua função estará sob forte e contínuo questionamento. O que está fora do tempo, portanto, só será afetado por outros elementos que também estarão fora do tempo. O fenômeno temporal desencadeou um processo interior não-determinável. Da mesma forma que a traição acabou com o amor, poderia não tê-lo feito. É possível ser traído e, embora a relação tenha sido irreversivelmente abalada, o amor continua lá, participando da existência dos indivíduos. Ou o contrário: ainda que nenhum fato específico tenha abalado o amor, ele esmorece e muda.


O que concluo é que é possível que um sentimento (amor, raiva, mágoa, afeição), uma vez nascido, dure todos os dias de todos os anos de nossa vida, embora esteja sujeito ao fluxo do complexo emocional. Esse resultado pode ser maravilhoso.


...Ou dramático.

7 de maio de 2012

É possível. Só não é garantido.

Entrei no carro e elogiei o DVD.

_ Ah, você gostou?
_ Sim! Gostei muito!
_ Comprei esse DVD há sete anos. Nunca tinha visto.

Pensei “meu Deus!, sete anos???” e disse:

_ Meu Deus!, sete anos?
_ Porque eu era feirante, sabe? Trabalhava muito, não tinha tempo pra nada. Agora que estou recuperando os DVD’s. Cada noite trago um.
_ ...
_ É que eu acabei de me separar. Daí dói, né? Então fico ouvindo música pra me distrair.

Assim! Desse jeito! Jogou no meu colo indefeso a verdade em plena madrugada. Reagi como me foi possível:

_ Ah, sim... O luto da separação é mesmo muito difícil.
_ É...
_ Sua separação é recente?
_ Sim. Faz um mês.
_ Quanto tempo de casados?
_ Seis anos.
_ Vocês tinham filhos?
_ Sim. Um filho lindo de cinco anos.
_ Poxa... E a separação era mesmo necessária?
_ Então...

Quando a pessoa fala “então...”...

_ Na verdade... minha história seria cômica se não fosse trágica.

Bem, essa é a típica frase que já te prepara para o riso. É como quando dizem que vão te contar uma piada. As bochechas ficam automaticamente mais moles, flexíveis e... Espera!!! Eu ouvi a palavra “história”???

_ É mesmo?
_ É. Minha mulher conheceu um cara pela internet e diz que está apaixonada.
_ Como assim?
_ Assim! E minha família é tão bonita... Olha as fotos.

Estavam à mão. Foto dela, do casal e da criança.

_ Que linda! Como ela se chama?
_ Renata.
_ E você?
_ Ricardo. E você?
_ Camila.
_ Prazer, Camila.
_ Linda a Renata. E lindo seu filho também.
_ Pois é. E ela veio me contar que se apaixonou por um cara. Ele é da Suíça. Ela me contou faz um mês, por isso nos separamos.
_ Mas eles já se viram pessoalmente?
_ Então...

“Então” outra vez...

_ Não! Nunca se viram! E ela não fala alemão nem ele fala português. E nenhum dos dois fala inglês.

A história ia ficando pior a cada “então”.

_ Então como eles conversam?
_ Pelo google tradutor!
_ Cê tá brincando, Ricardo?!
_ Não estou brincando, Camila. Ela me contou que faz sete meses que eles estão conversando. Eu disse: “poxa, Renata... e eu trabalhando...”. Mas não tem jeito. Quer viajar pra ir lá ficar com o cara. Cê acredita? Eu vi o cara pela web cam enquanto eles conversavam um dia. Ele estava bebendo uma coca-cola de três litros direto do gargalo na frente da câmera.
_ Não acredito!
_ Nem eu!
_ Desculpe perguntar, mas quantos anos você tem, Ricardo?
_ 36.
_ E a Renata?
_ 35. Mas está agindo como uma menina de 12, né?
_ ...É... uma atitude... realmente... infantil... Nem sei o que te dizer.
_ Ela está fazendo curso de alemão agora e diz que vai pra Suíça. Já falei que meu filho não vai, não vou autorizar.
_ Tem razão. É até perigoso!
_ Pois é! Esse cara pode ser qualquer coisa! Tentei alertar a Renata!

Nessa hora olhei bem pro Ricardo. Bonito o taxista. Bonito, articulado, dedicado, trabalhador. Um homem virtuoso. Ele não merecia.

_ Sabe, Camila, eu não merecia.
_ Sei.
_ Depois de tudo a pessoa faz uma auto-análise, né?, pára pra refletir.

Uhum. No meu caso, esse tipo de reflexão pode durar meses, anos, encarnações...

_ E eu acordava de manhã, fazia o café e levava pra ela na cama. À noite eu ligava e perguntava “bem, quê cê quer comer?”, passava no mercado e levava qualquer coisa que ela me pedisse. A gente tinha tudo. Até o sexo era ótimo.

Não duvidei.

_ ...Não faltava nada...
_ Bem, ela vai se dar mal. Está na cara. Não tem como isso dar certo. Ela vai se dar conta do que fez e vai conversar com você sobre isso um dia. Você não voltaria pra ela?
_ Ah... acho que não. Sabe porquê, Camila? Emagreci 10 quilos em 25 dias. Eu preciso respeitar a liberdade dela, aceitar o que aconteceu. Mas estou profundamente desapontado. Não dá mais.
_ Entendo...

6 de maio de 2012

Virado Cultural

_ Cê vai entrar?
_ Não.
_ Tem ingresso?
_ Não.
_ Quer comprar?
_ Não.
_ Quer namorar comigo?
_ Não.

Vendendo ingresso que era pra ser gratuito, não, né? Vai ser tonto sozinho.

2 de maio de 2012

Lino Xongas

A postagem de hoje não é minha, mas do querido querido amigo Barco, que distante não está perdido, solitário não está sozinho.

O toque das almas (clique)

30 de abril de 2012

Termo

O diabo é que não se escolhe data ou maneira.
Sensação intrusa de terra beber os mares de nós vestidos,
devolvendo à alma sua natureza de ser alma.
Até estar livre do cálcio, ninguém me engana.
É lá que se entretém a liberdade.

26 de abril de 2012

Dos gêneros (despretensiosamente)

_ Pois é. E levando-se em consideração o histórico, ainda por cima...
...Acho que vou simplesmente ignorá-lo. E é obvio que ele continuará estrebuchando...
...E eu continuarei ignorando. Sabe... eu tento fazer acordos. Mas não tem jeito, né? Algumas pessoas não têm jeito. Os homens são muito malandros. Tenho aprendido isso da pior maneira.

_ =/

_ É... Pois é... Triste, né?

_ As mulheres também fazem isso...

_ Não... as mulheres têm outros apelos. São mais honestas consigo mesmas, eu acho. Homens inventam desculpas para si mesmos.

_ Olha... Num sei não... Preciso pensar mais nisso.

_ Sabe aquela coisa que ouvimos? "As mulheres têm seis vezes mais religiosidade em potencial do que o homem." É claro que é uma contemplação mediana. Mas é isso. A capacidade religatória (do humano com o divino) vem desse contato consigo mesma, eu acho. Mulheres sabem mentir para outras pessoas, mas acham mais difícil mentir para si mesmas. Elas sabem o que estão fazendo. Os homens enfiam os pés pelas mãos. As mulheres calculam, seduzem, são sutis e freqüentemente mais hábeis em chegar aonde desejam. Mulheres agem em rede, perguntam caso estejam perdidas no caminho. Homens são hierárquicos, recusam ajuda. É o que eu acho...

_ =D Elas são lindas mesmo, né? Nossa...

_ "Elas" quem? As mulheres em geral? rs

_ AS MULHERES EM GERAL.

_ Rs... Ah... não sei... Eu gosto muito de ser mulher. É o meu gênero preferido, eu acho. Mas a força masculina tem efeitos hipnóticos sobre mim. Preciso muito deles. Meu universo sem o masculino fica fofo e afunda quando eu piso. Não é seguro, é emocional em demasia. Preciso conviver com homens, com a teimosia, com a dureza, a obstinação. É uma necessidade orgânica, sabe? Engraçado isso...

_ É muito interessante como isso se processa, né? Como é físico, como é químico e metafísico... rs

23 de abril de 2012

Inveja mútuanônima

Ah... fui chegando lá na praça lá de cima onde fica a banca das fruta, que sempre fica coisa pra jogar fora deles, né?, e eu pego no cesto. Tava noite e tava frio. Eu tava bem segurando esse aqui, né?, sempre, que tem minhas coisa. É poucas coisa, mas é minhas coisinha que eu levo... Daí parei na esquina, embaixo daqueles relógio que mostra temperatura. Mexi ali no cestinho que tinha ali no... na... na frente dos banquinho ali, né?, verdinho. Mexi tudo, tal, num tinha nada não. Só tinha uns menino mais pra lá assim, né?, que eles fica conversando às veiz que eu passo vejo gente lá, ali falando, que a banquinha faz suco... faz... essas coisa, tem água de côco, tem... essas coisa, fruta. Eles faz lá. Eu olhei lá os menino, mas não falei nada não, né?, que não conheço. Só vi assim, mais assim sozinha pro lado, uma moça sentada sozinha. Sozinha a menina, de noite. Mas não parecia assim que nem eu, não. Era mais... tava mais, assim, como eu posso dizer... tava ajeitada, né?, com roupa passada, dava pra ver que ela não... Devia ter casa, né? Acho que ela tinha casa e só parou pra... não sei pra quê. Acho que pra pensar um pouco, que a pessoa tem vontade, às veiz, de pensar, né? Acho que foi isso. Mas olhei a menina e assim no frio ela tremendo mas não tava de blusa, não. E sozinha. E assim... com o olhar perdido, sabe? Olhando pro chão... a cara dela não tava nem triste! Não tava nada! Tava só olhando pro chão, pro lado, assim, pra lá. Mas não tinha jeito de... de nada! De nada, não. Só olhando só. De repente olhou pra mim! Eu pensei “nossa! quê será que ela quer, né?” porque ela ficou me olhando assim... como se quisesse alguma coisa, sabe? Mas eu não tinha nada também. Dizer que a pessoa quer celular, carteira, essas coisa eu não tenho. Não tinha nada, só o saquinho, mesmo, que é um saco preto e não tinha nada. Tinha... um cobertor, por causa que... o frio... mas só também. Nem lembro se tinha mais coisa. E a menina olhou... e eu olhei... e ela não fez nada. Nem eu. Ela olhou eu também olhei, né? Fiquei olhando. Parecia que ela queria trocar de lugar comigo e eu pensei “eu trocava, se pudesse”. Claro, né?, que a pessoa... Porque alguma coisa, algum lugar ela devia ter, porque tava com a roupa passada! A pessoa que passa a roupa já... como se diz? Tem, né? Alguma coisa... A pessoa ter ferro de passar roupa e passar a roupa... então... tem roupa, tem ferro e pode passar na casa mesmo, né? Então por isso que eu pensei que ela tinha casa. E eu não. Então até trocava de lugar com ela. Senti uma inveja, assim, sabe? Não coisa ruim que as pessoa deseja tanto não... Era uma coisa assim no coração... que eu queria ter alguma coisa também. Não que não tenha, né? Eu tenho aqui no meu saco as coisinha. Mas... um lugar assim eu não tenho, né? E se a menina tinha então já tava na vantage, pensei. E eu não sei porque, mas senti que ela pensou a mesma coisa de mim. Que eu tava na vantage. E eu não sei porque, mas senti isso assim no peito. Só que foi muito rápido. Não parei pra olhar a menina não, que as pessoa não gosta, né?, que fique olhando muito assim, não. Não faz bem ficar assim parado olhando a pessoa. Daí eu segurei minhas coisa e fui embora andando pra lá que essa rua desce aqui, né?, daí vira... e eu fui pra lá. Mas eu fiquei pensando depois que pode ter sido. Que eu não tenho nada, né, e a menina tem. Mas às veiz a pessoa não quer o que tem. Quer uma coisa que não tem ou não quer nada. Pode ser que ela queria ser eu pra não ter nada... ou pra ter outras coisa... Quer dizer... não sei, né? Tô aqui pensando... Mas... bom... isso porque ela não viu que eu tinha dentro do saco. Acho que se visse não ia mais querer ser eu não e ia pra casa colocar uma blusa a menina. Não sei... É essas coisa que a gente fica pensando, né?, que acontece assim... Não sei.

20 de abril de 2012

Espelho

Tanta vez
Aconteceu de nós
Eu antes de responder
Te ouvir dizer
Saber meu pensamento
Na tua voz

18 de abril de 2012

Inauguração

Nada como ganhar de presente um ato de imaginação lúdico-amorosa-exclusiva.
Entre encontros e desencontros os mortos parecem sempre reviver. O banner novo é uma celebração à amizade que, uma vez edificada, vigora no tempo à caça de nossas disposições.

A arte é do Vitor Massao, a quem dirijo meus sinceros agradecimentos pelos sms’s, plantão 24 horas, nobreza, atenção em plena festa de aniversário, presentes, Manoel de Barros e despertador (faltou os pompons).
Ah, sim! E, claro, pelo banner lindo que agora divide espaço entre nossos modestos escritos.

16 de abril de 2012

Sob meus olhos incrédulos

Naquela madrugada de sábado santo chegamos à mesa do bar os dois cavalheiros, a menina e o cachorro lindo. Mas algo profundo se quebrou no intervalo entre nos sentarmos e nos levantarmos. O laço incorrompível se enroscou nas circunstâncias do debate que eu assistia. Meu nome lançado de um lado para o outro e eu sem poder sacá-lo da roda. Perdeu-se algo valioso entre dois de nós quatro. Não pude fazer mais que testemunhar.

Amizade devia ser casamento.

A propósito das rupturas

Eu sei me separar, mas não sei romper. São coisas completamente diferentes.
Não me lembro de quando usei “nunca mais” sem me arrepender.
Não dura, não pega e eu volto atrás – ainda bem.
É mais elegante simplesmente se afastar. O que vai acontecer depois ninguém sabe nem precisa saber. Porque a vida é o que se faz dela. Pode ser que as pessoas não se encontrem mais. Pode ser que sim. Pode ser que não sintam falta uma da outra. Pode ser que sim. Pode ser que uma delas tenha vontade de procurar a outra. Mas se o “nunca mais” foi posto no meio, tudo fica bem mais difícil, porque daí a reaproximação implica em que alguém quebre o pacto de “nunca mais” alguma-coisa-que-não-tem-a-menor-importância-um-tempo-depois.
Inclusive, muitas rupturas poderiam ser evitadas se o pedido prévio de afastamento fosse respeitado.

_ Olha, por favor, não quero falar com você agora, tá bom? Outra hora, outro dia, outro mês, sei lá. Agora não.
_ Como assim??? Agora não??? Então vamos romper!!!

Não precisava.
Ter que pedir reiteradamente por um afastamento leva a rupturas drásticas e desnecessárias, assim como as mazelas que vão sofrendo um processo de bioacumulação no interior do ser até serem regurgitadas sem processamento direto na cara do colega desavisado, tudinho de uma vez no fim do ano. Não há argumento ou defesa para o que se fez há anos atrás e já se esqueceu. Resultado? Ruptura.
As pessoas têm uma crença na ruptura. Elas acreditam nisso como se fosse solução de impasse ou redenção. Não é. Ao contrário, as rupturas aprofundam angústias. Dia desses conversei com um amigo que citou com pesar um rompimento de amizade. Perguntei sobre o contexto e me pareceu infantil. Ele explicou:

_ Ah... sim... Foi na quinta série.
_ Quantos anos você tem agora?
_ Trinta.
_ E o sujeito não fala com você?
_ Não. Mora no mesmo bairro, nos vemos sempre. Mas ele nem olha mais pra mim.
_ O que você acha disso?
_ Acho que eu errei, mas ele podia ter sido generoso comigo. Eu não percebi. E gosto muito dele até hoje.

Para romper é preciso gostar muito. Ruptura é coisa de quem gosta muito e não vê outra saída para o sofrimento. No desespero, castiga o outro. Mas castiga a si mesmo junto.
As pessoas podiam mesmo ser mais generosas, menos competitivas e apostar menos nos rancores das rupturas.
Eu, particularmente, não acredito em rupturas.
...Mas que elas existem, existem.

12 de abril de 2012

Um homem de muitas palavras

Recuperadas a partir de arquivos gravados em 27 de fevereiro de 2010, as imagens apresentadas a seguir são fruto de uma conversa, entre tantas que tivemos ao longo dos últimos privilegiados anos.

Notável comunicador, Magno Nunes é também um profícuo pensador por baixo de sua máscara. Sensível improvável, ele se distingue entre os bons. “Meu personagem é um homem mau. Eu sou mau que nem o pica-pau.” Ao falar de como as pessoas escolhem suas máscaras sociais desde muito cedo acaba, sem querer, delatando-se. Seu espírito afina-se com o crème de la crème da literatura brasileira. Feminina, ainda por cima. Clarice Lispector também tem sua teoria sobre as máscaras sociais e esse, inclusive, é tema que a interessa na edificação exploratória de suas múltiplas personas representadas.

Na busca de uma imagem impositiva (dominante, no vocabulário nietzschiano) Magno parece ter tido sucesso. Eleito o mais macho entre os machos do 3B (sala de graduação), ele explica: “Não tenho mestre. Que mestre o caramba. Eu não me inspiro em ninguém.” Mas há quem se inspire nele. Eu, por exemplo. Aprendi a guiar um cachorro teimoso com ele. Delicada e mulherzinha, levei bronca: “Assim, Camila. Puxa a coleira e obriga ele a parar. Faz ele sentar. Fala firme. Se você deixar ele te leva!” Aprendi. E aprendi outras coisas também.

“O amor? Ah... o amor existe. Tá por aí, mas existe.” Nada mais platônico do que pensar Eros, o mensageiro entre mortais e imortais, redundando no que existe, por aí, por lá, em todos os lugares. Nele, inclusive. Aprendi o amor com ele, amável inconfesso, Docinho, Ursinho entre as amigas, gentil por excelência, galante, muito galante, muito muito galante (mulheres, cuidado!). Mas ele insiste: “Sou mau à minha maneira.” Sim, pode ser que sim. Ríspido, indiscreto, agressivo eventualmente. E extremamente leal aos amigos.

Sagaz, Magno atropela com seu senso de humor por vezes exasperante, tanto quanto a politicagem, refletida às últimas consequências: “Não existe política. Não temos partidos de direita e de esquerda. É tudo a mesma coisa. Assim é fácil. Eu também quero entrar na política.” Mas não é político o homem que cita com admiração: Wander Wildner. O cantor punk brega é ícone da música nacional no estilo que ele mesmo criou, reconhecido internacionalmente. “Taí, 20 anos de carreira, vivendo do jeito que ele gosta, só fazendo o que ele quer, tocando no Bar B a dez reais. Do nada acabar a banda e criar um estilo não é pra qualquer um, não. Tem que ter personalidade.”

Personalidade. Sua aposta é no alternativo, na contramão, no descaminho. Não bebe, não fuma, não usa drogas. Hábitos límpidos que denotam conservadorismo. Mas é subversivo no que se refere às atividades que assume. Aboliu cartão de ponto da vida profissional. Após algumas experiências frustrantes em empresas de comunicação subdesenvolvidas, Magno olha apenas para o que acolhe sua criatividade. Mexer com o imaginário das pessoas é, no fundo, o desejo para si próprio de expansão e liberdade. À época da gravação ele ainda não estava nas rádios. Hoje está. Seu talento justifica a recusa dos ambientes estreitos. Consultar seus arquivos é um prazer.



10 de abril de 2012

Ressaca da procissão

Vamos supor que você vá dormir às seis. E acorde às nove com o interfone.

_ Alô?
_ Oi! Eu vim buscar Nossa Senhora.
_ Acho que você tocou no apartamento errado.

E desliga.
O interfone toca de novo.

_ Alô?
_ Oi! Eu vim buscar Nossa Senhora!
_ Você tocou no apartamento errado. Ela não está aqui.

E desliga.
O interfone toca novamente.

_ Alô?
_ Eu vim buscar Nossa Senhora!
_ Ela não está aqui!

E desliga.
O interfone toca mais uma vez:

_ ALÔ?!?!
_ Oi! É o pedreiro!
_ Ah... Entra...

E a voz ao fundo de alguma senhora:

_ Nossa, que ignorante...

8 de abril de 2012

A vingança dos sucrilhos

Sei sobre duplas sertanejas. Algumas. Particularmente aquela que canta na pizzaria perto de casa aos finais de semana. Não é boa.
E de crianças. Fiquei muito tempo no parque vendo dois meninos pequenos gritarem pras bolinhas de sabão que o pai fazia.
E sobre grama, árvores, irmã e as coisas sem nome.
E sobre os gritos. Eu desisti dos gritos ainda pequena, no final de um recreio como todos os outros. Não gritei mais, não pulei, não saí correndo. Eu sei gritar, mas não quero.
Coisas intoleráveis. Sei algo também sobre o intolerável. A intolerância, por exemplo, não é tolerável. E mais um monte de coisas. Mesmo as boas. Quando é bom em demasia também não pode ser tolerável. Nossa ranhura não suporta o muito belo. Nascemos com a fenda. A fragilidade é o pecado original, não o coito entre os padres nossos. Há uma rachadura no espírito das gentes que sucumbe na pressão das coisas belas. Eu sei também sobre coisas belas. Mas sei mais das coisas belas o feio delas. Reconheço o que é bonito porque aprendi antes a reconhecer o que é feio.
Aprender. Sei sobre aprender. Aprender é perceber algo que faz mudar a conduta. Não é orgulho não mudar de conduta. É sinal de teimosia. Sei sobre isso também. E sobre o que rompe a resistência. A água polindo a pedra de milênios. Sei sobre ter aulas, sei sobre poesia.
De sucrilhos, não sei nada.

6 de abril de 2012

Quem há de se reconhecer?

"[...] Exemplos da expressão "constrangida" são designados como ofensa, ciúme e inveja. Em cada caso, um traço marcante da conduta é o auto-engano destinado a ocultar as fontes genuínas da ação. Por exemplo, o indivíduo 'tem uma opinião muito elevada de si mesmo para tolerar a idéia de ter agido erradamente, e assim apela à ofensa para desviar a atenção de seu próprio deslize, o que consegue identificando-se com a parte prejudicada... Obtendo-se satisfação em ser a parte prejudicada, deve-se inventar erros para alimentar a autocondescendência'. A natureza autônoma da ação é, portanto, suprimida – é a outra parte, acusada da má conduta original, do delito que deu origem a tudo, apresentada como o verdadeiro ator do drama. O eu permanece, assim, totalmente do lado receptor. Sofre as ações dos outros em vez de ser um ator por direito próprio.

Uma vez abraçada, tal visão parece propelir-se e reforçar-se por si mesma. Para manter a credibilidade, o ultraje imputado à outra parte deve ser mais assustador e acima de tudo menos curável ou redimível, e os consequentes sofrimentos das vítimas devem ser declarados ainda mais abomináveis e dolorosos, de modo que a vítima autodeclarada possa prosseguir justificando medidas mais abomináveis e duras 'em justa resposta' à ofensa cometida ou 'em defesa' contra ofensas ainda por cometer. As ações "constrangidas" precisam negar constantemente sua autonomia. É por essa razão que elas constituem o obstáculo mais radical à admissão da soberania do eu e a que este atue de maneira consoante com tal admissão.

A superação das restrições auto-impostas mediante o desmascaramento e a desvalidação do auto-engano sobre o qual elas se baseiam emerge assim como condição preliminar e indispensável para dar asas à expressão soberana da vida – uma expressão que se manifesta, em primeiro lugar e acima de tudo, na confiança, na misericórdia e na compaixão."

Amor Líquido, de Zygmunt Bauman

29 de março de 2012

O mestre não fala português

Só uma apuração, uma informaçãozinha básica sobre o templo budista:

_ Alô?
_ Bom dia. Com quem eu falo?
_ Gashrelkj
_ Como?
_ Gashrelkj
_ Ah... bem... Meu nome é Camila e eu gostaria de saber se o templo tem acesso para deficientes.
_ Agolanoum.
_ Como?
_ Noagolanoum...
_ Tem alguém com quem eu possa falar?
_ DjiscuLpa.
_ Tem algum outro telefone?
_ DjiscuLpa.
_ Eu só queria saber se o templo tem acesso para deficientes.
_ AgolanaumdjiscuLpa.
_ Como?
_ AgolanoumdjiscuLpa.

Silêncio entre nós.
Música japonesa budista ao fundo.

_ Há alguém mais com quem eu poderia falar?
_ AgolanoumdjiscuLpa.
_ Tudo bem, então. Obrigada.

15 de março de 2012

É de pequeno...

Não pensava ansiedade de mundo, menina, angústia de existência nem elaborações adulteradas. Se era contaminação ou segredo de toda gente vazava.

_ É que mãe eu tava pulando corda aqui na sala e bati na TV e quebrei acho ó porque a tampa caiu assim e...

O mergulho fundo na fé até a sensação de fraqueza, entrega. A água que pode cobrir a vida de seu peso quando permitida apenas a audição longínqua, desregrada, distorcida, para emergir e voltar a se deparar com o fato duro.

Era por isso que as pessoas comiam areia, ela descobriu. Comer areia é um jeito de sair, porque ignorar alertas é um tanto libertador. Colocavam na boca um pouco dos grãos finos e mastigavam o gosto desafiador em caretas. A menina olhava de longe, sentada debaixo do grande busto de homem duro. Assistia o tanque de areia, via no chão os cacos que formavam um mosaico colorido no cimento cinza e sentia a aspereza do pequeno degrau pelos olhos. A aspereza fixa familiar no seu íntimo, pedra e rumo contorcendo, fundindo. Na sua vontade insipiente de criança desejava abraçar, acalmar, embalar a aspereza no vazio, na saudade, na solidão sem nome. E começava primeiro bem devagar a balançar as pernas. Depois mais rápido um pouco, depois mais rápido ainda. Sentia o rigor rasgar a parte de trás dos seus joelhos e a barriga das perninhas delicadas de criança, embalava o mundo consigo ao lidar com a dureza viciante como contemplar o vazio, o pequeno ponto enegrecido na parede branca, o lado mais escuro de uma nuvem clara, a estória que a mamãe contava. E porque as sabia de cor, não eram as estórias que interessavam, mas ganhar o tempo com a mãe, observar seus dentes brancos aparecerem e desaparecerem no vão dos lábios. A beleza estava ali entre os dentes da mãe, na lajota, na aspereza. Mais rápido e mais rápido e as perninhas começavam a sangrar. A menina gostava porque podia compreender aquela dor. Era dor que estava vendo, sabia de onde vinha, como parar e o poder a instigava.

Olhou o tanque de areia à procura da uma criança que estivesse tentando a refeição proibida. Queria tocar que tinha feito melhor escolha. Se encaminhou com passos lentos e seu punhado de culpa até a pia do pátio para lavar o sangue daquele pequeno acidente. O inevitável incidente de estar viva e não poder aliviar tantas dores mais.


12 de março de 2012

21 de fevereiro de 2012

SMS entre irmãs:

_ A piada da noite. Falei pra mamãe que ia desfilar no próximo Carnaval pela escola Beira Rio. Aí ela perguntou se eu ia fundar essa escola com o F.

_ Hahahahaha! CURTI!

_ Haha... É Grande Rio, né? A outra piada foi que a mamãe tirou uma almofada [do sofá] hoje pra lavar e o papai achou que roubaram quando ele tava com a porta aberta. Aí agora ela colocou de volta e eu liguei e falei pra ele que devolveram aqui na porta. E ele acreditou! Kkkkk! E a mamãe: “ainda bem que eu não tirei as três de uma vez, se não ele teria ido dar parte no 77° DP."

_ Meu G-zus! Mas o que é isso? Bobeira de Carnaval? Rs...

_ Ai aaaai... Delírios do seu pai aí ó!

10 de fevereiro de 2012

Deles

2 de fevereiro de 2012

Auto-escrito

Pai e mãe, irmã, sogro, sogra, cunhada, amigo e chaveiro a caminho, todos prontos a derrubar a porta e descobri-lo dentro ou fora, vivo ou morto.

Na última campainha ele abre, os olhos de sono, e assusta do susto na cara da amiga e da namorada.

_ Oi. Hum? Que foi?

26 de janeiro de 2012

Ao confessor

É pavor que sinto no teu soluço de criança, teu hálito com frequência interrompido e me vejo nos teus olhos claros esverdeados, súbitos espelhos onde me encontro, em repulsa me acho. Nada vale o teu sofrimento; assistir teu lábio balbuciante me faz te querer mais. É certeiro o sal de toda a tua lástima engrossar meu sangue, desesperar.

Atenta, antes de ser frágil, que meu colo se alarga à mira de tuas singelas necessidades. Esparrama teu mundo ao meu lado estendido, conta-me tudo, palavra por palavra, temos o tempo e a chuva lá fora, há verão e outono ininterruptos, de toda a maneira vamos envelhecer. É cuidado que te tenho até nos dias de deslizes torpes, dos pecados há de flagrar antigos hábitos meus rabiscos, os ensaios das melhoras que anseio tomada de júbilo a cada pequeno sinal. Não contes ainda meus acertos nem te orgulhes dos meus feitos bons superada a natureza cruel de subordinações inveteradas, apalpa o escuro até no lado claro, questiona, interroga, descubramos juntos o que também não sei de mim, o que não sabes de ti, o que não está terminado em nós.

Não me imagines anjo ou te faças infalível porque tua queda me apaixona e eu não sei amar heróis. Não escondas teus olhos subitamente tão claros. É no movimento deles que me guio a te querer acompanhar tal doçura dessa dor de crescimento.

17 de janeiro de 2012

Estilhaço

Foi com íntima verdade que ali deitei a vontade de eternizar o fim da madrugada. Eu sabia que estava dando um passo irreversível e satanizado, digno de não ser digno, talvez, algo que não fosse abençoado.
Eu insisti, sei. O argumento do perigo fez cócegas no meu desaviso dos abismos. Era o desvio que eu ansiava. Saltei daquele ponto maldito para um naufrágio que haveria de ser bom.
Havia de ser bom.
A minha aposta era nisso.
Havia de ser bom.
Ainda assim, foi incrédula que constatei que era bom.
Ora rejeitada, ora eu mesma por mim rejeitada e o papel a que me prestava, que de desvarios estava farta e só queria a sandice cafona de dias que não prenunciassem seu fim, mas fossem indefinidamente continuados.
Foi como violar um ambiente sacro, supostamente fraterno, que não está a salvo da mazela, do desperdício. E com patas sagitarianas pisei o terreno dos alarmes inaudíveis, das monstruosidades. O caminho da impaciência.
Eu fiz o caminho da impaciência como fosse Santiago. Entendo que o precipício é mais humano que a virtude e assenti ao ouvir que ele se havia deixado levar e fui eu a pecadora que com audácia resvalou pela fraqueza da vítima indefesa e se alojou naquele peito como a bala que se perde não antes, mas depois de ferir.
Eu me perdi.
Eu trapaceei no jogo inútil, rasguei os acordos tácitos como papéis sem serventia. Não tinham, afinal, uso para a nova situação que se instalava: a liberdade.
Tão perigosa.
Ácida, corrosiva a liberdade.
Sem volta.
Quando atinei para o que aquilo significava, veio junto a solidão e a loucura de muito tempo cultivada em nome daquilo mesmo que desagregava e fazia fome. Acreditei, sim. Fosse feia a derrota por dentro vista e abandonávamos logo. Mas não. De fora é que notam a miséria ali se revelando e debatendo como um auto-algoz. Nos oferecemos em sacrifício e achamos bonito isso. Era dessa feita que me vi primeiro ao solo, depois mais e mais soterrada do entulho do mundo, lembrança podre tecendo larvas àquele cadáver exposto que eu ensaiava ser.
Seria simples. “Levanta-te e anda” quando não houver mais espaço expansível. Haverá mais em outros sítios. Sempre há mais para a pequenez humana. E eu quieta, aprendendo a arte da obediência e da insensatez para não esquecer, fui cedendo mais e mais aos vermes, à corrosão do vacilo. Mas livrei-me quase a tempo, algo antes de ver em mim morrer de vez o que já dava sinais de envergadura e velhice precoce. Foi da vez, a última, em que acreditei no tal Deus que sabe dançar, para vê-lo sapatear meus neurônios de gente.
Frágil-frágil a dança dos interesses contidos, matrimônio e desunião num continuado de folhas cadentes e erupção. A terra também geme e por um instante me alivia pensar como a me dar consentimento. Eu hei de sofrer também e testemunhar o grito do parto, do caos, da ferida, do bote, do mal. Eu também posso gemer nessa fuga dos bichos estranhos da noite, mosca, sorte.
Necessito, no entanto, reaprender a conta-los. Preciso com urgência, modorra, náuseas, reaprender a falar. A atrofia da ligação entre palato e coração, verborrágico silêncio, espera o ritmo se instalar para gozar de novo a ingenuidade, ou pelo menos a serenidade diante da desilusão. Não há salvação, mas pode haver gozo no trajeto até a perdição infinita, eterna, onde seremos sal, evaporada a lágrima, e pó. Ex-desejo e imundice contaminando o chão das deidades fúnebres.
Animais não têm númenes. Foi lenda aquela de mãe que dada água na concha a criança desandava a falar. Pensou ela que deu certo porque apresentei indícios de repetição, ao que agora encontrei minha verdadeira vocação: o gênio de calar.
Mas eu preciso, como enferma da cura, descobrir de um outro pronome o encantamento.

Eu preciso aprender, sobretudo aprender, a dizer em voz alta:

Nós.

E seguir conjugando os verbos que lhe são destinados.

27 de dezembro de 2011

Res-post

"Para meu príncipe, a mensagem de amor de um principezinho"

25 de dezembro de 2011

Relato de Natal, 46 anos

“No shopping tem aquelas cadeiras, para quem precisa, sabe? Cadeiras de dirigir, para quem machuca o pé ou não pode ficar andando. Você sabe como? Então! Daquelas. Eu estava esperando o elevador e chegou uma mulher com uma dessas cadeiras e o marido, ou namorado, não sei, junto. O elevador chegou e ela entrou primeiro com a cadeira, de frente, e foi pro fundo. Daí eu também entrei e virei pra porta. De repente, chegou o Papai Noel com a fadinha dele. Ele perguntou:

_ Desce?

A mulher, na cadeira, viu pelo espelho, virou com tudo e gritou:

_ Nossa!!! Eu vou descer de elevador com o Papai Noel!!!

Todo mundo olhou pra cara dela e riu. Ela disse:

_ Ai... acho que falei alto demais, né?

E ficou roxa.
Claro que, quando eu vi o Papai Noel, pensei exatamente a mesma coisa, mas eu não gritei, né? Eu só pensei. Mas achei engraçado, porque eu senti o mesmo que ela. Eu pensei: “Nossa! Tô do lado do Papai Noel!” Foi mesmo muito emocionante, só que eu não disse nada. É engraçado essa emoção que provoca nas pessoas. Nós duas já somos adultas e a gente ainda se encanta com o Papai Noel.”


21 de dezembro de 2011

Querido diário...

...Esta manhã tivemos um tufão.

À tarde, lavamos roupa.

15 de dezembro de 2011

Anteriores

Eu não me lembro de mais nada da menina. Apenas de seus cotovelos que mexiam. Não me lembro da voz, do cabelo, do rosto. Tenho a cor da sua pele somente porque os cotovelos estavam descobertos pela camiseta rosa. Todo o resto me escapa.

Quisera eu retê-la como fiz com o gosto do leite. Eu reconhecia quando minha mãe me enganava com leite em pó. Não era a mesma coisa, mesmo com chocolate. Eu não gostava, mas deixava passar. Reclamar é algo que sempre me deu muita preguiça. E havia outras coisas: o lilás da lancheira, o cinza do copinho, o céu que variava de tom, o chão de ladrilho – pedacinhos vermelhos de caminho –, banheiro, tanque de areia, baldinho. Ademais, como descrever um gosto?

Não queria que me fugisse, mas não sei dizer para além dos cotovelos da menina, quem eu olhava. Ela, debaixo da mesa, organizava peças gigantes de plástico colorido, como um grande quebra-cabeça.

Introspectiva e secretamente eu via que ela, de costas para a sala, não montava coisa alguma. Apenas dizia em ordem de cores e tamanhos o que era mais importante e, portanto, vinha primeiro na pilha. Eu não entendia, nem me importava averiguar. Deitava as garras em meus olhos aqueles cotovelos dançantes. A menina os movia com a segurança de ser dona deles.

Observar o movimento preciso, o baile de seus dois cantos, despertava-me a vontade, primeira vez em mim, de trabalhar. Eu tinha o impulso de pegar alguma coisa que precisasse de mim e fazer algo com aquilo, algo que precisava ser feito, nem que fosse de uma necessidade imaginária, satisfazê-la porque se tinha tornado a minha vontade inclusive.

Pasmada, desejei arrancar a menina daquele espaço onde ela se fechara, santa e resoluta, debaixo da mesa do refeitório. Quis só para mim a carência de ordem das peças, tocá-las, amassá-las, fazer nada para que vissem meus cotovelos queixosos de execução da tarefa que me deleitaria também.

Não sei quanto tempo passei pensando, sozinha, concentrada naquela concentração de menina. Mas a gente sente quando nos olham e virei pro lado. Minha mãe sorria para mim da porta. Não precisou estender os braços. Levantei-me e fui andando na direção dela. Minha mãe disse que tinha estado ali me olhando “um tempão”.

Não sei o que é ou quanto “um tempão”, assim como não sei contar o gosto do leite. Se há de servir a alguém, sei tampouco. Restou em meu relato a imagem dos cotovelos. Para mim, vale a pena sabê-los.

8 de dezembro de 2011

Infanto-lógica

Depois de muito tempo chamando a tia Carine de Cacá e o tio Celso de Cecé, a menina descobriu que a tia, na verdade, não se chamava Cacá.


_ Você se chama Carine, tia?
_ É!
_ Nossa...
_ Cê não sabia?
_ Não...
_ Cê pensou que fosse só Cacá?
_ É...
_ Ah... É Carine! E o nome do tio, Cecé? Você sabe como é na verdade?
_ Sei!
_ Sabe?
_ Sei!
_ Como é?
_ Cerine!


A lógica foi perfeita, não se pode negar.